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sábado, 13 de agosto de 2016

O jardim que encanta


No universo do mundo dos objetivos, existem pessoas e pessoas. Algumas singulares por natureza, como Manoel, o qual faz parte deste diferencial. Apaixonado pela sua profissão de jardineiro, pelas plantas e tudo que delas se associam. Manoel também era curioso, estudioso e fascinado por lendas de enlevo que fazem o homem enxergar exemplos de virtudes, onde antes talvez fosse impossível. Seu sonho era um dia ter sua própria história; viver um sonho inimaginável para que as pessoas desprovidas das bênçãos de Deus pudessem refletir sobre si mesmas. Por ventura ou aventura em outros horizontes, em outros lugares, quem sabe, fosse lembrado como alguém que ajudou a escrever o seu próprio destino. 

Com a simplicidade de quem era sinônimo de determinação. Uma pessoa que vivia cada segundo de sua vida, edificada na sua personalidade brilhante e perseverante, arregaçou as mangas e foi em busca dos seus ideais. Mesmo em se tratando de algo pessoal, não pretendia de modo algum, restringir, nem impor limitações aos seus conceitos visionários de uma mente arrebatadora e o seu apetite voraz pela leitura. Aprendeu a ser leal com os menos afortunados dos seus sonhos, permitindo-o o compartilhamento. Assim, demonstrando simplicidade no seu sorriso infantil, não foi difícil começar a construir o seu legado.

Morava em uma pequena cidade, contudo, não se tratava de um lugar ermo, sem importância. A população, como ele, admirava o perfume de um jardim bem cuidado. Era raro encontrar uma casa que não tivesse uma área florida, com todos os requintes de beleza e encantamento.

Certo dia depois de fazer seu percurso habitual, que o conduzia até a sua morada, ao passar por uma casa a muito por ele observada. Mesmo com características e aparência modestas, havia algo que o considerava fundamental: área disponível para se construir um belo jardim.

Suas moradoras, uma senhora com aproximadamente 50 anos e sua filha que se imaginava próximo dos 30, lutavam com dificuldades pela sobrevivência. Dependiam somente de uma irrisória pensão, deixada pelo marido falecido há alguns anos. E, eventualmente, dos insignificantes resultados dos trabalhos que ambas desenvolviam com bordados. Era inegável a qualidade e o primor das peças, a habilidade e o zelo, de seus maravilhosos desenhos elaborados a partir de uma linha, com o auxílio de uma ou duas agulhas.

Com os poucos recursos financeiros a que tinham direito por questões óbvias, a pensão. Muitas vezes tinham que, se submeterem a duas variáveis: ter dinheiro suficiente para suas necessidades básicas de sobrevivência, e ainda, para comprar os novelos de linhas e o tecido para executar o exercício de suas tarefas, que completariam os seus minguados recursos. Em muitas ocasiões faltavam-lhes tecidos, linhas e o apoio de alguém que se interessasse em ajudá-las ou até mesmo, para comprar suas peças.

Um dia, Manoel depois de ter passado quase toda à noite, lendo um livro que acabara de adquirir, ficou impressionado com sua leitura, que contava a história de um homem, que estava cansado do que fazia. Tratava-se um balseiro que transportava pessoas de uma margem a outra de um rio.

Esta sua atividade já vinha desde a infância, quando substituiu o pai que na época se encontrava velho e doente. Não sabia fazer outra coisa, até que ao transportar um senhor atingido pela fatalidade da falta de visão, se admirou com a simpatia do velho cego; seus modos, maneira de vestir-se e o seu sutil comportamento enigmático. Na história o barqueiro somente no final do percurso que fazia da travessia, é que teve a coragem suficiente de perguntar-lhe o nome.


Descreve o livro: “...Silencioso e de aparência compenetrada, podia-se notar que estava atento a tudo que acontecia à sua volta. O barqueiro curioso com aquela visão incomum, perguntou o seu nome, recebendo de maneira educada a resposta:  “Eu me chamo Felicidade, mas pode me chamar de Sorriso, como as poucas pessoas que me conhecem me chamam”. Ao obter a informação, o barqueiro logo imaginou tratar-se de uma brincadeira nada convencional. Pensou de imediato:  “Isto é pra eu permanecer calado e só responder ao que me perguntam e preocupar-me menos com a vida dos outros...”

A cada informação que recebia do conteúdo do livro, permitia que Manoel avaliasse o comportamento do personagem, sem, contudo, deixar de admirar aquela figura humana, simpática, porém misteriosa. Estas entrelinhas interrogativas, o deixava mais envolvido com sua leitura. Parecia que já havia incorporado o personagem balseiro, vivenciando cada detalhe da história, como se fosse ele próprio o condutor da balsa.

Segue o texto do livro:  Pensou o balseiro:  “Só queria saber o seu nome e depois, declarar minha admiração pela sua coragem de transitar sem temores nas suas condições. Isto é feio? É bisbilhotice? Sem obter respostas, continuou sua atividade sempre se autoquestionando.” Manoel compenetrado vivia um momento de deslumbramento. Alimentava pensamentos paralelos, na mesma intensidade do personagem.

Continua a narrativa do livro: “...Até que outro dia o mesmo senhor pegou a sua balsa de volta. Vendo-o com a mesma elegância, roupa limpinha, bem engomada, sapatos lustrados e a bengala com alça de couro, cresceu ainda mais sua admiração por aquele bem aparentado e curioso velho. Nem por isto se atreveu a fazer qualquer comentário...”.

Nessa noite Manoel não conseguiu ler toda a história, embora ficasse impressionado e ansioso pelo desfecho. Estava cansado, precisava dormir, o dia seguinte seria de muito trabalho e ele necessitaria de disposição, muita disposição!

Mesmo tendo que estar atento ao que fazia, não conseguia desvencilhar seu pensamento da história, que o levava a meditar sobre cada detalhe do que havia lido. – “Por que será que o velho deu aquele nome de forma incompreensiva, sem sentidos, se o balseiro só queria ser simpático?” Assim transcorreu todo o dia sem uma conclusão satisfatória. Entretanto, ao chegar em casa iria sem dúvida, descobrir.

Novamente no retorno pra casa, ao passar pela residência das mulheres bordadeiras, seu pensamento vagou pelo desejo de transformar aquele espaço abandonado, habitado pelo mato, quem sabe até, por animais peçonhentos e perigosos, em um lindo jardim com sua magia particular. Povoado por borboletas, abelhas, pássaros e o olhar admirado das pessoas que por ali passassem.

Quando terminou sua leitura descobriu que realmente o velho se chamava Felicidade. Também era justo que os poucos que o conheciam, como ele mesmo disse, o chamassem de Sorriso. Havia um motivo subentendido em torno do seu nome. Acontece que mesmo não podendo enxergar. Ver a natureza com suas nuances e belezas exuberantes; não poder olhar nos olhos das pessoas como a maioria, ainda assim, trazia no coração um sentido especial: podia enxergar a alma de quem dele se aproximasse. E, naquele momento em que o balseiro havia perguntado o seu nome, pode perceber sua curiosidade em torno do seu comportamento de cego, sem contar com a ajuda de outra pessoa que estivesse ao seu lado orientando-o, mesmo assim, sabia perfeitamente onde pisar e em que direção deveria seguir.    

No entanto, Manoel entendeu que o velho percebendo que o balseiro o tratava com respeito, naturalidade e cumpria com amor sua missão. No retorno, sem que fosse solicitado, o velho cego, respondeu suas indagações pessoais, captadas pela sua aguçada sensibilidade sensitiva. Quando o aconselhou a continuar transportando pessoas, porque, além de transportar vidas, estava conduzindo muitas vezes indivíduos em busca do seu próprio destino.

Para algumas pessoas, estavam reservadas grandes realizações. Entretanto, para outras, em decorrência do livre arbítrio, envolveriam com momentos trágicos. E ele ali nas suas idas e vindas, dava esperança a quem buscava o incompreensivo, fugindo do obscuro limiar da insatisfação, do desconhecido e da falta de perspectivas.

O interessado jardineiro atento a alguns detalhes se surpreendeu mais uma vez. Ao se deparar com algumas informações consideradas de grande importância, sobre a forma de se ver o sentido da vida, definidas pelo velho e enigmático cego. Anotando alguns exemplos relevantes:  “A abelha ferroa não porque é hostil, mas para proteger sua colmeia, dando sua vida pelo o que acredita. Ao picar suas vítimas, não consegue retirar intacto o seu ferrão, com isto, perde parte do seu intestino, resultando na sua morte. Depois não faz isto somente por prazer, vingança ou em benefício próprio. Mas para proteger toda comunidade melífera, da qual faz parte.”

 “Tem consciência do sabor cobiçado do seu favo doce e da dificuldade de produzi-lo. Sua produção exige trabalhar em voos contínuos e distantes em busca do néctar, só encontrado em maior quantidade na época da florada, nos campos, pomares e jardins. Inclusive a produção da geleia real, indispensável para a alimentação da sua soberana, a rainha. Única responsável pela produção dos ovos que darão continuidade e preservação da espécie.”

Continua o velho cego suas explicações, através do livro:  “Semelhante é a roseira. Ela também tem espinhos, não porque seja ofensiva, mas para se defender. Mesmo assim, todos a admiram, pela beleza de suas rosas em várias cores. E, pela sua fantástica capacidade de hipnotizar corações apaixonados nas mais diferentes situações. É plantada em terreno fofo, depois é adicionado o esterco proveniente do excremento de origem animal, para que cresça vistosa e sadia. Nem por isto é mal cheirosa, pelo contrário, as pétalas das suas rosas são lindas e perfumadas.”

Outro exemplo:  “O arco-íris é o efeito de partículas muito pequenas, quase invisíveis de água, sob a forma de spray ou pulverizadas pela chuva ou grandes cascatas de águas que caem. Em contato com os reflexos dos raios do sol, causam todo o esplendor de cores diferentes, sem a pretensão de combinações. Em forma de arco, para muitos, corresponde a uma lenda centenária, em que, cada uma de suas extremidades, existe um fabuloso pote de ouro.”

 “A lagarta com sua aparência considerada por muito repugnante, se arrasta com dificuldade nos locais mais adversos, se protegendo de predadores, ou mesmo, para evitar ser pisoteada por algum indivíduo maior. Passa a maior parte dos seus dias, procurando alimento de galho em galho. Como recompensa, se penaliza por um tempo, dentro de uma crisálida minúscula, fechada e sufocante, antes de se tornar uma belíssima borboleta, capaz de voar livremente nas alturas, mostrando sua simpatia e encanto; pousar em lindas flores perfumadas, pelos campos, jardins ou na arte da tela de uma pintura.”

Assim que terminou a leitura, deixou transparecer um largo sorriso. Quando se viu sorrindo compreendeu o real sentido do nome do ancião cego. Refletiu por algum tempo as mensagens, e decidiu: assim que terminasse o trabalho em andamento, iria construir o jardim na residência das solitárias moradoras, que o consideraria, como sendo, o princípio da sua verdadeira missão, como ser humano que acredita na verdade Divina. E que, cada um, tem o seu próprio desígnio a cumprir.

Falaria com as mulheres, convencê-las-ia e, colocaria em prática sua proposta pessoal. A partir daquele momento, seria ele o balseiro sob a forma de jardineiro. Com um detalhe expressivo a acrescentar: sabia o que queria da sua vida. Tinha prazer pelo o que fazia, além de, se sentir responsável pela alegria no olhar dos amantes do belo. Despertar nas pessoas, transformações grandiosas de preservação à natureza e tudo que dela representa.

Sentindo-se preparado e disponível para o que se propusera, procurou as bordadeiras, expôs seu desejo de transformar aquela área ora abandonada em um belo jardim.  Após descrever o que tinha em mente, encontrou logo de imediato, o apoio entusiasmado das humildes mulheres. Sua atitude iria melhorar sobremaneira o visual da casa, além é claro, trazer um novo clima de bem-estar. Um novo alento, não só para elas próprias, mas para toda a comunidade, que carecia ver aquele desprezível ambiente transformado. Quem sabe até, inspiração para um belo conto de fadas ou o nascimento de uma nova lenda, como era o seu sonho?

Estava evidente que o livro que acabara de ler, havia contribuído com estímulos suficientes para a iniciativa. Por outro lado, Manoel possuía um espírito tão evoluído que sua atitude de criar o jardim dos seus sonhos, estava agora, prestes a se concretizar. Vidas distintas também iriam descobrir um novo mundo de beleza, cor e perfume, através da sua ação. Os pássaros encontrariam outro lugar para cantar e encantar, as borboletas, abelhas e outros insetos o seu paraíso mágico.

Antes de iniciar os preparativos, idealizou a necessidade de constar no projeto, algumas plantas aromáticas indispensáveis, que se encarregariam da defesa natural. Evitariam o ataque de formigas e outros insetos nocivos às plantas. Para esta estratégia não pretendia abrir mão do alecrim, camomila, capuchinho, erva-doce, hortelã, manjericão, sálvia, calêndula e gergelim; plantas ornamentais como: amor-perfeito, petúnias, antúrios, verbenas, bromélias, palmeiras anãs, gerânios, cravos, rosas, jasmins, grama esmeralda, entre outras diversidades.

Desde o primeiro momento, em que iniciou suas pretensões de revitalizar a área e criar o jardim, começou a estabelecer um vínculo de entendimento com as sementes e mudinhas escolhidas com esmero, transmitindo-as status de estrelas. De importância, de serem únicas em beleza por todo o universo. Esclarecia, uma por uma, suas singularidades, personalidades, nobreza e prestigio.

Da mesma forma, transmitia a cada uma a responsabilidade de representar com beleza e simpatia, o que existia de melhor em espécie; de estar ajudando a construir um paraíso envolvente de amor, iluminado pela luz do Criador. Seu tratamento chegava a ser de uma amizade paternal. Quando Manoel plantava uma sementinha, dizia àquela pequena vidinha, ainda em transformação a importância da vida.

 Querida sementinha, você agora não passa de um embriãozinho de esperança. Logo estará crescida, transformada e bonita. Mas jamais perca sua simplicidade. Consciente que sozinha não passaria de um grãozinho quase sem importância. Igual a muitos raminhos esquecidos em algum lugar distante do olhar das pessoas e dos animais. Será razoável, nunca se esquecer deste detalhe; orgulhar-se de ter sido a escolhida para dar alegria. Não para se envaidecer, achando-se melhor que as demais.

Para as mudinhas dizia:  Oi mudinha, hoje você não passa de um pedacinho de vida, mas logo será grande e exemplo de beleza e admiração. Seu jeitinho nobre encantará a todos. Seja responsável na sua missão de embelezar e perfumar o ar que todos nós tanto precisamos. Seja querida não apenas pelas suas cores e o formato de suas flores e pétalas, mas por transmitir nos seus dias de existência, felicidade e agradecimento pelas suas características exclusivas.

Com os pássaros não era diferente. Sempre que apareciam, Manoel fazia questão de conversar com cada um, mesmo sem receber um aparente retorno. Agradecia a visita, pedindo-os que não se afastassem e, continuasse dando alegria com os seus cantos sublimes. E se possível, convidar outros como eles, a estarem presentes, dando às pessoas motivações de altivas mensagens, através de o seu trinar cativante e melodioso, agradável aos nossos ouvidos.

Quando a primeira borboleta apareceu exibindo suas cores vibrantes, recebeu logo o seu batismo com o nome de princesinha. Sentiu de imediato, que aquela frágil criatura ficara contente com o nome. Acompanhava-o em todos os lugares do jardim. Algumas vezes, pousava no seu ombro amigo ou num outro lugar, bem próximo. Fazia questão de movimentar suas asas, abrindo-as e fechando-as para que ele pudesse contemplar sua beleza única. Em cada uma de suas pétalas da membrana alada, ficava visível um símbolo, decifrável apenas pelo olhar do Pai do Céu.

Manoel, envolvido por uma felicidade inigualável, acompanhava maravilhado aquele momento indescritível. Transformar um lugar antes esquecido e abandonado, no paraíso dos sábios anjos do bem. Em breve, seria um jardim de delícias, onde reinará a paz, o sossego e a materialização dos sonhos.

Outro fato notável foi o aparecimento da Fada Encantada da Jardinagem, acompanhada de suas seguidoras assistentes. Fulgurantes luzes semelhantes a flashes estrelados movimentavam-se de um lugar a outro, feito raios riscando o espaço, como se estivessem inspecionando sua criação. Tal acontecimento canalizava toda energia necessária de bondade e sabedoria, suficientes para entender a importância que a empatia de cada espécie ali presente, sem exceção, seria fundamental para as lições de fé, que cada dia representa na vida de todos.

Com as formiguinhas Manoel pedia apoio no sentido de conservar a integridade de suas plantinhas, sem nenhum prejuízo às suas vidas, conservando-as perfeitinhas, não as destruindo. Elas iriam dar muita alegria a todos que as vissem floridas e belas. Transferindo às pequeninas cortadoras de pinças afiadas, a responsabilidade de ajudar a manter o encanto do lugar que seria mágico e de inspiração triunfante.

Com esses diálogos cordiais, Manoel conseguiu estabelecer uma irmandade de cumplicidade com todos os habitantes do jardim encantado; com sua lenda em construção. Lenda que logo, também seria exemplo de esperança para um futuro melhor.

Em pouco tempo já havia concluído o seu espaço florido, sua obra-prima. Uma realidade indiscutível, que não demorou a se confirmar. Todos os dias impreterivelmente, reservava as manhãs e as tardinhas, para os cuidados necessários com sua criação. Seja para aguagem, como para as limpezas e podas imprescindíveis.

Havia adquirido o dom de conversar com as plantas, aves e insetos, em diálogos longos, proveitosos e permanentes. Entendimentos capazes de esclarecer as particularidades de cada espécie. Quando chegava era recebido com elevada manifestação de carinho.

Os pássaros irradiavam com suas virtuosas presenças, melodias alegres, cantadas em verdadeira sinfonia poética; plantas e flores no mesmo ritmo formavam um coral e boas-vindas. Até as pessoas que não podiam ver, ou perceber o encanto, sentiam intimamente aquela harmoniosa presença do sobrenatural, comum da alegria incontida.

Em pouco tempo, passear próximo ao magnífico jardim tornou-se um hábito indispensável para os habitantes e visitantes da pequena cidade. E o seu poder de harmonia e paz, havia se espalhado a distâncias imensuráveis.

Manoel estava sempre distribuindo simpatia e sorriso a todos que por ali paravam. Quando somente passavam próximo, um aceno cordial não era esquecido, independente se fossem humanos ou não. A propósito, como bom aluno que era, a exemplo do bom ancião cego, sorriso virou sua marca. Também não era pra menos. Havia construído um ambiente de contagiante atmosfera e envolvimento, onde a felicidade predominava. 

Por meio de gestos de alta nobreza, Manoel entregou àquelas mulheres solitárias, criativas na sua arte de bordar, um novo símbolo de beleza e contentamento, antes inimaginável. Aquele que ali se aproximava, imediatamente era conduzido a um estado de luz. Livrava-se dos mais enraizados problemas; os adoentados, enfermos e desenganados vislumbravam esperança.

Havia até aqueles que diziam, se sentirem curados, graças ao alto grau de encantamento. Notícias se espalharam feito rastilho de pólvora, sobre os feitos e os resultados alcançados por Manoel. Situações consideradas impossíveis encontravam soluções e respostas benéficas para quem se aproximasse do jardim.

Não tardou para se tornar visita obrigatória para as pessoas que buscavam o ambicionado conforto espiritual. Os céticos contagiados pelas manifestações de bem-estar, mesmo tentando driblar a própria consciência, não resistiam à tentação, movidos por uma atração inexplicável, porém, presente naquele ambiente iluminado. 

O jardim virou uma extensão envolvente de vida plena. De revelação da fé e da indiscutível presença da harmonia, causada pelo encanto energético das flores coloridas, pela beleza do canto extraordinário das aves. Era o jardim que encantava. O jardim que floria na alma das pessoas.

Manoel maravilhado com sua criação, concluiu espontaneamente, que não basta ter apenas um jardim com plantas diferenciadas. É preciso que esse jardim esteja dentro de si, dentro de cada um. Sentir além do perfume das flores, o seu sorriso de felicidade. Compreender que os pássaros não vão a determinado lugar por um mero acaso ou pelo descanso após longos voos, mas pelo prazer da receptividade.

As borboletas, as abelhas e os beija-flores, também não procuram os jardins pelo seu colorido, mas pela sua doce simpatia envolvente. Produzida até mesmo, pela mais simples plantinha imperceptível, desde que esteja irradiando a fragrância do amor. E que, sua beleza não se traduza em uma mera futilidade, mas, na essência superior do Criador, no seu momento de esplendor criativo.

Um lugar onde até mesmo as formigas e outros insetos nocivos pedem licença para contemplar sua magnífica magia. Todo jardim feito e cuidado com carinho, tem as bênçãos da Fada Encantada da Jardinagem, que tudo faz, para sobressair na vida dos seres, o amor ao próximo de maneira espontânea e atitude de caráter superlativo.


Este conto eu o escrevi em 10/setembro/2009. Espero que goste. Au revoir. 




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 Imagens: Google

domingo, 11 de maio de 2014

A essência do amor e da luxúria


Não é difícil acreditar que algumas pessoas em algum momento relembram determinadas situações envoltas num saudosismo ardente contido no peito, capaz até de fazer o corpo tremer. Algo inexplicável, mas verdadeiro. É nessa agradável manifestação da nossa efêmera existência que algo infinitamente sublime se transpõe para o universo paralelo dos nossos pensamentos. Como se trata de lembranças é natural tornar essas recordações inconcebíveis leveza de espírito no mundo dos sonhos. Permitindo que tenhamos o desejo de trilhar ocasiões jamais envelhecidas.

Como uma fumaça dissipando de maneira suave, de repente Jorge Victor se viu no lugar onde nasceu, uma elegante e próspera cidade do sul do Brasil, pela sua importância turística e a qualidade de suas vinícolas. Passeava de maneira descompromissada por um bosque deslumbrante e envolvente. Havia flores, gramíneas, esquilos e pássaros, que contribuíam com aquele cenário encantador. As árvores com sua exuberância frondosa compunham aquela tela do mundo das fábulas, pintadas pela essência das mãos hábeis de um talentoso artista, seduzido pela destreza do seu pincel. Sim, o lugar remetia a uma pintura nos estilos realista e impressionista, arte que somente o talento de um Gustave Courbet e Claude Monet, seria capaz de descrever com perfeição, aquela magia colorida, que os seus olhos se deliciavam registrar.

Quanto mais caminhava, mais sua mente se exercitava feito a um processador cibernético, criando imagens e mais imagens de belezas contagiantes. E o seu corpo respondia incrédulo ao frescor daquela tardezinha com o sol se escondendo por detrás das nuvens brancas, semelhantes a uma bruma que lampeja a alvorada de uma nova vida.

Jorge não resistiu aquele encanto e sentou-se sob a fronde de um imponente jacarandá e continuou admirando aquele ambiente singular. Com os seus olhos inquietos como a luneta de um observador em busca de sua nova descoberta, logo avistou caminhando, uma linda e fascinante mulher, quem sabe que nem ele, apenas curtindo o visual e deixando transbordar a alegria de viver. Com passadas lentas foi se aproximando de onde se encontrava, sem ainda tê-lo visto.

Jorge Victor, pelo ímpeto do momento e com a rapidez de um falcão, fez um passeio ocular em toda sua exaltação feminina, reparando com mais atenção suas curvas bem delineadas e glamorosas. Como estava contra o sol e o seu vestido moldado num fino tecido, causava a transparência que mostrava o quanto ela era perfeita e sedutora.

Dando cordas à sua visão estonteante, pode repará-la mais detidamente e exclamou com a voz quase muda: É ela...! Não pode ser, mas é ela sim!... Tratava-se de uma paixão infantil que se fizera mulher, uma bela mulher, capaz revirar o cérebro num amontoado de recordações. Mais uma vez, balbuciou: “Como desejei esta oportunidade de estarmos próximos. Só eu e você Silvia! Apenas nós dois”.

Enquanto sussurrava a frase vinda de seus pensamentos, Silvia o olhou, como dizendo, te conheço. E sei até de onde: do Colégio Olavo Bilac. Mas preferiu manter-se muda, apenas sorriu. Diante daquele sorriso cristalino, Jorge Victor, ainda relutante, convidou-a a compartilhar com ele aquele momento só visto na fantasia de uma mente apaixonada que ainda acreditava na felicidade, no amor e, sobretudo, aproveitar cada segundo como se fossem eternos e exclusivos.

- Oi, você está linda! – disse.

- Você me conhece? – Indagou Silvia.

- Não creio, mas devo confessar, é a garota mais linda que imaginei ver.

Silvia sorriu agradecida pela boa receptividade. Ela também estava admirada com a elegância e a beleza de Jorge Victor, após uma rápida olhada por toda a dimensão da sua estrutura masculina.

Sem hesitar, Silvia sentou-se logo à sua frente cruzando as pernas feito uma praticante de yoga. O vestido leve e solto, cobria-lhe apenas parte de suas pernas. O vento na sua misteriosa cumplicidade resolveu dar sua ajudazinha. Manifestando-se de maneira carinhosa com o seu sopro suave, levantou o tecido, permitindo a Jorge Victor a oportunidade de vislumbrar suas coxas bronzeadas e lisas até próximo de sua calcinha. Silvia era uma morena, 28 anos, com aproximadamente 1,70m, corpo esguio, seios atraentes que se destacavam no generoso decote; olhos castanhos e brilhantes; cabelos também castanhos pouco acima da cintura que esvoaçavam ao sabor do vento. Pode até que seja uma artimanha das circunstância, mas o vento naquele momento mais parecia o cupido prevendo uma linda história de amor, desejos e sedução.

Permaneceram conversando até que a noite mostrasse sua majestosa delicadeza. O luar estava perfeito e as estrelas contribuíam enfeitando e iluminando aquela atmosfera de verdadeiro bem estar. Combinaram um novo encontro ainda naquela noite, num barzinho da cidade. O local não poderia ser mais prazeroso, frequentado pela juventude local, onde se podia ouvir boa música ao vivo e bebericar várias opções de bebidas.

Jorge Victor ansioso foi o primeiro a chegar. Procurou um lugar menos movimentado, mas que permitia estar atento a tudo que acontecia. Silvia chegou meia hora depois. Ao se encontrarem já havia um clima de mais intimidade o que lhes permitia compartilhar beijinhos no rosto. Sentaram-se e iniciaram agradável bate papo. Ambos optaram pela cerveja, acompanhada por uma saborosa porção de filé ao molho madeira, com torradas.

Permaneceram conversando horas incansáveis. Relembraram remotas passagens do passado, até a revelação feliz das estórias do Colégio Olavo Bilac, que surgiram pela casualidade do destino. A partir desse momento, o assunto se resumiu ao colégio, a cidade natal e a trajetória que cada um seguiu ao concluir o ginásio.

Silvia havia mudado com a família para outro estado, tornado-se médica; Jorge Victor a gosto dos pais, foi morar em Paris, onde estudou e aos 30 anos, tornou-se um competente engenheiro naval, disputado por grandes multinacionais. Não fazia uma semana que transferira para o Brasil, a convite de um magnata brasileiro, amigo da sua família, que mantinha estreita relações empresariais com influentes produtores de petróleo no Oriente Médio.

Naquela noite não aconteceu nada de extraordinário no que se refere à intimidade afetiva. Mas o próximo encontro já ficara combinado para almoçarem juntos. Jorge Victor a acompanhou até a casa de seus tios, enquanto permanecesse na cidade. Em seguida seguiu para o hotel onde estava hospedado. Para ambos o sono teimou em não aparecer, permitindo que desenhassem cenas felizes e emocionantes do casual encontro e o seu desfecho, semelhante o folhear de um álbum de recordações.

Almoçaram distribuindo simpatia, alegria, bom humor e jovialidade. Após o almoço fizeram um passeio pelos lugares que marcaram suas infâncias, incluindo é claro, o Colégio Olavo Bilac. Perguntaram a alguns moradores sobre determinados amigos e amigas da época, sem resultado. Parecia que todos resolveram partir, deixando para trás apenas memórias, nada mais.

À noite novo encontro já estava combinado e a aproximação entre os dois se tornava cada vez mais ardorosa e espontânea. Jorge Victor com o objetivo de agradar sua companheira com o que há de melhor, em sinal de agradecimento pelos belos momentos que passaram juntos e, prevendo uma noite aconchegante na companhia de Silvia, havia trocado seu apartamento nem tão nobre, pela suíte mais luxuosa do hotel. Seria ali o provável ninho de amor do casal.

E assim aconteceu. Silvia ainda que, meio tímida aceitou o convite e partiram para o que seria o momento mais feliz entre os dois, desde que se encontraram. Ao abrir a porta da suíte, via-se num local selecionado com esmero a pouca luz, uma mesa bem ornada com velas apropriadas que realçava o encantamento da ocasião; taças de cristais para ser servido um “authentique Sauvignon Blanc”, escolhido como se estivessem na frança por José Maria Ferrier  “sommelier” do hotel; prataria e porcelanas de fino bom gosto os esperavam para um jantar inesquecível.

Após o jantar, acomodaram-se numa confortável poltrona próxima à lareira, conversaram por alguns instantes e logo começaram a se entregarem ao feitiço da luxúria. Não demorou a buscarem o conforto da cama, que mais parecia um oceano de amor. Um fino lençol lilás de seda dava o tom do que viria a acontecer. Despiram-se peça por peça na sintonia de uma valsa, beijando-se e se tocando com ardor, que às vezes até atrapalhava a respiração, mas nada os impediam de viver o êxtase daquele clima que consumia a lascívia do desejo incontido.

Como dois amantes em completa entrega, seus movimentos em sincronia, descreviam a harmoniosa efervescência da paixão. Uma atração inebriante de excitação, que queimava feito lavas incandescentes percorrendo sobre seus corpos suados e extasiados de desejos e prazer. Seus hormônios em vibrantes loucuras liberavam a adrenalina contida na volúpia de um cérebro que respirava e cheirava sexo. Capaz de paralisar o tempo, para impedir que o sabor do pecado de amar e se entregar aos desejos da carne se tornassem momentos inenarráveis.

No clarear do dia, os dois acordaram movimentando-se com gestos preguiçosos. Antes do café da manhã que seria servido na própria suíte, resolveram que o melhor a fazer naquele momento seria um excelente banho morno na banheira de hidromassagem que os esperava. Como estavam entregues ao prazer, não demorou a reiniciarem a sessão de libidinagem. E assim, nesse clima de prazer, amor e sexo, Jorge Victor e Silvia tiveram uma manhã envolta na paixão sem limites.

No dia seguinte ambos se separariam, seguindo cada um o seu caminho em atenção às necessidades imperiosas da profissão. Evidente que a internet haveria de contribuir para que não esfriasse o desejo de se amarem revivendo as loucuras do prazer.

Nota: Este Conto foi criado por Dilson Paiva, em 10 de maio de 2014.


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Imagens: Google

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Hermann Hesse, o escritor que valorizava os princípios doutrinários


Esta publicação do Bússola Literária provavelmente irá atingir com mais frescor os leitores que conhecem a temática literária de Hermann Hesse. Aqueles que tiveram o privilégio de infiltrar no seu domínio linguístico e nas suas sutis exposições sobre o destino do homem como ser e como coadjuvante de uma sociedade às vezes incompreensível e repleta de conceitos dogmático e familiar.

A vida de Hermann Hesse é um tanto curiosa. É recheada de conturbações atemporais, com muitas oscilações de altos e baixos. Talvez tenha sido este o motivo do escritor transpor para suas obras fragmentos pessoais de sua vida, como se fossem um ingrediente necessário no tempero de sua narrativa.

Algo parecido com o cineasta Alfred Hitchcock, que por sua vez, fazia questão de aparecer nos seus filmes, mesmo de forma quase imperceptível, abrindo uma porta ou como um simples porteiro de edifício, sem dizer sequer uma palavra, apenas para estar ali, compondo a ideia.

No livro Demian, Hesse conta a história de Emil Sinclair, criado nos fundamentos dos princípios religiosos da família, desconhecia a realidade à sua volta. Até encontrar o temido Franz Kromer que estudava na mesma escola que frequentava. Com ele e as perseguição a que era submetido, foi compelido a descobrir o que realmente haveria que enfrentar na escola da vida.

Este novo estágio do autoconhecimento, fez com que descobrisse a outra face destemida de sua personalidade que se encontrava adormecida. Afloram-se também, no conjunto das novidades, os seus questionamentos existenciais.

A partir do momento que conhece e passa conviver com Max Demian, colega de classe que já estava habituado com o mundo austero da vida. O qual conhecia com maestria os meandros da prática do bem e do mau, Sinclair teve coragem suficiente para se defender das provocações de Kromer.

Em Sidarta, Hesse traduz em livro sua viagem à Índia 1911. Depois de conhecer vários lugares, principalmente os templos religiosos, Hesse, escreveu Sidarta narrando sua história inspirada no Buda (Siddhártha Gautama), o Iluminado. E que também ganhou a imortalidade pelo povo oriental, como Gotama, o Sublime.

No livro Sidarta o personagem infiltra no estudo dos vedas, em busca da iluminação, da paz de espírito e no seu autoconhecimento. Com o amigo Govinda, juntam-se aos “samanas” e logo aprendem a controlar os sentidos: a pensar, esperar e jejuar. O seu próximo passo seria ir em busca do Absoluto, do seu Eu espiritual.

Sua tarefa não é nada fácil. Mesmo tendo passado por quase todas as experiência ao seu alcance, ainda precisava de algo mais, encontrar de fato o seu autoconhecimento. Nestas suas andanças conhece Vasudeva, o balseiro. Com ele passa a viver momentos de tranquilidade e a ouvir a voz do rio.

O livro é interessantíssimo. Alguns chegaram a conceituá-lo como novela. No entanto, É mais um livro que Hermann Hesse aprofunda no íntimo do ser.

Em O Lobo da Estepe, Hermann Hesse mais uma vez se transpõe de maneira sutil, para viver o personagem Harry Hailler, uma pessoa culta que gosta de ler, ouvir músicas clássicas, teatro e ocasionalmente dar suas caminhadas noturnas, para manter-se ciente do mundo que o cerca. Embora com todos esses requisitos de uma pessoa notável, preferia viver na solidão, distante da realidade da época.

Harry Hailler sobrevive nesse ambiente inteiramente pessoal, até encontrar Hermínia, Maria e Pablo. A partir daí, sua visão adquire robustez, através dos ensinamentos filosóficos, sociológicos, espirituais e sua preocupação com a morte. Afinal, trata-se de um cinquentenário, então a morte pra ele era uma questão de tempo, mesmo já tendo na sua insatisfação pessoal desejado abreviá-la.

Outro livro de Hesse que merece ser absorvido nas suas entranhas.

Em O Jogo das Contas de Vidro, a história conta a vida de José Servo, o estudioso Magister Ludi, membro do respeitável Jogo de Avelório; mestre do Jogo que dá nome à obra: O Jogo das Contas de Vidro.

Por se tratar de uma criação ambientada numa época do futuro bem distante de quando foi escrito, Hesse dá um salto no tempo, e cria na composição do livro uma comunidade formada por intelectuais e pensadores de altos conhecimentos. É evidente que os embates filosóficos, espirituais e ideológicos são constantes. O que torna o conteúdo forte e profundo na sua concepção.
         
O curioso é que a história foi criada em 1943. Mesmo em se tratando de uma época tão remota, a mensagem é visionária, intricada, mas capaz de alimentar a expectativa do leitor.


Sua obra virou nome de uma banda norte-americana


No início da Primeira Guerra Mundial, Hermann Hesse se engaja em projetos e serviços humanitários. Um de seus trabalhos foi a criação de um grupo que se ocupou com a remessa de livros para presos em campos de concentração. Em 1915 publica “Knulp”, obra na qual o autor mostra ao leitor o quanto o homem depende de convenções sociais.
Em 1916 Hermann Hesse é acometido de uma crise nervosa que o prende por meses no sanatório Sonnmatt, em Lucerna, na Suíça. Tem início uma profunda amizade com o psicanalista J. B. Lang. Nesse estado de espírito publica um artigo contra a guerra sob o pseudônimo de Emil Sinclair e começa a ocupar-se regularmente com a pintura aquarelista.
Em 1919 publica “O Regresso de Zaratustra”, obra dirigida aos jovens: “O mundo não está aí para ser melhorado. Mas vocês estão aí para serem vocês mesmos. Vocês estão aí a fim de que este mundo sombrio, com esse acorde e com esse tom de vocês, fique mais rico. Seja você mesmo e o mundo tornar-se-á mais belo e mais rico”. Paralelamente Hermann Hesse muda-se para a Casa Camuzzi, em Montagnola, no Tessino, onde permanece até 1931.
Ainda em 1919, Hesse publica “Demian”, sob o pseudônimo de Emil Sinclair, e faz amizade com Ruth Wenger, com a qual acaba se casando. O casamento dura apenas três anos, de 1924 a 1927. Em 1921 Hesse começa a escrever “Sidarta”, o qual teve que interromper em virtude de um bloqueio psíquico. Hesse cai em profunda depressão. Começa a sua segunda análise psicanalítica, dessa vez, com o renomado psiquiatra C. G. Jung. Em 1922 termina e publica “Sidarta”, sobre o qual Henry Miller escreveu: “Sidarta é, para mim, um medicamento mais eficiente do que o Novo Testamento”.
Nesse entretempo Hesse pu­blicou várias obras, entre elas, “O Lobo da Estepe” (1927). No mesmo ano Ninon Dolbin aloja-se na Casa Camuzzi, aparentemente como secretária. Em 1931 Hesse começa a escrever “O Jogo das Contas de Vidro” e se casa com Ninon Dolbin. Em 1931 Hesse muda-se para a “Casa Rossa”, uma mansão construída por um abastado admirador, H.C. Bodmer, que deu a Hesse o direito de ocupá-la até a sua morte. No muro da porta de entrada Hermann Hesse prendeu uma tabuleta com os seguintes dizeres: “Não recebo visitas”. Certo dia subiu à montanha seu amigo Thomas Mann. Este, ao ler os dizeres, deu meia-volta. Conta-se que nunca mais os dois escritores voltaram a se encontrar. A “Casa Rossa” hoje é propriedade particular.
Em 1943, doze anos após iniciá-lo, publica sua obra máxima “O Jogo das Contas de Vidro”. Em 1946 Hermann Hesse é agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura.
Não é possível comentar todas as obras de Hesse num texto relativamente breve. Além disso, há resenhas de seus livros em mais de cinquenta línguas. Por esta razão procuramos dar especial ênfase ao homem Hermann Hesse, pois é imprescindível conhecê-lo para podermos compreender e fruir o conteúdo, a beleza e a profundidade de sua obra.
Hermann Hesse ainda era vivo e sua obra já tinha sido traduzida para 34 idiomas. “Parece-me que os japoneses são os que melhor me entendem e os que menos me entendem são os americanos. Mas esse também não é o meu mundo. Nunca chegarei lá”, comentou logo após ter recebido o Nobel.
Em meados dos anos 1950, o editor Siegfried Unseld recomprou os direitos sobre a obra de Hermann Hesse por 2 mil dólares. Assinado o contrato, Unseld e o antigo editor foram para o almoço, durante o qual o americano disse: “Se o senhor quiser rescindir esse contrato tão desvantajoso, podemos cancelá-lo”. Unseld não o cancelou e, passados dez anos, as obras de Hermann Hesse tornaram-se su­cesso também nos Estados Unidos quando a juventude hippie, à procura de novas alternativas de vida, confrontou-se com os textos de Hesse, este passou a ser visto como uma espécie de guru.
Outro fator que contribuiu para o sucesso de Hesse nos Estados Unidos foi a banda “Steppenwolf” (Lobo da Estepe), que adotou o nome do livro e fez com que a obra influenciasse várias gerações.
Hermann Hesse, além de dedicar-se a seus textos, empenhava grande parte de seu tempo em responder cartas de leitores. Nesse particular, supera Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), o grande autor clássico da literatura alemã, que escreveu mais de 30 mil cartas. Hermann Hesse escreveu mais de 40 mil. A maioria delas ainda estão preservadas.
Não apenas trocava correspondência com renomados homens da literatura, como Tho­mas Mann, Stefan Zweig e Romain Rolland, mas também com políticos, chefes de Estado e com milhares de leitores que lhe escreviam pedindo conselhos ou ajuda para problemas da alma humana.
Hesse fazia questão de responder pessoalmente às cartas que recebia. Ao responder às perguntas pessoais de leitores, Hesse costumava apelar à moral, à ética, à tolerância e aos fundamentos básicos do cristianismo do qual tentara livrar-se em Maulbronn.
Até agora apenas parte de suas cartas foram publicadas em dois volumes, está previsto o lançamento de uma edição completa de sua correspondência que deverá abranger um total de dez volumes.
Apenas “ler” Hesse não é suficiente. Para entendê-lo é necessário “encontrá-lo” e a melhor maneira de encontrá-lo é aprofundar-se em sua biografia. Em Calw, sua cidade natal, o município criou o Museu Hesse, no qual encontra-se grande parte de seu acervo. Sua casa em Gaienhofen, que hoje está como ele a deixara, também foi transformada em museu, e em Mon­tagnola, nas montanhas do Lago Lugano, encontra-se a terceira parte de seu acervo. 

Otto M. Carpeaux destaca o escritor em busca de libertação 

É oportuno mencionar um detalhe pouco conhecido da vida de Hermann Hesse: o autor foi grande admirador e profundo conhecedor dos contistas da Renascença Italiana. Em 1920 Hesse selecionou e publicou uma coletânea de 16 contos de autores italianos sob o título “Novellino”, na qual encontram-se cinco títulos de Franco Sacchetti, quatro de Giovanni Fiorentino, dois de Masuccio Salernitano, um de Nicolau Maquiavel, e quatro de autores anônimos. O título de Nicolau Maquiavel é “Belfagor” e foi Hesse que, pela primeira vez, o publicou em língua alemã. O “Novellino” de Hesse foi republicado na Alemanha numa versão atualizada em 2012.
Otto Maria Carpeaux, ao caracterizar Hesse, escreveu: “A vida de Hesse foi um caminho de sucessivas autolibertações, através de revoltas do individualista contra a escola, contra a família, contra o cristianismo, contra o estilo burguês de vida, contra a guerra, contra a Europa e contra todos os tabus que o lar, a sociedade, a religião e o Estado querem impor”. A caracterização de Car­peaux é correta. Falta apenas um detalhe: a única arma que Hesse usou foi a caneta.
Quem caminha pelas ruas de Calw encontra Hesse como eu o encontrei (Edgar Welzel, autor deste texto). Lá está ele, no meio da ponte sobre o Nagold, seu lugar preferido quando menino, em estátua de bronze em tamanho natural, com o seu inseparável chapéu à mão. O escultor deu-lhe um rosto tranquilo, talvez até feliz, e quando nos acercamos temos a impressão que Hesse fala conosco.
“Desci por estes barrancos do rio quando menino junto com outros de minha idade. Subíamos na balsa e os balseiros levavam-nos alguns quilômetros rio abaixo onde, numa curva, deixavam-nos saltar à margem donde regressávamos a pé”. A expressão de felicidade estampada em seu rosto parece dizer: “Hoje sei muito bem que nada na vida repugna tanto ao homem do que seguir pelo caminho que o conduz a si mesmo”.
Hermann Hesse morreu em 9 de agosto de 1962, em Mon­tagnola, aos 75 anos. Trans­corridos 50 anos, a data foi devidamente lembrada em 9 de agosto de 2012 com cerimônias, festejos, palestras e conferências realizadas durante todo o último trimestre do cinquentenário de seu falecimento ao redor do mundo. Suas obras continuam vivas e hoje, mais do que no passado, o número de leitores e admiradores de Hermann Hes­se aumenta em todos os quadrantes. Especialmente na Eu­ropa, Estados Unidos, Ja­pão, China, Índia e Coreia do Sul. Hesse continua sendo um au­tor de interesse universal. Tal­vez seja esta a verdadeira razão pela qual Hermann Hes­se nos cumprimenta com um sorriso feliz lá do alto da ponte de sua cidade natal.

Nota: Uma parte deste texto foi publicada na Revista Bula, categoria “Ensaio”, por Edgar Welzel em janeiro de 2014.    



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