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sábado, 13 de agosto de 2016

O jardim que encanta


No universo do mundo dos objetivos, existem pessoas e pessoas. Algumas singulares por natureza, como Manoel, o qual faz parte deste diferencial. Apaixonado pela sua profissão de jardineiro, pelas plantas e tudo que delas se associam. Manoel também era curioso, estudioso e fascinado por lendas de enlevo que fazem o homem enxergar exemplos de virtudes, onde antes talvez fosse impossível. Seu sonho era um dia ter sua própria história; viver um sonho inimaginável para que as pessoas desprovidas das bênçãos de Deus pudessem refletir sobre si mesmas. Por ventura ou aventura em outros horizontes, em outros lugares, quem sabe, fosse lembrado como alguém que ajudou a escrever o seu próprio destino. 

Com a simplicidade de quem era sinônimo de determinação. Uma pessoa que vivia cada segundo de sua vida, edificada na sua personalidade brilhante e perseverante, arregaçou as mangas e foi em busca dos seus ideais. Mesmo em se tratando de algo pessoal, não pretendia de modo algum, restringir, nem impor limitações aos seus conceitos visionários de uma mente arrebatadora e o seu apetite voraz pela leitura. Aprendeu a ser leal com os menos afortunados dos seus sonhos, permitindo-o o compartilhamento. Assim, demonstrando simplicidade no seu sorriso infantil, não foi difícil começar a construir o seu legado.

Morava em uma pequena cidade, contudo, não se tratava de um lugar ermo, sem importância. A população, como ele, admirava o perfume de um jardim bem cuidado. Era raro encontrar uma casa que não tivesse uma área florida, com todos os requintes de beleza e encantamento.

Certo dia depois de fazer seu percurso habitual, que o conduzia até a sua morada, ao passar por uma casa a muito por ele observada. Mesmo com características e aparência modestas, havia algo que o considerava fundamental: área disponível para se construir um belo jardim.

Suas moradoras, uma senhora com aproximadamente 50 anos e sua filha que se imaginava próximo dos 30, lutavam com dificuldades pela sobrevivência. Dependiam somente de uma irrisória pensão, deixada pelo marido falecido há alguns anos. E, eventualmente, dos insignificantes resultados dos trabalhos que ambas desenvolviam com bordados. Era inegável a qualidade e o primor das peças, a habilidade e o zelo, de seus maravilhosos desenhos elaborados a partir de uma linha, com o auxílio de uma ou duas agulhas.

Com os poucos recursos financeiros a que tinham direito por questões óbvias, a pensão. Muitas vezes tinham que, se submeterem a duas variáveis: ter dinheiro suficiente para suas necessidades básicas de sobrevivência, e ainda, para comprar os novelos de linhas e o tecido para executar o exercício de suas tarefas, que completariam os seus minguados recursos. Em muitas ocasiões faltavam-lhes tecidos, linhas e o apoio de alguém que se interessasse em ajudá-las ou até mesmo, para comprar suas peças.

Um dia, Manoel depois de ter passado quase toda à noite, lendo um livro que acabara de adquirir, ficou impressionado com sua leitura, que contava a história de um homem, que estava cansado do que fazia. Tratava-se um balseiro que transportava pessoas de uma margem a outra de um rio.

Esta sua atividade já vinha desde a infância, quando substituiu o pai que na época se encontrava velho e doente. Não sabia fazer outra coisa, até que ao transportar um senhor atingido pela fatalidade da falta de visão, se admirou com a simpatia do velho cego; seus modos, maneira de vestir-se e o seu sutil comportamento enigmático. Na história o barqueiro somente no final do percurso que fazia da travessia, é que teve a coragem suficiente de perguntar-lhe o nome.


Descreve o livro: “...Silencioso e de aparência compenetrada, podia-se notar que estava atento a tudo que acontecia à sua volta. O barqueiro curioso com aquela visão incomum, perguntou o seu nome, recebendo de maneira educada a resposta: – “Eu me chamo Felicidade, mas pode me chamar de Sorriso, como as poucas pessoas que me conhecem me chamam”. Ao obter a informação, o barqueiro logo imaginou tratar-se de uma brincadeira nada convencional. Pensou de imediato: – “Isto é pra eu permanecer calado e só responder ao que me perguntam e preocupar-me menos com a vida dos outros...”

A cada informação que recebia do conteúdo do livro, permitia que Manoel avaliasse o comportamento do personagem, sem, contudo, deixar de admirar aquela figura humana, simpática, porém misteriosa. Estas entrelinhas interrogativas, o deixava mais envolvido com sua leitura. Parecia que já havia incorporado o personagem balseiro, vivenciando cada detalhe da história, como se fosse ele próprio o condutor da balsa.

Segue o texto do livro: – Pensou o balseiro: – “Só queria saber o seu nome e depois, declarar minha admiração pela sua coragem de transitar sem temores nas suas condições. Isto é feio? É bisbilhotice? Sem obter respostas, continuou sua atividade sempre se autoquestionando.” Manoel compenetrado vivia um momento de deslumbramento. Alimentava pensamentos paralelos, na mesma intensidade do personagem.

Continua a narrativa do livro: “...Até que outro dia o mesmo senhor pegou a sua balsa de volta. Vendo-o com a mesma elegância, roupa limpinha, bem engomada, sapatos lustrados e a bengala com alça de couro, cresceu ainda mais sua admiração por aquele bem aparentado e curioso velho. Nem por isto se atreveu a fazer qualquer comentário...”.

Nessa noite Manoel não conseguiu ler toda a história, embora ficasse impressionado e ansioso pelo desfecho. Estava cansado, precisava dormir, o dia seguinte seria de muito trabalho e ele necessitaria de disposição, muita disposição!

Mesmo tendo que estar atento ao que fazia, não conseguia desvencilhar seu pensamento da história, que o levava a meditar sobre cada detalhe do que havia lido. – “Por que será que o velho deu aquele nome de forma incompreensiva, sem sentidos, se o balseiro só queria ser simpático?” Assim transcorreu todo o dia sem uma conclusão satisfatória. Entretanto, ao chegar em casa iria sem dúvida, descobrir.

Novamente no retorno pra casa, ao passar pela residência das mulheres bordadeiras, seu pensamento vagou pelo desejo de transformar aquele espaço abandonado, habitado pelo mato, quem sabe até, por animais peçonhentos e perigosos, em um lindo jardim com sua magia particular. Povoado por borboletas, abelhas, pássaros e o olhar admirado das pessoas que por ali passassem.

Quando terminou sua leitura descobriu que realmente o velho se chamava Felicidade. Também era justo que os poucos que o conheciam, como ele mesmo disse, o chamassem de Sorriso. Havia um motivo subentendido em torno do seu nome. Acontece que mesmo não podendo enxergar. Ver a natureza com suas nuances e belezas exuberantes; não poder olhar nos olhos das pessoas como a maioria, ainda assim, trazia no coração um sentido especial: podia enxergar a alma de quem dele se aproximasse. E, naquele momento em que o balseiro havia perguntado o seu nome, pode perceber sua curiosidade em torno do seu comportamento de cego, sem contar com a ajuda de outra pessoa que estivesse ao seu lado orientando-o, mesmo assim, sabia perfeitamente onde pisar e em que direção deveria seguir.    

No entanto, Manoel entendeu que o velho percebendo que o balseiro o tratava com respeito, naturalidade e cumpria com amor sua missão. No retorno, sem que fosse solicitado, o velho cego, respondeu suas indagações pessoais, captadas pela sua aguçada sensibilidade sensitiva. Quando o aconselhou a continuar transportando pessoas, porque, além de transportar vidas, estava conduzindo muitas vezes indivíduos em busca do seu próprio destino.

Para algumas pessoas, estavam reservadas grandes realizações. Entretanto, para outras, em decorrência do livre arbítrio, envolveriam com momentos trágicos. E ele ali nas suas idas e vindas, dava esperança a quem buscava o incompreensivo, fugindo do obscuro limiar da insatisfação, do desconhecido e da falta de perspectivas.

O interessado jardineiro atento a alguns detalhes se surpreendeu mais uma vez. Ao se deparar com algumas informações consideradas de grande importância, sobre a forma de se ver o sentido da vida, definidas pelo velho e enigmático cego. Anotando alguns exemplos relevantes: – “A abelha ferroa não porque é hostil, mas para proteger sua colmeia, dando sua vida pelo o que acredita. Ao picar suas vítimas, não consegue retirar intacto o seu ferrão, com isto, perde parte do seu intestino, resultando na sua morte. Depois não faz isto somente por prazer, vingança ou em benefício próprio. Mas para proteger toda comunidade melífera, da qual faz parte.”

– “Tem consciência do sabor cobiçado do seu favo doce e da dificuldade de produzi-lo. Sua produção exige trabalhar em voos contínuos e distantes em busca do néctar, só encontrado em maior quantidade na época da florada, nos campos, pomares e jardins. Inclusive a produção da geleia real, indispensável para a alimentação da sua soberana, a rainha. Única responsável pela produção dos ovos que darão continuidade e preservação da espécie.”

Continua o velho cego suas explicações, através do livro: – “Semelhante é a roseira. Ela também tem espinhos, não porque seja ofensiva, mas para se defender. Mesmo assim, todos a admiram, pela beleza de suas rosas em várias cores. E, pela sua fantástica capacidade de hipnotizar corações apaixonados nas mais diferentes situações. É plantada em terreno fofo, depois é adicionado o esterco proveniente do excremento de origem animal, para que cresça vistosa e sadia. Nem por isto é mal cheirosa, pelo contrário, as pétalas das suas rosas são lindas e perfumadas.”

Outro exemplo: – “O arco-íris é o efeito de partículas muito pequenas, quase invisíveis de água, sob a forma de spray ou pulverizadas pela chuva ou grandes cascatas de águas que caem. Em contato com os reflexos dos raios do sol, causam todo o esplendor de cores diferentes, sem a pretensão de combinações. Em forma de arco, para muitos, corresponde a uma lenda centenária, em que, cada uma de suas extremidades, existe um fabuloso pote de ouro.”

– “A lagarta com sua aparência considerada por muito repugnante, se arrasta com dificuldade nos locais mais adversos, se protegendo de predadores, ou mesmo, para evitar ser pisoteada por algum indivíduo maior. Passa a maior parte dos seus dias, procurando alimento de galho em galho. Como recompensa, se penaliza por um tempo, dentro de uma crisálida minúscula, fechada e sufocante, antes de se tornar uma belíssima borboleta, capaz de voar livremente nas alturas, mostrando sua simpatia e encanto; pousar em lindas flores perfumadas, pelos campos, jardins ou na arte da tela de uma pintura.”

Assim que terminou a leitura, deixou transparecer um largo sorriso. Quando se viu sorrindo compreendeu o real sentido do nome do ancião cego. Refletiu por algum tempo as mensagens, e decidiu: assim que terminasse o trabalho em andamento, iria construir o jardim na residência das solitárias moradoras, que o consideraria, como sendo, o princípio da sua verdadeira missão, como ser humano que acredita na verdade Divina. E que, cada um, tem o seu próprio desígnio a cumprir.

Falaria com as mulheres, convencê-las-ia e, colocaria em prática sua proposta pessoal. A partir daquele momento, seria ele o balseiro sob a forma de jardineiro. Com um detalhe expressivo a acrescentar: sabia o que queria da sua vida. Tinha prazer pelo o que fazia, além de, se sentir responsável pela alegria no olhar dos amantes do belo. Despertar nas pessoas, transformações grandiosas de preservação à natureza e tudo que dela representa.

Sentindo-se preparado e disponível para o que se propusera, procurou as bordadeiras, expôs seu desejo de transformar aquela área ora abandonada em um belo jardim.  Após descrever o que tinha em mente, encontrou logo de imediato, o apoio entusiasmado das humildes mulheres. Sua atitude iria melhorar sobremaneira o visual da casa, além é claro, trazer um novo clima de bem-estar. Um novo alento, não só para elas próprias, mas para toda a comunidade, que carecia ver aquele desprezível ambiente transformado. Quem sabe até, inspiração para um belo conto de fadas ou o nascimento de uma nova lenda, como era o seu sonho?

Estava evidente que o livro que acabara de ler, havia contribuído com estímulos suficientes para a iniciativa. Por outro lado, Manoel possuía um espírito tão evoluído que sua atitude de criar o jardim dos seus sonhos, estava agora, prestes a se concretizar. Vidas distintas também iriam descobrir um novo mundo de beleza, cor e perfume, através da sua ação. Os pássaros encontrariam outro lugar para cantar e encantar, as borboletas, abelhas e outros insetos o seu paraíso mágico.

Antes de iniciar os preparativos, idealizou a necessidade de constar no projeto, algumas plantas aromáticas indispensáveis, que se encarregariam da defesa natural. Evitariam o ataque de formigas e outros insetos nocivos às plantas. Para esta estratégia não pretendia abrir mão do alecrim, camomila, capuchinho, erva-doce, hortelã, manjericão, sálvia, calêndula e gergelim; plantas ornamentais como: amor-perfeito, petúnias, antúrios, verbenas, bromélias, palmeiras anãs, gerânios, cravos, rosas, jasmins, grama esmeralda, entre outras diversidades.

Desde o primeiro momento, em que iniciou suas pretensões de revitalizar a área e criar o jardim, começou a estabelecer um vínculo de entendimento com as sementes e mudinhas escolhidas com esmero, transmitindo-as status de estrelas. De importância, de serem únicas em beleza por todo o universo. Esclarecia, uma por uma, suas singularidades, personalidades, nobreza e prestigio.

Da mesma forma, transmitia a cada uma a responsabilidade de representar com beleza e simpatia, o que existia de melhor em espécie; de estar ajudando a construir um paraíso envolvente de amor, iluminado pela luz do Criador. Seu tratamento chegava a ser de uma amizade paternal. Quando Manoel plantava uma sementinha, dizia àquela pequena vidinha, ainda em transformação a importância da vida.

– Querida sementinha, você agora não passa de um embriãozinho de esperança. Logo estará crescida, transformada e bonita. Mas jamais perca sua simplicidade. Consciente que sozinha não passaria de um grãozinho quase sem importância. Igual a muitos raminhos esquecidos em algum lugar distante do olhar das pessoas e dos animais. Será razoável, nunca se esquecer deste detalhe; orgulhar-se de ter sido a escolhida para dar alegria. Não para se envaidecer, achando-se melhor que as demais.

Para as mudinhas dizia: – Oi mudinha, hoje você não passa de um pedacinho de vida, mas logo será grande e exemplo de beleza e admiração. Seu jeitinho nobre encantará a todos. Seja responsável na sua missão de embelezar e perfumar o ar que todos nós tanto precisamos. Seja querida não apenas pelas suas cores e o formato de suas flores e pétalas, mas por transmitir nos seus dias de existência, felicidade e agradecimento pelas suas características exclusivas.

Com os pássaros não era diferente. Sempre que apareciam, Manoel fazia questão de conversar com cada um, mesmo sem receber um aparente retorno. Agradecia a visita, pedindo-os que não se afastassem e, continuasse dando alegria com os seus cantos sublimes. E se possível, convidar outros como eles, a estarem presentes, dando às pessoas motivações de altivas mensagens, através de o seu trinar cativante e melodioso, agradável aos nossos ouvidos.

Quando a primeira borboleta apareceu exibindo suas cores vibrantes, recebeu logo o seu batismo com o nome de princesinha. Sentiu de imediato, que aquela frágil criatura ficara contente com o nome. Acompanhava-o em todos os lugares do jardim. Algumas vezes, pousava no seu ombro amigo ou num outro lugar, bem próximo. Fazia questão de movimentar suas asas, abrindo-as e fechando-as para que ele pudesse contemplar sua beleza única. Em cada uma de suas pétalas da membrana alada, ficava visível um símbolo, decifrável apenas pelo olhar do Pai do Céu.

Manoel, envolvido por uma felicidade inigualável, acompanhava maravilhado aquele momento indescritível. Transformar um lugar antes esquecido e abandonado, no paraíso dos sábios anjos do bem. Em breve, seria um jardim de delícias, onde reinará a paz, o sossego e a materialização dos sonhos.

Outro fato notável foi o aparecimento da Fada Encantada da Jardinagem, acompanhada de suas seguidoras assistentes. Fulgurantes luzes semelhantes a flashes estrelados movimentavam-se de um lugar a outro, feito raios riscando o espaço, como se estivessem inspecionando sua criação. Tal acontecimento canalizava toda energia necessária de bondade e sabedoria, suficientes para entender a importância que a empatia de cada espécie ali presente, sem exceção, seria fundamental para as lições de fé, que cada dia representa na vida de todos.

Com as formiguinhas Manoel pedia apoio no sentido de conservar a integridade de suas plantinhas, sem nenhum prejuízo às suas vidas, conservando-as perfeitinhas, não as destruindo. Elas iriam dar muita alegria a todos que as vissem floridas e belas. Transferindo às pequeninas cortadoras de pinças afiadas, a responsabilidade de ajudar a manter o encanto do lugar que seria mágico e de inspiração triunfante.

Com esses diálogos cordiais, Manoel conseguiu estabelecer uma irmandade de cumplicidade com todos os habitantes do jardim encantado; com sua lenda em construção. Lenda que logo, também seria exemplo de esperança para um futuro melhor.

Em pouco tempo já havia concluído o seu espaço florido, sua obra-prima. Uma realidade indiscutível, que não demorou a se confirmar. Todos os dias impreterivelmente, reservava as manhãs e as tardinhas, para os cuidados necessários com sua criação. Seja para aguagem, como para as limpezas e podas imprescindíveis.

Havia adquirido o dom de conversar com as plantas, aves e insetos, em diálogos longos, proveitosos e permanentes. Entendimentos capazes de esclarecer as particularidades de cada espécie. Quando chegava era recebido com elevada manifestação de carinho.

Os pássaros irradiavam com suas virtuosas presenças, melodias alegres, cantadas em verdadeira sinfonia poética; plantas e flores no mesmo ritmo formavam um coral e boas-vindas. Até as pessoas que não podiam ver, ou perceber o encanto, sentiam intimamente aquela harmoniosa presença do sobrenatural, comum da alegria incontida.

Em pouco tempo, passear próximo ao magnífico jardim tornou-se um hábito indispensável para os habitantes e visitantes da pequena cidade. E o seu poder de harmonia e paz, havia se espalhado a distâncias imensuráveis.

Manoel estava sempre distribuindo simpatia e sorriso a todos que por ali paravam. Quando somente passavam próximo, um aceno cordial não era esquecido, independente se fossem humanos ou não. A propósito, como bom aluno que era, a exemplo do bom ancião cego, sorriso virou sua marca. Também não era pra menos. Havia construído um ambiente de contagiante atmosfera e envolvimento, onde a felicidade predominava. 

Por meio de gestos de alta nobreza, Manoel entregou àquelas mulheres solitárias, criativas na sua arte de bordar, um novo símbolo de beleza e contentamento, antes inimaginável. Aquele que ali se aproximava, imediatamente era conduzido a um estado de luz. Livrava-se dos mais enraizados problemas; os adoentados, enfermos e desenganados vislumbravam esperança.

Havia até aqueles que diziam, se sentirem curados, graças ao alto grau de encantamento. Notícias se espalharam feito rastilho de pólvora, sobre os feitos e os resultados alcançados por Manoel. Situações consideradas impossíveis encontravam soluções e respostas benéficas para quem se aproximasse do jardim.

Não tardou para se tornar visita obrigatória para as pessoas que buscavam o ambicionado conforto espiritual. Os céticos contagiados pelas manifestações de bem-estar, mesmo tentando driblar a própria consciência, não resistiam à tentação, movidos por uma atração inexplicável, porém, presente naquele ambiente iluminado. 

O jardim virou uma extensão envolvente de vida plena. De revelação da fé e da indiscutível presença da harmonia, causada pelo encanto energético das flores coloridas, pela beleza do canto extraordinário das aves. Era o jardim que encantava. O jardim que floria na alma das pessoas.

Manoel maravilhado com sua criação, concluiu espontaneamente, que não basta ter apenas um jardim com plantas diferenciadas. É preciso que esse jardim esteja dentro de si, dentro de cada um. Sentir além do perfume das flores, o seu sorriso de felicidade. Compreender que os pássaros não vão a determinado lugar por um mero acaso ou pelo descanso após longos voos, mas pelo prazer da receptividade.

As borboletas, as abelhas e os beija-flores, também não procuram os jardins pelo seu colorido, mas pela sua doce simpatia envolvente. Produzida até mesmo, pela mais simples plantinha imperceptível, desde que esteja irradiando a fragrância do amor. E que, sua beleza não se traduza em uma mera futilidade, mas, na essência superior do Criador, no seu momento de esplendor criativo.

Um lugar onde até mesmo as formigas e outros insetos nocivos pedem licença para contemplar sua magnífica magia. Todo jardim feito e cuidado com carinho, tem as bênçãos da Fada Encantada da Jardinagem, que tudo faz, para sobressair na vida dos seres, o amor ao próximo de maneira espontânea e atitude de caráter superlativo.


Este conto eu o escrevi em 10/setembro/2009. Espero que goste. Au revoir. 




A propósito, você já acessou a fan page do meu livro infantil Juju Descobrindo Outro Mundo? Não imagina o que está perdendo. Acesse: www.fecebook.com/jujudescobrindooutromundo.


E o site da Juju Descobrindo Outro Mundo, já o acessou? Se eu fosse você iria conferir imediatamente. Acesse: www.admiraveljuju.com.br 



 Imagens: Google

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Era uma vez Papai Noel


Quando presenciamos uma criança maravilhada com o brinquedo que acabara de ganhar no Natal; sua felicidade refletida na delicadeza do seu sorriso inocente, nos remete a pensamentos alegres que esta data significou para muitos de nós adultos. Todavia, em algumas ocasiões, essa noite tão esperada, tornou-se símbolo de decepção, até de nostalgia, quando imaginamos a quantidade de crianças, que sequer recebeu o seu brinquedo por mais simples que fosse. O sonho do presente vindo de muito longe, entregue pelo Papai Noel no seu trenó voador, puxado por nove renas com poderes mágicos, nem sempre acontece como deveria. Não fossem, a atitude carinhosa, manifestada no próprio lar, muitas crianças seriam marginalizadas e o seu presente não passaria de um insignificante sonho. Felizmente, há quem se preocupa e o faz acontecer.  

É nesse momento que o sentimento de generosidade familiar invade a sensibilidade humana e os filhos não são esquecidos. Permitindo sobreviver à presença do bom velhinho, mesmo de forma anônima, pelas mãos singelas e calejadas de uma mãe, de um pai ou de alguém responsável, devido à orfandade do destino. Contudo, a grandeza desse amor incondicional, mantém vivo o lirismo do imaginário infantil e a felicidade persiste, transcendendo a barreira do infortúnio para viver somente o esplendor do Natal.

Todos os dias nós nos confrontamos com desafios. Alguns desanimadores, outros indecifráveis. No entanto, entre todos, dois deles martelam na nossa consciência, fazendo-nos refletir os por quês das nossas dúvidas no momento de enfrentá-los: acreditar e superação. Para essas duas determinações, às vezes temos que sacrificar projetos considerados redentores, mudar fórmulas e nos redescobrir. Buscar a verdadeira razão para o nosso encontro com nós mesmos.

Reencontrar o nosso próprio equilíbrio não é fácil.  Obstáculos tempestivos existem, são reais e intransferíveis. Todavia, para que tudo termine bem e o oponente superado, é necessário confiar nas nossas potencialidades, na concepção dos nossos sonhos e conquistar a alegria tão desejada, sem medo de encarar outros desafios que por certo virão. Que tal, da próxima vez, alcançar a nota máxima no seu salto à distância pelo qual tanto lutou? Não importa o que as pessoas pensam e exigem, acredite, o salto é seu somente seu, então voe e conquiste esse seu universo glorioso, restaure sua fé e a sua autoconfiança.

Por exemplo: A magia do Natal precisa voltar a habitar entre as pessoas. Para que, a fé lúdica das crianças não se eterise no anacronismo que a data tenta eternizar pela sua importância memorial; não alimente a diluição do sonho de um milagre, que ao longo dos tempos vem se desgastando pelo excesso impertinente da ausência do amor, da presença de Deus na vida dos gananciosos, dos famigerados seres humanos que só enxergam o valor do dinheiro.

Esta realidade soberba, impiedosa e implacável conseguiu eliminar o encanto e a beleza do Natal, tornando as crianças céticas quanto à existência do Papai Noel. Destruiu a pureza dos sonhos de infância, quando o bom velhinho era aguardado com ansiedade por todos. Independente se a data estivesse mascarada nos rótulos das marcas comerciais e a preocupação principal etiquetada com fatores meramente econômicos, ainda assim, era Natal, era a presença lúdica de Papai Noel e a confirmação das profecias pregadas pelos profetas bíblicos da vinda do Messias, o filho unigênito de Deus.

É importante que a humanidade continue acreditando no Natal e, sobretudo, no dia do nascimento do menino Jesus, 25 de dezembro. Acreditar na estrela de Belém que guiou os Reis Magos à Jerusalém; ter a humildade para reconhecer que um modesto estábulo acolheu o Messias e uma simples manjedoura serviu de leito para o filho de Deus. Que o seu nascimento não corresponda apenas uma ilustração bíblica, mas sim, no enviado de Deus na terra, para salvar a humanidade dos seus pecados e ensinar o verdadeiro sentido do amor. E, deixar esse amor registrado como o seu principal mandamento: "Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de todas as tuas forças; este é o primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes." (Marcos 12:30-31).

Para muitos adultos e até mesmo para muitas crianças, Papai Noel é uma utopia, é um hipócrita seletivo nas suas escolhas, no momento de dar o seu presente de Natal. Ele está mais preocupado em visitar os lares dos granfinos, acenando um adeus ao sonho e a magia que perpetuou ao longo dos tempos, para aquelas crianças que estão à margem da sociedade, desprovidas do resultado financeiro. Quem sabe em algum lugar as crianças infelizes por terem de conviver com as dificuldades diárias, encontrem o pássaro azul e com ele a felicidade?  Surpresas maravilhosas podem acontecer, precisa-se apenas acreditar.

Muitas das vezes a insatisfação gera conflitos e o egoísmo se manifesta arrogante e destruidor. Mínimas coisas são motivos de desavenças, por isto, a presença da humildade seja tão necessária. Ela é complacente e tolerante, capaz de produzir efeitos mágicos surpreendentes de bondade e compreensão. Duas virtudes pilares para a boa convivência. Não ostenta o luxo, substitui este brilho artificial, pelo vigor da sabedoria. Esta sim, é uma companhia fecunda e real solução para tantos males que teimam serem soberanos. Então o olhar terno da criança modifica a face vincada do sofrimento, pelo resplandecer da aurora e o prelúdio de uma nova vida, refeita pela boa vontade de Deus, que brota através da semente do amor.

Bússola Literária estará ao seu lado criança de todas as idades, comemorando a mensagem que a data requer; seguindo a Estrela de Belém, ao lado dos reis magos e do bom velhinho, seja ele atendendo pelo nome de Noel, Nicolau, Claus e tantos outros nomes, mas que esteja vestido de vermelho, cabelo e barba brancos, viajando pelo mundo distribuindo bondade e simpatia, no seu trenó mágico e suas renas, em inglês: Rudolph, Dasher, Dancer, Prancer, Vixen, Comet, Cupid, Donner e Blitzen. Em português: Rodolfo, Corredora, Dançarina, Empinadora, Raposa, Cometa, Cupido, Trovão e Relâmpago. Portanto Feliz Natal pra ti, e que, em 2015, continuemos juntos, distribuindo sorrisos e bons momentos de leitura.

Ah, o Bússola Literária, não poderia deixar sua noite e o seu dia de Natal, sem algo interessante para ler. Por isto, seguem-se três pequenos e belos contos, cuja autoria é desconhecida, sobre os quais não temos dúvidas, farão muito bem ao seu coração.



O Presente



Acordei nesse primeiro dia de dezembro, com vontade de comprar um presente para Jesus, afinal, não existe maior amigo que o Mestre dos Mestres, e no dia 25 o aniversário é Dele.

Saí cedo de casa e fui ao maior Shopping Center da cidade, pensei primeiramente numa camisa branca, mas quando vi que o branco mais branco da Terra, ainda era cinza perto da sua pureza, fiquei com vergonha e desisti. Em outra vitrine vi um sapato de couro, lindo e caríssimo, mas quando me lembrei dos seus pés calçados pelas sandálias da missão cumprida, achei que não existiria na Terra algo tão confortável que merecesse os seus pés.

Uma caneta foi isso que a próxima vitrine me apresentou, uma linda caneta de marca famosa. Seria um lindo presente, mas lembrei-me que Ele nunca escreveu nada, tudo que Ele falou, mostrou na prática, servindo e amando sempre.

Lembrei-me, que um dia Ele falou que não tinha sequer um travesseiro para recostar sua cabeça, então eu pensei no melhor travesseiro de plumas de uma loja especializada em sono. Era importado e muito confortável, mas lembrei-me que os justos dormiam tranquilos e que Ele jamais usaria o travesseiro.

E, assim fui olhando as vitrines, abotoaduras de ouro, malas de viagem, bebidas finas, comidas importadas, tudo supérfluo, tudo matéria que o tempo iria corroer. Confesso que saí um pouco chateado do Shopping, afinal eu saíra para comprar um presente para Você Jesus, e não havia achado nada. Na porta do Shopping, um menino muito miudinho sorriu para mim, perguntou meu nome e eu o dele. Ele riu e me estendeu a mão, tinha o rosto muito sujo, as mãos encardidas; perguntei pela sua mãe, ele deu de ombros, sobre o pai, nem sabia onde estava... perguntei se ele queria tomar um lanche, ele sorriu um sim, pegou na minha mão.

Na porta do Shopping olhou para suas roupas e olhou para mim. Sabia que não estava corretamente vestido, peguei-o no meu colo – era a senha para ser feliz –, seus olhinhos miúdos percorriam aquelas luzes, enfeites e pessoas bonitas como se fosse um filme de Walt Disney...

Na lanchonete sentou na cadeirinha giratória e sorriu como “reizinho”, e entre uma montanha de batatas fritas, ríamos felizes como dois velhos amigos.

Falamos sobre bolinha de gude, pipas e bola de futebol, coisas importantes para o ser humano, principalmente, quando somos crianças. Devoramos dois lanches e, quando perguntei se ele queria um sorvete gigante como sobremesa, seus olhos brilharam feito o sol. Pedi um instante, fui até o caixa, quando voltei com os sorvetes na mão, ele já não estava mais ali...

Por um instante, pensei que ele havia ido ao banheiro ou estaria olhando a lanchonete, mas não estava ali mesmo. Foi quando sobre a caixa de batatas vazias, vi um papelzinho, um bilhetinho escrito com letra miúda, que dizia assim: “Obrigado pelo melhor presente de aniversário que poderia me dar. Fizeste feliz um dos pequeninos do mundo!”



A maior bronca que já levei




Tínhamos uma aula de Fisiologia na escola de medicina, logo após a semana da Pátria. Como a maioria dos alunos havia viajado aproveitando o feriado prolongado, todos estavam ansiosos para contar as novidades aos colegas e a excitação era geral. Um velho professor entrou na sala e imediatamente percebeu que iria ter trabalho para conseguir silêncio. Com grande dose de paciência tentou começar a aula, mas você acha que minha turma correspondeu?

Que nada. Com certo constrangimento, o professor tornou a pedir silêncio educadamente. Não adiantou, ignoramos a solicitação e continuamos firmes na conversa. Foi aí que o velho professor perdeu a paciência e deu a maior bronca que eu já presenciei.

- Prestem atenção porque eu vou falar isso uma única vez, disse, levantando a voz e um silêncio carregado de culpa se instalou em toda a sala e o professor continuou.

- Desde que comecei a lecionar, isso já faz muitos anos, descobri que nós professores, trabalhamos apenas 5% dos alunos de uma turma. Em todos esses anos, observei que de cada cem alunos, apenas cinco são realmente, aqueles que fazem alguma diferença no futuro; apenas cinco se tornam profissionais brilhantes e contribuem de forma significativa para melhorar a qualidade de vida das pessoas. Os outros 95%, servem apenas para fazer volume; são medíocres e passam pela vida sem deixar nada de útil.

- O interessante é que esta percentagem vale para todo o mundo. Se vocês prestarem atenção notarão que, de cem professores, apenas cinco são aqueles que fazem a diferença; de cem garçons, apenas cinco são excelentes; de cem motoristas de táxi, apenas cinco são verdadeiros profissionais; e podemos generalizar ainda mais: de cem pessoas, apenas cinco são verdadeiramente especiais.

- É uma pena muito grande não termos como separar estes 5% do resto, pois se isso fosse possível, eu deixaria apenas os alunos especiais nesta sala e colocaria os demais para fora, então teria o silêncio necessário para dar uma boa aula e dormiria tranquilo, sabendo ter investido nos melhores.

- Mas, infelizmente não há como saber quais de vocês são estes alunos. Só o tempo será capaz de mostrar isso. Portanto, terei de me conformar e tentar dar uma aula para os alunos especiais, apesar da confusão que estará sendo feita pelo resto.

- Claro que cada um de vocês, sempre pode escolher a qual grupo pertencerá. Obrigado pela atenção e vamos à aula de (...).

Nem preciso dizer o silêncio que ficou na sala e o nível de atenção que o professor conseguiu após aquele discurso. Aliás, a bronca tocou fundo em todos nós, que a minha turma teve um comportamento exemplar em todas as aulas de Fisiologia, durante todo o semestre. Afinal, quem gostaria de espontaneamente ser classificado como fazendo parte do resto?

Hoje não me lembro muita coisa das aulas de Fisiologia, mas a bronca do professor eu nunca mais esqueci. Para mim, aquele professor foi um dos 5% que fizeram a diferença em minha vida. De fato, percebi que ele tinha razão e, desde então, tenho feito de tudo para ficar sempre no grupo dos 5%. Mas, como ele disse, não há como saber, se estamos indo bem ou não. Só o tempo dirá a que grupo pertencemos.

Contudo, uma coisa é certa: se não tentarmos ser especiais em tudo que fazemos; se não tentarmos fazer tudo o melhor possível, seguramente, sobraremos na turma do resto.




O Presente das Rosas




Três homens, sendo um ingrato, um conformado e um generoso, foram visitados, no mesmo instante e local, por um Gênio saído da lâmpada.

Diante do inusitado um deles falou:

- Gênio, o que nos trazes?

- Rosas! – Disse o Gênio.

E, abrindo o seu manto mágico, dele retirou três lindos buquês de rosas, que os ofereceu aos visitantes, entregando um para cada. Antes de partir, olhou-os fixamente, percebendo algum desapontamento por conta da simplicidade de sua oferta, justificou-se:

- Rosas... porque elas são jóias de Deus. Deixam a vida mais rica e bela! Os homens se entreolharam surpresos e, após se despedirem, cada um seguiu o seu destino, dando finalidade diferente ao presente recebido.

O ingrato, maldizendo sua falta de sorte, por haver encontrado um Gênio e dele recebido apenas flores, jogou-as num rio próximo.

O conformado, embora entristecido pela singeleza do presente, levou-as para casa, depositando-as num jarro.

O generoso, feliz pela oportunidade que tinha em mãos, decidiu repartir seu presente com outras pessoas. Foi visto pela cidade distribuindo rosas, de ponta a ponta, com um detalhe: quanto mais rosas ofertava, mas seu buquê crescia de tamanho, beleza e perfume. Ao final, retornou para casa com uma carruagem repleta de rosas.

No dia seguinte, no mesmo local e instante, os três homens se reencontraram e, de súbito, ressurgiu o Gênio da véspera.

- Gênio, que desejas? – Disse um deles.

- Que as vossas rosas se transformem em jóias! – Disse o Gênio.

Dessa forma, o homem generoso encontrou em casa uma carruagem repleta de jóias, extraordinariamente belas, tornando-se rico comerciante.

O homem conformado, retornando imediatamente para o seu lar, encontrou, pendurado sobre o jarro, onde depositara as rosas, um lindo e valioso colar de pérolas. Resignou-se em ofertá-lo à sua esposa.

O homem ingrato, dirigindo-se ao lugar onde jogara o buquê de rosas, viu refletindo sobre as águas, um brilho intenso, próprio de jóias valiosas, que sumiram de seus olhos, quando se atirou ao rio no propósito de alcançá-las.


Nota: O Bússola Literária tem o prazer de agradecer ao site Contadora de Histórias, pela nobreza de compartilhar estes três lindos e edificantes contos, extraídos do seu arquivo. Obrigado ao seu administrador, com os nossos votos de um feliz Natal! E que, em 2015 continue publicando textos com esplêndidos exemplos de virtudes invejáveis.



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E o site da Juju Descobrindo Outro Mundo, já o acessou? Se eu fosse você iria conferir imediatamente. Acesse: www.admiraveljuju.com.br 


Imagens: Google


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Infância, saudosa inocência


As gerações dos anos 50 ou décadas anteriores, um tempo não muito distante, hoje pode ser considerada careta, antiquada, ultrapassada, aos olhos dos jovens antenados do momento. Mas andam de cabeça erguida conservando os princípios que a sociedade da época os mantinha com orgulho. Princípios estes, considerados relíquias memoráveis que não merecem ser apagadas. Uma descendência que privilegiava o caráter sem mácula, coeso e sustentado por ensinamentos alicerçados na boa conduta dos seus antepassados.

É essa geração que tenta de forma incansável colocar no ápice dos trilhos, o futuro de um nome, de uma identidade, de um poder irrestrito de cultivar a luminosidade de um passado nobre.

Na verdade, nem todas as personagens dessa época ficaram no obscuro, no ostracismo. Sendo autênticos remanescentes de um tempo onde a felicidade simples e contemplativa imperava. Distante da tecnologia dos modelos contemporâneos, mas, com maestria, exerciam a arte da criatividade ao confeccionar de forma artesanal os seus próprios brinquedos.

Não dispunha de vídeo games, micro computador, internet, tevê em cores, a cabo, MP3, MP4, iPad, tablet e um monte de recursos eletrônicos já profetizados por Marshall MacLuhan na sua obra "Guerra e Paz na Aldeia Global (1968)", e que as crianças de hoje já os conhecem desde o parto. Um fato tão real quanto aos modernos equipamentos cirúrgicos e preventivos hoje disponíveis.

Até os anos 70/80, as músicas continham além de melodias saborosas ao deleite dos ouvidos, letras construtivas, elegantes, mensagens singelas e graciosas. Os recursos fonográficos estavam longe do alcance do século XXI, mas com orgulho os sobreviventes desse período se envaidece tê–lo vivido. As crianças cultivavam a inocência. Acreditava em Papai Noel, fadas, anjos, cegonha, amizades autênticas e, sobretudo em Deus.

As crianças tinham dons inventivos e criativos. Brincava–se de carrinhos, às vezes construídos por eles próprios; bolinha de gude, pião, cabo de guerra, arremessar finca, papagaio, pique esconde, cabra cega, a sua direita está vaga, salve cadeia e muitas outras brincadeiras.

As garotas divertiam–se com bonecas simples – sem os atuais recursos de voz – às vezes de pano, casinha, cozinhadinho, entre outras diversões com a participação dos garotos. Poderia nesta explanação, muito bem omitir essa relação de atividades compartilhadas, também não seria justo serem ofuscadas. A galerinha atual, talvez não as conheça, por isto estão aí modestamente mencionadas.

Era uma infância que não precisava de academia. Gastava–se muita energia com atividades inocentes e virtuosas. Estudava–se muito... Era uma determinação dos pais, baseada no princípio de que, quando crescessem haveriam de gozar uma vida melhor e mais abundante. Sem quem sabe, ter que enfrentar as dificuldades ocorridas com os seus genitores na labuta diária, mesmo existindo boa vontade e determinação. 
  
Esse era o argumento utilizado como forma de incentivo, na vanguarda de encarar o futuro com alicerce estruturado, diante das intempéries do cotidiano.

O respeito, não se traduzia em medo, mas em obediência, em princípios. Pedir benção, não significava uma obrigação, mas uma forma dos pais privilegiarem sua cria com uma dádiva vinda dos céus. E tomar banho, escovar os dentes, não era uma provocação, mas um cuidado indispensável à higiene. 
   
E hoje, mudou-se muito? Nem tudo. As brincadeiras de outrora não fazem mais sentido para quem nos seus primeiros movimentos já utilizam carrinhos para locomoção. No entanto, a tecnologia e a consequente atitude fria dos objetos modernos, deteriorou o lúdico que minava na pele queimada pelo sol. E no coração radiante por novas descobertas. Êhhhhh... Saudade!

O suor que escorria pelo corpo, depois de uma tarde inesquecível desencadeada por uma eletrizante partida de futebol – as peladas –, pelas ruas nuas e cheias de pedras das cidades sem o asfalto, ou nos campos improvisados sem gramados espetaculares, mas de chão duro e seco. No coração dessa garotada, reinava a inocência, a ausência da maldade declarada, existia o perdão e o esquecimento.

Chegou à hora de tocar a bola pra frente. Ir de encontro à bola da vez, em sintonia com o que há de mais avançado no mundo cibernético. Atingir a máxima capitulação da fronteira entre a infância e a vida adulta.

Antes se chegou à lua. Nos dias de hoje, o universo ficou relativamente pequeno, tornando–se possível e fácil, transferir–se das histórias de ficção à realidade plenamente tocável.

Enquanto uns viviam no condicionado paradigma do convencionalismo da época, hoje as preocupações giram em torno do visual, da estética.

É normal encontrar crianças com menos de cinco anos, frequentando salões de beleza, usando maquiagem, cabelos adornados, unhas pintadas, óculos escuro, sapatos de saltos altos, roupas espelhadas nos artistas da tevê, do cinema, ou na própria mãe. Vitrine dinâmica na profusão contínua das criações e inventos do mundo globalizado.

Para os meninos de hoje, os brinquedos eletro/eletrônicos não são duráveis, as inovações estão em mutação contínua e sem aviso prévio. E, na natureza humana as ansiedades aumentaram, antecipando de forma prematura de uma fase lírica, inesgotável de generosidade e irresponsabilidade, para uma fase adulta totalmente responsável – pelo menos é o que se pressupõe – com total aquiescência dos pais, da família.

Essa atitude negligente e despropositada tornou–se alvo fácil à propagação e revelação dos casos escabrosos de comportamento, de pedofilia, sedução, corrupção, aliciamento, gangues, sequestro, tráfico. Enfim, crimes de todos os matizes contra a criança.

Comprovando sem rodeios, que a inocência já foi ultrajada, pelo menos há muito tempo. E a sociedade com os olhos vendados, na sua condição torpe e inadequada, continua os impedindo da contemplação do horizonte infinito. Com a prática responsável dos ensinamentos Divino. 
   
Sabe–se também, que com todo o advento da modernidade, as crianças de hoje, encontram–se mais vulneráveis. Os casos de internações aumentaram, a ciência evoluiu, enquanto as doenças misteriosas se intensificaram. As infecções hospitalares prosperaram, o famigerado fantasma da fome e da sede mostrou a sua cara.

Na África e em outros lugares do planeta menos assistidos, a Aids com sua foice impiedosa não tem poupado o seu golpe fatal. Se procurar nas anotações dos hospitais, clínicas e postos de saúde, vai-se encontrar doenças que nem os pesquisadores mais notáveis de algum tempo atrás, imaginariam que um dia viessem a existir.

Não há dados comprovados de que no passado os casos graves do presente também se manifestavam com tanto rigor, apenas uma certeza indiscutível se verifica refletida no incondicional mapa da sobrevivência. Antes a imunidade infantil gozava de mais prestígio. Não se via com tanta incidência as intoxicações causadas por alimentos contaminados.

As produções agrícolas não sofriam com o excesso de instrumentos e métodos de controle de pragas, como agrotóxicos poderosos, aplicados de maneira irresponsável pelos produtores em detrimento de lucros fáceis. O cultivo de frutas e legumes era natural, quase que totalmente feito de maneira simples, orgânica, mas de grande eficiência nutritiva.

Por que se tornou necessário a utilização de inúmeras vacinas preventivas? Ter que deixar a marca – teste do pezinho – do pé do recém nascido gravada como forma de detectar males oportunistas, endêmicos e contagiosos? Se antes, com um simples chazinho caseiro, ou uma simples imposição de fé – crendices – por meio das benzições, praticadas geralmente pelas pessoas mais idosas – tradição herdada de várias gerações. Propiciava o bem estar tão desejado, preservando a saúde em toda sua plenitude? 

Será que a ignorância tinha lá o seu valor? Ou será a ignorância a consequência de tantos acontecimentos positivos? Será que foi essa mesma modernidade através dos meios de comunicação que veio trazer à tona as evidências do real, revelando esses males à nitidez dos acontecimentos tão cruéis?

Todas estas perguntas bailam impunes nos lares de nossa comunidade assistida ou não, porém sedenta de proteção, sedenta do olhar dos céus.

A perpetuação da inocência não é mais um predicado só das crianças. Os adultos já fabulam essa virtude, mesmo de forma abstrata, mas com o inconsciente em pleno exercício de sua nobreza infantil.

Fernando Pessoa, através de fragmento do seu poema Girassol é quem dará o golpe de misericórdia para esse relato de reflexão. "...Eu não tenho filosofia, tenho sentidos...// Se falo na natureza não é porque a amo, amo-a por isso, // Porque quem ama nunca sabe por que ama, nem o que é amar...// Amar é a eterna inocência// E a única inocência é não pensar."


A propósito, você já acessou a fan page do meu livro infantil Juju Descobrindo Outro Mundo? Não imagina o que está perdendo. Acesse: www.fecebook.com/jujudescobrindooutromundo.

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Imagem: Google imagens