terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Mel da Tâmara


Caminhando pelo Saara de sua subsistência, um beduíno errante, conhecido em toda dimensão do deserto por Sharif, resolve entregar-se ao descanso dos deuses. Merecidamente, afinal naquele dia já havia viajado por horas sob o sol causticante na sua seara de amor, lutas e conquista. Seu corpo carecia de repouso e seria ali, debaixo da tamareira o lugar ideal para repor energias. Assim, no oásis de seus encantos, sob a sombra fresca da tamareira, na solidão do pastoreio, cogitou instalar-se ali, expectante que o céu azul turquesa do momento, mostrasse no horizonte dos seus olhos reluzentes, o pôr-do-sol cheio de presságios bondosos, uma visão poética do sol se escondendo atrás das dunas, as quais ele se negava a não contemplar.

Cobrindo sua cabeleira, um turbante nácar expunha sua genialidade e sua elegância. Com o pensamento flutuando no universo das recordações, vagou por épocas belíssimas remetendo-se à sua infância junto à família, aos primeiros aprendizados e lições recebidas. Acessou fragmentos de sua jovialidade e, num estalar de dedos, surgiu na sua mente requintes de um acontecimento que marcou sua vida, suas ações, seu respeito à natureza e de quem dela abastece as necessidades do corpo: o sabor adocicado da tâmara, feito a essência de mel suave. Sua boca salivou sentindo o prazer do seu sabor. Nesse momento, já no acalanto da noite, olhou para o céu todo iluminado por uma constelação de luzes proféticas, agradeceu ao Divino as bênçãos concedidas e se entregou à meditação.

Oh, como é perfeita a obra do Criador! Sonorizou num estufar do peito e deliciou-se com o momento. Só ele e uns poucos conheciam a felicidade de sentir aquele sabor inenarrável, e dormir sentindo o aconchego de uma tamareira bem no abstrato mundo das ilusões, dos sonhos e da esperança. Abriu preguiçosamente os braços, bocejou calmamente, cerrou os olhos, com a alma vigilante descansou o corpo dolorido pelas viagens da sua vida.

Durante o sono, transmutou-se para outra realidade, alvissareira e enigmática. Atraído pelos devaneios da mente, encontrou-se com Malba Tahan. Pela fluidez dos sentidos, tornou-se impossível não divisar-se frente a frente com o homem que calculava: Beremiz Samir, o gênio dos cálculos. Beremiz exercitava com tanta determinação sua capacidade de fazer cálculos que, aproveitando dessa sua faculdade tão extraordinária, resolveu ajudar o seu patrão nos negócios com as tâmaras. Passou então, a contar todos os frutos dos cachos das tamareiras pelos oásis sob o seu domínio. Sua habilidade com a matemática era tão fascinante, que já o havia permitido contar os pássaros em bando no céu; folhas das árvores durante o trajeto de sua viagem à Bagdá do Século XIII; e todas as abelhas de um enxame.

Sharif, nômade por ideal e origem, conhecia muitas histórias e lendas sobre as tamareiras e o seu fruto. Na sua maioria, contadas por diferentes etnias, pesquisadores e andantes do árido deserto. Orgulhava-se de narrar aos viajantes menos esclarecidos às vantagens, curiosidades, e as crenças religiosas que elas representam para os povos da imensidão desértica.

Não era um estudioso, tampouco conhecia de botânica, muito menos havia sentado num banco escolar tradicional. Sua sabedoria vinha de uma mente prodigiosa, adicionada as experiências da vida adquiridas nas suas andanças pelo deserto escaldante e, de ter aproveitado as oportunidades como ouvinte se informar de assuntos diversos travados entre os inúmeros desconhecidos que encontrara pelo caminho. Com esse estranhos, embora mestres por experiências vividas, pode absorver cada detalhe das suas histórias contadas, tendo como cenário o deserto e suas inóspitas surpresas. 

Mesmo na sua maneira simples de expressar, Sharif dava “show” de conhecimentos e se envaidecia com o prazer de poder compartilhar o seu saber, abordando os fatos com maestria e singularidade. Atitude digna de uma pessoa que realmente fazia justiça à sua personalidade de incansável desbravador de conteúdos. Focava com desenvoltura os temas relativos ao deserto, desde o “b a bá” até as mais notáveis histórias de outras civilizações.

Ao se despertar-se do sono reparador, surpreendeu-se diante de si, uma pequena comitiva de mestres e alunos em viagem de estudos, desenvolvendo os seus primeiros trabalhos “in loco”, com a finalidade de absorver experiências além dos livros. Assim que o viram deitado na tranquilidade que lhe era permitido, sorvendo a embriagante aragem da manhã, aproximaram-se cordiais, na tentativa de manter segura aquela oportunidade rara: estarem frente a frente com o homem símbolo daquele território. Apresentaram-se, em seguida indagaram se ele estava disposto para conversar e revelar algo relevante dos seus conhecimentos a respeito do Saara, sobre o qual tão bem conhecia. 

Com muita disposição se prontificou a colaborar. Para ele era um prazer fazer aquele obséquio. Ao começar os seus relatos, coincidência ou não, com o sonho que acabara de vivenciar, escolheu como tema a tamareira. Sua importância na vida dos povos do deserto, outro mundo exclusivo dos bravos e destemidos de raça e fé. Seria uma forma de agradecer as tantas vezes que aquela majestosa palmeira, havia lhe dado o alimento tão necessário, conforto e o bem estar de sua sombra.          

Lembrou-se providencialmente da página de uma revista americana, guardada com muito cuidado nos seus alforjes, sobre a qual um sábio viajante a traduziu para ele. Pegou o papel já amarelado, mostrou a cada um, para que não houvesse dúvida quanto a veracidade dos fatos, contou o seu conteúdo, que dizia entre outras informações, uma que considerou muito importante: “Segundo a FAO – Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação - os países asiáticos e africanos, principalmente Egito, República Islâmica do Irã, Arábia Saudita, Paquistão, Iraque e os países vizinhos juntos, produzem aproximadamente 98% das tâmaras do mundo. Estados Unidos, Espanha e México produzem o restante”.

Acrescenta a metéria, que as tâmaras são um cultivo de subsistência de extrema importância em quase todas as regiões desérticas. Para milhões de pessoas constituem um importante alimento nutricional, vindo a contribuir de forma significativa com a cultura alimentar e a agrobiodiversidade da população.     

A partir daí, o assunto foi fluindo naturalmente, deixando evidente o seu vasto conhecimento. Esclarece ainda o simpático beduíno, que a tamareira é uma espécie de palmeira, que nasce nas alturas, símbolo de retidão e vitória. Crescem para cima e para baixo, suas raízes descem as mais profundas camadas, até encontrar solo rochoso onde se abraçam nas rochas, adquirindo força para suportar os fortes ventos e tempestades do deserto, mantendo-se sempre de pé.

Fazendo-se valer dos seus conhecimentos científicos, adquiridos através do convívio com intelectuais do deserto, e pela sua sede pelo saber, continuou dizendo que a tamareira ou datileira – Phoenix dactylifera – é uma planta de quinze a vinte metros de altura, surgindo às vezes em touças, com vários troncos partilhando o mesmo sistema radicular, ainda que, não pertencendo a mesma touceira, mas de forma isolada. As folhas são frondes pinadas, com até três metros de comprimento, pecíolo espinhoso e cerca de 150 folíolos. Cada folíolo tem por volta de trinta centímetros de comprimento e dois centímetros de largura. Quando terminou, todos se entreolharam incrédulos com o que acabaram de ouvir, principalmente por ter partido de um simples homem do deserto.

Concluído sua explanação, por meio da manifestação dos gestos de suas mãos, apontou para todas as tamareiras que se exibiam elegantes no oásis em que se encontravam. Insatisfeito com o seu argumento, resolveu não dar por terminada sua fala. Então, disse a todos, que alguém o havia informado certa vez, sobre um pesquisador brasileiro, doutor em melhoramento de vegetais de nome Manoel Abílio de Queiroz, membro do Centro de Pesquisas Agropecuárias do Trópico Semi-Árido e o Centro Nacional de recursos Genéticos, órgãos de estudos da Embrapa, no Estado de Pernambuco, o qual havia dito que: “Uma boa  surpresa foi à adaptação da planta no sertão. Começou a dar frutos com quatro anos depois de plantada. No Oriente Médio, isso acontece aos oito anos”. Acrescentou ainda que, além do fator econômico, a tamareira também oferece vantagens ambientais. Elas fertilizam o solo, suavizam a temperatura e interrompem a progressão das zonas em processo de desertificação.

Demonstrando serenidade, atitude comum nos contadores de histórias, Sharif disse que a tamareira é uma planta bastante cultivada há milênios pelos seus frutos comestíveis. Sua área natural de distribuição é desconhecida, mas supõe-se sua origem ter surgida nos oásis do deserto  da região norte africana.

Há controvérsias, algumas pessoas, acreditam sua origem é do Sudeste da Ásia. Talvez por terem servido de alimento e abrigo aos egípcios, babilônios e assírios. Há também aqueles fervorosos nas suas crenças religiosas, que afirmam ter Moisés se servido do seu fruto na sua saga de encontrar a Terra Prometida. Aos seguidores do islamismo e sua fé a Allah, acreditam que o profeta Maomé na sua cruzada pelo deserto, teve nas tâmaras o seu principal alimento.

Mesmo depois de ter prestado ricas informações, ainda não satisfeito, Sharif resolveu enveredar-se mais uma vez no conhecimento científico, ao dizer que a planta se trata de uma espécie dioica, apresentando na sua genética, flores masculinas e femininas responsáveis pelo nascimento de palmeiras diferentes. Sendo que, só as fêmeas produzem frutos, polemizados pelo pólen fornecido pelos machos.

Continuou seu relato já em estado de exaltação. Estar ali, conversando com pessoas tão ilustres, ressaltando suas experiências, disse sem se hesitar: “Segundo informações provenientes de alguns comerciantes brasileiros e de um livro que mantenho entre os meus guardados, traduzido para o idioma árabe pela Universidade do Cairo. As primeiras plantas da tamareira foi introduzida no Brasil, há muitos anos. Porém estudos sistemáticos realizados com o sua utilização para o cultivo, revela que, o primeiro registro de sua introdução data de 1928, quando algumas fontes reprodutivas chegaram a São Paulo. Na época, alguns estudos foram realizados na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, onde foram originadas algumas variedades”. De forma instintiva, Sharif, imediatamente de posse do livro, abriu na página desejada, comprovou o seu relato.  

Depois de uma breve pausa e uma boa respirada, Sharif quis certificar-se se seus atenciosos ouvintes tinham alguma dúvida, ou se estavam satisfeitos com cada detalhe abordado. De repente começou a sorrir provocando a curiosidade de todos. Misturando palavras desconexas com o seu riso, passou a contar a história de um laociano de nome Sansunnang Vaiollang, vindo da região de Luang Prabang no Laos, justamente o local considerado pela UNESCO como Patrimônio Cultural da Humanidade.

Conta Sharif que o "laociano Sansunnang, de posse de uma foto em que, se estampava várias tamareiras de sua terra, olhou para as nossas palmeiras aqui do deserto, começou a dar gargalhadas sem explicação. Depois de muito tempo, foi que entendeu o motivo de tanta graça. Simplesmente porque as tamareiras de sua terra eram anãs. Ele brincou com a situação dizendo que as da sua região eram muito jovens, mas que um dia seriam tão grandes quanto as nossas. De repente mudou sua jeito divertido, para uma aparência demonstrando seriedade, começou a me contar como se fosse realmente um grande entendido no assunto. Disse ele, que a tamareira anã – Phoenix Rebelenni O’Brien – é uma pequena palmeira originária da sua região na Ásia. Ela é largamente cultivada como planta ornamental nos trópicos e nas regiões subtropicais e temperadas. Possui estipe de dois a quatro metros de altura e cerca de dez centímetros de diâmetro", conta.

Acrescenta: "As plantas femininas ocorrem geralmente agrupadas em grandes touceiras. Seus frutos alongados, com aproximadamente um centímetro e meio de comprimento, são numerosos e de coloração variando de vinho a preto quando maduros." Terminou sua exposição mostrando-se uma pessoa além do senso de humor à flor da pele, um grande caráter, completa Sharif.

Além das lendas e histórias de conteúdos mágicos, o atencioso beduíno, contou aos curiosos que a tamareira é considerada árvore sagrada e mágica há milhares de anos. No Egito era uma espécie sagrada, a folha símbolo do deus Heh, que representa a eternidade. Mais tarde, passou a ser símbolo de fecundidade, fertilidade e vitória.

As tâmaras também são usadas como doces ou como quitutes afrodisíacos. Os egípcios as comiam antes de fazer sexo. E ainda, tem como lenda a relacionada ao desterro da Virgem Santíssima no Egito, em que, Maria havia procurado abrigo e descanso sob a sombra de uma tamareira, a qual se inclinou para que as tâmaras ficassem ao alcance de suas mãos.

Sharif sem perder o ritmo sempre atencioso com os seus ouvintes, mestres e estudantes que deixaram sua Universidade em busca de conhecimentos fora dos padrões de ensino desenvolvido dentro do próprio Campus Universitário. Pelo que demonstravam, pareciam estar em estado de graça com suas maneira de contar sobre a palmeira e seu fruto, quando mencionou a importância dos Paleontólogos, os quais também deram sua contribuição na rica história das tâmaras.

Segundo esses pesquisadores incansáveis, uma semente com cerca de dois mil anos, foi encontrada nas escavações realizada em 1963, no deserto da Judeia. Esta preciosa descoberta foi plantada por cientistas israelenses e germinou, segundo artigo publicado na revista especializada Science. A região é a mesma da antiga fortaleza do rei Herodes, em Masada, perto do Mar Morto.

Na ocasião, os cientistas encontraram um grupo de sementes, que as mantiveram em uma sala com temperatura ambiente adequada, na intenção de estudá-las mais a fundo. O lugar era famoso por suas tâmaras com propriedades medicinais e principal produto de exportação da região hoje ocupada por Israel.

O simpático beduíno Sharif observou atentamente a todos, depois olhou para o alto e notou quão tinha passado o tempo. O sol já estava no auge de seu posicionamento no céu, foi quando teve noção de que a conversa que seria para poucos minutos, já se passara pelo menos um quarto do dia.

Embora os mestres e estudantes estivessem satisfeitos e impressionados com os requintes dos esclarecimentos, fez questão de encerrar sua fala com algo lúdico, contando que Ali Babá e os Quarenta Ladrões também se beneficiaram tanto da doçura do fruto quanto do repouso de sua sombra nas imediações da caverna encantada de Sésamo.

Agora sob os encantos de Mil e Uma Noites de imagens e conteúdo. De ter falado pra uma turma de elevados padrões culturais, aquele seria o momento ideal para colocar-se a caminho de sua jornada. Não sabia quanto tempo duraria, mas tudo bem, já havia descansado por sete sois e sete luas. Assim o dever o aconselhava cumprir sua missão e seguir adiante.

Este relato bem que poderia ter sido apresentado por um dos alunos presentes naquele dia de memorável aprendizado e, servido de subsídio para sua tese na Universidade, sobre vegetais do árido e semi-árido.

No entanto, se algum dia encontrar um beduíno com as características de Sharif procure-se aproximar dele. Se não for o próprio Sharif, não maldiga falta de sorte. Todos os povos do deserto têm lindas histórias pra contar. Verá que existe doçura no olhar e nas atitudes dos pacíficos de alma, bondade cultural da sua raça e no mel da tâmara.



Nota: Esta crônica Mel da Tâmara já esteve disponível aqui mesmo no Bússola Literária, desde 26 de setembro de 2009. Agora resolvemos dar uma repaginada e, revivê-la com várias modificações no seu texto original. Quem sabe também, seja o momento para que sirva como objeto de discussão num fórum de debates, abrangendo não só o seu conteúdo sob forma de pesquisa, mas literário e ortográfico.


Imagens exclusivas por Neli Vieira: ilustradora, artista plástica, escritora e poetisa.

Texto baseado de excertos compilados na internet.



A propósito, você já acessou a fan page do meu livro infantil Juju Descobrindo Outro Mundo? Não imagina o que está perdendo. Acesse: http://facebook,com;jujudescobrindooutromundo.


E o site da Juju Descobrindo Outro Mundo, já o acessou? Se eu fosse você iria conferir imediatamente. Acesse: www.admiraveljuju.com.br   



domingo, 8 de novembro de 2015

O fabuloso encontro com os gnomos



Já era noitinha, a chuva caía implacável. Ventos fortes balançavam com violência os galhos das árvores; trovões ecoavam semelhantes a tambores de alguma comunidade primitiva e os relâmpagos riscavam o céu desenhando o medo e a apreensão entre os habitantes de Natal, pequeno lugarejo situado num país chamado Felicidade. Toda a iluminação elétrica havia acabado, e a escuridão dominava acentuando ainda mais a sensação de terror. 

O ano é 2007, João Vitor, garoto de 08 anos, além de muito ativo e inteligente para sua idade, tinha seus improváveis sonhos, provindos da sua mente prodigiosa e o gosto pela leitura. Contos de Fadas eram suas histórias preferidas. E os gnomos seus heróis. Difícil explicar sua predileção por esses seres distantes da realidade de onde nascera e muito mais distante da possibilidade de um dia poder estar frente a frente com essas pequenas criaturas da ficção infantil.

Naquele momento torrencial não se podia fazer nada, senão aguardar o temporal passar. Enquanto isto, seus pais Guilherme e Jordana, com muita calma e insistência conseguiram levá-lo à sua cama e com paciência fazê-lo dormir. Depois de muito revirar de um lado a outro sobre o lençol já desfeito pela sua inquietação, adormeceu. Mesmo convivendo com um sono atribulado, sonhou caminhando pelos cômodos de sua casa.

No seu sonho, à medida que passeava pelos cômodos, olhava os móveis sem nenhuma novidade aparente, exceto um detalhe. Quando aproximou-se da porta que permitia a saída para o quintal, assim que a abriu, deparou-se diante de si, uma surpresa inexplicável e encantadora. Uma linda e colorida estrada divisou-se à sua frente. Em suas margens flores diversas davam o tom da beleza distribuindo encanto e cores. No céu azulado algumas nuvens e vários pássaros se exibiam enobrecendo aquele cenário mágico.

Todo aquele esplendor expressava a dimensão da sua admiração. Seu corpo permanecia estático, feito a uma estátua de bronze. Entretanto algo inexplicável o impedia de seguir adiante. Atraído pela chama da sua curiosidade incendiando o seu desejo de poder tocar, pisar e caminhar por aquela estrada colorida, até aonde sua vista alcançasse, não resistiu.

Por um impulso incontido, começou a caminhar, caminhar e caminhar... Depois de algum tempo, ao longe avistou a silhueta, semelhante uma miragem de um bosque. Pela distância não permitia uma definição clara, nítida. Contudo, sem desanimar continuou a andar. Precisava constatar aquela visão incompreendida. Quando estava bem próximo, pode verificar que realmente tratava-se de um majestoso bosque.

Enfim, chegou. Com os sentidos apurados de uma criança, deliciou-se com o aroma e as variadas tonalidades de verde, as quais tornavam aquele lugar um enigma a ser desvendado, a ser explorado e registrado como sendo uma bela descoberta. Uma nova história geográfica estaria ali intacta e instigante, pronta para ser explorada.

Nesse instante, de sobressalto, acordou. Mesmo assim, o sonho continuava ali, na sua mente. No entanto, uma lembrança havia ficado registrada e martelando-se insistente em sua cabeça: a estrada colorida, o bosque e os seus mistérios. Levantou-se, fez sua higiene pessoal e sua alimentação matinal. Em seguida caminhou até a porta, a mesma porta de antes, agora aberta para o seu mundo real. A presença soberana de luz e esplendor do sol transpirava alegria e as aves respondiam agradecidas.

Olhou atentamente o quintal e sentiu o desejo de caminhar para verificar cada detalhe daquele ambiente que tanto conhecia. E a estrada colorida? E o bosque? Os pássaros estavam ali, cantando e voando de árvore em árvore, porém nada de diferente, nada de extraordinário. Sua inquietação não tinha limites, precisava desvendar o porquê do sonho. Seria ele apenas uma imagem sem importância retratada num sonho ou um enigma a ser interpretado? Estas questões ansiavam por resposta.

Depois de ter percorrido toda a área, de repente começou a sentir o vento de mansinho tocar o seu corpo, o qual foi se intensificando gradativamente até se tornar forte e austero. Em seguida uma deslumbrante imagem colorida foi se materializando à sua frente, transformando-se na bela estrada e o vento, antes severo, foi se declinando perante aquela beleza indecifrável. Permitindo apenas que a estrada tivesse espaço à magia expressiva de sua visão, que mais parecia um portal sugerindo passagem para outro universo, para um novo paraíso que se modelava diante de si.

Como no sonho que tivera, João Vitor impulsionado pelo poder de sua curiosidade e da oportunidade de conhecer outra realidade, começou a andar sobre aquele deslumbrante caminho que iria levá-lo sabe-se lá onde. Assim, sem medo, caminhou sem se preocupar com a família, e até em que circunstância sua ausência poderia causar aos pais.

Novamente estava ele diante de uma realidade envolvida em mistérios. Diante de um lugar com exuberante beleza, totalmente diferente de qualquer outro que jamais imaginara. Até onde suas vistas alcançavam brilhava um novo horizonte indescritível. A paisagem se assemelhava aos Contos de Fadas e as várias espécies vivas da magia das fábulas estavam ali diante de si.

Extasiado com o que presenciava, procurou um lugar seguro para se sentar. Precisava colocar a mente para funcionar com lucidez, precisava entender o que estava lhe acontecendo. Por um longo tempo ficou somente contemplando o que podia ver e a imaginar o que viria em seguida. Após tranquilizar sua emoção momentânea, levantou-se lentamente e continuou a seguir o seu destino.

O tempo foi passando e a sua caminhada seguia com a determinação de quem não pretendia desistir nunca. Já cansado, avistou do alto de uma colina um fio de água que a princípio parecia uma cascata, todavia não tinha certeza, precisava se aproximar mais. A alegria não tardou a se fazer presente, manifestada na sua face suada e queimada pelo sol que insistia a manter-se forte. Era de fato não apenas uma modesta cascata, mas uma cachoeira. Uma enorme cachoeira. Nesse momento o seu instinto de curiosidade falou mais alto, e começou a correr em direção daquela magnífica queda d’água, localizada num lugar de inesgotável beleza.

Ao se aproximar primeiro sorveu daquela transparente e deliciosa dádiva de Deus. Como uma autoridade do lugar mergulhou e se esbaldou com a temperatura daquele presente abençoado, daquele elixir da vida. Admirou por um bom tempo a cachoeira que ao despencar das alturas, transformava num spray de água, pulverizando gentilmente as plantas próximas, até arrebentar-se nas pedras e no poço que indicava ser profundo.

Permaneceu por ali algum tempo gozando do seu descanso merecido e alimentando-se das saborosas frutas nativas encontradas naquele aconchegante ambiente que a natureza cuidou com esmero. Assim que se sentiu refeito do cansaço, colocou-se novamente a caminhar rumo ao seu ignorado destino, embora sabendo que o levaria a algum lugar. E foi isto que de fato aconteceu. De repente sentiu um arrepio percorrer o seu dorso, parecendo um aviso vindo de forma vibratória, enviado pelo seu anjo da guarda.

Estava o menino sonhador agora sendo espiado e acompanhado por olhos curiosos encobertos pelas folhagens. Mesmo não sendo possível identificá-los, sabia estarem ali à espreita e algo inevitável iria acontecer a qualquer momento. Evitando transparecer medo, continuou caminhando determinado, ainda que, o coração denunciava não estar tão seguro e confiante como pretendia.

Alguns metros percorridos, eis que a surpresa mostra sua cara. Estava completamente cercado por pequenas criaturas vestidas com roupas coloridas, destacando mais o verde musgo, o vermelho e o amarelo. Usavam chapéus tipo cone também em cores variadas na cabeça, cinto largo à cintura que minimizava o tamanho da barriga. O mais curioso é que, não portavam armas convencionais de defesa, como faca, arco e flecha, borduna, lança. Enfim, estavam aparentemente indefesos.

A primeira impressão foi que, além da coragem demonstrada, como pretendiam se comportar caso tentasse sair correndo, que seria o mais provável? E se por acaso os enfrentasse em busca de liberdade? Entretanto, a astúcia rápida do menino sonhador fez com que, aguardasse o desvendar dos acontecimentos.

 Havia medo, mas também, existia a curiosidade que o prendia aquele povo somente conhecido nas suas leituras, sobre os quais, já havia até imaginado tratar-se dos gnomos. Criaturas pacíficas, porém hábeis em poderes sobrenaturais.

– Quem são vocês? – Quis saber João Vitor, demonstrando aparente tranquilidade.

De repente as pequenas criaturas começaram a falar ao mesmo tempo, numa linguagem que o garoto não conhecia.

Insistiu novamente João Vitor: – Quem são vocês?  

Houve um silencio geral... Até que, um dentre eles, fez-se sobressair e respondeu no seu idioma, sendo possível entendê-lo: – Somos os moradores deste lugar.

João Vitor, sem demonstrar qualquer reação, sentiu-se aliviado. Poderia conversar no seu idioma e ainda questionar dúvidas quanto à origem daqueles seres, que no seu simples conhecimento, tratava-se dos gnomos.

– Como foi que eu vim parar em suas terras? – Indaga João Vitor.

Respondeu o atencioso gnomo que havia se prontificado ao diálogo: – Estivemos em seu sonho. Sabemos que gosta de nós, e nos tem como heróis. Então fizemos uma reunião e resolvemos trazê-lo para nos conhecer. Esperamos que a partir deste momento, possa além de gostar e ter nos honrado com o título de herói, nos entender, nos conhecer bem de perto, olho no olho.

– Ah! Então o meu sonho desta noite foi com vocês? Mas não vi a presença de ninguém a não ser a estrada que segui hoje. – Explica João Vitor. 

O sonho foi um convite, a estrada mágica é a maneira mais fácil de nos encontrar. Sabíamos que não desistiria, portanto, achamos que valeria o sacrifício percorrer esta longa e cansativa caminhada. – Esclarece o gnomo. 

– Posso saber o seu nome? Você é o líder ou chefe destes outros? – Quis se informar João Vitor.

– Eu me chamo Vitorychy. Não sou o chefe. Temos um rei que se chama Davyrychy. No momento oportuno vai conhecê-lo. – Diz o gnomo.

– Como sabe o meu idioma? – Questiona João Vitor.

– Conhecemos todos os idiomas. Basta um primeiro contato. Temos facilidade de ler à mente de todos os seres vivos, como os animais, os pássaros, as águas, as plantas, o vento, o homem. Também podemos conversar com os seres inanimados, como a terra, as pedras, as montanhas. Enfim, podemos conversar com toda a criação de Deus. – Explica o gnomo Vitorychy.

Estas explicações aguçaram ainda mais a curiosidade do menino sonhador: – Faz tempo que vocês estão me observando? Sabem até as minhas preferências... 

– Faz tempo sim. Desde que você nasceu pra ser mais claro. Em todos esses anos estivemos te protegendo, te ensinando, melhorando o seu caráter e sua personalidade em cada detalhe. Portanto, tem mostrado para nosso orgulho, ser o que gostaríamos que fossem as demais pessoas de sua espécie. – Disse Vitorychy demonstrando satisfação.

Vitorychy aproveitando a oportunidade, uma vez terem feito entendidos, propôs: – Com sua permissão, gostaríamos de dar um “Ôbaaa!” de boas-vindas pela sua visita à nossa comunidade, à nossa terra.

– Mas claro! Será um grande prazer. – Respondeu o menino sonhador, sorrindo.

– Vamos todos de uma só vez – bradou os demais gnomos: “Seja bem-vindo nosso amiguinho João Vitor!!!” 

O menino sonhador diante daquela recepção emocionante aplaudiu em grande gargalhada.

– Bem...! Agora que já se tornou conhecimento da nossa existência, ser querido e admirado por todos nós, vamos ao encontro de nossa gente, conhecer o restante da nossa família. – Convida Vitorychy.

Juntos saíram em direção ao novo e expectante encontro. Pouco tempo foi o suficiente para chegarem à minúscula cidade dos gnomos, localizada no sopé de uma grande montanha protegida por uma mata muito densa.

– Desculpe João Vitor, mas precisamos torná-lo pequeno como nós para conviver em nossa comunidade, enquanto estiver nos visitando. – Disse Vitorychy.

...E num simples movimento das mãos, milhares de estrelinhas luminosas e esvoaçantes se fizeram notar e João Vitor imediatamente torna-se igual a eles, só não vestia como tal, pois até suas roupas haviam encolhido.

A sensação que João Vitor sentia, era inexplicável. A alegria era transmitida a todos como uma magia que fazia os sentimentos mais puros transbordar.

– Nossa! Agora sou igual a vocês. Como fez isto Vitorychy? – Quis saber João Vitor extasiado.

– Você saberá quando for chagado o momento certo. Mas o que viu não é novidade para nenhum de nós. 
– Vamos ao que importa: – Você está feliz como nós estamos em tê-lo no nosso lar? – Manifestou Vitorychy.

– Muito... Muito feliz mesmo! É a maior alegria que poderia acontecer comigo. Vocês são muito melhores e queridos que eu imaginara. Estou muito felizzzzzzzzzzzzzzzz! – Disse entusiasmado João Vitor.

Logo o menino sonhador e os gnomos já haviam percorrido toda a cidade chamada Felycidy Montainrychyt. Já havia conversado com cada um dos habitantes: homens, mulheres, crianças, jovens e adultos. A simpatia expressada de forma espontânea por João Vitor conquistou a todos.

João Vitor não sabia a quem atendia primeiro. Convites para festejar em cada residência que visitava tornaram-se uma constante. Sempre educadamente agradecia demonstrando simpatia. Só restava conhecer a autoridade máxima dos amigos gnomos.

Enfim, chegara o momento de visitar o rei Davyrychy. Assim que chegou ao castelo real, toda a corte o esperava com música e brincadeiras circenses. Equilibristas, malabaristas, contorcionistas e muitas outras atrações eram oferecidas ao ilustre visitante.

Não tardou, ouviu-se o toque das trombetas e o repicar dos tambores anunciando a chegada do soberano Davyrychy. João Vitor à frente acompanhado dos companheiros Vitorychy e seus amigos se curvaram perante o rei, numa reverência digna de um filme de Contos de Fadas.

O menino sonhador foi recebido com um simpático sorriso do rei e todas as honrarias reais apresentadas, dignas de um príncipe de algum reinado distante. Recebeu condecoração, foi presenteado com o chapéu símbolo dos gnomos, pedras preciosas e a distinção de autoridade máxima visitante.

Em seguida, todos os súditos presentes, entoaram em uníssono: – “Ôbaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa! O João Vitor é nosso irmão, nosso amigo, nosso companheiro...”. A saudação veio seguida do aplauso geral.
João Vitor permaneceu em Felycycidy Montainrychyt, algumas semanas. Nesse período teve a oportunidade de conviver com os novos amigos. Com eles aprendeu seus usos e costumes, inclusive o idioma, enriquecendo-se com esta providencial experiência.

Nesse ínterim também já havia falado sobre sua família e sua cidade. Principalmente sobre o que achava necessário para os seus habitantes, os quais não dispunham do suficiente e necessário, para que tivessem uma vida digna e bem assistida, como hospitais modernos para atender a população; ensino fundamental, universitário e biblioteca com farta e diversificada quantidade de livros; lazer, empregos, moradias, pavimentação urbana, infraestrutura básica, conforto para os idosos, telecomunicação de ponta... Enfim, tudo que uma cidade que se predispõe a se desenvolver e oferecer ao seu povo, o que há de melhor em modernidade do bem-estar coletivo.

No dia de sua partida de retorno ao seu lar, João Vitor, além de todos os presentes que iria levar consigo, levava também o carinho de todos os amigos gnomos. Sua alegria não se continha e o sorriso parecia permanente. Estava maravilhado, no auge da empolgação e paz interior.

Para evitar que o menino sonhador fizesse todo o percurso de volta a pé, Vitorychy chamou por meio de vibrações sonoras – resultado da magia de sua aura iluminada – a águia Destemyrychy, para levá-lo nas suas costas, atenta a todos os procedimentos preparados com antecedência, para serem executados antes que pousassem nas proximidades da casa do amigo. 

E assim se fez. João Vitor retornou confortavelmente nas costas da águia Destemyrychy. No momento em que sobrevoavam a cidade Felicidade, a poderosa ave provocou uma rápida ventania com suas fortes asas, para facilitar sua missão de espalhar o pó mágico que os gnomos haviam preparado, o qual, ela o carregava num pequeno saquinho de linho no seu bico. Este pó milagroso que deveria ser jogado sobre a cidade, imediatamente foi espalhado com a contribuição do vento provocado pelas asas da imponente ave. Cumprindo assim, as determinações dos sábios gnomos, como presente especial em atenção aos desejos do amiguinho sonhador.

Uma vez cumprido todas as determinações a que lhe foi atribuída, Destemyrychy pousou suave perto da casa do menino sonhador. Assim que João Vitor saltou de suas costas, num piscar de olhos voltou ao seu tamanho natural. Despediu-se da majestosa águia e correu acelerado em direção do seu lar. Chegou ofegante, preocupado pela suposta demora e a ter que dar muitas explicações.

Sua mãe Jordana, vendo-o em disparada, preocupou-se, achando que algo estranho o perseguia.

– O que está acontecendo meu filho?! Aconteceu alguma coisa que o assustou?! – Pergunta Jordana preocupada.

– Não aconteceu nada mamãe, está tudo bem! Eu é que estou com saudade da senhora e de nossa casa! – explica-se rápido, seguido de um beijo carinhoso na face da mãe.

O menino sonhador havia se tranquilizado. O período em que ficou fora, não havia alterado o horário no seu tempo. Não sabia explicar o significado para aquele fenômeno, mas foi exatamente o que aconteceu. Mais que depressa correu em direção a cidade para ver as transformações causadas pela magia dos amigos gnomos.

Ao perceber o barulho dos carros o zunido das máquinas nas construções, aquietou-se, não tinha mais tanta pressa. O momento requeria apenas admirar, se encantar com o que via. Tudo estava diferente, novo. A cidade estava maravilhosa, linda demais! O povo parecia não ter notado as mudanças, as conquistas, a fantástica transformação concedida pelos amigos gnomos.

O poder mágico foi tão extraordinário que a população embora não esquecendo o passado, parecia que tudo à sua volta era apenas resultado do progresso que eles mesmos tomaram parte e foram os responsáveis pelo desenvolvimento que desfrutavam.

João Vitor continuou mantendo contatos constantes, por meio da telecinética orbitacional telepática com os amigos gnomos até aos 12 anos de idade, enquanto era criança. Hoje só restam memórias e o aprendizado que carrega consigo por toda a eternidade.

Homenagem ao meu querido sobrinho João Vitor, suas convicções e estripulias. E aos seus pais Guilherme e Jordana.

O nosso personagem, João Vitor, ainda não está com a idade narrada nesta história. Na verdade sua idade hoje, é de apenas 3 aninhos, mas quem sabe o que acontecerá com ele, até alcançar os 8 anos. Idade vivida nesta fabulosa experiência com as pequenas criaturas do bem, que o ajudou a ser merecedor de tanta alegria e aprendizado. Quem sabe até o sonho com os gnomos venha se concretizar...


Imagens: arquivo pessoal e internet




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sábado, 3 de outubro de 2015

Encontro precioso com Sigmund Freud em sua última entrevista





Pode parecer oportunismo a transcrição desse riquíssimo bate-papo cordial com o pai da psicanálise para esta publicação. Convenhamos, Bússola Literária não poderia ser omisso diante de um acontecimento com tamanha importância: A última extraordinária entrevista de Sigmund Freud, concedida ao poeta e escritor alemão-americano, George Sylvester Viereck, está incluída no seu livro: Glimpses of the Great, publicado em 1930 e republicada no livro: A Arte da Entrevista: Uma antologia de 1823 aos Nossos Dias, organizado por Fábio Altman (Scritta 1995) – Será essa  nossa justificativa um processo de autoanálise consciente ou inconsciente?


“Setenta anos de idade me ensinaram a aceitar a vida com alegre humildade.” Quem fez essa declaração foi o professor Sigmund Freud, o grande explorador austríaco do lado oculto da alma. Assim como o trágico herói grego Édipo, cujo nome está tão intimamente ligado aos princípios fundamentais da psicanálise, Freud confrontou a Esfinge sem receio. Como Édipo, ele decifrou o enigma. Pelo menos, nenhum mortal chegou tão perto dos segredos do comportamento humano quanto Freud.

Freud é para a psicologia o que Galileu foi para a astronomia. É o Cristóvão Colombo do inconsciente. Ele abre novas perspectivas, sonda novas profundezas. Freud alterou todas as relações na vida, decifrando o sentido oculto das regras do inconsciente. Conversamos na casa de veraneio de Freud em Semmering, uma montanha nos Alpes Austríacos, onde os vienenses elegantes adoram se reunir. A última vez que vira o pai da psicanálise, ele estava em sua casa simples na capital austríaca. Os poucos anos que separavam a minha última visita desta de agora multiplicaram as rugas na sua testa e aumentaram a sua palidez acadêmica. Seu rosto estava abatido, sofrido. A mente estava ativa, o espírito firme, a cortesia impecável como sempre, mas um leve problema de fala me preocupou.

Parece que uma doença maligna no maxilar superior necessitara de uma operação. Desde então, Freud usa um aparelho mecânico para facilitar a fala. Na verdade, não há diferença entre o uso desse aparelho ou de óculos. Ele deixa Freud mais constrangido do que os visitantes. Depois que conversamos com ele por algum tempo, o aparelho se torna quase imperceptível. Nos dias em que Freud está bem, nem se percebe a presença dele. Mas para Freud, ele é causa de constante irritação.


Sigmund Freud: Eu detesto o meu maxilar mecânico porque a luta com o mecanismo consome uma força preciosa. Mas é melhor ter um maxilar mecânico do que nenhum. Ainda prefiro viver a morrer. Talvez os deuses sejam generosos conosco, tornando a vida mais desagradável à medida em que envelhecemos. No final, a morte parece mais tolerável do que os muitos problemas que temos que enfrentar.

– Freud se recusa a admitir que o destino tenha sido rancoroso com ele.

Sigmund Freud: Por que, eu devia esperar por algum tipo de privilégio? A idade, com seus visíveis desconfortos chega para todos. Ela atinge um homem aqui, outro lá. O seu golpe sempre atinge uma parte vital.

Sigmund Freud: Não me revolto contra a ordem universal, afinal vivi mais de setenta anos. Eu tive o que comer. Desfrutei de muitas coisas – do companheirismo da minha esposa, dos meus filhos, do pôr-do-sol. Eu vi as plantas crescerem na primavera. Algumas vezes recebi um aperto de mão amigo. Uma ou duas vezes encontrei um ser humano que quase me entendeu. O que mais eu posso querer?


George Sylvester Viereck: O senhor é famoso. O seu trabalho influencia a literatura de todo o mundo. O homem olha para si e para a vida com olhos diferentes por sua causa. E, há pouco tempo, quando o senhor fez 70 anos, o mundo se uniu para homenageá-lo – com exceção da sua própria universidade!

Sigmund Freud: Se a Universidade de Viena me aceitasse, eu teria me sentido muito constrangido. Não há razão para eles me aceitarem ou à minha doutrina porque eu estou com 70 anos. Não dou nenhuma importância ilógica aos números. A fama só chega quando já estamos mortos, e para ser franco o que acontece depois da morte não me interessa. Não aspiro à glória póstuma. A minha modéstia não é nenhuma virtude.


George Sylvester Viereck: O fato do seu nome ser lembrado não significa nada para o senhor?

Sigmund Freud: Absolutamente nada, mesmo que ele seja realmente lembrado, o que não é certo. Eu estou mais interessado no destino dos meus filhos. Espero que a vida deles não seja tão difícil. Não posso torna-las muito mais fácil. A guerra praticamente acabou com a minha modesta fortuna, as economias de uma vida inteira. Entretanto, felizmente, a idade não pesa tanto para mim. Eu ainda sou capaz de seguir em frente! Meu trabalho ainda me dá prazer. Estou muito mais interessado nestas flores do que no que possa acontecer comigo depois que eu morrer.


George Sylvester Viereck: Então, no fundo, o senhor é um pessimista?

Sigmund Freud: Não, não sou. Só que eu não permito que nenhuma reflexão filosófica me tire à alegria das coisas simples da vida.


George Sylvester Viereck: O senhor acredita na continuidade do ser após a morte, seja lá de que maneira for?

Sigmund Freud: Eu não penso nesse assunto. Tudo o que nasce, um dia morre. Por que então eu também não morreria?


George Sylvester Viereck: O senhor gostaria de retornar à vida, assumindo uma nova forma? Em outras palavras, o senhor não gostaria de ser imortal?

Sigmund Freud: Para ser franco, não. Quem identifica as razões egoístas que se escondem sob o comportamento humano não tem a menor vontade de voltar. A vida, movendo-se em círculos, ainda seria a mesma. Além disso, mesmo que o eterno retorno de todas as coisas, como disse Nietzsche, nos vestisse com novas roupas, que utilidade isso poderia ter sem a memória? Não haveria ligação entre o passado e o futuro. No que me diz respeito, estou muito satisfeito em saber que o eterno absurdo de viver terminará um dia. Nossa vida se resume a uma série de obrigações, uma luta sem fim entre o ego e o seu ambiente. O desejo de um prolongamento excessivo da vida me parece absurdo.


George Sylvester Viereck: O senhor não aprova as tentativas do seu colega Steinach de prolongar o ciclo da existência humana?

Sigmund Freud: Steinach não faz nenhuma tentativa para prolongar a vida. Ele simplesmente luta contra a velhice. Ao aumentar a reserva de forças que temos dentro de nós, ele ajuda o corpo a resistir à doença. A operação de Seinach às vezes detém os acidentes biológicos, como o câncer, nos seus primeiros estágios. Ela torna a vida mais tolerável. Mas não a torna mais feliz. Não há razão para que o homem queira viver mais. Mas temos todas as razões para querer viver com o mínimo de desconforto possível. Sou bastante feliz, porque não sinto dores e sou grato aos pequenos prazeres da vida, aos meus filhos e às minhas flores!


George Sylvester Viereck: Bernard Shaw diz que vivemos muito pouco. Ele acha que, se quiser, o homem pode prolongar o tempo de vida humana, se a força de vontade suplantar as forças da evolução. A humanidade, segundo ele, pode recuperar a longevidade dos patriarcas.

Sigmund Freud: É possível que a morte em si não seja uma necessidade biológica. Talvez os homens morram porque queiram morrer. Assim como o amor e o ódio pela mesma pessoa coexistem dentro de nós, a vida é uma mistura do desejo de viver com o desejo ambivalente de morrer. Da mesma forma que um elástico tende a voltar ao seu formato original, toda matéria viva, consciente ou inconscientemente, anseia pela inércia completa e absoluta da existência inorgânica. Os desejos de morrer e de viver convivem lado a lado dentro de nós. A morte é a companheira do amor. Juntos, eles governam o mundo. Essa é a mensagem do seu livro, Além do princípio do prazer. No início, a psicanálise achava que o Amor era o sentimento mais importante. Hoje, sabemos que a Morte tem a mesma importância. Biologicamente, todo ser humano, não importando a intensidade do seu desejo de viver, anseia pelo Nirvana, pelo fim da febre chamada vida, pelo seio de Abraão. O desejo pode ser disfarçado por rodeios. Entretanto, o objetivo final da vida é a própria extinção!


George Sylvester Viereck: Essa, exclamei, é a filosofia da autodestruição. Ela justifica o automassacre. Levaria à conclusão lógica do suicídio mundial previsto por Eduard von Hartmann.

Sigmund Freud: A humanidade não escolhe o suicídio, porque as leis da sua natureza não aceitam o caminho direto para a própria meta. A vida deve completar o seu ciclo de existência. Em qualquer ser humano normal, no final, o desejo de morrer prove ser mais forte. Nós podemos considerar a ideia de que a morte nos chega por vontade própria. É possível que derrotássemos a morte, não fosse pelo aliado que ela tem dentro de nós mesmo. Nesse sentido, talvez seja certo dizer que toda morte é um suicídio disfarçado.


George Sylvester Viereck: Em que o senhor está trabalhando?

Sigmund Freud: Estou escrevendo uma defesa da análise leiga, a psicanálise praticada por leigos. Os médicos querem tornar ilegal a análise feita pelos que não são médicos registrados. A história, essa velha plagiadora, se repete a cada nova descoberta. Os médicos, a princípio, combatem qualquer nova verdade. Depois eles tentam monopolizá-la.


George Sylvester Viereck: O senhor teve um grande apoio dos leigos?

Sigmund Freud: Alguns dos meus melhores alunos são leigos.


George Sylvester Viereck: O senhor pratica a psicanálise com muita frequência?

Sigmund Freud: Claro. Nesse exato momento, eu estou trabalhando em um caso difícil, esclarecendo os conflitos psíquicos de mais um paciente interessante. Minha filha também é uma psicanalista, como o senhor pode ver...

– Nesse momento, a senhorita Anua Freud surgiu seguida por seu paciente, um rapaz de 11 anos, de feições obviamente anglo-saxônicas. O menino parecia muito feliz, esquecido do conflito da própria personalidade.


George Sylvester Viereck: O senhor se autoanalisa?

Sigmund Freud: É claro. O psicanalista deve se autoanalisar com frequência. Ao nos analisarmos, nos tornamos mais capazes de analisar outras pessoas. O psicanalista é como o bode expiatório dos hebreus. As pessoas colocam a culpa dos seus pecados nele. Ele deve exercer a sua arte com perfeição para se livrar do peso colocado sobre ele.


George Sylvester Viereck: Sempre me pareceu que a psicanálise desperta em todos aqueles que a praticam o espírito da caridade cristã. Não há nada na vida humana que a psicanálise não nos permita entender.

Sigmund Freud: Pelo contrário – enfureceu-se Freud, as feições assumindo a severidade arrebatada de um profeta hebreu – entender não é perdoar. A psicanálise não apenas nos ensina o que temos que suportar, ela também ensina o que temos que evitar. Ela nos diz o que deve ser eliminado. A tolerância do mal não é, de maneira nenhuma, uma consequência do conhecimento.

– De repente eu entendi porque Freud brigara tão seriamente com os seguidores que o abandonaram, porque ele não consegue perdoar aqueles que se afastaram do caminho da psicanálise ortodoxa. O seu senso de integridade é uma herança dos seus ancestrais. Uma herança da qual ele se orgulha, assim como, se orgulha da própria raça.

Sigmund Freud: Minha língua é o alemão. Minha cultura, minhas conquistas são alemãs. Considerei-me um alemão do ponto de vista intelectual, até que percebi o crescimento do antissemitismo na Alemanha e na Áustria alemã. Desde então, não me considero mais um alemão. Prefiro me considerar um judeu.


George Sylvester Viereck: Estou feliz Professor, que o senhor também tenha os seus complexos, que o senhor também exponha a sua mortalidade.

Sigmund Freud: Os nossos complexos são a fonte da nossa fraqueza e, com frequência, também da nossa força.


George Sylvester Viereck: Quais seriam os meus complexos?

Sigmund Freud: Uma análise séria levaria, pelo menos, um ano. Talvez demorasse até mesmo uns dois ou três anos. O senhor tem dedicado muitos anos da sua vida à caça de leões. O senhor tem procurado, ano após ano, as grandes personalidades da sua geração, invariavelmente homens mais velhos.


George Sylvester Viereck: Isso é parte do meu trabalho.

Sigmund Freud: Mas também é uma preferência. O homem importante é um símbolo. A sua busca é afetiva. O senhor está à procura do homem importante que irá tomar o lugar do seu pai. Isso é parte do complexo que o senhor tem em relação ao seu pai.

- Neguei a afirmação de Freud com veemência. Entretanto, após refletir, parece-me que pode haver alguma verdade, insuspeita para mim, na sua sugestão casual. Talvez seja o mesmo impulso que me levou a ele.


George Sylvester Viereck: No seu trabalho O Judeu Errante, o senhor estende essa busca ao passado. O senhor é o eterno Explorador do Homem. Eu queria poder ficar aqui durante o tempo que fosse necessário para ver o meu interior através dos seus olhos. Talvez, como a Medusa, eu morresse de medo ao ver minha própria imagem! Entretanto acho que conheço bastante a psicanálise. Eu ria prever, ou tentar prever, as suas intenções.

Sigmund Freud: A inteligência de um paciente não é um empecilho. Pelo contrário, às vezes, ela facilita o trabalho.

– Nesse aspecto, o mestre da psicanálise difere de muitos dos seus adeptos, que se ressentem de qualquer dedução feita pelos próprios pacientes sob os cuidados deles. A maioria dos psicanalistas emprega o método da “livre associação” de Freud. Eles encorajam o paciente a dizer qualquer coisa que lhes venha à cabeça, não importando o quanto o que dizem possa ser idiota, obsceno, inoportuno ou irrelevante. Seguindo pistas que parecem não ter importância, encontram os dragões psíquicos que assustam o paciente, afugentando-os. Eles não apreciam o desejo de cooperação ativa do paciente, pois têm medo que, quando descoberta a direção da sua investigação, os desejos e a resistência do paciente lutem inconscientemente para manter seus segredos, desviando o caçador psíquico da sua pista. Freud também reconhece esse perigo.


George Sylvester Viereck: Às vezes eu penso se nós não seríamos mais felizes se conhecêssemos menos o processo que forma os nossos pensamentos e emoções. A psicanálise tira o encantamento da vida, quando segue a pista de cada um dos sentimentos até os seus complexos básicos. Não ficamos mais felizes ao descobrir nosso lado selvagem, criminoso e animal.

Sigmund Freud: O que o senhor tem contra os animais? A comunidade animal é infinitamente melhor do que a humana.


George Sylvester Viereck: Por quê?

Sigmund Freud: Porque os animais são muito mais simples. Eles não sofrem de personalidade dividida ou desintegração do ego, problemas que surgem da tentativa do homem de se adaptar a padrões de civilização que são sofisticados demais para o seu mecanismo intelectual e psíquico. O selvagem, assim como o animal, é cruel, mas ele não tem a maldade do homem civilizado. A maldade é a vingança do homem contra a sociedade, pelas restrições impostas a ele. É essa vingança que dá vida ao reformista profissional e às pessoas intrometidas. O selvagem pode cortar a sua cabeça, comê-lo, tortura-lo. Mas ele vai poupá-lo das pequenas provocações que, às vezes, tornam a vida em uma comunidade civilizada quase intolerável. Os hábitos e as idiossincrasias mais desagradáveis do homem, como a trapaça, a covardia e a falta de respeito, são produzidos pela sua adaptação incompleta a uma civilização complicada. É o resultado do conflito entre os nossos instintos e a nossa cultura. As emoções intensas diretas e simples de um cachorro, ao abanar o rabo ou latir quando é contrariado, são muito mais agradáveis! As emoções de um cachorro me fazem um dos heróis da antiguidade. Talvez seja por isso que nós inconscientemente damos aos cães nomes de heróis da antiguidade como Aquiles ou Heitor.


George Sylvester Viereck: Até mesmo o senhor, professor, acha a existência muito complexa. No entanto, me parece que o senhor mesmo é, em parte, responsável pela complexidade da civilização moderna. Antes que o senhor inventasse a psicanálise ninguém sabia que a personalidade era dominada por um exército beligerante de complexos bastante censuráveis. A psicanálise fez da vida um complicado quebra-cabeça.

Sigmund Freud: De jeito nenhum. A psicanálise simplifica a vida. Nós atingimos uma nova síntese depois da análise. A psicanálise cria uma nova ordem para o labirinto onde estão perdidos certos impulsos, e tenta conduzi-los para o lugar ao qual pertencem. Ou, usando outra metáfora, ela é o fio que conduz o homem para fora do labirinto do seu próprio inconsciente.


George Sylvester Viereck: Em uma visão superficial, parece, entretanto, que a vida humana nunca foi tão complexa. E, a cada dia, alguma nova ideia, apresentada pelo senhor ou por um dos seus discípulos, torna o problema do comportamento humano mais enigmático e contraditório.

Sigmund Freud: Pelo menos a psicanálise nunca fecha as portas para uma nova verdade.


George Sylvester Viereck: Alguns dos seus alunos, mais ortodoxos do que o senhor, se agarram a qualquer declaração que o senhor faça.

Sigmund Freud: A vida muda e a psicanálise também. Estamos só no princípio de uma nova ciência.

George Sylvester Viereck: Eu acho a estrutura científica que o senhor criou muito complexa. E os elementos dessa estrutura, como a teoria da substituição, da sexualidade infantil, do simbolismo dos sonhos, etc., parecem permanentes.

Sigmund Freud: No entanto, torno a dizer, nós só estamos começando. Sou apenas um principiante. Consegui trazer à tona muito do que estava enterrado nas camadas mais profundas da mente. Mas, enquanto eu só descobri alguns templos, outros podem descobrir um continente.

George Sylvester Viereck: O senhor ainda dá grande importância ao sexo?

Sigmund Freud: Eu respondo com as palavras do grande poeta Walt Whtman: “Mas não haveria nada, se não houvesse o sexo”. Entretanto, como já disse, hoje em dia, eu dou a mesma importância ao que está além do prazer – a morte, a negação da vida. Esse desejo explica porque alguns homens gostam da dor – ela representa um passo em direção à morte! O desejo da morte explica por que todos os homens procuram o descanso eterno, por que os poetas agradecem:

“Onde quer que os deuses estejam,
Não há vida que viva para sempre
Os homens mortos nunca renascem,
E até o rio mais enfastiado
Segue confiante na direção do mar.”


George Sylvester Viereck: Shaw, como o senhor, não deseja viver para sempre, mas ele acha o sexo desinteressante.

Sigmund Freud: Shaw – respondeu Freud, sorrindo –, não entende o sexo. Ele não faz a mais remota ideia do que seja o amor. Não existe nenhum relacionamento amoroso real nas suas peças. Ele transforma o caso de amor de César – talvez a maior paixão da história – em uma piada. Deliberadamente, para não dizer maliciosamente, ele despe Cleópatra de todo o seu esplendor e a rebaixa à condição de uma mulher insignificante, petulante e exagerada. A razão para a estranha atitude de Shaw em relação ao amor e para a sua negação do impulso primordial de todas as ações humanas, o que tira de suas peças o atrativo universal apesar da sua grande inteligência, está na natureza da sua psicologia. Em um de seus prefácios, Shaw enfatiza o aspecto ascético da sua personalidade. Posso ter cometido muitos erros, mas tenho certeza que não errei ao enfatizar a predominância do instinto sexual. Porque o instinto sexual é tão forte que se choca com muita frequência contra as convenções e salvaguardas da civilização. A humanidade, em defesa própria, procura negar a importância suprema do sexo. Analise qualquer emoção humana, não importa o quanto ela esteja distante da esfera do sexo, e o senhor vai encontrar com certeza, em algum lugar, o impulso primordial, ao qual a própria vida deve a sua perpetuação.


George Sylvester Viereck: É certo que o senhor conseguiu incutir o seu ponto de vista sobre todos os escritores modernos. A psicanálise deu nova força à literatura.

Sigmund Freud: Ela também recebeu contribuições da literatura e da filosofia. Nietzsche foi um dos primeiros psicanalistas. É incrível o quanto a intuição dele se antecipou às nossas descobertas. Ninguém identificou com mais clareza as razões para o comportamento humano e a luta do princípio do prazer pelo eterno domínio. O seu Zaratustra diz:

“Desgraça
Grite: Vá
Mas o prazer implora por eternidade,
Implora insaciável, profunda eternidade.”

Pode ser que a psicanálise seja menos discutida na Áustria e na Alemanha do que nos Estados Unidos, mas a sua influência sobre a literatura, no entanto, é enorme. Thomas Mann e Hugo von Hofmansthal nos devem muito. Schnitzler acompanha, em grande parte, o meu desenvolvimento. Ele expressa através da poesia muito do que eu tento transmitir cientificamente. Mas o doutor Schnitzler não é apenas um poeta, ele é também um cientista.


George Sylvester Viereck: O senhor não é apenas um cientista, é também um poeta. A literatura americana está impregnada pela psicanálise. Rupert Hughes, Harvey O’Higgins e outros são seus intérpretes. É quase impossível abrir um novo romance recente sem encontrar alguma referência à psicanálise. Entre os dramaturgos, Eugene O’Neill e Sydney Howard devem muito ao senhor. “The Silver Cord” (O Cordão de Prata), por exemplo, é uma mera dramatização do complexo de Édipo.

Sigmund Freud: Eu sei disso, sou grato pelo reconhecimento, mas temo pela minha própria popularidade nos Estados Unidos. O interesse dos americanos pela psicanálise não é muito profundo. A grande popularidade leva à aceitação superficial sem uma pesquisa séria. As pessoas apenas repetem o que escutam no teatro ou leem nos jornais. Eles pensam que compreendem a psicanálise, porque conseguem repetir o nosso jargão! Eu prefiro o estudo mais intenso da psicanálise nos centros europeus. Os Estados Unidos foram o primeiro país a me reconhecer oficialmente. A Clark University me conferiu um grau honorário quando eu ainda estava condenado ao ostracismo na Europa. No entanto os Estados Unidos contribuíram muito pouco para o estudo da psicanálise. Os americanos são generalizadores inteligentes, mas raramente são pensadores criativos. Além disso, os médicos americanos, bem como os austríacos, tentam apropriar-se do campo. Deixar que a psicanálise permaneça somente nas mãos dos médicos será fatal para o seu desenvolvimento. A formação médica pode ser tanto uma vantagem quanto uma desvantagem para o psicanalista. Ela é uma desvantagem quando certas convenções científicas aceitas se tornam arraigadas demais na mente do estudante.

– Freud precisa dizer a verdade a todo custo! Não consegue se forçar a lisonjear os Estados Unidos, onde tem a maioria dos seus admiradores. Não consegue, mesmo estando em desvantagem, fazer as pazes com a profissão médica, que até hoje o aceita com grande relutância. Apesar da sua integridade inflexível, Freud é muito cortês. Ele ouve qualquer sugestão com paciência, sem jamais tentar intimidar o entrevistador. É raro um convidado partir sem algum presente, uma lembrança da sua hospitalidade! A noite chegara. Estava na hora de pegar o trem de volta para a cidade que um dia abrigara o esplendor imperial dos Habsburgos. Freud, acompanhado pela esposa e pela filha, subiu a escada que ligava o seu retiro nas montanhas à rua, para se despedir de mim. Ele me pareceu triste e sombrio, quando acenou pra mim.

Sigmund Freud: Não me faça parecer um pessimista – completou depois do último aperto de mão. Eu não desprezo o mundo. Expressar insatisfação para com o mundo é só uma outra maneira de cortejá-lo, para conseguir plateia e aplausos! Eu não sou um pessimista, não enquanto tiver meus filhos, minha mulher e minhas flores! As flores felizmente não têm personalidade ou complexidades. Adoro as minhas flores. E não sou infeliz – pelo menos, não mais do que outras pessoas.

– O apito do meu trem soou na noite. O carro me levou à estação com rapidez. Aos poucos, a figura levemente curvada e a cabeça grisalha de Sigmund Freud desapareceram ao longe. Como Édipo, Freud olhou fundo nos olhos da Esfinge. O monstro propõe seu enigma para qualquer viajante. O andarilho que não souber a resposta será cruelmente agarrado e atirado contra as rochas. Mesmo assim, ela talvez seja mais gentil com aqueles que destroem do que com os que adivinham seu segredo.


Imagens: Internet



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