Mostrando postagens com marcador beduíno. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador beduíno. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Mel da Tâmara


Caminhando pelo Saara de sua subsistência, um beduíno errante, conhecido em toda dimensão do deserto por Sharif, resolve entregar-se ao descanso dos deuses. Merecidamente, afinal naquele dia já havia viajado por horas sob o sol causticante na sua seara de amor, lutas e conquista. Seu corpo carecia de repouso e seria ali, debaixo da tamareira o lugar ideal para repor energias. Assim, no oásis de seus encantos, sob a sombra fresca da tamareira, na solidão do pastoreio, cogitou instalar-se ali, expectante que o céu azul turquesa do momento, mostrasse no horizonte dos seus olhos reluzentes, o pôr-do-sol cheio de presságios bondosos, uma visão poética do sol se escondendo atrás das dunas, as quais ele se negava a não contemplar.

Cobrindo sua cabeleira, um turbante nácar expunha sua genialidade e sua elegância. Com o pensamento flutuando no universo das recordações, vagou por épocas belíssimas remetendo-se à sua infância junto à família, aos primeiros aprendizados e lições recebidas. Acessou fragmentos de sua jovialidade e, num estalar de dedos, surgiu na sua mente requintes de um acontecimento que marcou sua vida, suas ações, seu respeito à natureza e de quem dela abastece as necessidades do corpo: o sabor adocicado da tâmara, feito a essência de mel suave. Sua boca salivou sentindo o prazer do seu sabor. Nesse momento, já no acalanto da noite, olhou para o céu todo iluminado por uma constelação de luzes proféticas, agradeceu ao Divino as bênçãos concedidas e se entregou à meditação.

Oh, como é perfeita a obra do Criador! Sonorizou num estufar do peito e deliciou-se com o momento. Só ele e uns poucos conheciam a felicidade de sentir aquele sabor inenarrável, e dormir sentindo o aconchego de uma tamareira bem no abstrato mundo das ilusões, dos sonhos e da esperança. Abriu preguiçosamente os braços, bocejou calmamente, cerrou os olhos, com a alma vigilante descansou o corpo dolorido pelas viagens da sua vida.

Durante o sono, transmutou-se para outra realidade, alvissareira e enigmática. Atraído pelos devaneios da mente, encontrou-se com Malba Tahan. Pela fluidez dos sentidos, tornou-se impossível não divisar-se frente a frente com o homem que calculava: Beremiz Samir, o gênio dos cálculos. Beremiz exercitava com tanta determinação sua capacidade de fazer cálculos que, aproveitando dessa sua faculdade tão extraordinária, resolveu ajudar o seu patrão nos negócios com as tâmaras. Passou então, a contar todos os frutos dos cachos das tamareiras pelos oásis sob o seu domínio. Sua habilidade com a matemática era tão fascinante, que já o havia permitido contar os pássaros em bando no céu; folhas das árvores durante o trajeto de sua viagem à Bagdá do Século XIII; e todas as abelhas de um enxame.

Sharif, nômade por ideal e origem, conhecia muitas histórias e lendas sobre as tamareiras e o seu fruto. Na sua maioria, contadas por diferentes etnias, pesquisadores e andantes do árido deserto. Orgulhava-se de narrar aos viajantes menos esclarecidos às vantagens, curiosidades, e as crenças religiosas que elas representam para os povos da imensidão desértica.

Não era um estudioso, tampouco conhecia de botânica, muito menos havia sentado num banco escolar tradicional. Sua sabedoria vinha de uma mente prodigiosa, adicionada as experiências da vida adquiridas nas suas andanças pelo deserto escaldante e, de ter aproveitado as oportunidades como ouvinte se informar de assuntos diversos travados entre os inúmeros desconhecidos que encontrara pelo caminho. Com esse estranhos, embora mestres por experiências vividas, pode absorver cada detalhe das suas histórias contadas, tendo como cenário o deserto e suas inóspitas surpresas. 

Mesmo na sua maneira simples de expressar, Sharif dava “show” de conhecimentos e se envaidecia com o prazer de poder compartilhar o seu saber, abordando os fatos com maestria e singularidade. Atitude digna de uma pessoa que realmente fazia justiça à sua personalidade de incansável desbravador de conteúdos. Focava com desenvoltura os temas relativos ao deserto, desde o “b a bá” até as mais notáveis histórias de outras civilizações.

Ao se despertar-se do sono reparador, surpreendeu-se diante de si, uma pequena comitiva de mestres e alunos em viagem de estudos, desenvolvendo os seus primeiros trabalhos “in loco”, com a finalidade de absorver experiências além dos livros. Assim que o viram deitado na tranquilidade que lhe era permitido, sorvendo a embriagante aragem da manhã, aproximaram-se cordiais, na tentativa de manter segura aquela oportunidade rara: estarem frente a frente com o homem símbolo daquele território. Apresentaram-se, em seguida indagaram se ele estava disposto para conversar e revelar algo relevante dos seus conhecimentos a respeito do Saara, sobre o qual tão bem conhecia. 

Com muita disposição se prontificou a colaborar. Para ele era um prazer fazer aquele obséquio. Ao começar os seus relatos, coincidência ou não, com o sonho que acabara de vivenciar, escolheu como tema a tamareira. Sua importância na vida dos povos do deserto, outro mundo exclusivo dos bravos e destemidos de raça e fé. Seria uma forma de agradecer as tantas vezes que aquela majestosa palmeira, havia lhe dado o alimento tão necessário, conforto e o bem estar de sua sombra.          

Lembrou-se providencialmente da página de uma revista americana, guardada com muito cuidado nos seus alforjes, sobre a qual um sábio viajante a traduziu para ele. Pegou o papel já amarelado, mostrou a cada um, para que não houvesse dúvida quanto a veracidade dos fatos, contou o seu conteúdo, que dizia entre outras informações, uma que considerou muito importante: “Segundo a FAO – Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação - os países asiáticos e africanos, principalmente Egito, República Islâmica do Irã, Arábia Saudita, Paquistão, Iraque e os países vizinhos juntos, produzem aproximadamente 98% das tâmaras do mundo. Estados Unidos, Espanha e México produzem o restante”.

Acrescenta a metéria, que as tâmaras são um cultivo de subsistência de extrema importância em quase todas as regiões desérticas. Para milhões de pessoas constituem um importante alimento nutricional, vindo a contribuir de forma significativa com a cultura alimentar e a agrobiodiversidade da população.     

A partir daí, o assunto foi fluindo naturalmente, deixando evidente o seu vasto conhecimento. Esclarece ainda o simpático beduíno, que a tamareira é uma espécie de palmeira, que nasce nas alturas, símbolo de retidão e vitória. Crescem para cima e para baixo, suas raízes descem as mais profundas camadas, até encontrar solo rochoso onde se abraçam nas rochas, adquirindo força para suportar os fortes ventos e tempestades do deserto, mantendo-se sempre de pé.

Fazendo-se valer dos seus conhecimentos científicos, adquiridos através do convívio com intelectuais do deserto, e pela sua sede pelo saber, continuou dizendo que a tamareira ou datileira – Phoenix dactylifera – é uma planta de quinze a vinte metros de altura, surgindo às vezes em touças, com vários troncos partilhando o mesmo sistema radicular, ainda que, não pertencendo a mesma touceira, mas de forma isolada. As folhas são frondes pinadas, com até três metros de comprimento, pecíolo espinhoso e cerca de 150 folíolos. Cada folíolo tem por volta de trinta centímetros de comprimento e dois centímetros de largura. Quando terminou, todos se entreolharam incrédulos com o que acabaram de ouvir, principalmente por ter partido de um simples homem do deserto.

Concluído sua explanação, por meio da manifestação dos gestos de suas mãos, apontou para todas as tamareiras que se exibiam elegantes no oásis em que se encontravam. Insatisfeito com o seu argumento, resolveu não dar por terminada sua fala. Então, disse a todos, que alguém o havia informado certa vez, sobre um pesquisador brasileiro, doutor em melhoramento de vegetais de nome Manoel Abílio de Queiroz, membro do Centro de Pesquisas Agropecuárias do Trópico Semi-Árido e o Centro Nacional de recursos Genéticos, órgãos de estudos da Embrapa, no Estado de Pernambuco, o qual havia dito que: “Uma boa  surpresa foi à adaptação da planta no sertão. Começou a dar frutos com quatro anos depois de plantada. No Oriente Médio, isso acontece aos oito anos”. Acrescentou ainda que, além do fator econômico, a tamareira também oferece vantagens ambientais. Elas fertilizam o solo, suavizam a temperatura e interrompem a progressão das zonas em processo de desertificação.

Demonstrando serenidade, atitude comum nos contadores de histórias, Sharif disse que a tamareira é uma planta bastante cultivada há milênios pelos seus frutos comestíveis. Sua área natural de distribuição é desconhecida, mas supõe-se sua origem ter surgida nos oásis do deserto  da região norte africana.

Há controvérsias, algumas pessoas, acreditam sua origem é do Sudeste da Ásia. Talvez por terem servido de alimento e abrigo aos egípcios, babilônios e assírios. Há também aqueles fervorosos nas suas crenças religiosas, que afirmam ter Moisés se servido do seu fruto na sua saga de encontrar a Terra Prometida. Aos seguidores do islamismo e sua fé a Allah, acreditam que o profeta Maomé na sua cruzada pelo deserto, teve nas tâmaras o seu principal alimento.

Mesmo depois de ter prestado ricas informações, ainda não satisfeito, Sharif resolveu enveredar-se mais uma vez no conhecimento científico, ao dizer que a planta se trata de uma espécie dioica, apresentando na sua genética, flores masculinas e femininas responsáveis pelo nascimento de palmeiras diferentes. Sendo que, só as fêmeas produzem frutos, polemizados pelo pólen fornecido pelos machos.

Continuou seu relato já em estado de exaltação. Estar ali, conversando com pessoas tão ilustres, ressaltando suas experiências, disse sem se hesitar: “Segundo informações provenientes de alguns comerciantes brasileiros e de um livro que mantenho entre os meus guardados, traduzido para o idioma árabe pela Universidade do Cairo. As primeiras plantas da tamareira foi introduzida no Brasil, há muitos anos. Porém estudos sistemáticos realizados com o sua utilização para o cultivo, revela que, o primeiro registro de sua introdução data de 1928, quando algumas fontes reprodutivas chegaram a São Paulo. Na época, alguns estudos foram realizados na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, onde foram originadas algumas variedades”. De forma instintiva, Sharif, imediatamente de posse do livro, abriu na página desejada, comprovou o seu relato.  

Depois de uma breve pausa e uma boa respirada, Sharif quis certificar-se se seus atenciosos ouvintes tinham alguma dúvida, ou se estavam satisfeitos com cada detalhe abordado. De repente começou a sorrir provocando a curiosidade de todos. Misturando palavras desconexas com o seu riso, passou a contar a história de um laociano de nome Sansunnang Vaiollang, vindo da região de Luang Prabang no Laos, justamente o local considerado pela UNESCO como Patrimônio Cultural da Humanidade.

Conta Sharif que o "laociano Sansunnang, de posse de uma foto em que, se estampava várias tamareiras de sua terra, olhou para as nossas palmeiras aqui do deserto, começou a dar gargalhadas sem explicação. Depois de muito tempo, foi que entendeu o motivo de tanta graça. Simplesmente porque as tamareiras de sua terra eram anãs. Ele brincou com a situação dizendo que as da sua região eram muito jovens, mas que um dia seriam tão grandes quanto as nossas. De repente mudou sua jeito divertido, para uma aparência demonstrando seriedade, começou a me contar como se fosse realmente um grande entendido no assunto. Disse ele, que a tamareira anã – Phoenix Rebelenni O’Brien – é uma pequena palmeira originária da sua região na Ásia. Ela é largamente cultivada como planta ornamental nos trópicos e nas regiões subtropicais e temperadas. Possui estipe de dois a quatro metros de altura e cerca de dez centímetros de diâmetro", conta.

Acrescenta: "As plantas femininas ocorrem geralmente agrupadas em grandes touceiras. Seus frutos alongados, com aproximadamente um centímetro e meio de comprimento, são numerosos e de coloração variando de vinho a preto quando maduros." Terminou sua exposição mostrando-se uma pessoa além do senso de humor à flor da pele, um grande caráter, completa Sharif.

Além das lendas e histórias de conteúdos mágicos, o atencioso beduíno, contou aos curiosos que a tamareira é considerada árvore sagrada e mágica há milhares de anos. No Egito era uma espécie sagrada, a folha símbolo do deus Heh, que representa a eternidade. Mais tarde, passou a ser símbolo de fecundidade, fertilidade e vitória.

As tâmaras também são usadas como doces ou como quitutes afrodisíacos. Os egípcios as comiam antes de fazer sexo. E ainda, tem como lenda a relacionada ao desterro da Virgem Santíssima no Egito, em que, Maria havia procurado abrigo e descanso sob a sombra de uma tamareira, a qual se inclinou para que as tâmaras ficassem ao alcance de suas mãos.

Sharif sem perder o ritmo sempre atencioso com os seus ouvintes, mestres e estudantes que deixaram sua Universidade em busca de conhecimentos fora dos padrões de ensino desenvolvido dentro do próprio Campus Universitário. Pelo que demonstravam, pareciam estar em estado de graça com suas maneira de contar sobre a palmeira e seu fruto, quando mencionou a importância dos Paleontólogos, os quais também deram sua contribuição na rica história das tâmaras.

Segundo esses pesquisadores incansáveis, uma semente com cerca de dois mil anos, foi encontrada nas escavações realizada em 1963, no deserto da Judeia. Esta preciosa descoberta foi plantada por cientistas israelenses e germinou, segundo artigo publicado na revista especializada Science. A região é a mesma da antiga fortaleza do rei Herodes, em Masada, perto do Mar Morto.

Na ocasião, os cientistas encontraram um grupo de sementes, que as mantiveram em uma sala com temperatura ambiente adequada, na intenção de estudá-las mais a fundo. O lugar era famoso por suas tâmaras com propriedades medicinais e principal produto de exportação da região hoje ocupada por Israel.

O simpático beduíno Sharif observou atentamente a todos, depois olhou para o alto e notou quão tinha passado o tempo. O sol já estava no auge de seu posicionamento no céu, foi quando teve noção de que a conversa que seria para poucos minutos, já se passara pelo menos um quarto do dia.

Embora os mestres e estudantes estivessem satisfeitos e impressionados com os requintes dos esclarecimentos, fez questão de encerrar sua fala com algo lúdico, contando que Ali Babá e os Quarenta Ladrões também se beneficiaram tanto da doçura do fruto quanto do repouso de sua sombra nas imediações da caverna encantada de Sésamo.

Agora sob os encantos de Mil e Uma Noites de imagens e conteúdo. De ter falado pra uma turma de elevados padrões culturais, aquele seria o momento ideal para colocar-se a caminho de sua jornada. Não sabia quanto tempo duraria, mas tudo bem, já havia descansado por sete sois e sete luas. Assim o dever o aconselhava cumprir sua missão e seguir adiante.

Este relato bem que poderia ter sido apresentado por um dos alunos presentes naquele dia de memorável aprendizado e, servido de subsídio para sua tese na Universidade, sobre vegetais do árido e semi-árido.

No entanto, se algum dia encontrar um beduíno com as características de Sharif procure-se aproximar dele. Se não for o próprio Sharif, não maldiga falta de sorte. Todos os povos do deserto têm lindas histórias pra contar. Verá que existe doçura no olhar e nas atitudes dos pacíficos de alma, bondade cultural da sua raça e no mel da tâmara.



Nota: Esta crônica Mel da Tâmara já esteve disponível aqui mesmo no Bússola Literária, desde 26 de setembro de 2009. Agora resolvemos dar uma repaginada e, revivê-la com várias modificações no seu texto original. Quem sabe também, seja o momento para que sirva como objeto de discussão num fórum de debates, abrangendo não só o seu conteúdo sob forma de pesquisa, mas literário e ortográfico.


Imagens exclusivas por Neli Vieira: ilustradora, artista plástica, escritora e poetisa.

Texto baseado de excertos compilados na internet.



A propósito, você já acessou a fan page do meu livro infantil Juju Descobrindo Outro Mundo? Não imagina o que está perdendo. Acesse: http://facebook,com;jujudescobrindooutromundo.


E o site da Juju Descobrindo Outro Mundo, já o acessou? Se eu fosse você iria conferir imediatamente. Acesse: www.admiraveljuju.com.br   



domingo, 19 de julho de 2009

Um olhar, um sonho com as orquídeas.



Bem que poderia ser uma estória de “Era uma vez…”, mas é uma história de quem de fato ama a beleza de uma genealogia tão nobre e envolvente da natureza. O mundo encantado de uma orquidófila, de uma apaixonada por uma espécie de beleza exclusiva, contagiante e natural; viajante tenaz em busca da princesa do reino vegetal. Sonho de cores que nem mesmo o arco-íris com sua beleza no céu, refletido pela chuva rápida de verão, conseguem ofuscar a sua imperiosa exuberância. Só mesmo quem a cultiva e se entrega de corpo e alma aos seus encantos, doando paixão e dedicação, pode sintetizar esse amor singelo e intenso à magia das orquídeas.

Influenciada por amigos e levada pela curiosidade, nossa personagem visitou uma exposição de orquídeas. Qual Julieta de Shakespeare flechada por cupido, inebriando-se pelos encantos do ambiente colorido e perfumado das orquídeas que jamais vira antes, deixou-se seduzir como que conduzida por Orfeu em sonhos e devaneios, esboçando inconfundível sorriso feito orquídea rara. Entre as bancadas de plantas, hipnotizado segui seus passos, numa inesquecível jornada pelo tempo… fluindo como o vento.

Diletante, transformou-se a partir dali. Semelhante aos grandes descobridores de todos os tempos, ela passou a fazer parte desses obstinados pesquisadores, estudiosos e caçadores de raridades no universo das “orchis”. Como farejadores de tesouros em busca de seus objetivos, não se dão por vencidos. Guerreiros destemidos no mundo das plantas, sempre em busca de um novo olhar, de uma nova flor de rara beleza e perfume embriagante.

Fosse ela Theophrastus, aluno de Aristóteles, considerado por muitos como o pai da botânica, que através de seu trabalho “Investigação sobre as plantas (ano 300 a.C.)” descobriu as “orchis”, e a elas deu esse nome, origem do nome de toda família Orchidaceae. Ou mesmo a dócil índia Asteca ou Maia que utilizava com maestria a fava da Vanilla para perfumar a bebida predileta de seus guerreiros, feita a partir do cacau e que levou os invasores espanhóis quase a loucura para obter a fórmula de seu preparo. Índia misteriosa, cheia de magia e sedução, das florestas tropicais e equatoriais onde vicejam orquídeas sequer catalogadas. A essa adoradora da beleza das orquídeas o nosso “sorriso”.

Transcendeu o plano comum, juntando-se à superioridade das orquídeas, de flores com beleza própria e inigualável. Ricas em lendas que contam à sua história. Como aquela contada em terras da Indochina, cidade de Anam, sobre uma jovem chamada Hoan-Lan, que se divertia em fazer penar suas paixões aos seus numerosos adoradores. Após ser castigada pelo Deus das Cinco Flechas, deus que a tudo via e tudo ordenava, julgou que era o momento de castigar tanta maldade, fazendo a jovem volúvel apaixonar-se por Mun-Cay. E a partir daí, começa a sua saga de abandono e desprezo…

Cedendo-se ao assédio da bruxa de pés de cabra, esta o transforma em uma árvore de ébano. Com a ajuda de um anjo que compadeceu-se de sua situação, permitiu como recompensa do seu infinito amor, transformá-la em uma linda flor perfumada, agarrando-se ao seu tronco para sempre. Transformou-se assim, em uma orquídea. Muitas pessoas acreditam erroneamente que as orquídeas são parasitas, no entanto elas apenas usam o hospedeiro para fixar suas raízes. Elas são em grande maioria epífitas, isto é, vivem sobre outras plantas, mas não danificam as plantas suporte.

Ah! O enigma que teus olhos e sorriso vestem, como os exóticos desenhos de guardiães da floresta que muitas flores formam, lembrando duendes ou querubins… fadas e anjos com perfume de jasmim, canela, acre ou doce, mas hipnotizando sempre.

Na ampulheta do tempo, viu-se com Charlie Chaplin, no filme Luzes da Cidade (City lights – 1931), misto de comédia, drama, romance, parafraseando a intérprete Virginia Cherrill, na história de um vagabundo, que após se apaixonar por uma florista cega, e que acredita que ele seja milionário, tenta conseguir o dinheiro necessário para que sua amada faça uma operação que lhe permita enxergar.

Pensou que essa florista bem poderia no lugar de vender flores comuns, oferecer orquídeas, dado a pureza do roteiro e a sutileza na condução de uma trama de bondade explicita, sem nenhuma pretensão de se valer de tal atitude. Nesse caso, foi um ato de amor. De pureza quase infantil, da alma de uma pessoa esquecida à própria sorte, como vagabundo e como expoente marginalizado por uma sociedade preconceituosa e hipócrita.

Entorpecida pelos encantos da flor, visitou Confúcio (551 – 479 a.C.) por ter referenciado seu perfume. Prova contundente de que, o fascínio provocado pela flor rompeu a escuridão do tempo, iluminando a mente de pensadores, filósofos, historiadores, amantes, amados e muitos outros.

Semelhante ao comportamento leviano da humanidade, as orquídeas também mostram às suas facetas, dividindo-se em centenas, talvez milhares de espécies diferentes, cada qual com seu encanto particular e, o mesmo poder de hipnotizar levando emoções e sentimentos na alma dos apaixonados. Nossa cigana orquidófila deixou-se seduzir por essa magia.

Nos estudos diários descobriu que a história da cultura das orquídeas começou no extremo oriente, sobretudo, no Japão e na China, há cerca de 3 mil a 4 mil anos. A palavra orquídea (lan) já aparecia no herbáceo chinês desde então. A primeira referência à orquídea encontrada foi feita pelo Imperador chinês Sheng Nung, ao dar alguns conselhos sobre o uso do Dendobrium com finalidade medicinal. No século III, um manuscrito chinês de botânica menciona duas espécies que hoje são conhecidas como Cymbidium densifolium e Dendrobium moniliforme.

Diz à lenda que bruxas usavam as raízes tuberosas das orquídeas – semelhantes a testículos humanos – no preparo de poções mágicas: as frescas para promover o amor; as secas para provocar paixões.

Desde a Idade Média, as orquídeas são populares por suas supostas propriedades afrodisíacas. Preparados especiais utilizando as raízes ou pseudobulbos e folhas carnosas de algumas espécies foram tidas como estimulantes sexuais, e até mesmo capazes de auxiliar na produção de bebês do sexo masculino. Tornaram-se assim, sinônimo de fertilidade e virilidade.

A própria palavra orquídea tem uma conotação afrodisíaca, já que provém da palavra grega “orchis” (testículo), porque para os primeiros botânicos gregos a forma das espécies da região, parecia com o órgão reprodutivo masculino.

Continuando sua viagem no tempo e pelos continentes, encantou-se com a “orquídea negra” pertencente ao gênero Maxillaria, e nativa do Brasil, nordeste da Argentina, América Central, Flórida (EUA), chegando até as Índias Ocidentais. A brasileirinha Maxillaria schunkeana é uma das espécies do gênero Maxillaria, endêmica das florestas do Espírito Santo. Conhecida no mundo todo como Orquídea Negra, em virtude de sua cor ser de um vermelho púrpuro muito intenso, causando a impressão de tratar-se de uma orquídea negra e tem aproximadamente um centímetro de diâmetro.

Não resistiu ao encanto da interpretação de Zé Ramalho em uma de suas canções “Orquídea Negra” - “Você é a orquídea negra// Que brotou da máquina selvagem// É o anjo do impossível// Plantou como nova paisagem. // Você é a dor do dia a dia// Você é a dor da noite a noite// Você é a dor da agonia// A chibata, o chicote e o açoite”.

Quando soube da Polyradicion lindenii, ou orquídea fantasma, flor de uma brancura espantosa, parecendo um holofote nos tons de cinza e verde do pântano da Faixa de Fakahatchee, no estado da Flórida (EUA), seu habitat. Sonhou com a planta que não tem folhagem, e de raízes quase invisíveis incrustadas junto à casca da árvore. A flor parece estar suspensa no meio do ar como que por mágica. Há quem compare à sua forma, a uma bela e etérea rã branca em vôo.

Planta de cantos refinados, numa haste longa e esvoaçante, e de extremidades tão delicadas que se estremecem com uma leve brisa, cria um movimento semelhante ao de um suposto pequeno fantasma. Sua espécie, cujo nome é uma homenagem ao botânico belga Jean-Jules Linden, que a descobriu em Cuba, no ano de 1844, é venerada e capaz de levar os colecionadores quase à loucura e obsessão.

E agora? Onde estará nossa musa num universo tão rico e praticamente infinito de tantas orquídeas, no qual plantas e flores confundem-se com a cultura universal?

Assim a aventureira orquidófila de sorriso sedutor, começou sua viagem sem destino, mas com rumo definido. Conhecer o mundo encantado das orquídeas. Atualmente está preparando uma expedição à Shangri-la. Acreditando que lá seus conhecimentos irão penetrar outros ecossistemas, novas descobertas virão muito além das lendas, mitos e magias. Transpondo-se de um universo real para outro alvissareiro, porém, rico em conteúdo e expectativa. Será então, a sua primeira viagem rumo ao “horizonte perdido”. Fantástico objetivo para uma nova jornada, para um novo olhar, um sonho com as orquídeas.

Ou estaria ela agora dançando ao som de violinos e castanholas? Na Africa nativa dos atabaques e djembes, ou numa aldeia xinguana absorta na batida cadenciada de danças tribais pela marcação de pés dos indígenas, enigmáticos povos do Xingú? Talvez esteja nalgum lugar do interior de nossos sonhos, em meio à mata, descobrindo uma nova orquídea, encarando o por do sol com seu “sorriso” cheio de mistérios.

Créditos fotos: públicas na internet respeitando-se no espelho aquelas com autores como da Polyradicion lindenii, por Jay Staton no website “photo.net”. Maxillaria schunkeana, Phal. equestris e híbrido de Catasetum do acervo Orquidario Cuiabá. Foto da dança da taboca, etnia kamayurá, povos do Xingú, Brasil de Henry Abreu.

Nota: A atual classificação da Polyradicion lindenii é Dendrophylax lindenii (Lindl.) Benth ex Rolfe.

Esta crônica Um olhar, um sonho com as orquídeas, já esteve disponível no Bússola Literária, desde 19 de julho de 2009. Agora, depois de passar por uma repaginada e, revivê-la com várias modificações no seu texto em relação ao original. Pelo seu conteúdo com várias citações científicas e filosóficas, quem sabe sirva como objeto de discussão num fórum de debates, abrangendo não só, o seu conteúdo sob forma de pesquisa, mas literário e ortográfico.