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sábado, 19 de setembro de 2009

O Jardim que cantava - Última parte.

Na primeira parte conta-se a história do jardineiro Manoel, que após terminar de ler o livro sobre lendas, o motivou a criar sua própria lenda. O livro também narra a tragetória insatisfeita de um barqueiro em busca do seu futuro e do encontro casual com um enigmático velho cego, que lhe adverte para as surpresas que a vida pode reservar.



Sentindo-se preparado e disponível para seus intuitos, procurou as bordadeiras, expôs seu desejo de transformar aquela área ora abandonada em um belo jardim. Após as considerações, encontrou logo de imediato o apoio entusiasmado das humildes mulheres. Sua atitude iria melhorar sobremaneira o visual da sua casa, além é claro, de trazer um novo clima de bem-estar, um novo alento não só para elas próprias, mas de toda a comuniade, que carecia ver aquele desprezível ambiente transformado, quem sabe até habitado por um belo conto de fadas, ou o nascimento de uma nova lenda como era o sonho pessoal de Manoel.

Estava evidente que o livro que acabara de ler causou-lhe estímulo suficiente para a inciativa. Por outro lado, Manoel possuía um espírito tão evoluído que era notória sua atitude de criar o jardim dos seus sonhos. Vidas distintas também iriam manifestar suas tendências através da sua ação. Os pássaros encontrariam outro lugar para cantar e encantar, e as borboletas o seu paraíso de cores e perfumes.

Antes de iniciar os seus preparativos, idealizou a necessidade de constar no projeto algumas plantas aromáticas indispensáveis, que se encarregariam da defesa natural, evitando o ataque de formigas e/ou outros insetos nocivos. Para esta estratégia não pretendia abrir mão do alecrim, camomila, capuchinho, erva-doce, hortelã, manjericão, sálvia, calêndula e gergelim; plantas ornamentais, como: amor-perfeito, petúnias, antúrios, verbenas, bromélias, palmeiras anãs, gerânios, cravos, rosas, jasmins, grama esmeralda, entre outras.

Desde o primeiro momento em que Manoel iniciou suas pretensões de revitalizar a área e criar o jardim, começou a estabelecer um vínculo de entendimento com as sementes e mudinhas escolhidas com esmero, transmitindo a elas status de estrelas, de importância, de serem únicas em beleza; dizia de suas singularidades, de suas personalidades nobres e prestígios. Também iriam representar com rara beleza e simpatia o que existia de melhor em espécie, além de estarem ajudando a construir um paraíso de amor, envolvente e iluminado pela luz do Criador. Seu tratamento chegava a ser de uma amizade paternal. Quando plantava uma sementinha, dizia àquela pequena vidinha ainda por transmutação a importância da vida.

- Querida sementinha, você agora não passa de um embriãozinho de esperança, logo estará crescida, transformada e bonita, porém não perca sua simplicidade, sabendo que sozinha não passaria de um grãozinho quase sem importância, igual a muitos raminhos esquecidos em algum lugar distante do olhar admirado das pessoas, dos animais. Seria bom jamais esquecer deste detalhe, orgulhando-se de ser escolhida para dar alegria e não para se envaidecer caprichosamente achando-se melhor que as demais.

Para as mudinhas dizia: - Oi mudinha, hoje você não passa de um pedacinho de vida, mas logo será grande e exemplo de beleza e admiração. Seu jeitinho nobre encantará a todos. Seja responsável na sua missão de embelezar e perfumar o ar que todos nós tanto precisamos. Seja querida não apenas pelas suas cores e o formato de suas flores, mas por transmitir nos seus dias de existência, felicidade e agradecimento pelas suas características exclusivas.

Com os pássaros não era diferente. Sempre que apareciam Manoel fazia questão de conversar com cada um, mesmo sem um aparente retorno, agradecia a visita, pedindo-lhes que não se afastassem, dando alegria com os seus cantos sublimes, e se possível convidar outros como eles a estarem presentes, dando às pessoas motivações de altivas mensagens, através do seu trinar, com melodias saborosas.

Quando a primeira borboleta apareceu, exibindo suas cores vibrantes, deu-lhe o nome de princesinha. Sentiu de imediato que aquela frágil criatura, ficara contente com o nome. Acompanhava-o a todos os lugares do jardim. Na medida do possível, pousava no seu ombro amigo, ou num outro lugar bem próximo dele. Fazia questão de movimentar suas asas, abrindo e fechando para que ele pudesse contemplar sua beleza única. Definindo bem no centro de suas pétalas de membranas aladas, o desenho que se assemelhava a um olho, representando o olhar atendo do Pai do céu, acompanhando bem de perto aquele momento indescritível. A tansformação do lugar que seria em pouco tempo o paraíso dos sonhos.

Outro fato notável foi o aparecimento da Fada Encantada da Jardinagem, acompanhada de suas seguidoras assistentes. Fulgurantes luzes semelhantes a flashes estrelados, movimentavam-se de um lugar a outro, feito raios riscando o espaço, como se estivessem inspecionando sua criação. Tal acontecimento supria-lhe de toda energia necessária, bondade e sabedoria suficientes para entender a importância e a empatia de cada espécie sem exceção.

Com as formiguinhas ele pedia apoio no sentido de conservar suas plantinhas sem nenhum prejuízo para suas belezas, conservando-as perfeitinhas, não as destuindo. Elas iriam dar muita alegria a todos que as vissem floridas e belas. Transferindo às pequeninas cortadoras de pinças afiadas, a responsabilidade de ajudar a manter o encanto do lugar que seria mágico e de inspiração triunfante. Com esses diálogos cordiais, Manoel conseguiu estabelecer uma irmandade de cumplicidade com todos os habitantes do jardim encantado; com sua lenda em construção, lenda que logo também seria exemplo de fé para um futuro melhor.

Em pouco tempo já havia concluído o seu espaço florido, sua obra-prima, uma realidade indiscutível que não demorou a se confirmar. Todos os dias impreterivelmente reservavam as manhãs e as tardinhas para os cuidados necessários da sua criação, seja para aguagem, como para as limpezas e podas imprescindíveis. Havia adquirido o dom de conversar com as plantas, aves e insetos, em diálogos longos, proveitosos e permanentes, capazes de esclarecer as particularidades de cada espécie. Quando chegava era recebido com elevada manifestação de carinho. Os pássaros irradiavam com suas virtuosas presenças, melodias alegres cantadas em verdadeira sinfonia poética; plantas e flores no mesmo ritmo formavam um coral de boas-vindas. Até as pessoas que não podiam ver, ou perceber o encanto, sentiam intimamente aquela harmoniosa presença do sobrenatural, comum da alegria incontida.

Tornou-se aos poucos, hábito indispensável das pessoas passarem pelo magnífico jardim criado por Manoel e presenteado com gestos de alta nobreza àquelas mulheres solitárias, criativas e talentosas na sua arte de bordar. Quem dali se aproximava, livrava dos mais enraizados problemas; os adoentados, enfermos e desenganados vislumbravam esperança. Havia até quem dizia se sentir curado dado ao alto grau sensitivo de envolvimento. A notícia dos feitos e situações consideradas impossíveis e que encontravam soluções e respostas positivas, foi se espalhando com tamanha velocidade, que não tardou a se tornar visita obrigatória, e até romaria para quem buscava a cura de suas doenças consideradas incuráveis, ou mesmo do conforto espiritual em busca da felicidade almejada, de certa forma privada para os mais incrédulos. Contudo, ao passar pelo jardim percebiam o sorriso contagiente da vida plena. Da manifestação divina, vindo da fé e da indiscutível presença de bem-estar causada pelo encanto energético das flores coloridas, da beleza e do canto estraordinário das aves. Era o jardim que cantava. O jardim que floria na alma das pessoas.

Manoel maravilhado com sua criação, concluiu espontaneamente que não basta ter apenas um jardim com plantas diferenciadas. É preciso que esse jardim esteja dentro de si, dentro de cada um. Sentir além do perfume das flores, o seu sorriso de felicidade. Compreender que os pássaros não vão a determinado lugar por um mero acaso, ou pelo descanso após longos voos, mas pelo prazer, pela receptividade; as borboletas e as abelhas também não procuram os jardins pelo seu colorido, mas pela sua doce simpatia envolvente, produzida até mesmo pela mais simples plantinha imperceptível, desde que esteja irradiando harmonia, felicidade e que sua beleza não se traduza em uma negativa futilidade, mas, na essência superior do Criador, no seu momento de resplendor criativo. Onde até mesmo as formigas e outros insetos nocivos pedem licença para contemplar sua magnífica magia. Todo jardim feito e cuidado com carinho tem as bênçãos da Fada Encantada da Jardinagem, que tudo faz para imperar na vida dos seres, o amor ao próximo de maneira espontânea e atitude de caráter superlativo.

Fotos: Internet, Google Image

terça-feira, 15 de setembro de 2009

O Jardim que cantava

No universo da humanidade, existem pessoas e pessoas, algumas impares por natureza. Manoel fazia parte deste diferencial. Apaixonado pela sua profissão de jardineiro, pelas plantas e tudo que dela se associa, também era curioso, estudioso e fissurado por lendas de enlevo. Seu sonho era um dia ter sua própria história, ser lenda por onde passasse e por ventura ou aventura em outros horizontes, em outros lugares. Com a simplicidade que lhe era sinônimo e a determinação de uma pessoa que vivia cada segundo de sua vida, aliada a uma personalidade brilhante e perseverante, fizeram-no começar a construir seu próprio legado.

Morava em uma pequena cidade, contudo, não se tratava de um lugar ermo, sem importância. A população, como ele, admirava o encanto de um jardim bem cuidado. Difícil encontrar uma casa que não tivesse uma área florida, com todos os requintes de beleza.

Certo dia depois de fazer seu percurso habitual, pois era o único caminho que o conduzia à sua morada, ao passar por uma casa a muito observada, embora modesta, tinha algo que considerava fundamental: área disponível para se construir um belo jardim. Suas moradoras, uma senhora com aproximadamente 50 anos, sua filha que se imaginava 30, imprecisos, lutavam com dificuldades pela sobrevivência. Dependiam único e exclusivamente de uma pensão deixada pelo marido falecido há algum tempo, e, casualmente dos trabalhos que ambas desenvolviam com bordados. Era inegável a qualidade e o primor das peças por elas trabalhadas.

Com os parcos recursos financeiros a que tinham direito por questões óbvias da morte do representante masculino da casa, tornava-se difícil o exercício daquilo que elas mais gostavam de fazer, bordar. Faltavam-lhes tecidos, linhas e o apoio de alguém que se interessasse em ajudá-las.

Um dia Manoel depois de ter passado quase à noite toda lendo um livro que acabara de adquirir, ficou impressionado com sua leitura que contava a história de um homem que estava cansado do que fazia. Era um barqueiro que transportava pessoas de uma margem a outra de um rio. Esta sua atividade já vinha desde a infância, quando substituiu o pai que na época se encontrava velho e doente. Não sabia fazer outra coisa, até que ao transportar um senhor atingido pela fatalidade da falta de visão, se admirou com a simpatia do velho cego; seus modos, maneira de vestir e o seu sutil comportamento enigmático. Na história o barqueiro somente no final do percurso que fazia a travessia, teve coragem suficiente de perguntar-lhe o nome.

Descreve o livro: "...Silencioso e de aparência compenetrada, podia-se notar que estava atento a tudo que acontecia à sua volta. Ao ser questionado pelo nome, o barqueiro recebeu educadamente a resposta: - "Me chamo Felicidade, mas pode me chamar de Sorriso, como as poucas pessoas que me conhecem me chamam". Ao obter a informação, o barqueiro imaginou logo tratar-se de uma brincadeira nada convencional. Pensou de imediato: - "Isto é pra eu permanecer calado e só responder ao que me perguntam, e deixar a vida de cada um por sua conta..." A cada informação Manoel permitia-lhe invadir os seus conceitos de pessoa atenciosa e sentir-se totalmente envolvido com a leitura, parecia que havia incorporado o personagem barqueiro, e estava vivendo a história como se fosse dele mesmo.

Segue o texto: - pensou o barqueiro: - "Só queria saber o seu nome e depois declarar minha admiração pela sua coragem de transitar sem temores nas suas condições. Isto é feio? É bisbilhotice?" Continuou sua atividade sempre se questionando em busca de respostas". Manoel compenetrado vivia momentos de êxtases, alimentando pensamentos paralelos, na mesma intensidade do personagem. Continua a narrativa do livro. "...Até que um outro dia o mesmo senhor pegou o seu barco de volta. Vendo-o com a mesma elegância, as mesmas roupas limpinhas e bem engomadas, sapatos lustrados e a bengala com alça em couro trabalhado, cresceu ainda mais sua admiração por aquele bem aparentado e curioso velho, nem por isto se atreveu fazer qualquer comentário...".

Nessa noite Manoel não conseguiu ler toda a história, embora ficasse impressionado e ansioso pelo desfecho. Estava cansado, precisava dormir, pois, o dia seguinte seria de muito trabalho e ele necessitaria de disposição. Muita disposição! Mesmo trabalhando com toda atenção dispensada ao que fazia, não conseguia desvencilhar seu pensamento da história que o levava a meditar sobre cada detalhe do que havia lido. - "Por que será que o velho deu aquele nome de forma incompreensiva, sem sentidos, se o barqueiro só queria ser simpático?" - Pensou. Assim transcorreu todo o dia sem uma conclusão satisfatória. Entretanto, ao chegar em casa iria sem dúvida descobrir.

Novamente no retorno pra casa, ao passar pela residência das mulheres bordadeiras, seu pensamento vagou pelo desejo de transformar aquele espaço abandonado, habitado pelo mato, quem sabe até por animais peçonhentos e perigosos, em um lindo jardim com sua magia particular. Povoado por borboletas, abelhas, pássaros e o olhar admirado das pessoas que por ali passassem.

Quando terminou sua leitura descobriu que realmente o velho se chamava Felicidade. Também eram justo que os poucos que o conheciam, como ele mesmo disse chamá-lo de Sorriso. Havia um motivo encubado em torno do seu nome. Acontece que mesmo não podendo enxergar. Ver a natureza com suas nuances e belezas exuberantes; não poder olhar nos olhos das pessoas como a maioria, ainda assim, trazia no coração um sentido especial. Podia enxergar a alma de quem dele se aproximasse. E naquele momento em que o barqueiro havia lhe perguntado o seu nome, pode perceber o desejo do condutor do barco de conhecer novas oportunidades, novas conquistas.

Manoel entendeu que o velho percebendo que o barqueiro fazia com respeito, naturalidade e bem-feito sua obrigação, no retorno sem que fosse solicitado, respondendo suas indagações pessoais captadas pela sensibilidade telepática, aconselhou-o a continuar tansportando pessoas, porque além de transportar vidas, estava conduzindo muitas vezes indivíduos em busca do seu próprio destino. Para alguns estavam reservadas grandes realizações, entretanto, para outros por circunstâncias que envolviam o livre arbítrio podiam eventualmente se envolver com momentos trágicos. E ele ali nas suas idas e vindas dava esperança a quem buscava o incompreensivo, fugindo do obscuro limiar da insatisfação, do desconhecido e da falta de perspectivas.

O interessado jardineiro atento a alguns detalhes, se surpreendeu mais uma vez com alguns dados considerados de grande importância, no conceito inteligente de ver o sentido da vida, defendido pelo nobre senhor cego, e, anotou alguns exemplos relevantes:

- "A abelha ferroa não porque é hostil, mas para proteger sua colméia, dando sua vida pelo que acredita. Visto que, no ato de picar suas vítimas, não conseguindo retirar o seu ferrão intacto, perde parte do seu intestino, causando-lhe morte certa. Depois não faz isto somente por prazer, vingança ou em benefício próprio, mas de toda comunidade melífera da qual faz parte e estar pronta para defender. Tem consciência do sabor cobiçado do seu favo doce, e da dificuldade de produzí-lo. Tendo que trabalhar em voos contínuos e distantes, em busca do néctar só encontrado em maior quantidade na época das floradas, nos campos, pomares e jardins, para a produção do alimento de cada dia, inclusive da geléia real indispensável para a alimentação da sua soberana, a rainha, responsável pela reprodução e produção dos ovos que darão a continuidade e a esperada preservação da espécie."

Continua o velho cego nas suas explicações, através do livro: - "Semelhante é a roseira. Ela tem espinhos, não porque seja ofensiva, mas para também se defender. Mesmo assim todos a admiram, pela beleza de suas rosas, e pela sua fantástica capacidade de hipnotizar corações apaixonados nas mais diferentes situações. É plantada em terreno fofo, depois é adicionado o esterco proveniente do excremento e origem animal, para que cresça vistosa e sadia. Nem por isto é mal cheirosa, pelo contrário, suas rosas são lindas, em cores variadas e perfumadas."

Outro exemplo: - "O arco-íris é o efeito de partículas muito pequenas, quase invisíveis de água sob a forma de spray, ou pulverizadas pela chuva ou grandes cascatas de águas que caem. Em contato com os reflexos dos raios do sol, causam todo o esplendor de cores diferentes, sem a pretensão de combinações. Em forma de arco, para muitos saudosistas com as estorinhas fantasiosas dos tempos dos avós, em cada uma de suas extremidades, um fabuloso tesouro está esperando por um merecedor".

- "A lagarta com sua aparência considerada por muitos repugnante, se arrasta com dificuldade nos locais mais adversos se protegendo de predadores, ou mesmo, para evitar ser pisoteada pelos indivíduos maiores. Passa a maior parte dos seus dias, procurando alimento de galho em galho. Como recompensa, se penaliza por um tempo dentro de uma crisálida minúscula, fechada e sufocante, antes de se tornar uma belíssima borboleta capaz de voar livremente nas alturas, mostrando sua simpatia e encanto. Pousar em lindas flores perfumadas, pelos campos, jardins ou na arte da tela de uma pintura feita pelas mãos cuidadosas de um talentoso pintor".

Assim que teminou a leitura, instintivamente deixou transparecer um largo sorriso. Quando se viu sorrindo compreendeu o real sentido do nome do velho cego. Refletiu algum tempo às mensagens e decidiu, assim que terminasse o trabalho em andamento, iria construir o jardim que considerava como sendo sua missão. Falaria com as mulheres, convencê-las-ia e colocaria em prática sua proposta pessoal. A partir daquele momento, seria o barqueiro sob a forma de jardineiro. Com um detalhe expressivo a acrescentar: sabia o que queria na sua vida, tinha prazer pelo que fazia, além, de se sentir responsável pela alegria no olhar dos amantes do belo e despertar nas pessoas, transformações grandiosas de preservação da natureza e sua origem.

Por enquanto vamos interromper por aqui, promentendo para ainda nesta semana, publicar a última parte do conto. Grandes revelações estarão por vir. Vale a pena conferir.
Fotos: Internet Google Image

sábado, 15 de agosto de 2009

Tankamirés, o príncipe das múmias (Final)


Na parte anterior Tankamirés e o amigo Ankhetamon, encontram o ermitão Shorubhak o qual ofereceu uma poção que minimizaria o sofrimento da amada Minakhasis, porém, não foi o suficiente para interromper o agravante de sua morte. Só restou-lhes dar continuidade aos seus propósitos de perpetuar o corpo através da mumificação.


...Durante o período que antecedeu a morte da amada, Tankamirés se cercou de todas as providências necessárias para o êxito do processo cirúrgico. Investiu todo o seu tempo e o minguado dinheiro disponível fruto do seu trabalho no campo, em benefício daquele inevitável acontecimento: vendeu o seu rebanho de cabras e alguns objetos pessoais; lavrou a terra e dispôs antes mesmo da colheita de toda sua plantação de trigo, cultivada em área fértil cedida pelo amigo de todas as horas, Ankhetamon. Pesquisou e estudou sobre o assunto de sua obstinação; foi em busca de pessoas que conheciam as técnicas, demonstrando a elas apenas uma curiosidade momentânea que muito poderia ajudá-lo sem, contudo, percebessem suas intenções; adquiriu fórmulas, produtos químicos e para a bandagem que envolveria o corpo, uma manta de fino linho branco; confeccionou os ataúdes - três, que seriam colocados um dentro do outro, como manda a tradição - com o que tinha de melhor em espécie de madeira. Sempre com a colaboração afetuosa do amigo inseparável que também estava condoído com a situação. A tampa do sarcófago foi esculpida com entalhes da imagem da finada, por artesão competente e pintada nas cores vermelho e dourado com tintura resinada, capaz de suportar as ações do tempo.


Enquanto desenvolvia o processo de preparação do corpo a emoção tomou conta do ambiente. Tankamirés em alguns momentos chorou diante das cenas grotescas de incisões e retiradas dos órgãos internos da morta. Sendo confortado pelos amigos envolvidos na missão. Quando tudo ficou pronto puderam admirar o resultado da obra. A partir daquele momento novos desafios iriam enfrentar: transferir aquela magnífica peça para o local determinado como sendo a Morada de Minakhasis, simbolizando o mesmo grau de importância dado aos faraós, que eram colocados no lugar chamado Morada os Reis. Com um detalhe em especial, ali seria a morada da menina moça, que havia se transformado em deusa da beleza e da bondade para Tankamirés.


Alguns anos se passaram, todos levavam suas vidas normalmente. Os amigos estavam sempre por perto. Entretanto, quando Tankamirés queria passar momentos de reflexão e aprendizagem, ia à busca do velho amigo Shorubhak. Em todas às vezes que o visitava não deixavam e dedicar um tempo de exclusividade para orações, no santuário localizado na ante-sala do monumento secreto à Minakhasis. O sarcófago ficava acomodado em outra sala contígua devidamente disfarçada em pedra bruta, hermeticamente fechada, selada e imunizada contra todos os tipos de visitantes indesejados, onde nada e ninguém deveriam ter acesso.


Nessas idas e vindas ao encontro do velho ermitão, a amizade entre os dois já estava tão consolidada que temeroso de sua morte, Shorubhak achou por bem preparar e ensinar ao jovem com tudo que sabia e armazenara no seu íntimo ao longo da vida. Em cinco anos de estudos e dedicação incessante, Tankamirés dominava com maestria a sabedoria do mestre. Contava com requintes de clareza e detalhes os locais por onde ele havia passado; falava com desenvoltura e fluência outros idiomas e dialetos; manipulava fórmulas espetaculares e conhecia com extraordinária competência as mais variadas ervas úteis e outras nocivas usadas na preparação de poções letais por envenenamentos, comuns entre a sociedade egípcia da época.


Com essas virtudes adquiridas, começou a conquistar projeção e respeito na sua região. Logo, pelo andar dos acontecimentos conseguiria destaque na corte. Seu nome também era motivo de comentários engrandecedores e elegantes. Não demorou muito para que as previsões quanto à permanência do mestre na terra viessem a se confirmarem. Shorubhak faleceu deixando um legado preservado e um vácuo no coração e na história de Tankamirés. No entanto, o amigo havia transformado sua vida para melhor. Aos 30 anos tornara-se conhecido junto a comuniade e já fazia com sucesso alguns procedimentos de mumificação, envolvendo ilustres e ricas personalidades egípcias que patiram para outra esfera do mundo desconhecido dos espíritos. Graças aos ensinamentos do velho mestre e amigo ermitão, das fórmulas secretas que mantinham em segredo, da indelével e indispensável ajuda do jovem amigo de todas as horas, Ankhetamon que havia se tornado seu assistente profissional.


Mesmo sendo aclamado por muitos pelo sucesso de seus feitos como cirurgião e preparador de múmias, Tankamirés mantinha-se indiferente ao que estava acontecendo à sua volta. Seus pensamentos haviam estacionados nas lembranças da amada e nada o demovia daquela adoração e entrega. No seu coração não tinha espaço para outro amor e para não ficar exposto a pensamentos e ações indevidas, dedicava-se de corpo e alma aos estudos e pesquisas, tornando-se a cada dia um expoente de elevada grandeza na execução de sua arte e profissão, conquistadas pelo seu trabalho memorável.


Com o progresso e o primor de suas habilidades se expandindo numa velocidade espantosa, certo dia que era para ser comum como outro qualquer, iria mudar sua rotina de tranquilidade. A rainha Nefertiti informada do seu eficiente trabalho, quis conhecê-lo e deveria comparecer imediatamente à sua presença. Ao chegar, atendendo a convocação, foi recebido e levado como um serviçal comum, sem qualquer pompa, meio que discretamente ao encontro da soberana.


Depois de muitos entendimentos sobre sua inquirição do momento, ficou definido que ficaria encarregado de preparar o corpo da sua sobrinha a quem dedicava muito carinho. A moça tinha a idade da sua Minakhasis. Ao aproximar da enferma teve um momento de extrema perplexidade. Olhou, olhou e olhou incrédulo com a semelhança, tanto física como plástica e curiosamente em circunstâncias semelhantes sob quase todos os aspectos. As pessoas presentes que o acompanhavam ao vê-lo com a aparência de espanto e êxtase quiseram saber o motivo daquela expressão tão imprevisível, principalmente em se tratando dele, uma pessoa acostumada a lidar com situações ainda mais sérias e impactantes. Ele se desculpou contornando a situação dizendo da jovialidade da moça e a injustiça que a fatalidade havia lhe reservado.


Para executar os procedimentos, solicitou a presença do amigo de todas as horas, também assistente, além de todos os intrumentos de trabalho e dos produtos químicos considerados confiáveis e dos quais ele mesmo preparava.


Quando o amigo chegou trazendo suas solicitações, foi informado de tudo e principalmente da semelhança entre a enferma e Minakhasis, inclusive das condições de enfermidade em que se encontrava, fazendo-os a retornar às emoções contidas de outrora e que o acaso não poupou a angústia. Acertaram os detalhes e não vira qualquer tipo de dificuldade para a execução da cirurgia, já que haviam feito literalmente outra igual em quase todos os sentidos. A pretensa eternização da noiva.


Na época, com a instauração do credo monoteista de adoração ao deus único Aton, o disco solar, os sacerdotes que cultuavam o deus Amon, divindade que trás o sol e a vida ao Egito, já não gozavam mais do prestígio de antes. O faraó havia centralizado em seu benefício às adorações divinas, se autodenominando como sendo o único representante e mediador do deus Aton. Todavia, houve da parte do clero mesmo enfraquecido, o repúdio exigindo a aplicação de pena máxima ao jovem cirurgião na utilização dos seus trabalhos, considerados por eles de charlatanismo, atribuindo tal atitude uma afronta às tradições. E que no mínimo o faraó deveria através do seu poder absoluto condená-lo à morte por heresia. Em sua defesa Nefertiti imediatamente intercedeu. Utilizando-se do seu charme, sedução e persuasão feminina, fizeram com que o marido Akhenaton desse o seu apoio e respectiva autorização para que Tankamirés exercesse todo e qualquer procedimento cirúrgico em todo o Egito, além de ser efetivado como sendo o médico particular da rainha.


Após a morte da sobrinha e o belíssimo trabalho de preparo do corpo e a eficiência empregada nos retoques, maquiagem, utilização dos químicos e essências aromáticas exclusivas, Tankamirés conseguiu o seu esplendor tanto profissional como de cobiça das donzelas da corte, pelo seu alto grau de sabedoria e beleza. Alguns egiptólogos ecreditam que ele se casou quase que por exigência real com a filha do casal de monarca, a princesa Meketaton com quem teve filhos, sem deixar, todavia, de esquecer o seu amor verdadeiro e de veneração a Minakhasis. O seu monumento fúnebre às margens do rio sagrado ficou tão bem escondido e protegido que não se tem registro de sua descoberta.


O velho ermitão que passou toda sua vida em busca de si mesmo, acabou encontrando um pássaro que utilizando a magia da compreensão e da bondade, ensinou-lhe que é possível viver com simplicidade sem perder a harmonia entre o aqui e o acolá. E o mais importante que ter um amigo de todas as horas, é ter todas as horas para se comportar como um amigo de verdade. E quanto ao amor? Ah, sim! Esse as pessoas encontram somente uma vez. Mas não custa nada dar chance a si mesmo de se renovar e deixar o coração livre para fazer à sua escolha. Entretanto, não é necessário estar com os olhos abertos para enxergar o mundo à sua volta, contanto que o faro das gandes descobertas o deixe saborear o gosto da vitória de se descobrir todos os dias sem precedentes. O importante em tudo isto, é estar vivo e poder contemplar todas as mudanças que por ventura se fizerem imprescindíveis.


Ilustrações: Neli Vieira

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Tankamirés, o píncipe das múmias (cont...)


Na primeira parte do conto Tankamirés acompanhado do amigo Ankhetamon, partem em busca de uma solução eficiente para combater a enfermidade da sua amada Minakhasis, apostando nas habilidades do ermitão Shorubhak.



...Já era noite quando o velho eremita explicou a respeito do preparado que iria entregar a eles e da meneira como seria ministrado. A partir daí, estariam prontos para o retorno levando em mãos um frasco contendo uma poção que poderia salvar a vida da amada. O ermitão adiantou que se o remédio não proporcionasse a cura total pelo menos adiaria por um tempo o estágio definitivo e deplorável da enferma, diminuindo a dor e o sofrimento. Enquanto isto, novos preparados ele se encarregaria de providenciar, sem, contudo alimentar qualquer expectativa de cura. Sabia da gravidade do problema pois conhecia muito bem aqueles sintomas, tantas vezes presenciados em outras pessoas há quem um dia servira, oferecendo-lhes os seus préstimos.


De repente interrompeu a conversa dizendo: - Vocês me fizeram lembrar de quando aqui cheguei.


- Ao fazer a escolha de morar sozinho, depois de ter viajado por lugares nunca antes imaginados; conhecido pessoas de diversas origens, etnias, gostos, aparências e poder, mesmo assim achei que não sentia solidão. Pouco eu sabia que já era uma pessoa solitária. Viajava em busca de algo que não conseguia encontrar. Depois de muito procurar, descobri que estava em busca de mim mesmo. Observando as pessoas que encontrava pelo caminho, sem perceber tentava me enxergar. - Disse o velho falando sobre reminiscências.

- Depois de alguns meses que havia me instalado entre estas rochas, percebi que um pássaro todas as manhãs me visitava. Pousava naquela pedra preta - apontou uma pequena elevação rochosa próxima de onde se encontravam -, por incrível que pareça contrastava perfeitamente com sua plumagem branca. Aos poucos fui conquistando sua confiança atirando-lhe migalhas de comida. Ele continuou agindo da mesma maneira. Todo dia podia contar com sua visita. - O velho falava com expressão de admiração.


- Certa vez enquanto o alimentava com as migalhas que lhe atirava, despercebido comecei a assobiar uma música antiga, dos meus tempos de infância, muito bonita e uma das poucas que conhecia. O pássaro alimentou-se e foi se embora. No dia seguinte ele voltou e enquanto lhe oferecia o seu alimento habitual para minha surpresa ele começou a trinar o seu canto melodioso a canção que assobiava no dia anterior. Não conseguiu cantá-la toda, mas já havia aprendido a soltar sua voz pelo menos por pouco tempo. Havia dado suas primeiras entoações. Imaginei o quanto ele deveria ter ensaiado pra me mostrar o que aprendera.


- Continuamos a nos encontrar no mesmo horário e a cada dia ele cantava um pouco mais, até que um dia ele apareceu, cantou três vezes aquela nossa canção linda, cheia de emoção, voou e nunca mais voltou. Até hoje deixo migalhas para ele, sem receber a graça da sua visita. Imagino que talvez tenha sido vitima de um caçador inescrupuloso; estaria preso em alguma cela alimentando o egoísmo de algum indivíduo que queira o seu canto só pra ele; ou ter considerado que havia aprendido o suficiente e não precisaria mais do amigo que ele cativou apenas com sua simplicidade e cordialidade. - Disse o velho agora deixando fluir sua emoção.


- Vou continuar esperando-o, pois, em todo esse tempo de convivência o ensinei a cantar, mas não disse que também tinha me ensinado o quanto era importante para mim. Concluí que havia me fechado para ele, enquanto deveria ter dado a chance de conhecer-me melhor e ter agido ao contrário. Ter externado a felicidade que proporcionava com sua visita, afinal, ele também parecia tão solitário quanto eu. Ter dito que era o meu amigo das manhãs e que me trazia gratidão, porque fazia esperá-lo na manhã seguinte antes do sol mostrar o seu sorriso, e depois poderia vê-lo voar livre para o seu mundo de descobertas.


- Hoje eu penso que aquele pássaro que tanto demonstrou companheirismo sem pedir nada em troca, apenas às migalhas que lhe oferecia por prazer pessoal, agora está fazendo com outra pessoa o mesmo que fez comigo. Ensinando-lhe a ter paciência, esperança e acreditar que enquanto esperamos um novo dia, uma nova vida renasce, um novo sol irá brilhar e o ar de ontem não é o mesmo que respiramos hoje, embora o oxigênio seja semelhante. - O velho respirou em fortes haustos e continuou o seu raciocínio explicando melhor sua metáfora.


- Sua noiva está experimentando essa mesma experiência, ela já cantou ao seu ouvido e encantou o seu coração. Agora vai voar em busca de um novo aprendizado, porém, livre e distante do cárcere da dor e do sofrimento do corpo. Mas vai deixar uma luz no seu caminho, uma recordação angelical no seu pensamento; o reconhecimento de que cada passo que der, estará conquistando uma nova leitura da vida e deixando para trás pegadas consistentes e fundamentadas. - Disse o ancião de maneira contemplativa e filosófica.


- O mal que sua noiva experimenta não tem cura perante a medicina dos homens. O seu organismo está sendo dilacerado rapidamente e a vida esvaindo-se a um agitar do vento em tormentas; volta pra junto dela e diga o necessário. Diga o quanto ela representa pra você e não faça como eu, que deixei de dizer para o meu amigo pássaro da sua importância. Nem nome eu lhe dei para selar com mais intensidade nossa amizade. Diga ainda, que pela primeira vez algo importante brotou na sua vida, e que ela o ensiou a dar os seus primeiros passos projetando perspectivas alentadoras. - Elegantemente e de maneira virtuosa o velho concluiu suas considerações enobrecedoras.


Após aquele relato, e de terem ouvido extasiados a história, os amigos perceberam que o velho eremita tinha doçura na alma. Vivia no seu mundo de reclusão existencial, porém carregava no bojo de seus conhecimentos, ensinamentos ricos de exemplos nobre e valor a vida. E que depois de todas essas observações, percebia-se que realmente Manakhasis havia restaurado o sentido da vida no coração de Tankamirés.


Continuaram conversando por um longo tempo, depois foram dormir. Iriam partir antes do alvorecer e a caminhada seria longa e cansativa. Lutavam contra o tempo e uma doença impiedosa. O velho e agora amigo, depois de todo esse tempo pronunciou o seu nome Shorubhak, em seguida colocou-se à disposição de ajudá-los no que fosse necessário dentro de suas limitações, continuaria pesquisando alternativas no sentido de encontrar uma poção milagrosa para combater o mal que acometera a jovem. E que na verdade se tratava de um câncer abdominal que se espalhava de forma vertinosa pelo interior do seu corpo destruindo todas as resistências que encontrava pela frente.


Tankamirés contou-lhe suas intenções de perpetuar o corpo da amada pelo processo da mumificação e que sabia não ser fácil. Não conhecia as técnicas e ainda teria que fazer os procedimentos às escondidas para sua atitude não ser considerada como uma heresia ao culto religioso da cultura do seu povo. Somente os sacerdotes poderiam exercer, ou supervisionar aquela função, assim como, iniciativas medicamentosas. Depois teria ainda que convencer a família muito arraigada ao culto a Aton, o disco solar, e ao faraó que se nomeou com o título de legítimo representante da divindade poderia ser digno de adoração, portanto, as dificuldades se faziam presentes e a princípio difíceis de se transpor.


Partiram relativamente confiantes. Se não conseguissem a cura pelo menos retardariam a corrida acelerada da doença rumo à morte. Tankamirés entregou a poção à família e ensinou-lhes todas as recomendações necessárias para sua aplicação. Outra batalha teria que enfrentar: pesquisar os procedimentos da mumificação e a confecção do esquife (sarcófago) onde o corpo seria colocado para sua morada eterna, ou até quando a ressurreição fosse estabelecida. Crença alvissareira do povo agípcio quanto aos caminhos da alma, do espirito.


Em nenhum momento os amigos se afastaram dos seus propósitos, atitude que alicerçaria ainda mais o vínculo de amizade entre os dois. Assim o tempo foi passando até que chegou o fatídico momento que tanto temiam. Manakhasis veio a falecer. O remédio que tomou protelou a fim antes imediato, sem deformar sua aparência jovem e bela. Quem a visse nem perceberia que sua enfermidade fosse tão severa e destruidora. Tankamirés e o amigo Ankhetamon com dificuldade conseguiram junto aos familiares romper a barreira que os impedia fazer a perpetuação do corpo.


Uma vez concluído os detalhes dos procedimentos a serem tomados deveriam manter a cirurgia com extremo cuidado. Para tanto estabeleceu-se um tipo de juramento inviolável de que somente eles saberiam e deveriam guardar o segredo, sob a infelicidade de cair no conhecimento da população, depois chegar até aos sacerdotes e por fim ao faraó que exerciam o poder sobre a vida e a morte. Todos os envolvios correriam esses riscos evitando com isto a pena de morte por heresia.


O enterro seria forjado. Com os devidos cuidados antes do cortejo fúnebre o corpo deveria ser substituído por um boneco de pano moldado em resina com as características da falecida elaborado com perfeição pelas mãos de um artista. Todo esquema havia sido estudado e desenvolvido no mais absoluto segredo. O verdadeiro iria ser levado para um lugar seguro devidamente planejado e preparado para os procedimentos da mumificação. Haviam buscado o velho Shorubhak que muito os ajudariam na consecução da cirurgia, dado aos seus amplos conhecimentos de medicina natural, baseados nos seus preparados especiais. Era conhecedor de elementos químicos que não alteraria a cor da pele, com fórmula exclusiva e secretamente mantida, além de incensos, perfumes e fluídos de assências aromáticas. Como bens pessoais ela não possuía camafeus, jóias e pedras preciosas além de sua beleza natural irretocável. O velho ermitão havia também escolhido o lugar apropriado para esconder o sarcófago que somente ele e Tankamirés saberiam.


Como estava velho, após sua morte apenas o jovem ficaria com o segredo, seria a sua "caixa de pandora". O lugar escolhido para a câmara mortuária ficava num penhasco rochoso situado a pouca distância de onde morava. Era bonito e de difícil acesso. Antes de se chegar até ao local, teria que superar um pequeno pântano infestado pelos temíveis crocodilos do Nilo, que reforçaria a segurança, garantindo a confiabilidade de impedir possível violação e saque. O lugar era perfeito, recebia privilegiadamente o frescor da aragem do rio sagrado; ambiente verdejante e florido, berço de lindas borboletas primaveris. A flora e a fauna eram exuberantes, lugar mais primoroso seria quase impossível. O experiente Shorubhak havia pensado em tudo nos mínimos detalhes. Parecia que estava cuidando da segurança dos despojos de uma filha, que não conhecera.


Ilustrações: Neli Vieira


(Continua em breve a última parte...)

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Tankamirés, o príncipe das múmias


No Egito, por volta do ano 1348 a.C., durante o império do faraó Akhenaton (Amen-hotep IV) esposo de Nefertiti, filho de Amenófis III o monarca a quem sucedeu, o país gozava de um período de prosperidade, inclusive nas artes, sustentado pelas conquistas e políticas herdadas do pai. As lutas e invasões quase não existiam. O poder egípcio dominava quase todos os outros povos de seus interesses, e a população nutria um período de harmonia, paz e uma economia sólida. Tebas havia se transformado num centro econômico. Pela sua soberania na época, detinha o poder sobre os demais impérios. Através destas conquistas, vultosas quantias em tributos, mercadoria e ouro eram entregues sob a forma de impostos, além de convergir para seus domínios o fluxo de escravos, riquezas e artes de outros países. Porém no seio dessa tranquilidade aparente, o povo, sofria por enfermidades graves que ainda não haviam encontrado respostas para suas curas.

Tankamirés era um jovem de vinte anos, sonhador como todos da sua idade. Estava apaixonado por Minakhasis, uma linda garota de dezesseis anos, que se encontrava tristemente enferma e sem perspectivas de recuperação. Já havia feito promessas ao deus Aton, consideradas difíceis de serem cumpridas. Todavia, ainda faria muito mais se fosse necessário em benefício daquela que um dia queria como sendo sua esposa. Sua recuparação seria uma luta que ele não admitia perder. Primeiro acreditava que sua crença não o trairia, depois tinha uma esperança inquebrantável que reforçava o desejo de vê-la feliz ao seu lado construindo uma família com vários filhos.

Certo dia Tankamirés conversando com o amigo Ankhetamon resolveu dividir suas dificuldades emocionais contando-lhe o drama por que passava sua pretendida, na expectativa de que ele pudesse dar uma sugestão confiável, apontando um caminho seguro a seguir no sentido de tirar Minakhasis daquele tormento de dor e angústia.

O amigo depois de ouvi-lo atentamente, como que iluminado por uma luz redentora, aconselhou-o a procurar um antigo eremita de quem ouvira falar possuidor de incríveis virtudes como curandeiro. E até onde tinha conhecimento violava discretamente às imposições dos sacerdotes aos quais eram atribuídos o poder de cura, e naquele instante vivia como ermitão numa isolada região às margens baixas do Nilo, distante um dia de viagem de onde estavam.

Tinham consciência de que iriam deparar com a resistência da parte o homem solitário de cooperar. Geralmente pessoas com esse perfil se isolam por não acreditarem mais nas atitudes da maioria dos indivíduos, preferindo levar uma vida de abandono, mas fiel às suas convicções. Acreditavam que vivendo dessa maneira não poderiam ser enganadas por elementos impetuosos, mantendo-se ausentes de preconceitos, maldade e hipocrisia. Todavia, valia a pena a tentativa, já que a situação parecia conspirar contra ele e a mulher amada, ainda mais estando ela desenganada e aguardando os instantes finais. Sem hesitar Tankamirés pediu quase implorando que o amigo o acompanhasse naquela busca de esperança e que deveriam partir imediatamente. O tempo estava exíguo e a enfermidade da mulher querida a devorava sem piedade. Constituindo sua grande inimiga e teria que ser combatida de imediato.

Por outro lado, ele desiludido pensava: - "Será que o ermitão iria ajudá-lo naquele momento de desespero, apresentando soluções confiáveis através e seus conhecimentos? - Queria acreditar que sim - Morava isolado, bem longe da civilização, vivendo dessa maneira, deveria saber de poções mágicas poderosas e eficientes, portanto, seria ele mesmo o responsável pela manutenção da sua saúde". - Concluiu o seu pensamento com uma pontinha de esperança. Tudo acertado pôs-se a caminho. Enquanto caminhavam, vários assunstos vieram à tona em relação à Minakhasis. Entre esses assuntos dois deles simbolizou o quanto a amava. Dizendo ao amigo, caso não conseguisse salvá-la da morte, iria perpetuar sua imagem com boas recordações e em relação à sua beleza física faria por meio da mumificação do corpo.

Sabia que tal procedimento seria difícil e a realização quase impossível. Tanto ele quanto ela não faziam parte da elite dominante e muito menos da realeza para serem beneficiados com aquele recurso e conseguir o seu intento de perpetuar a amada. Embora tivesse algum conhecimento intelectual adquirido através de Ankhetamon, que pertencia uma classe social de destaque na sociedade reinante. O pai era um rico comerciante possuidor e uma próspera propriedade às margens do rio sagrado.

A amizade entre os dois vinha desde a infância. Foram criados praticamente juntos. Como era filho de um simples camponês com poucas oportunidades, ainda assim, gozava de certos benefícios casuais. Seu pai trabalhava para o rico comerciante. Enquanto o amigo tinha acesso aos estudos os dois por estarem sempre próximos se ajudavam. Tankamirés aprendia ouvindo ou até mesmo praticando o exercício da alfabetização as escondidas em troca de alguns favores.

Naquela época somente os mais poderosos e providos economicamente tinham o benefício do estudo, os mais humildes não passavam de reles empregados ou servidores. Entretanto ele não chegava a ser filho de escravos, mas, sua condição econômica e social tornava-o distante das possibiliades de estudar e enriquecer-se culturalmente. Com dedicação e força de vontade foi conquistando confiança. Já havia adquirido inclusive, o suficiente para entabular sonhos e perspectivas animadoras no mundo do conhecimento.

Durante todo o percurso da viagem conversavam esperançosos com os resultados de poderem salvar a jovem Minakhasis. Como não sabiam com precisão onde encontrar o velho ermitão, foram perguntando sempre que possível às pessoas, o paradeiro do homem que poderia apresentar uma solução concreta para o caso que os afligia. Depois de muitas buscas conseguiram chegar ao seu destino. A morada do ermitão.

Ao se aproximarem encontrou o velho homem sentado debaixo de um pequeno arbusto, esculpindo calmamente com o seu canivete um pedaço de madeira a figura de um pássaro, alheio aos acontecimentos à sua volta. Ficaram durante algum tempo espiando-o a manipular sua criação. Após esse período de observação o velho olhou para os dois, simplesmente para demonstrar que sabia das suas presenças. Sem dizer sequer uma palavra, voltou ao seu ofício de artesão como se estivesse fazendo uma terapia ocupacional, totalmente despreocupado com o tempo. Tankamirés não viu outro jeito senão cumprimentá-lo e tentar estabelecer um vínculo de cordial entendimento.
Já estava escurecendo quando o encontraram. Aproximaram um pouco mais e o saudaram quase que ao mesmo tempo.

- Boa tarde, senhor. Que Aton esteja convosco! - Disseram.

- Desculpe-nos interromper seu momento e trabalho e dedicação. Acontece que estamos a um dia de viagem tentando localizá-lo, precisamos muito da vossa atenção, no sentido e alguns esclarecimentos. - Disse de maneira respeitosa o jovem Tankamirés.

O velho de cabeça baixa continuou entalhando sua obra, sem dizer uma só palavra em resposta ao cumprimento recebido. Comportando-se como se estivesse surdo àquela iniciativa de estreitar relacionamento.

Tankamirés não desistiu e voltou a saudá-lo repetindo o que havia dito, ainda à sua frente aguardou resposta. O velho de maneira incompreensiva continuava a lavrar sua arte.

Após algum tempo ainda de cabeça virada para o que estava fazendo, indicou com a mão um outro lugar, pedindo que se sentassem. Os amigos se entreolharam e obedeceram ao convite do senhor de poucas palavras, sem perceberem que aquele experiente homem de cabelos grisalhos e emaranhados, barba longa e encanecida estava estudando-os detalhadamente desde a maneira de se vestirem até a forma de se expressarem.

Como o velho não dizia uma palavra os dois amigos tembém emudeceram, esperando uma manifestação amigável daquele a quem tanto devotavam bons presságios. Ficaria ali o tempo quanto fosse necessário, mas não se afastariam enquanto não fossem atendidos. A noite estava mostrando todo seu negrume; o velho já havia se levantado e caminhado até sua morada em silêncio, seguido pelos dois. Parecia um teste de resistência imposto para ambos os lados. Enquanto de um lado fazia os seus estudos de personalidades, do outro se mantinham firmes e irredutíveis por respostas.

Sentados em volta de uma fogueira que crepitava jogando suas labaredas ao vento, compondo com suas fagulhas brilhantes e esvoaçantes feito pequenas luzes que se perdiam na escuridão. A magia da noite dava um toque de beleza no ar morno, embalado por um leve vento que contribuía com o suspense do momento. Estavam devidamente acomodados, porém inflexíveis e determinados, nas proximidades da improvisada moradia do ancião, feita a partir do aproveitamento de duas rochas que serviam como paredes, coberta por folhas de palmeira. Permaneceram interrogativos observando a situação até que o velho num arrastar de garganta demonstrou interesse querendo saber o que os levara até ele, visto que raramente tinha alguém com quem conversar.

- A que devo vossas visitas? - Perguntou o ancião com curiosidade.

Os amigos se apresentaram e narraram detalhadamente toda a história de Minakhasis, motivo que os levara até ele. Continuaram conversando e melhor se conhecendo até bem tarde da noite quando foram dormir ali mesmo próximos à fogueira.

No outro dia, o sol estava quente, era quase meio-dia e o velho ainda não havia apresentado uma solução animadora que viesse abrandar ou curar a doença da noiva. Continuava mantendo-se totalmente indiferente ao problema, motivo que intrigava e até irritava os amigos. Contudo tentavam dissimular calma, para não demonstrar qualquer sintoma de desagrado, diante daquela atitude inexplicável e com isto não comprometer a missão. Dessa maneira pensativos, ficaram até à noite reiniciar. Os amigos não conseguiam mais esconder suas ansiedades e angustiantes expectativas, afinal, alguém muito querida encontrava-se com a vida por um fio. Diante do problema aparente não notaram, mas o ermitão já havia feito um preparado com ervas especiais da sua medicina secreta, sem que eles tomassem conhecimento, e que no momento passava pelo processo de maturação e eficácia.

Ilustrações: Neli Vieira

(O texto continua brevimente)