sábado, 15 de agosto de 2009

Tankamirés, o príncipe das múmias (Final)


Na parte anterior Tankamirés e o amigo Ankhetamon, encontram o ermitão Shorubhak o qual ofereceu uma poção que minimizaria o sofrimento da amada Minakhasis, porém, não foi o suficiente para interromper o agravante de sua morte. Só restou-lhes dar continuidade aos seus propósitos de perpetuar o corpo através da mumificação.


...Durante o período que antecedeu a morte da amada, Tankamirés se cercou de todas as providências necessárias para o êxito do processo cirúrgico. Investiu todo o seu tempo e o minguado dinheiro disponível fruto do seu trabalho no campo, em benefício daquele inevitável acontecimento: vendeu o seu rebanho de cabras e alguns objetos pessoais; lavrou a terra e dispôs antes mesmo da colheita de toda sua plantação de trigo, cultivada em área fértil cedida pelo amigo de todas as horas, Ankhetamon. Pesquisou e estudou sobre o assunto de sua obstinação; foi em busca de pessoas que conheciam as técnicas, demonstrando a elas apenas uma curiosidade momentânea que muito poderia ajudá-lo sem, contudo, percebessem suas intenções; adquiriu fórmulas, produtos químicos e para a bandagem que envolveria o corpo, uma manta de fino linho branco; confeccionou os ataúdes - três, que seriam colocados um dentro do outro, como manda a tradição - com o que tinha de melhor em espécie de madeira. Sempre com a colaboração afetuosa do amigo inseparável que também estava condoído com a situação. A tampa do sarcófago foi esculpida com entalhes da imagem da finada, por artesão competente e pintada nas cores vermelho e dourado com tintura resinada, capaz de suportar as ações do tempo.


Enquanto desenvolvia o processo de preparação do corpo a emoção tomou conta do ambiente. Tankamirés em alguns momentos chorou diante das cenas grotescas de incisões e retiradas dos órgãos internos da morta. Sendo confortado pelos amigos envolvidos na missão. Quando tudo ficou pronto puderam admirar o resultado da obra. A partir daquele momento novos desafios iriam enfrentar: transferir aquela magnífica peça para o local determinado como sendo a Morada de Minakhasis, simbolizando o mesmo grau de importância dado aos faraós, que eram colocados no lugar chamado Morada os Reis. Com um detalhe em especial, ali seria a morada da menina moça, que havia se transformado em deusa da beleza e da bondade para Tankamirés.


Alguns anos se passaram, todos levavam suas vidas normalmente. Os amigos estavam sempre por perto. Entretanto, quando Tankamirés queria passar momentos de reflexão e aprendizagem, ia à busca do velho amigo Shorubhak. Em todas às vezes que o visitava não deixavam e dedicar um tempo de exclusividade para orações, no santuário localizado na ante-sala do monumento secreto à Minakhasis. O sarcófago ficava acomodado em outra sala contígua devidamente disfarçada em pedra bruta, hermeticamente fechada, selada e imunizada contra todos os tipos de visitantes indesejados, onde nada e ninguém deveriam ter acesso.


Nessas idas e vindas ao encontro do velho ermitão, a amizade entre os dois já estava tão consolidada que temeroso de sua morte, Shorubhak achou por bem preparar e ensinar ao jovem com tudo que sabia e armazenara no seu íntimo ao longo da vida. Em cinco anos de estudos e dedicação incessante, Tankamirés dominava com maestria a sabedoria do mestre. Contava com requintes de clareza e detalhes os locais por onde ele havia passado; falava com desenvoltura e fluência outros idiomas e dialetos; manipulava fórmulas espetaculares e conhecia com extraordinária competência as mais variadas ervas úteis e outras nocivas usadas na preparação de poções letais por envenenamentos, comuns entre a sociedade egípcia da época.


Com essas virtudes adquiridas, começou a conquistar projeção e respeito na sua região. Logo, pelo andar dos acontecimentos conseguiria destaque na corte. Seu nome também era motivo de comentários engrandecedores e elegantes. Não demorou muito para que as previsões quanto à permanência do mestre na terra viessem a se confirmarem. Shorubhak faleceu deixando um legado preservado e um vácuo no coração e na história de Tankamirés. No entanto, o amigo havia transformado sua vida para melhor. Aos 30 anos tornara-se conhecido junto a comuniade e já fazia com sucesso alguns procedimentos de mumificação, envolvendo ilustres e ricas personalidades egípcias que patiram para outra esfera do mundo desconhecido dos espíritos. Graças aos ensinamentos do velho mestre e amigo ermitão, das fórmulas secretas que mantinham em segredo, da indelével e indispensável ajuda do jovem amigo de todas as horas, Ankhetamon que havia se tornado seu assistente profissional.


Mesmo sendo aclamado por muitos pelo sucesso de seus feitos como cirurgião e preparador de múmias, Tankamirés mantinha-se indiferente ao que estava acontecendo à sua volta. Seus pensamentos haviam estacionados nas lembranças da amada e nada o demovia daquela adoração e entrega. No seu coração não tinha espaço para outro amor e para não ficar exposto a pensamentos e ações indevidas, dedicava-se de corpo e alma aos estudos e pesquisas, tornando-se a cada dia um expoente de elevada grandeza na execução de sua arte e profissão, conquistadas pelo seu trabalho memorável.


Com o progresso e o primor de suas habilidades se expandindo numa velocidade espantosa, certo dia que era para ser comum como outro qualquer, iria mudar sua rotina de tranquilidade. A rainha Nefertiti informada do seu eficiente trabalho, quis conhecê-lo e deveria comparecer imediatamente à sua presença. Ao chegar, atendendo a convocação, foi recebido e levado como um serviçal comum, sem qualquer pompa, meio que discretamente ao encontro da soberana.


Depois de muitos entendimentos sobre sua inquirição do momento, ficou definido que ficaria encarregado de preparar o corpo da sua sobrinha a quem dedicava muito carinho. A moça tinha a idade da sua Minakhasis. Ao aproximar da enferma teve um momento de extrema perplexidade. Olhou, olhou e olhou incrédulo com a semelhança, tanto física como plástica e curiosamente em circunstâncias semelhantes sob quase todos os aspectos. As pessoas presentes que o acompanhavam ao vê-lo com a aparência de espanto e êxtase quiseram saber o motivo daquela expressão tão imprevisível, principalmente em se tratando dele, uma pessoa acostumada a lidar com situações ainda mais sérias e impactantes. Ele se desculpou contornando a situação dizendo da jovialidade da moça e a injustiça que a fatalidade havia lhe reservado.


Para executar os procedimentos, solicitou a presença do amigo de todas as horas, também assistente, além de todos os intrumentos de trabalho e dos produtos químicos considerados confiáveis e dos quais ele mesmo preparava.


Quando o amigo chegou trazendo suas solicitações, foi informado de tudo e principalmente da semelhança entre a enferma e Minakhasis, inclusive das condições de enfermidade em que se encontrava, fazendo-os a retornar às emoções contidas de outrora e que o acaso não poupou a angústia. Acertaram os detalhes e não vira qualquer tipo de dificuldade para a execução da cirurgia, já que haviam feito literalmente outra igual em quase todos os sentidos. A pretensa eternização da noiva.


Na época, com a instauração do credo monoteista de adoração ao deus único Aton, o disco solar, os sacerdotes que cultuavam o deus Amon, divindade que trás o sol e a vida ao Egito, já não gozavam mais do prestígio de antes. O faraó havia centralizado em seu benefício às adorações divinas, se autodenominando como sendo o único representante e mediador do deus Aton. Todavia, houve da parte do clero mesmo enfraquecido, o repúdio exigindo a aplicação de pena máxima ao jovem cirurgião na utilização dos seus trabalhos, considerados por eles de charlatanismo, atribuindo tal atitude uma afronta às tradições. E que no mínimo o faraó deveria através do seu poder absoluto condená-lo à morte por heresia. Em sua defesa Nefertiti imediatamente intercedeu. Utilizando-se do seu charme, sedução e persuasão feminina, fizeram com que o marido Akhenaton desse o seu apoio e respectiva autorização para que Tankamirés exercesse todo e qualquer procedimento cirúrgico em todo o Egito, além de ser efetivado como sendo o médico particular da rainha.


Após a morte da sobrinha e o belíssimo trabalho de preparo do corpo e a eficiência empregada nos retoques, maquiagem, utilização dos químicos e essências aromáticas exclusivas, Tankamirés conseguiu o seu esplendor tanto profissional como de cobiça das donzelas da corte, pelo seu alto grau de sabedoria e beleza. Alguns egiptólogos ecreditam que ele se casou quase que por exigência real com a filha do casal de monarca, a princesa Meketaton com quem teve filhos, sem deixar, todavia, de esquecer o seu amor verdadeiro e de veneração a Minakhasis. O seu monumento fúnebre às margens do rio sagrado ficou tão bem escondido e protegido que não se tem registro de sua descoberta.


O velho ermitão que passou toda sua vida em busca de si mesmo, acabou encontrando um pássaro que utilizando a magia da compreensão e da bondade, ensinou-lhe que é possível viver com simplicidade sem perder a harmonia entre o aqui e o acolá. E o mais importante que ter um amigo de todas as horas, é ter todas as horas para se comportar como um amigo de verdade. E quanto ao amor? Ah, sim! Esse as pessoas encontram somente uma vez. Mas não custa nada dar chance a si mesmo de se renovar e deixar o coração livre para fazer à sua escolha. Entretanto, não é necessário estar com os olhos abertos para enxergar o mundo à sua volta, contanto que o faro das gandes descobertas o deixe saborear o gosto da vitória de se descobrir todos os dias sem precedentes. O importante em tudo isto, é estar vivo e poder contemplar todas as mudanças que por ventura se fizerem imprescindíveis.


Ilustrações: Neli Vieira

6 comentários:

Tania Renato disse...

Como se constrói um mundo novo? Com aceitação do imutável e perseverança no cescimento interior...com trabalho e capacidade para traçar novos rumos...
Respeitar o que passou mas trilhar o novo...essa é pra mim a moral de sua história...Parabéns!

Dilson Paiva disse...

Obrigado Tania Renato por opinar. Não arriscaria traçar a discutida moral da história. Contudo, fico feliz que o texto pode despertar conclusões.

Anônimo disse...

Amigo,
Fico feliz em revê-lo,porejando otimismo.Parabéns pela atitude de publicar um blog! "Para evitar críticas, não faça nada, não diga nada, não seja nada." (Elbert Hubbard)
Não encontrei seu e-mail, ache-o por mim. E por falar em visita, o www.marketingdomario.blogspot.com ainda espera a sua.
Meu abraço,
Mário

Dilson Paiva disse...

Que bom sua visita Mário, sempre um bom camarada. Realmente, estou tentando seguir a escola de velhos amigos e também o pensamento de Elbert Hubbard que considero necessário. Mesmo porque achei que já era o momento de sair da sombra e me deliciar do ar puro em contato com a luz do sol. Não entendi o motivo do anonimato, pois, vc não se encaixa nesse perfil.

Neli Maria Vieira disse...

Dilson as pessoas acabam fazendo comentários sobre o nosso trabalho pelo telefone, lamento que vc não ouça- os elogios são os melhores possiveis e tem muita gente acompanhando o seu blog mas não deixam recados...pena né? é tão bom saber o que as pessoas pensam, sentem diante do que dividimos com tanto carinho.. bjossssss

Dilson Paiva disse...

Então amiga, estou contente com os resultados até então. Não tenho conhecimento destes detalhes que ora me conta, contudo, não posso negar que a qualidade do seu trabalho de ilustração foi primoroso e de uma felicidade de expressão inigualável. Espero continuar trabalhando em sua companhia por tempos infindáveis. Pode acrecitar, novos textos virão e vc sem dúvida estará fazendo parte com o talento da sua arte. Obrigado, amiga!