terça-feira, 15 de setembro de 2009

O Jardim que cantava

No universo da humanidade, existem pessoas e pessoas, algumas impares por natureza. Manoel fazia parte deste diferencial. Apaixonado pela sua profissão de jardineiro, pelas plantas e tudo que dela se associa, também era curioso, estudioso e fissurado por lendas de enlevo. Seu sonho era um dia ter sua própria história, ser lenda por onde passasse e por ventura ou aventura em outros horizontes, em outros lugares. Com a simplicidade que lhe era sinônimo e a determinação de uma pessoa que vivia cada segundo de sua vida, aliada a uma personalidade brilhante e perseverante, fizeram-no começar a construir seu próprio legado.

Morava em uma pequena cidade, contudo, não se tratava de um lugar ermo, sem importância. A população, como ele, admirava o encanto de um jardim bem cuidado. Difícil encontrar uma casa que não tivesse uma área florida, com todos os requintes de beleza.

Certo dia depois de fazer seu percurso habitual, pois era o único caminho que o conduzia à sua morada, ao passar por uma casa a muito observada, embora modesta, tinha algo que considerava fundamental: área disponível para se construir um belo jardim. Suas moradoras, uma senhora com aproximadamente 50 anos, sua filha que se imaginava 30, imprecisos, lutavam com dificuldades pela sobrevivência. Dependiam único e exclusivamente de uma pensão deixada pelo marido falecido há algum tempo, e, casualmente dos trabalhos que ambas desenvolviam com bordados. Era inegável a qualidade e o primor das peças por elas trabalhadas.

Com os parcos recursos financeiros a que tinham direito por questões óbvias da morte do representante masculino da casa, tornava-se difícil o exercício daquilo que elas mais gostavam de fazer, bordar. Faltavam-lhes tecidos, linhas e o apoio de alguém que se interessasse em ajudá-las.

Um dia Manoel depois de ter passado quase à noite toda lendo um livro que acabara de adquirir, ficou impressionado com sua leitura que contava a história de um homem que estava cansado do que fazia. Era um barqueiro que transportava pessoas de uma margem a outra de um rio. Esta sua atividade já vinha desde a infância, quando substituiu o pai que na época se encontrava velho e doente. Não sabia fazer outra coisa, até que ao transportar um senhor atingido pela fatalidade da falta de visão, se admirou com a simpatia do velho cego; seus modos, maneira de vestir e o seu sutil comportamento enigmático. Na história o barqueiro somente no final do percurso que fazia a travessia, teve coragem suficiente de perguntar-lhe o nome.

Descreve o livro: "...Silencioso e de aparência compenetrada, podia-se notar que estava atento a tudo que acontecia à sua volta. Ao ser questionado pelo nome, o barqueiro recebeu educadamente a resposta: - "Me chamo Felicidade, mas pode me chamar de Sorriso, como as poucas pessoas que me conhecem me chamam". Ao obter a informação, o barqueiro imaginou logo tratar-se de uma brincadeira nada convencional. Pensou de imediato: - "Isto é pra eu permanecer calado e só responder ao que me perguntam, e deixar a vida de cada um por sua conta..." A cada informação Manoel permitia-lhe invadir os seus conceitos de pessoa atenciosa e sentir-se totalmente envolvido com a leitura, parecia que havia incorporado o personagem barqueiro, e estava vivendo a história como se fosse dele mesmo.

Segue o texto: - pensou o barqueiro: - "Só queria saber o seu nome e depois declarar minha admiração pela sua coragem de transitar sem temores nas suas condições. Isto é feio? É bisbilhotice?" Continuou sua atividade sempre se questionando em busca de respostas". Manoel compenetrado vivia momentos de êxtases, alimentando pensamentos paralelos, na mesma intensidade do personagem. Continua a narrativa do livro. "...Até que um outro dia o mesmo senhor pegou o seu barco de volta. Vendo-o com a mesma elegância, as mesmas roupas limpinhas e bem engomadas, sapatos lustrados e a bengala com alça em couro trabalhado, cresceu ainda mais sua admiração por aquele bem aparentado e curioso velho, nem por isto se atreveu fazer qualquer comentário...".

Nessa noite Manoel não conseguiu ler toda a história, embora ficasse impressionado e ansioso pelo desfecho. Estava cansado, precisava dormir, pois, o dia seguinte seria de muito trabalho e ele necessitaria de disposição. Muita disposição! Mesmo trabalhando com toda atenção dispensada ao que fazia, não conseguia desvencilhar seu pensamento da história que o levava a meditar sobre cada detalhe do que havia lido. - "Por que será que o velho deu aquele nome de forma incompreensiva, sem sentidos, se o barqueiro só queria ser simpático?" - Pensou. Assim transcorreu todo o dia sem uma conclusão satisfatória. Entretanto, ao chegar em casa iria sem dúvida descobrir.

Novamente no retorno pra casa, ao passar pela residência das mulheres bordadeiras, seu pensamento vagou pelo desejo de transformar aquele espaço abandonado, habitado pelo mato, quem sabe até por animais peçonhentos e perigosos, em um lindo jardim com sua magia particular. Povoado por borboletas, abelhas, pássaros e o olhar admirado das pessoas que por ali passassem.

Quando terminou sua leitura descobriu que realmente o velho se chamava Felicidade. Também eram justo que os poucos que o conheciam, como ele mesmo disse chamá-lo de Sorriso. Havia um motivo encubado em torno do seu nome. Acontece que mesmo não podendo enxergar. Ver a natureza com suas nuances e belezas exuberantes; não poder olhar nos olhos das pessoas como a maioria, ainda assim, trazia no coração um sentido especial. Podia enxergar a alma de quem dele se aproximasse. E naquele momento em que o barqueiro havia lhe perguntado o seu nome, pode perceber o desejo do condutor do barco de conhecer novas oportunidades, novas conquistas.

Manoel entendeu que o velho percebendo que o barqueiro fazia com respeito, naturalidade e bem-feito sua obrigação, no retorno sem que fosse solicitado, respondendo suas indagações pessoais captadas pela sensibilidade telepática, aconselhou-o a continuar tansportando pessoas, porque além de transportar vidas, estava conduzindo muitas vezes indivíduos em busca do seu próprio destino. Para alguns estavam reservadas grandes realizações, entretanto, para outros por circunstâncias que envolviam o livre arbítrio podiam eventualmente se envolver com momentos trágicos. E ele ali nas suas idas e vindas dava esperança a quem buscava o incompreensivo, fugindo do obscuro limiar da insatisfação, do desconhecido e da falta de perspectivas.

O interessado jardineiro atento a alguns detalhes, se surpreendeu mais uma vez com alguns dados considerados de grande importância, no conceito inteligente de ver o sentido da vida, defendido pelo nobre senhor cego, e, anotou alguns exemplos relevantes:

- "A abelha ferroa não porque é hostil, mas para proteger sua colméia, dando sua vida pelo que acredita. Visto que, no ato de picar suas vítimas, não conseguindo retirar o seu ferrão intacto, perde parte do seu intestino, causando-lhe morte certa. Depois não faz isto somente por prazer, vingança ou em benefício próprio, mas de toda comunidade melífera da qual faz parte e estar pronta para defender. Tem consciência do sabor cobiçado do seu favo doce, e da dificuldade de produzí-lo. Tendo que trabalhar em voos contínuos e distantes, em busca do néctar só encontrado em maior quantidade na época das floradas, nos campos, pomares e jardins, para a produção do alimento de cada dia, inclusive da geléia real indispensável para a alimentação da sua soberana, a rainha, responsável pela reprodução e produção dos ovos que darão a continuidade e a esperada preservação da espécie."

Continua o velho cego nas suas explicações, através do livro: - "Semelhante é a roseira. Ela tem espinhos, não porque seja ofensiva, mas para também se defender. Mesmo assim todos a admiram, pela beleza de suas rosas, e pela sua fantástica capacidade de hipnotizar corações apaixonados nas mais diferentes situações. É plantada em terreno fofo, depois é adicionado o esterco proveniente do excremento e origem animal, para que cresça vistosa e sadia. Nem por isto é mal cheirosa, pelo contrário, suas rosas são lindas, em cores variadas e perfumadas."

Outro exemplo: - "O arco-íris é o efeito de partículas muito pequenas, quase invisíveis de água sob a forma de spray, ou pulverizadas pela chuva ou grandes cascatas de águas que caem. Em contato com os reflexos dos raios do sol, causam todo o esplendor de cores diferentes, sem a pretensão de combinações. Em forma de arco, para muitos saudosistas com as estorinhas fantasiosas dos tempos dos avós, em cada uma de suas extremidades, um fabuloso tesouro está esperando por um merecedor".

- "A lagarta com sua aparência considerada por muitos repugnante, se arrasta com dificuldade nos locais mais adversos se protegendo de predadores, ou mesmo, para evitar ser pisoteada pelos indivíduos maiores. Passa a maior parte dos seus dias, procurando alimento de galho em galho. Como recompensa, se penaliza por um tempo dentro de uma crisálida minúscula, fechada e sufocante, antes de se tornar uma belíssima borboleta capaz de voar livremente nas alturas, mostrando sua simpatia e encanto. Pousar em lindas flores perfumadas, pelos campos, jardins ou na arte da tela de uma pintura feita pelas mãos cuidadosas de um talentoso pintor".

Assim que teminou a leitura, instintivamente deixou transparecer um largo sorriso. Quando se viu sorrindo compreendeu o real sentido do nome do velho cego. Refletiu algum tempo às mensagens e decidiu, assim que terminasse o trabalho em andamento, iria construir o jardim que considerava como sendo sua missão. Falaria com as mulheres, convencê-las-ia e colocaria em prática sua proposta pessoal. A partir daquele momento, seria o barqueiro sob a forma de jardineiro. Com um detalhe expressivo a acrescentar: sabia o que queria na sua vida, tinha prazer pelo que fazia, além, de se sentir responsável pela alegria no olhar dos amantes do belo e despertar nas pessoas, transformações grandiosas de preservação da natureza e sua origem.

Por enquanto vamos interromper por aqui, promentendo para ainda nesta semana, publicar a última parte do conto. Grandes revelações estarão por vir. Vale a pena conferir.
Fotos: Internet Google Image

7 comentários:

Tania Renato disse...

Que seja vc tb um jardineiro/baqueiro chamado felicidade...bjs

Tania Renato disse...

Não publique isso: to precisando de ajuda, de um jardineiro quem sabe?

Anônimo disse...

"...Silencioso e de aparência compenetrada, podia-se notar que estava atento a tudo que acontecia à sua volta..."

Mário

Dilson Paiva disse...

Ficou bem original o seu comentário, caro amigo Mário. Realmente existem momentos em que poucas palavras, ou um simples olhar dizem o essencial.
Obrigado mais uma vez pela sua gentil presença, acompanhando nossas publicações. Sucesso na sua jornada de bom cidadão.

Neli Maria Vieira disse...

Caro amigo Dilson

É verdade, grandes lições estão em pequenos detalhes.Nem sempre notamos os sorrisos, ou ouvimos os barqueiros que navegam conosco no rio da vida porque não temos tempo para olhar os jardins , nem os insetos que tanto nos ensinam.
Parabéns bjos

Sonia Neves disse...

Amigo Dilson.
Lindo o seu conto. Ficarei ansiosa esperando a continuação dele. Espero que as duas mulheres ganhem um belo jardim.
Receba um abraço carinho da sua amiga Sonia Neves.

Dilson Paiva disse...

Então Sônia Neves, obrigado pela visita e pelo abraço carinhoso. Estaremos torcendo para que elas ganhem mais que um jardim, que já será uma grande conquista, mas também, o reconhecimento e o prestigio de suas artes de bordar.