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sábado, 15 de agosto de 2009

Tankamirés, o príncipe das múmias (Final)


Na parte anterior Tankamirés e o amigo Ankhetamon, encontram o ermitão Shorubhak o qual ofereceu uma poção que minimizaria o sofrimento da amada Minakhasis, porém, não foi o suficiente para interromper o agravante de sua morte. Só restou-lhes dar continuidade aos seus propósitos de perpetuar o corpo através da mumificação.


...Durante o período que antecedeu a morte da amada, Tankamirés se cercou de todas as providências necessárias para o êxito do processo cirúrgico. Investiu todo o seu tempo e o minguado dinheiro disponível fruto do seu trabalho no campo, em benefício daquele inevitável acontecimento: vendeu o seu rebanho de cabras e alguns objetos pessoais; lavrou a terra e dispôs antes mesmo da colheita de toda sua plantação de trigo, cultivada em área fértil cedida pelo amigo de todas as horas, Ankhetamon. Pesquisou e estudou sobre o assunto de sua obstinação; foi em busca de pessoas que conheciam as técnicas, demonstrando a elas apenas uma curiosidade momentânea que muito poderia ajudá-lo sem, contudo, percebessem suas intenções; adquiriu fórmulas, produtos químicos e para a bandagem que envolveria o corpo, uma manta de fino linho branco; confeccionou os ataúdes - três, que seriam colocados um dentro do outro, como manda a tradição - com o que tinha de melhor em espécie de madeira. Sempre com a colaboração afetuosa do amigo inseparável que também estava condoído com a situação. A tampa do sarcófago foi esculpida com entalhes da imagem da finada, por artesão competente e pintada nas cores vermelho e dourado com tintura resinada, capaz de suportar as ações do tempo.


Enquanto desenvolvia o processo de preparação do corpo a emoção tomou conta do ambiente. Tankamirés em alguns momentos chorou diante das cenas grotescas de incisões e retiradas dos órgãos internos da morta. Sendo confortado pelos amigos envolvidos na missão. Quando tudo ficou pronto puderam admirar o resultado da obra. A partir daquele momento novos desafios iriam enfrentar: transferir aquela magnífica peça para o local determinado como sendo a Morada de Minakhasis, simbolizando o mesmo grau de importância dado aos faraós, que eram colocados no lugar chamado Morada os Reis. Com um detalhe em especial, ali seria a morada da menina moça, que havia se transformado em deusa da beleza e da bondade para Tankamirés.


Alguns anos se passaram, todos levavam suas vidas normalmente. Os amigos estavam sempre por perto. Entretanto, quando Tankamirés queria passar momentos de reflexão e aprendizagem, ia à busca do velho amigo Shorubhak. Em todas às vezes que o visitava não deixavam e dedicar um tempo de exclusividade para orações, no santuário localizado na ante-sala do monumento secreto à Minakhasis. O sarcófago ficava acomodado em outra sala contígua devidamente disfarçada em pedra bruta, hermeticamente fechada, selada e imunizada contra todos os tipos de visitantes indesejados, onde nada e ninguém deveriam ter acesso.


Nessas idas e vindas ao encontro do velho ermitão, a amizade entre os dois já estava tão consolidada que temeroso de sua morte, Shorubhak achou por bem preparar e ensinar ao jovem com tudo que sabia e armazenara no seu íntimo ao longo da vida. Em cinco anos de estudos e dedicação incessante, Tankamirés dominava com maestria a sabedoria do mestre. Contava com requintes de clareza e detalhes os locais por onde ele havia passado; falava com desenvoltura e fluência outros idiomas e dialetos; manipulava fórmulas espetaculares e conhecia com extraordinária competência as mais variadas ervas úteis e outras nocivas usadas na preparação de poções letais por envenenamentos, comuns entre a sociedade egípcia da época.


Com essas virtudes adquiridas, começou a conquistar projeção e respeito na sua região. Logo, pelo andar dos acontecimentos conseguiria destaque na corte. Seu nome também era motivo de comentários engrandecedores e elegantes. Não demorou muito para que as previsões quanto à permanência do mestre na terra viessem a se confirmarem. Shorubhak faleceu deixando um legado preservado e um vácuo no coração e na história de Tankamirés. No entanto, o amigo havia transformado sua vida para melhor. Aos 30 anos tornara-se conhecido junto a comuniade e já fazia com sucesso alguns procedimentos de mumificação, envolvendo ilustres e ricas personalidades egípcias que patiram para outra esfera do mundo desconhecido dos espíritos. Graças aos ensinamentos do velho mestre e amigo ermitão, das fórmulas secretas que mantinham em segredo, da indelével e indispensável ajuda do jovem amigo de todas as horas, Ankhetamon que havia se tornado seu assistente profissional.


Mesmo sendo aclamado por muitos pelo sucesso de seus feitos como cirurgião e preparador de múmias, Tankamirés mantinha-se indiferente ao que estava acontecendo à sua volta. Seus pensamentos haviam estacionados nas lembranças da amada e nada o demovia daquela adoração e entrega. No seu coração não tinha espaço para outro amor e para não ficar exposto a pensamentos e ações indevidas, dedicava-se de corpo e alma aos estudos e pesquisas, tornando-se a cada dia um expoente de elevada grandeza na execução de sua arte e profissão, conquistadas pelo seu trabalho memorável.


Com o progresso e o primor de suas habilidades se expandindo numa velocidade espantosa, certo dia que era para ser comum como outro qualquer, iria mudar sua rotina de tranquilidade. A rainha Nefertiti informada do seu eficiente trabalho, quis conhecê-lo e deveria comparecer imediatamente à sua presença. Ao chegar, atendendo a convocação, foi recebido e levado como um serviçal comum, sem qualquer pompa, meio que discretamente ao encontro da soberana.


Depois de muitos entendimentos sobre sua inquirição do momento, ficou definido que ficaria encarregado de preparar o corpo da sua sobrinha a quem dedicava muito carinho. A moça tinha a idade da sua Minakhasis. Ao aproximar da enferma teve um momento de extrema perplexidade. Olhou, olhou e olhou incrédulo com a semelhança, tanto física como plástica e curiosamente em circunstâncias semelhantes sob quase todos os aspectos. As pessoas presentes que o acompanhavam ao vê-lo com a aparência de espanto e êxtase quiseram saber o motivo daquela expressão tão imprevisível, principalmente em se tratando dele, uma pessoa acostumada a lidar com situações ainda mais sérias e impactantes. Ele se desculpou contornando a situação dizendo da jovialidade da moça e a injustiça que a fatalidade havia lhe reservado.


Para executar os procedimentos, solicitou a presença do amigo de todas as horas, também assistente, além de todos os intrumentos de trabalho e dos produtos químicos considerados confiáveis e dos quais ele mesmo preparava.


Quando o amigo chegou trazendo suas solicitações, foi informado de tudo e principalmente da semelhança entre a enferma e Minakhasis, inclusive das condições de enfermidade em que se encontrava, fazendo-os a retornar às emoções contidas de outrora e que o acaso não poupou a angústia. Acertaram os detalhes e não vira qualquer tipo de dificuldade para a execução da cirurgia, já que haviam feito literalmente outra igual em quase todos os sentidos. A pretensa eternização da noiva.


Na época, com a instauração do credo monoteista de adoração ao deus único Aton, o disco solar, os sacerdotes que cultuavam o deus Amon, divindade que trás o sol e a vida ao Egito, já não gozavam mais do prestígio de antes. O faraó havia centralizado em seu benefício às adorações divinas, se autodenominando como sendo o único representante e mediador do deus Aton. Todavia, houve da parte do clero mesmo enfraquecido, o repúdio exigindo a aplicação de pena máxima ao jovem cirurgião na utilização dos seus trabalhos, considerados por eles de charlatanismo, atribuindo tal atitude uma afronta às tradições. E que no mínimo o faraó deveria através do seu poder absoluto condená-lo à morte por heresia. Em sua defesa Nefertiti imediatamente intercedeu. Utilizando-se do seu charme, sedução e persuasão feminina, fizeram com que o marido Akhenaton desse o seu apoio e respectiva autorização para que Tankamirés exercesse todo e qualquer procedimento cirúrgico em todo o Egito, além de ser efetivado como sendo o médico particular da rainha.


Após a morte da sobrinha e o belíssimo trabalho de preparo do corpo e a eficiência empregada nos retoques, maquiagem, utilização dos químicos e essências aromáticas exclusivas, Tankamirés conseguiu o seu esplendor tanto profissional como de cobiça das donzelas da corte, pelo seu alto grau de sabedoria e beleza. Alguns egiptólogos ecreditam que ele se casou quase que por exigência real com a filha do casal de monarca, a princesa Meketaton com quem teve filhos, sem deixar, todavia, de esquecer o seu amor verdadeiro e de veneração a Minakhasis. O seu monumento fúnebre às margens do rio sagrado ficou tão bem escondido e protegido que não se tem registro de sua descoberta.


O velho ermitão que passou toda sua vida em busca de si mesmo, acabou encontrando um pássaro que utilizando a magia da compreensão e da bondade, ensinou-lhe que é possível viver com simplicidade sem perder a harmonia entre o aqui e o acolá. E o mais importante que ter um amigo de todas as horas, é ter todas as horas para se comportar como um amigo de verdade. E quanto ao amor? Ah, sim! Esse as pessoas encontram somente uma vez. Mas não custa nada dar chance a si mesmo de se renovar e deixar o coração livre para fazer à sua escolha. Entretanto, não é necessário estar com os olhos abertos para enxergar o mundo à sua volta, contanto que o faro das gandes descobertas o deixe saborear o gosto da vitória de se descobrir todos os dias sem precedentes. O importante em tudo isto, é estar vivo e poder contemplar todas as mudanças que por ventura se fizerem imprescindíveis.


Ilustrações: Neli Vieira

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Tankamirés, o píncipe das múmias (cont...)


Na primeira parte do conto Tankamirés acompanhado do amigo Ankhetamon, partem em busca de uma solução eficiente para combater a enfermidade da sua amada Minakhasis, apostando nas habilidades do ermitão Shorubhak.



...Já era noite quando o velho eremita explicou a respeito do preparado que iria entregar a eles e da meneira como seria ministrado. A partir daí, estariam prontos para o retorno levando em mãos um frasco contendo uma poção que poderia salvar a vida da amada. O ermitão adiantou que se o remédio não proporcionasse a cura total pelo menos adiaria por um tempo o estágio definitivo e deplorável da enferma, diminuindo a dor e o sofrimento. Enquanto isto, novos preparados ele se encarregaria de providenciar, sem, contudo alimentar qualquer expectativa de cura. Sabia da gravidade do problema pois conhecia muito bem aqueles sintomas, tantas vezes presenciados em outras pessoas há quem um dia servira, oferecendo-lhes os seus préstimos.


De repente interrompeu a conversa dizendo: - Vocês me fizeram lembrar de quando aqui cheguei.


- Ao fazer a escolha de morar sozinho, depois de ter viajado por lugares nunca antes imaginados; conhecido pessoas de diversas origens, etnias, gostos, aparências e poder, mesmo assim achei que não sentia solidão. Pouco eu sabia que já era uma pessoa solitária. Viajava em busca de algo que não conseguia encontrar. Depois de muito procurar, descobri que estava em busca de mim mesmo. Observando as pessoas que encontrava pelo caminho, sem perceber tentava me enxergar. - Disse o velho falando sobre reminiscências.

- Depois de alguns meses que havia me instalado entre estas rochas, percebi que um pássaro todas as manhãs me visitava. Pousava naquela pedra preta - apontou uma pequena elevação rochosa próxima de onde se encontravam -, por incrível que pareça contrastava perfeitamente com sua plumagem branca. Aos poucos fui conquistando sua confiança atirando-lhe migalhas de comida. Ele continuou agindo da mesma maneira. Todo dia podia contar com sua visita. - O velho falava com expressão de admiração.


- Certa vez enquanto o alimentava com as migalhas que lhe atirava, despercebido comecei a assobiar uma música antiga, dos meus tempos de infância, muito bonita e uma das poucas que conhecia. O pássaro alimentou-se e foi se embora. No dia seguinte ele voltou e enquanto lhe oferecia o seu alimento habitual para minha surpresa ele começou a trinar o seu canto melodioso a canção que assobiava no dia anterior. Não conseguiu cantá-la toda, mas já havia aprendido a soltar sua voz pelo menos por pouco tempo. Havia dado suas primeiras entoações. Imaginei o quanto ele deveria ter ensaiado pra me mostrar o que aprendera.


- Continuamos a nos encontrar no mesmo horário e a cada dia ele cantava um pouco mais, até que um dia ele apareceu, cantou três vezes aquela nossa canção linda, cheia de emoção, voou e nunca mais voltou. Até hoje deixo migalhas para ele, sem receber a graça da sua visita. Imagino que talvez tenha sido vitima de um caçador inescrupuloso; estaria preso em alguma cela alimentando o egoísmo de algum indivíduo que queira o seu canto só pra ele; ou ter considerado que havia aprendido o suficiente e não precisaria mais do amigo que ele cativou apenas com sua simplicidade e cordialidade. - Disse o velho agora deixando fluir sua emoção.


- Vou continuar esperando-o, pois, em todo esse tempo de convivência o ensinei a cantar, mas não disse que também tinha me ensinado o quanto era importante para mim. Concluí que havia me fechado para ele, enquanto deveria ter dado a chance de conhecer-me melhor e ter agido ao contrário. Ter externado a felicidade que proporcionava com sua visita, afinal, ele também parecia tão solitário quanto eu. Ter dito que era o meu amigo das manhãs e que me trazia gratidão, porque fazia esperá-lo na manhã seguinte antes do sol mostrar o seu sorriso, e depois poderia vê-lo voar livre para o seu mundo de descobertas.


- Hoje eu penso que aquele pássaro que tanto demonstrou companheirismo sem pedir nada em troca, apenas às migalhas que lhe oferecia por prazer pessoal, agora está fazendo com outra pessoa o mesmo que fez comigo. Ensinando-lhe a ter paciência, esperança e acreditar que enquanto esperamos um novo dia, uma nova vida renasce, um novo sol irá brilhar e o ar de ontem não é o mesmo que respiramos hoje, embora o oxigênio seja semelhante. - O velho respirou em fortes haustos e continuou o seu raciocínio explicando melhor sua metáfora.


- Sua noiva está experimentando essa mesma experiência, ela já cantou ao seu ouvido e encantou o seu coração. Agora vai voar em busca de um novo aprendizado, porém, livre e distante do cárcere da dor e do sofrimento do corpo. Mas vai deixar uma luz no seu caminho, uma recordação angelical no seu pensamento; o reconhecimento de que cada passo que der, estará conquistando uma nova leitura da vida e deixando para trás pegadas consistentes e fundamentadas. - Disse o ancião de maneira contemplativa e filosófica.


- O mal que sua noiva experimenta não tem cura perante a medicina dos homens. O seu organismo está sendo dilacerado rapidamente e a vida esvaindo-se a um agitar do vento em tormentas; volta pra junto dela e diga o necessário. Diga o quanto ela representa pra você e não faça como eu, que deixei de dizer para o meu amigo pássaro da sua importância. Nem nome eu lhe dei para selar com mais intensidade nossa amizade. Diga ainda, que pela primeira vez algo importante brotou na sua vida, e que ela o ensiou a dar os seus primeiros passos projetando perspectivas alentadoras. - Elegantemente e de maneira virtuosa o velho concluiu suas considerações enobrecedoras.


Após aquele relato, e de terem ouvido extasiados a história, os amigos perceberam que o velho eremita tinha doçura na alma. Vivia no seu mundo de reclusão existencial, porém carregava no bojo de seus conhecimentos, ensinamentos ricos de exemplos nobre e valor a vida. E que depois de todas essas observações, percebia-se que realmente Manakhasis havia restaurado o sentido da vida no coração de Tankamirés.


Continuaram conversando por um longo tempo, depois foram dormir. Iriam partir antes do alvorecer e a caminhada seria longa e cansativa. Lutavam contra o tempo e uma doença impiedosa. O velho e agora amigo, depois de todo esse tempo pronunciou o seu nome Shorubhak, em seguida colocou-se à disposição de ajudá-los no que fosse necessário dentro de suas limitações, continuaria pesquisando alternativas no sentido de encontrar uma poção milagrosa para combater o mal que acometera a jovem. E que na verdade se tratava de um câncer abdominal que se espalhava de forma vertinosa pelo interior do seu corpo destruindo todas as resistências que encontrava pela frente.


Tankamirés contou-lhe suas intenções de perpetuar o corpo da amada pelo processo da mumificação e que sabia não ser fácil. Não conhecia as técnicas e ainda teria que fazer os procedimentos às escondidas para sua atitude não ser considerada como uma heresia ao culto religioso da cultura do seu povo. Somente os sacerdotes poderiam exercer, ou supervisionar aquela função, assim como, iniciativas medicamentosas. Depois teria ainda que convencer a família muito arraigada ao culto a Aton, o disco solar, e ao faraó que se nomeou com o título de legítimo representante da divindade poderia ser digno de adoração, portanto, as dificuldades se faziam presentes e a princípio difíceis de se transpor.


Partiram relativamente confiantes. Se não conseguissem a cura pelo menos retardariam a corrida acelerada da doença rumo à morte. Tankamirés entregou a poção à família e ensinou-lhes todas as recomendações necessárias para sua aplicação. Outra batalha teria que enfrentar: pesquisar os procedimentos da mumificação e a confecção do esquife (sarcófago) onde o corpo seria colocado para sua morada eterna, ou até quando a ressurreição fosse estabelecida. Crença alvissareira do povo agípcio quanto aos caminhos da alma, do espirito.


Em nenhum momento os amigos se afastaram dos seus propósitos, atitude que alicerçaria ainda mais o vínculo de amizade entre os dois. Assim o tempo foi passando até que chegou o fatídico momento que tanto temiam. Manakhasis veio a falecer. O remédio que tomou protelou a fim antes imediato, sem deformar sua aparência jovem e bela. Quem a visse nem perceberia que sua enfermidade fosse tão severa e destruidora. Tankamirés e o amigo Ankhetamon com dificuldade conseguiram junto aos familiares romper a barreira que os impedia fazer a perpetuação do corpo.


Uma vez concluído os detalhes dos procedimentos a serem tomados deveriam manter a cirurgia com extremo cuidado. Para tanto estabeleceu-se um tipo de juramento inviolável de que somente eles saberiam e deveriam guardar o segredo, sob a infelicidade de cair no conhecimento da população, depois chegar até aos sacerdotes e por fim ao faraó que exerciam o poder sobre a vida e a morte. Todos os envolvios correriam esses riscos evitando com isto a pena de morte por heresia.


O enterro seria forjado. Com os devidos cuidados antes do cortejo fúnebre o corpo deveria ser substituído por um boneco de pano moldado em resina com as características da falecida elaborado com perfeição pelas mãos de um artista. Todo esquema havia sido estudado e desenvolvido no mais absoluto segredo. O verdadeiro iria ser levado para um lugar seguro devidamente planejado e preparado para os procedimentos da mumificação. Haviam buscado o velho Shorubhak que muito os ajudariam na consecução da cirurgia, dado aos seus amplos conhecimentos de medicina natural, baseados nos seus preparados especiais. Era conhecedor de elementos químicos que não alteraria a cor da pele, com fórmula exclusiva e secretamente mantida, além de incensos, perfumes e fluídos de assências aromáticas. Como bens pessoais ela não possuía camafeus, jóias e pedras preciosas além de sua beleza natural irretocável. O velho ermitão havia também escolhido o lugar apropriado para esconder o sarcófago que somente ele e Tankamirés saberiam.


Como estava velho, após sua morte apenas o jovem ficaria com o segredo, seria a sua "caixa de pandora". O lugar escolhido para a câmara mortuária ficava num penhasco rochoso situado a pouca distância de onde morava. Era bonito e de difícil acesso. Antes de se chegar até ao local, teria que superar um pequeno pântano infestado pelos temíveis crocodilos do Nilo, que reforçaria a segurança, garantindo a confiabilidade de impedir possível violação e saque. O lugar era perfeito, recebia privilegiadamente o frescor da aragem do rio sagrado; ambiente verdejante e florido, berço de lindas borboletas primaveris. A flora e a fauna eram exuberantes, lugar mais primoroso seria quase impossível. O experiente Shorubhak havia pensado em tudo nos mínimos detalhes. Parecia que estava cuidando da segurança dos despojos de uma filha, que não conhecera.


Ilustrações: Neli Vieira


(Continua em breve a última parte...)

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Tankamirés, o príncipe das múmias


No Egito, por volta do ano 1348 a.C., durante o império do faraó Akhenaton (Amen-hotep IV) esposo de Nefertiti, filho de Amenófis III o monarca a quem sucedeu, o país gozava de um período de prosperidade, inclusive nas artes, sustentado pelas conquistas e políticas herdadas do pai. As lutas e invasões quase não existiam. O poder egípcio dominava quase todos os outros povos de seus interesses, e a população nutria um período de harmonia, paz e uma economia sólida. Tebas havia se transformado num centro econômico. Pela sua soberania na época, detinha o poder sobre os demais impérios. Através destas conquistas, vultosas quantias em tributos, mercadoria e ouro eram entregues sob a forma de impostos, além de convergir para seus domínios o fluxo de escravos, riquezas e artes de outros países. Porém no seio dessa tranquilidade aparente, o povo, sofria por enfermidades graves que ainda não haviam encontrado respostas para suas curas.

Tankamirés era um jovem de vinte anos, sonhador como todos da sua idade. Estava apaixonado por Minakhasis, uma linda garota de dezesseis anos, que se encontrava tristemente enferma e sem perspectivas de recuperação. Já havia feito promessas ao deus Aton, consideradas difíceis de serem cumpridas. Todavia, ainda faria muito mais se fosse necessário em benefício daquela que um dia queria como sendo sua esposa. Sua recuparação seria uma luta que ele não admitia perder. Primeiro acreditava que sua crença não o trairia, depois tinha uma esperança inquebrantável que reforçava o desejo de vê-la feliz ao seu lado construindo uma família com vários filhos.

Certo dia Tankamirés conversando com o amigo Ankhetamon resolveu dividir suas dificuldades emocionais contando-lhe o drama por que passava sua pretendida, na expectativa de que ele pudesse dar uma sugestão confiável, apontando um caminho seguro a seguir no sentido de tirar Minakhasis daquele tormento de dor e angústia.

O amigo depois de ouvi-lo atentamente, como que iluminado por uma luz redentora, aconselhou-o a procurar um antigo eremita de quem ouvira falar possuidor de incríveis virtudes como curandeiro. E até onde tinha conhecimento violava discretamente às imposições dos sacerdotes aos quais eram atribuídos o poder de cura, e naquele instante vivia como ermitão numa isolada região às margens baixas do Nilo, distante um dia de viagem de onde estavam.

Tinham consciência de que iriam deparar com a resistência da parte o homem solitário de cooperar. Geralmente pessoas com esse perfil se isolam por não acreditarem mais nas atitudes da maioria dos indivíduos, preferindo levar uma vida de abandono, mas fiel às suas convicções. Acreditavam que vivendo dessa maneira não poderiam ser enganadas por elementos impetuosos, mantendo-se ausentes de preconceitos, maldade e hipocrisia. Todavia, valia a pena a tentativa, já que a situação parecia conspirar contra ele e a mulher amada, ainda mais estando ela desenganada e aguardando os instantes finais. Sem hesitar Tankamirés pediu quase implorando que o amigo o acompanhasse naquela busca de esperança e que deveriam partir imediatamente. O tempo estava exíguo e a enfermidade da mulher querida a devorava sem piedade. Constituindo sua grande inimiga e teria que ser combatida de imediato.

Por outro lado, ele desiludido pensava: - "Será que o ermitão iria ajudá-lo naquele momento de desespero, apresentando soluções confiáveis através e seus conhecimentos? - Queria acreditar que sim - Morava isolado, bem longe da civilização, vivendo dessa maneira, deveria saber de poções mágicas poderosas e eficientes, portanto, seria ele mesmo o responsável pela manutenção da sua saúde". - Concluiu o seu pensamento com uma pontinha de esperança. Tudo acertado pôs-se a caminho. Enquanto caminhavam, vários assunstos vieram à tona em relação à Minakhasis. Entre esses assuntos dois deles simbolizou o quanto a amava. Dizendo ao amigo, caso não conseguisse salvá-la da morte, iria perpetuar sua imagem com boas recordações e em relação à sua beleza física faria por meio da mumificação do corpo.

Sabia que tal procedimento seria difícil e a realização quase impossível. Tanto ele quanto ela não faziam parte da elite dominante e muito menos da realeza para serem beneficiados com aquele recurso e conseguir o seu intento de perpetuar a amada. Embora tivesse algum conhecimento intelectual adquirido através de Ankhetamon, que pertencia uma classe social de destaque na sociedade reinante. O pai era um rico comerciante possuidor e uma próspera propriedade às margens do rio sagrado.

A amizade entre os dois vinha desde a infância. Foram criados praticamente juntos. Como era filho de um simples camponês com poucas oportunidades, ainda assim, gozava de certos benefícios casuais. Seu pai trabalhava para o rico comerciante. Enquanto o amigo tinha acesso aos estudos os dois por estarem sempre próximos se ajudavam. Tankamirés aprendia ouvindo ou até mesmo praticando o exercício da alfabetização as escondidas em troca de alguns favores.

Naquela época somente os mais poderosos e providos economicamente tinham o benefício do estudo, os mais humildes não passavam de reles empregados ou servidores. Entretanto ele não chegava a ser filho de escravos, mas, sua condição econômica e social tornava-o distante das possibiliades de estudar e enriquecer-se culturalmente. Com dedicação e força de vontade foi conquistando confiança. Já havia adquirido inclusive, o suficiente para entabular sonhos e perspectivas animadoras no mundo do conhecimento.

Durante todo o percurso da viagem conversavam esperançosos com os resultados de poderem salvar a jovem Minakhasis. Como não sabiam com precisão onde encontrar o velho ermitão, foram perguntando sempre que possível às pessoas, o paradeiro do homem que poderia apresentar uma solução concreta para o caso que os afligia. Depois de muitas buscas conseguiram chegar ao seu destino. A morada do ermitão.

Ao se aproximarem encontrou o velho homem sentado debaixo de um pequeno arbusto, esculpindo calmamente com o seu canivete um pedaço de madeira a figura de um pássaro, alheio aos acontecimentos à sua volta. Ficaram durante algum tempo espiando-o a manipular sua criação. Após esse período de observação o velho olhou para os dois, simplesmente para demonstrar que sabia das suas presenças. Sem dizer sequer uma palavra, voltou ao seu ofício de artesão como se estivesse fazendo uma terapia ocupacional, totalmente despreocupado com o tempo. Tankamirés não viu outro jeito senão cumprimentá-lo e tentar estabelecer um vínculo de cordial entendimento.
Já estava escurecendo quando o encontraram. Aproximaram um pouco mais e o saudaram quase que ao mesmo tempo.

- Boa tarde, senhor. Que Aton esteja convosco! - Disseram.

- Desculpe-nos interromper seu momento e trabalho e dedicação. Acontece que estamos a um dia de viagem tentando localizá-lo, precisamos muito da vossa atenção, no sentido e alguns esclarecimentos. - Disse de maneira respeitosa o jovem Tankamirés.

O velho de cabeça baixa continuou entalhando sua obra, sem dizer uma só palavra em resposta ao cumprimento recebido. Comportando-se como se estivesse surdo àquela iniciativa de estreitar relacionamento.

Tankamirés não desistiu e voltou a saudá-lo repetindo o que havia dito, ainda à sua frente aguardou resposta. O velho de maneira incompreensiva continuava a lavrar sua arte.

Após algum tempo ainda de cabeça virada para o que estava fazendo, indicou com a mão um outro lugar, pedindo que se sentassem. Os amigos se entreolharam e obedeceram ao convite do senhor de poucas palavras, sem perceberem que aquele experiente homem de cabelos grisalhos e emaranhados, barba longa e encanecida estava estudando-os detalhadamente desde a maneira de se vestirem até a forma de se expressarem.

Como o velho não dizia uma palavra os dois amigos tembém emudeceram, esperando uma manifestação amigável daquele a quem tanto devotavam bons presságios. Ficaria ali o tempo quanto fosse necessário, mas não se afastariam enquanto não fossem atendidos. A noite estava mostrando todo seu negrume; o velho já havia se levantado e caminhado até sua morada em silêncio, seguido pelos dois. Parecia um teste de resistência imposto para ambos os lados. Enquanto de um lado fazia os seus estudos de personalidades, do outro se mantinham firmes e irredutíveis por respostas.

Sentados em volta de uma fogueira que crepitava jogando suas labaredas ao vento, compondo com suas fagulhas brilhantes e esvoaçantes feito pequenas luzes que se perdiam na escuridão. A magia da noite dava um toque de beleza no ar morno, embalado por um leve vento que contribuía com o suspense do momento. Estavam devidamente acomodados, porém inflexíveis e determinados, nas proximidades da improvisada moradia do ancião, feita a partir do aproveitamento de duas rochas que serviam como paredes, coberta por folhas de palmeira. Permaneceram interrogativos observando a situação até que o velho num arrastar de garganta demonstrou interesse querendo saber o que os levara até ele, visto que raramente tinha alguém com quem conversar.

- A que devo vossas visitas? - Perguntou o ancião com curiosidade.

Os amigos se apresentaram e narraram detalhadamente toda a história de Minakhasis, motivo que os levara até ele. Continuaram conversando e melhor se conhecendo até bem tarde da noite quando foram dormir ali mesmo próximos à fogueira.

No outro dia, o sol estava quente, era quase meio-dia e o velho ainda não havia apresentado uma solução animadora que viesse abrandar ou curar a doença da noiva. Continuava mantendo-se totalmente indiferente ao problema, motivo que intrigava e até irritava os amigos. Contudo tentavam dissimular calma, para não demonstrar qualquer sintoma de desagrado, diante daquela atitude inexplicável e com isto não comprometer a missão. Dessa maneira pensativos, ficaram até à noite reiniciar. Os amigos não conseguiam mais esconder suas ansiedades e angustiantes expectativas, afinal, alguém muito querida encontrava-se com a vida por um fio. Diante do problema aparente não notaram, mas o ermitão já havia feito um preparado com ervas especiais da sua medicina secreta, sem que eles tomassem conhecimento, e que no momento passava pelo processo de maturação e eficácia.

Ilustrações: Neli Vieira

(O texto continua brevimente)