domingo, 19 de julho de 2009

Um olhar, um sonho com as orquídeas.



Bem que poderia ser uma estória de “Era uma vez…”, mas é uma história de quem de fato ama a beleza de uma genealogia tão nobre e envolvente da natureza. O mundo encantado de uma orquidófila, de uma apaixonada por uma espécie de beleza exclusiva, contagiante e natural; viajante tenaz em busca da princesa do reino vegetal. Sonho de cores que nem mesmo o arco-íris com sua beleza no céu, refletido pela chuva rápida de verão, conseguem ofuscar a sua imperiosa exuberância. Só mesmo quem a cultiva e se entrega de corpo e alma aos seus encantos, doando paixão e dedicação, pode sintetizar esse amor singelo e intenso à magia das orquídeas.

Influenciada por amigos e levada pela curiosidade, nossa personagem visitou uma exposição de orquídeas. Qual Julieta de Shakespeare flechada por cupido, inebriando-se pelos encantos do ambiente colorido e perfumado das orquídeas que jamais vira antes, deixou-se seduzir como que conduzida por Orfeu em sonhos e devaneios, esboçando inconfundível sorriso feito orquídea rara. Entre as bancadas de plantas, hipnotizado segui seus passos, numa inesquecível jornada pelo tempo… fluindo como o vento.

Diletante, transformou-se a partir dali. Semelhante aos grandes descobridores de todos os tempos, ela passou a fazer parte desses obstinados pesquisadores, estudiosos e caçadores de raridades no universo das “orchis”. Como farejadores de tesouros em busca de seus objetivos, não se dão por vencidos. Guerreiros destemidos no mundo das plantas, sempre em busca de um novo olhar, de uma nova flor de rara beleza e perfume embriagante.

Fosse ela Theophrastus, aluno de Aristóteles, considerado por muitos como o pai da botânica, que através de seu trabalho “Investigação sobre as plantas (ano 300 a.C.)” descobriu as “orchis”, e a elas deu esse nome, origem do nome de toda família Orchidaceae. Ou mesmo a dócil índia Asteca ou Maia que utilizava com maestria a fava da Vanilla para perfumar a bebida predileta de seus guerreiros, feita a partir do cacau e que levou os invasores espanhóis quase a loucura para obter a fórmula de seu preparo. Índia misteriosa, cheia de magia e sedução, das florestas tropicais e equatoriais onde vicejam orquídeas sequer catalogadas. A essa adoradora da beleza das orquídeas o nosso “sorriso”.

Transcendeu o plano comum, juntando-se à superioridade das orquídeas, de flores com beleza própria e inigualável. Ricas em lendas que contam à sua história. Como aquela contada em terras da Indochina, cidade de Anam, sobre uma jovem chamada Hoan-Lan, que se divertia em fazer penar suas paixões aos seus numerosos adoradores. Após ser castigada pelo Deus das Cinco Flechas, deus que a tudo via e tudo ordenava, julgou que era o momento de castigar tanta maldade, fazendo a jovem volúvel apaixonar-se por Mun-Cay. E a partir daí, começa a sua saga de abandono e desprezo…

Cedendo-se ao assédio da bruxa de pés de cabra, esta o transforma em uma árvore de ébano. Com a ajuda de um anjo que compadeceu-se de sua situação, permitiu como recompensa do seu infinito amor, transformá-la em uma linda flor perfumada, agarrando-se ao seu tronco para sempre. Transformou-se assim, em uma orquídea. Muitas pessoas acreditam erroneamente que as orquídeas são parasitas, no entanto elas apenas usam o hospedeiro para fixar suas raízes. Elas são em grande maioria epífitas, isto é, vivem sobre outras plantas, mas não danificam as plantas suporte.

Ah! O enigma que teus olhos e sorriso vestem, como os exóticos desenhos de guardiães da floresta que muitas flores formam, lembrando duendes ou querubins… fadas e anjos com perfume de jasmim, canela, acre ou doce, mas hipnotizando sempre.

Na ampulheta do tempo, viu-se com Charlie Chaplin, no filme Luzes da Cidade (City lights – 1931), misto de comédia, drama, romance, parafraseando a intérprete Virginia Cherrill, na história de um vagabundo, que após se apaixonar por uma florista cega, e que acredita que ele seja milionário, tenta conseguir o dinheiro necessário para que sua amada faça uma operação que lhe permita enxergar.

Pensou que essa florista bem poderia no lugar de vender flores comuns, oferecer orquídeas, dado a pureza do roteiro e a sutileza na condução de uma trama de bondade explicita, sem nenhuma pretensão de se valer de tal atitude. Nesse caso, foi um ato de amor. De pureza quase infantil, da alma de uma pessoa esquecida à própria sorte, como vagabundo e como expoente marginalizado por uma sociedade preconceituosa e hipócrita.

Entorpecida pelos encantos da flor, visitou Confúcio (551 – 479 a.C.) por ter referenciado seu perfume. Prova contundente de que, o fascínio provocado pela flor rompeu a escuridão do tempo, iluminando a mente de pensadores, filósofos, historiadores, amantes, amados e muitos outros.

Semelhante ao comportamento leviano da humanidade, as orquídeas também mostram às suas facetas, dividindo-se em centenas, talvez milhares de espécies diferentes, cada qual com seu encanto particular e, o mesmo poder de hipnotizar levando emoções e sentimentos na alma dos apaixonados. Nossa cigana orquidófila deixou-se seduzir por essa magia.

Nos estudos diários descobriu que a história da cultura das orquídeas começou no extremo oriente, sobretudo, no Japão e na China, há cerca de 3 mil a 4 mil anos. A palavra orquídea (lan) já aparecia no herbáceo chinês desde então. A primeira referência à orquídea encontrada foi feita pelo Imperador chinês Sheng Nung, ao dar alguns conselhos sobre o uso do Dendobrium com finalidade medicinal. No século III, um manuscrito chinês de botânica menciona duas espécies que hoje são conhecidas como Cymbidium densifolium e Dendrobium moniliforme.

Diz à lenda que bruxas usavam as raízes tuberosas das orquídeas – semelhantes a testículos humanos – no preparo de poções mágicas: as frescas para promover o amor; as secas para provocar paixões.

Desde a Idade Média, as orquídeas são populares por suas supostas propriedades afrodisíacas. Preparados especiais utilizando as raízes ou pseudobulbos e folhas carnosas de algumas espécies foram tidas como estimulantes sexuais, e até mesmo capazes de auxiliar na produção de bebês do sexo masculino. Tornaram-se assim, sinônimo de fertilidade e virilidade.

A própria palavra orquídea tem uma conotação afrodisíaca, já que provém da palavra grega “orchis” (testículo), porque para os primeiros botânicos gregos a forma das espécies da região, parecia com o órgão reprodutivo masculino.

Continuando sua viagem no tempo e pelos continentes, encantou-se com a “orquídea negra” pertencente ao gênero Maxillaria, e nativa do Brasil, nordeste da Argentina, América Central, Flórida (EUA), chegando até as Índias Ocidentais. A brasileirinha Maxillaria schunkeana é uma das espécies do gênero Maxillaria, endêmica das florestas do Espírito Santo. Conhecida no mundo todo como Orquídea Negra, em virtude de sua cor ser de um vermelho púrpuro muito intenso, causando a impressão de tratar-se de uma orquídea negra e tem aproximadamente um centímetro de diâmetro.

Não resistiu ao encanto da interpretação de Zé Ramalho em uma de suas canções “Orquídea Negra” - “Você é a orquídea negra// Que brotou da máquina selvagem// É o anjo do impossível// Plantou como nova paisagem. // Você é a dor do dia a dia// Você é a dor da noite a noite// Você é a dor da agonia// A chibata, o chicote e o açoite”.

Quando soube da Polyradicion lindenii, ou orquídea fantasma, flor de uma brancura espantosa, parecendo um holofote nos tons de cinza e verde do pântano da Faixa de Fakahatchee, no estado da Flórida (EUA), seu habitat. Sonhou com a planta que não tem folhagem, e de raízes quase invisíveis incrustadas junto à casca da árvore. A flor parece estar suspensa no meio do ar como que por mágica. Há quem compare à sua forma, a uma bela e etérea rã branca em vôo.

Planta de cantos refinados, numa haste longa e esvoaçante, e de extremidades tão delicadas que se estremecem com uma leve brisa, cria um movimento semelhante ao de um suposto pequeno fantasma. Sua espécie, cujo nome é uma homenagem ao botânico belga Jean-Jules Linden, que a descobriu em Cuba, no ano de 1844, é venerada e capaz de levar os colecionadores quase à loucura e obsessão.

E agora? Onde estará nossa musa num universo tão rico e praticamente infinito de tantas orquídeas, no qual plantas e flores confundem-se com a cultura universal?

Assim a aventureira orquidófila de sorriso sedutor, começou sua viagem sem destino, mas com rumo definido. Conhecer o mundo encantado das orquídeas. Atualmente está preparando uma expedição à Shangri-la. Acreditando que lá seus conhecimentos irão penetrar outros ecossistemas, novas descobertas virão muito além das lendas, mitos e magias. Transpondo-se de um universo real para outro alvissareiro, porém, rico em conteúdo e expectativa. Será então, a sua primeira viagem rumo ao “horizonte perdido”. Fantástico objetivo para uma nova jornada, para um novo olhar, um sonho com as orquídeas.

Ou estaria ela agora dançando ao som de violinos e castanholas? Na Africa nativa dos atabaques e djembes, ou numa aldeia xinguana absorta na batida cadenciada de danças tribais pela marcação de pés dos indígenas, enigmáticos povos do Xingú? Talvez esteja nalgum lugar do interior de nossos sonhos, em meio à mata, descobrindo uma nova orquídea, encarando o por do sol com seu “sorriso” cheio de mistérios.

Créditos fotos: públicas na internet respeitando-se no espelho aquelas com autores como da Polyradicion lindenii, por Jay Staton no website “photo.net”. Maxillaria schunkeana, Phal. equestris e híbrido de Catasetum do acervo Orquidario Cuiabá. Foto da dança da taboca, etnia kamayurá, povos do Xingú, Brasil de Henry Abreu.

Nota: A atual classificação da Polyradicion lindenii é Dendrophylax lindenii (Lindl.) Benth ex Rolfe.

Esta crônica Um olhar, um sonho com as orquídeas, já esteve disponível no Bússola Literária, desde 19 de julho de 2009. Agora, depois de passar por uma repaginada e, revivê-la com várias modificações no seu texto em relação ao original. Pelo seu conteúdo com várias citações científicas e filosóficas, quem sabe sirva como objeto de discussão num fórum de debates, abrangendo não só, o seu conteúdo sob forma de pesquisa, mas literário e ortográfico.


6 comentários:

JOSE LUIZ disse...

Puxa! legal mesmo! gostei do visual enxuto e intimista de seu blog! Parabéns e Sucesso nas postagens literárias suas ou de outros visitantes!

cafeicultura disse...

Bem, como já comentei sobre esse texto quando ele foi originalmente publicado, aproveitarei para parabenizar pela iniciativa de criar um blog. Hoje a chamada blogosfera brasileira cresce a cada dia, mas ainda carece de blogueiros concisos que a elevem ao status que as outras blogosferas internacionais possuem. Muitos jornalistas e não-jornalistas (já que o diploma não serve pra mais nada né) fazem parte dessa comunidade, e você pode encontrar grandes nomes da TV, Revista e Jornais fazendo parte e dando sua contribuição. Eu até faria mais a minha parte se não fosse tão relapso e um pouco preguiçoso. Contudo eu lhe desejo as boas vindas à blogosfera brasileira e espero contribuiçoes valiosas vindas de você.

Abraço!

Brigi disse...

Amei o artigo sobre as orquídeas,inclusive pq eu ñ conhecia a orquídea negra e nem a fantasma,foi excelente...e parabéns pelo blog,a medida que vou lendo os teus artigos fico mais encantada.Agora vou continuar minha leitura...Bjs

Dilson Paiva disse...

Obrigado por ter gostado Brigi, eu também gostei, acho que fiz uma bela escolha ao escrever sobre esse tema. Além de vasto, é curioso e instigante, tem seus meandros e suas lendas que acredito mto. Continue nos visitando sempre que puder ok? Um abraço.

Natie disse...

Nossaa, que mara esse blog, so apixonada por orquideas desde pequena e gostaria de saber se tem algum jeito de eu conseguir a Dendrophylax lindenii (Ghost orchid) se alguem souber me ajudem, Please, to desesperada.

Dilson Paiva disse...

Natie, primeiramente mto obrigado pela visita, nos deixou mto contentes. Depois pude perceber que o seu contato com o José Luiz do Orquidário Cuiabá, ter lhe prestado relevantes informações sobre este magnífico exemplar (Orquídea Fantasma), e a melhor maneira de se adquirir. Não poderia ter tido melhor informação, por se tratar de uma pessoa que conhece realmente do assunto, além de ser mto atencioso e prestativo. Portanto, acho que já teve as informações necessárias. Obrigado mais uma vez pelo seu gentil comentário.