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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

O Dia da Amante



Inicialmente gostaria de me desculpar perante aos seguidores do Bússola Literária por tamanha ausência. Porém, há males que vem para o bem, já dizia minha vó. Baseando-se nesta linha de raciocínio, é que estamos publicando Luís Fernando Veríssimo em dose dupla. Explico: a última publicação no mês de setembro do ano passado foi justamente uma crônica muito divertida de Veríssimo, descrevendo sobre o tema “Choque Cultural”, onde um casal vai assistir a uma partida de futebol no Estádio Beira Rio entre o Internacional e Grêmio, o famoso Grenal, criando-se ali, um clima divertido de incompatibilidade.

Os dois enfoques temáticos criados por Veríssimo, reafirma de forma indiscutível o interesse do Bússola Literária de tornar visível em suas páginas o belo trabalho do autor. Uma inegável demonstração do quanto às crônicas podem proporcionar momentos super agradáveis de leitura, além é claro, da clareza de conteúdo nos textos da melhor qualidade literária, selo emblemático do valoroso escritor e fabuloso mestre das crônicas.

Neste momento estamos publicando a crônica “O Dia da Amante”, outro belo e divertido achado criativo do autor. Esta crônica foi extraída do livro “As Mentiras que os Homens Contam”, Editora Objetiva, 1ª Edição, de 2000, pags. 73/77.

O tema da narrativa conta a história de um cara vivendo o seu universo conjugal paralelo e suas situações hilárias. Revelando assim, como de costume, o excelente domínio e o estilo observador e divertido do autor de ver situações comuns, dando-as uma coloração toda especial a cada detalhe. Uma prova inequívoca do grande valor literário de Veríssimo.



O Dia da Amante

Luís Fernando Veríssimo



Por que não um Dia dos Amantes? Não existe o Dia dos Namorados e hoje em dia a diferença entre namorado e amante tornou-se um pouco vago. Quando é que namorados se transformam em amantes? Segundo uma moça, experimentada na questão que consultamos, se a mulher der para o mesmo homem mais de 17 vezes seguidas ele deixa de ser seu namorado e, teoricamente, passa a ser seu amante. Os critérios variam, no entanto. Em certas regiões, só depois de dormirem juntos dois anos é que namorados se tornam legalmente amantes. Alguns estabelecem um meio-termo razoável: 17 vezes ou dois anos, o que vier primeiro.

Outros afirmam que a diferença está no grau de intimidade dos dois tipos de relacionamento. Num caso, as pessoas vão para qualquer lugar onde haja camas – apartamento, hotel ou motel, sendo desaconselháveis hospitais, quartéis e lojas de móveis -, tiram a roupa um do outro às vezes usando só os dentes, atiram-se na cama, rolam de um lado para o outro, enfiam-se os dedos no orifício que estiver por perto, lambem-se, chupam-se, com ou sem canudinho, massageiam-se mutuamente com Chantibon, depois o homem penetra o corpo da mulher com o seu órgão intumescido e os dois corpos movem-se em sincronia até o orgasmo simultâneo, entre gritos e arranhões. Então se separam, suados, e vão tomar um banho juntos antes de saírem para a rua. Quer dizer uma coisa superficial e corriqueira. Já o namoro, não.

No namoro, não apenas o órgão intumescido, mas todo o corpo do namorado penetre na própria casa da namorada todas as quartas-feiras. Eles se sentam lado a lado num sofá quente, coxa a coxa, e chegam a entrelaçar os dedos das mãos. Muitas vezes comem a ambrosia preparada pela mãe da moça com a mesma colher, gemendo baixinho. Existe ainda o prazer indescritível de roçar com o braço o lado do seio da namorada, enquanto se conversa sobre futebol com o pai dela, um prazer que aumenta se, por sorte, estiver com um daqueles sutiãs pontudos usados pela última vez no Ocidente por Terry Moore, em 1953. A namorada, não o pai dela. Isto é que é intimidade.

Existem outros critérios para diferenciar namorado de amante. Amante é o namorado que leva pijama, por exemplo. Uma maneira certa de saber que namorado já é amante e quando, pela primeira vez, em vez de dar um par de meias para ele no Dia dos Namorados, ela dá um par de cuecas. E você terá certeza de que ele é amante quando sugerir que ela lhe dê um certo tipo de cuecas e ela responder, distraidamente “esse tipo ele já tem...”.

Mas estamos falando de namorados, ou amantes, solteiros. No caso de homem casado e com uma amante a coisa se torna mais complicada, e pouco invejável. No caso do homem casado e com várias amantes, se torna mais complicadas ainda, e mais invejável. Antes de lançar o Dia dos Amantes os lojistas teriam que fazer uma pesquisa de mercado. O que despertaria a desconfiança dos entrevistados.

- O senhor tem amante?

- Foi minha mulher que o mandou?

- Estamos fazendo uma pesquisa de mercado e...

- Onde é que está o microfone? É chantagem, é?

- Não, cavalheiro. Nós...

- Está bem, está bem. Tem uma moça que eu vejo, mas nem se pode chamar de amante. Pelo amor de Deus! É só meia hora de três em três dias. E ela é bem baixinha. “Amante” seria um exagero. Mas eu prometo parar!

Uma vez decidido o lançamento do Dia dos Amantes, as agências de propaganda teriam que escolher a estratégia de marketing, ou, como se diz em português, o approach.

O tom das peças publicitárias variaria, é claro, de acordo com o tipo de critério. As lojas de eletrodomésticos poderiam anunciar: “Tudo para o seu segundo lar.” Ou então: “Faça-a se sentir como a legítima. Dê a ela uma máquina de lavar roupa.” As joalherias enfatizariam sutilmente o espírito de revanchismo do seu público-alvo, sugerindo: “Aquele diamante que sua mulher vive pedindo... Dê para sua amante.” Ou, pateticamente: “Já que ela não pode ter uma aliança, dê um anel...” Perfume: “Para que você nunca confunda as duas, dê Furor só para a outra...” Utilidades: “No Dia dos Amantes, dê a ela um despertador. Assim você nunca se arriscará a chegar tarde em casa.”

Os comerciais para televisão poderiam explorar alguns lugares-comuns. Por exemplo: homem entra no quarto e encontra a amante na cama. Atira um presente no seu colo. Isso a faz se lembrar de uma coisa. Ela abre a gaveta da mesa-de-cabeceira. E tira um presente. Ele vai pegar, mas o presente não é para ele. Ela levanta da cama, abre o armário e dá o presente para o seu amante escondido lá dentro. Congela a imagem. Sobrepõe logotipo do anunciante e a frase: “Neste Dia dos Amantes, dê uma surpresa. “ Hein? Hein? Está bem, era só um exemplo.

As confusões seriam inevitáveis. Marido e mulher se encontram numa loja de lingerie. Espanto da mulher:

- Você aqui?

Marido:

- Ahn, hum, hmmm, sim, ohm, ahm, ram.

- E escolhendo uma camisola!

- É que, ram, rom, hum, ahm, grum. Certo. Quer dizer...

- E você pode me explicar o que está havendo?

- Grem, grum, rahm, rohrn, ahn...

- Não vai me dizer que estava comprando pra mim. Há anos não uso camisola. Ainda mais desse tipo, preta, transparente e com decote até o umbigo.

- Eu posso explicar.

- Então explique.

- Ahm, rom, rum, rahm, grums.

- Explique melhor.

- Está bom! É para mim, está entendendo agora? Para mim!

- Você?...

- Há anos que eu tento esconder isso de você. Agora você pegou e vou revelar tudo. Adoro dormir de renda preta! Só me controlei até hoje por causa das crianças!

Ela compreende. Tenta acalmá-lo. Mas ele agora está agitado. Bate no balcão e grita:

-Também quero ligas vermelhas, um chapelão e chinelos de pompom grená!

Ela o leva para casa, cheia de resignada compreensão. A amante ficará sem o seu presente no Dia dos Amantes, mas pelo menos o marido terá evitado qualquer suspeita. O único inconveniente é que terá de dormir de camisola preta pelo resto da sua vida conjugal.

Por que não um Dia dos Amantes? Você teria que tomar certas precauções, além de jamais entrar numa loja de lingerie. Como uma ausência sua em casa no Dia dos Amantes despertaria desconfiança, telefone para casa antes de ir festejar com a amante.

- Alô, a patroa está?

-Não, senhor.

- Estranho. Ela costuma estar em casa a essa hora. Mas é melhor assim. Diga para ela que eu vou me atrasar um pouco. Estou no hospital para curativos. Nada grave. Fui atropelado por uma manada de elefantes.

- Sim, senhor.

Você se dirige para a casa da amante, com o embrulho de presente embaixo do braço. Começa a pensar na ausência da sua mulher em casa. Onde ela teria ido? Lembra-se então de que a viu mais de uma vez olhando com interesse uma vitrine cheia de cachimbos. Na certa pensando num presente para lhe dar. E súbito você pára na calçada como se tivesse batido num elefante. Você não fuma cachimbo!


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Imagens: Google imagens




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quinta-feira, 31 de março de 2011

Gotas de Emoções






Recebi há algum tempo o segundo livro da escritora e poeta Arlete Meggiolaro, Orvalho D'Alma - Gotas de Emoções -, que reservei para um momento como este em que estamos deparando, tão oportuno, onde o Planeta se encontra numa profusão de acontecimentos considerados insólitos causados por acidentes naturais de toda natureza (Japão) e no outro extremo das intolerâncias, a ambição desenfreada do homem pelo poder e para o poder, nos países de descendência árabe do continente africano.

Segundo dados garimpados do livro em destaque "O título Orvalho D'Alma - Gostas de Emoções é muito mais apropriado do que poderíamos imaginar a primeira vista. Os poemas de Arlete Meggiolaro brotam de sua alma como o orvalho de todas as manhãs."

Em dezembro do ano passado Bússola Literária teve a felicidade de publicar dois Contos e uma Crônica do seu primeiro livro "Silhuetas do Âmago", textos muito bem recebidos e reverenciados pelos leitores, o que não era de se admirar pelo seu talento de brincar elegantemente com as palavras na construção de sua linguagem poética.

De maneira curiosa e nada agradável, o seu despertar para o exercício de escrever se deu em decorrência de uma síndrome do pânico, fator que a fez considerar-se uma analista de si mesma, através de sua essência intuitiva e literária. Diante deste problema existencial, aproximou-se dos professores: Gilson Rampazzo (Museu Lasar Segall) e Airo Zamoner que a fizeram descobrir o manancial efervescente que as palavras podiam exercer sob o rejuvenescimento da alma, contribuindo sobremaneira para que buscasse novos caminhos. Com esta orientação providencial conseguiu afugentar o mal do medo, fazendo renascer dele, outro estágio mais avançado, trocar a insensatez das contradições psicológicas e, manter acesa a chama do poema da vida; e nas veias poéticas do coração descobriu o elixir do amor.

Eis a seguir três poemas extraídos desta preciosa obra poética de Arlete no seu Orvalho D'Alma - Gostas de Emoções.





Arte Maior



Cortinas poderão se cerrar.

O sol poderá se esconder.

As estrelas poderão apagar.

O oceano poderá secar.

As árvores poderão ficar nuas.

O mundo poderá virar deserto.

Nada mudará o que eu em meu coração

está incrustado, arraigado, cinzelado...



O Amor Arte Maior,

o substancial do meu existencial,

obra divina da criação.




O Amor arquitetura edificada

no Éden do meu órgão relicário,

no existir em mim pérolas do rosário...

Esquenta meu ser de tanto querer.

Ilumina minhas noites insones,

sonhos do ter seu cognome.

Suas ondas me envolvem nas emoções,

êxtase do envolvimento

que florescem com plenitude,

de alvorada à alvorada

no oásis dos meus sentimentos.



Amor cântico magistral que ecoa

por todo universo do meu ser.



Você o patrimônio maior do meu reino-existir.

Você é a Arte Maior.

Você o meu Amor.




Perfume do poema


Teu poema, teu lume

tua prosa

enaltecem o ser do meu ser,

invadem-me de querer.



Faz-me querer em ser,

do frasco presente, a eterna rosa

espalhando perfume

pelo cume da tua alma,

entorpecendo-te com a franca calma

do querer permanecer

sem o negrume do perder.



Manifesto, num simples gesto,

o adeus ao ausente,

passageiro do banco reminiscência

do trem passado.

Certamente será lembrado,

em nova era,

pela eminente consciência.



Invade-me de querer

o ser do meu ser

tua prosa, teu lume

teu poema

exalando o perfume

do querer permanecer.



Angelino Figurino


Siga meus passos

neste crepúsculo na praia...



Céu cambraia, aquarelado,

pincelado com a cor sobretarde.

Sobre o lençol azul

a noite espreguiçava.

Por trás da nuvem negra,

do corpo a lua exibia pedaços

avermelhados quase rosados.



Dali, ela me espreitava

fascinava-me,

segurava meus passos no espaço,

à caminhada,

lentas passadas.



Aquarela, pincel...

Feito do Criador.



Transmutação! Imagine o esplendor...



Um mover preguiçoso...

Sobre a mão da desregrada nuvem anegrada

a lua surgiu em angelino figurino

exibindo seu glorioso aurino

ao lusco-fusco apaixonado.

...



Meu amor

ajoelhou diante desse primor,

louvou ao Pai dos sentimentos

o abençoamento,

nesta platéia terrestre

poder assistir a superdose

da magnificente apoteose.


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Imagens: Internet/Fotosearch