quinta-feira, 4 de março de 2010

Austragésilo de Athayde, a saga do liberal



A saga do liberal

Biografia conta como Austragésilo de Athayde
deixou sua marca na democracia brasileira.


O objetivo desta publicação não é o de promover o passado e o
presente do escritor - até sua morte em 1993 aos 98 anos -,
mas evidenciar suas posições sobre assuntos
de interesse social e político do País, como intelectual
que esteve à frente da ABL-Academia Brasileira de Letras
por mais de 30 anos.
Artigo extraído da Veja de 23 de setembro de 1998,
pág. 150, autor Diogo Mainardi.


No início dos anos 20, o pernambucano Austregésilo de Athayde, então um jovem que tentava a sorte no jornalismo carioca, ouviu várias vezes um mesmo conselho do já famoso escritor Lima Barreto. Dizia-lhe que abandonasse a ideia de trabalhar apenas em jornais, profissão que não dava dinheiro, e tratasse de conseguir um cargo público para viver mansamente à custa do Estado. “Faça como Machado, Bilac e Coelho Neto – compareça à repartição só no fim do mês para pegar o dinheiro”, recomendou o autor de Policarpo Quaresma. Athayde jamais lhe deu ouvidos, e quem ganhou com isso foi o Brasil. Nas décadas seguintes, Athayde se tornou uma das vozes mais influentes da democracia nacional e um atilado analista dos acontecimentos mundiais. Com seus artigos diários em jornais e revistas, publicados até pouco antes de sua morte, em 1993, aos 98 anos, esteve sempre pronto a brandir seu ideário liberal contra as opressões, as ditaduras e toda forma de cerceamento das liberdades individuais e de imprensa. Como eterno presidente da Academia Brasileira de Letras, que comandou por mais de trinta anos, tornou-se também personagem lendário e, não raro, folclórico no mundo literário.


Agora, pela primeira vez, a trajetória de Belarmino Maria Austregésilo de Athayde é contada em livro. Sua filha, Laura Constância A. A. Sandroni, e o marido, o jornalista Cícero Sandroni, acabam de lançar Athayde – O Século de um Liberal (Agir; 810 páginas; 45 reais). A obra é uma biografia feita a partir do portentoso arquivo montado durante décadas por Maria José, a “Jujuca”, mulher de Athayde e mãe de Laura. Jujuca colecionava meticulosamente todos os artigos escritos pelo marido, sua correspondência e as notícias que a imprensa publicava sobre ele ou sobre o casal. Muitos desses artigos são reproduzidos no livro, devidamente acompanhados do contexto em que foram escritos. O resultado é uma História do Brasil e do mundo no século XX contada pela ótica de um observador arguto. A obra também procura desmistifica algumas lendas a respeito de Athayde, como a de que ele teria apoiado incondicionalmente o golpe militar de 1964. Os artigos de época mostram que ele realmente apoiou o levante militar como forma de evitar a baderna na vida nacional, mas apenas três dias depois já reclamava a devolução do poder aos civis.

A biografia também resgata histórias curiosas e divertidas protagonizadas por Austregésilo de Athayde, como sua campanha contra a construção da estátua do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro. “Por que obrigar o Cristo a ser o guarda-noturno dessa Sodoma incorrigível?”, perguntava ele em 1921. Abordando episódios mais recentes, o livro conta como ele ficou furioso quando suas economias da vida inteira foram confiscadas pelo então ex-presidente Collor. Por coincidência, o primeiro pagamento que Athayde recebeu por um artigo, escrito para o jornal carioca A Tribuna, foi-lhe entregue pelo avô do ex-presidente, o também jornalista Lindolfo Collor, diretor da publicação. Dias depois do confisco, Athayde aliviou a bílis com a ministra de Collor, Zélia Cardoso de Mello. Ambos se encontraram no show de Paul McCartney, no Rio de Janeiro. Puxando conversa, Zélia chamou a atenção de Athayde para ao fato de que todos no Maracanãzinho estavam dançando ao som do ex-beatle. “Ministra”, devolveu o jornalista, “quem fez o Brasil dançar foi a senhora, não ele.” Humor admirável para um nonagenário.



À sombra do islã


A literatura nos países muçulmanos continua viva,
apesar da opressão político-religiosa.


Tem curiosidade de conhecer como é conduzida a
liberdade de expressão literária nos países islâmicos?
Então leia este artigo extraído da Veja de 2 de fevereiro de 2000,
págs. 152/153, autor Carlos Graieb.


No começo do século XVIII, um livro incendiou a imaginação dos ocidentais. Ele chamava As Mil de Uma Noites. Quem primeiro o traduziu do árabe foi o estudioso francês Antoine Galland, que retornou de uma viagem a Istambul trazendo na mala um exemplar do texto. Publicados entre 1707 e 1717, os doze volumes dessa tradução conquistaram desde cedo legiões de admiradores. O mundo árabe e adjacências se transformaram na terra das maravilhas. Hoje, passados três séculos, pouco resta dessa imagem. Gênios e odaliscas foram substituídos, no pensamento ocidental, por xeques do petróleo, mulheres de véu negro e fanáticos religiosos que aparecem na televisão. Curiosamente, no entanto, as histórias narradas por Sherazade continuaram sendo as únicas, de toda a literatura árabe ou muçulmana, conhecidas na Europa e nas Américas. Tudo se passa como se não houvesse escritores por lá. Mas eles existem. E vêm produzindo obras de grande valor, mesmo quando precisam desafiar a opressão política, a censura religiosa ou a pobreza.


Recentemente, alguns ficcionistas chegaram ao mercado brasileiro com o selo da editora Record. Do libanês Amin Maalouf temos Jardins de Luz, que fala sobre o fundador da religião maniqueísta. Já o marroquino Tahar Bem Jelloun em, Os Frutos da Dor, descreve a situação dos imigrantes islâmicos na França, escolhendo como narradora uma jovem que precisa enfrentar tanto o racismo dos europeus quanto as superstições de seu próprio povo. Por fim, o paquistanês Tariq Ali reconstitui de maneira empolgante em, O Livro de Saladino, a época das cruzadas sob o ponto de vista muçulmano. São três ótimos romances, diferentes entre si, que “desafiam os preconceitos do leitor ocidental” – para usar as palavras de Ali. Nenhum desses autores, porém, vive em seu país de origem. Os dois primeiros moram na França e publicam em francês, enquanto o último mora na Inglaterra e publica em inglês, por causa disso, não representam à perfeição a atual cultura da região. É preciso ir às fontes.

Uma primeira surpresa, para quem começa a investigar o assunto, é descobrir que a literatura dessa parte do mundo vive num feliz estado de efervescência. Inaugurada na semana passa, (anterior a 2 de fevereiro de 2000) a Feira do Livro do Cairo, no Egito, dá uma idéia da agitação. Um total de 79 países participa do evento de 25 mil títulos estão em exibição. “Nossa literatura não tem do que se envergonhar, seja em quantidade, seja em qualidade, afirma o contista egípcio Bahaa Taher (que traduziu O Alquimista, de Paulo Coelho, para o árabe). “Mesmo no romance, uma forma literária que só chegou por aqui há 100 anos, quase todos os países contam com grandes nomes. Azar do Ocidente, que ainda não os descobriu.” A julgar pelos dois autores árabes de maior renome internacional. Taher tem mesmo razão. O egípcio Naguib Mahfouz, ganhador do Prêmio Nobel de 1988, é um genial retratista do Cairo. Já o saudita Abdelrahman Munif é responsável pela monumental trilogia Cidades de Sal, que fala sobre os dilemas de um país que se moderniza depois de descobrir petróleo.

“Sexo e álcool” – A falta de divulgação, entretanto, está longe de ser o maior problema desses escritores. Um levantamento realizado em 1999 pela PEN International, entidade que congrega literatos do mundo todo, mostra que setenta intelectuais foram mortos, encarcerados ou desapareceram nos últimos anos em países de maioria islâmica. Por certo, existem diferenças entre essas nações no que diz respeito à liberdade de expressão. No Marrocos, onde um regime democrático lançou raízes nos últimos dez anos, a censura veio ao chão. Em outro extremo acha-se o Irã, dominado pelo fundamentalismo, “Romances iranianos não podem ter cenas de sexo ou mencionar bebidas alcoólicas”, diz a iraniana Azar Nafisi, professora de estudos culturais da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos. “A repressão é tão intensa que os escritores se autocensuram, temendo represálias das autoridades.” Azar conta que todos os meses recebe uns dez livros clandestinos de jovens compatriotas que não conseguem ser ouvidos em seu próprio país. “O assombroso é que eles são muçulmanos sinceros, que não desejam ofender sua religião.” Por fim, há os casos intermediários. O próprio Egito, um grande centro de difusão cultural, não vive em regime de liberdade plena. Um governo autoritário controla a imprensa e as editoras. Como se não bastasse, grupos fundamentalistas perseguem os escritores. Até Naguib Mahfouz foi vítima de um atentado. Em 1994, um fanático o esfaqueou no pescoço, por achar que seus livros ofendem o islã.

Por que, então, muitos outros autores não seguem os passos daqueles que se mudaram para o Ocidente? Por que Mahfouz, apesar da ameaças e da fama que desfruta, continua vivendo no mesmo bairro onde sempre morou? “Ao contrário do que se pensa o fundamentalismo e o autoritarismo não são traços imanentes de nossa cultura”, acredita o filósofo Mohammed Abed AL-Jabri. “Ambos são produto de uma distorção.” Considerado o mais importante pensador marroquino da atualidade, Al-Jabri é autor de um Best-seller no Oriente, Introdução à Crítica da Razão Árabe, lançado no Brasil pela editora UNESP. Seu principal objetivo é reviver o que chama de vertentes racionalistas da cultura árabe. “O pensamento árabe contemporâneo pode recuperar e reutilizar os ensinamentos racionais e liberais de sua própria tradição - a luta contra o feudalismo e o misticismo, a vontade de instaurar uma Cidade da razão e da justiça”, escreve ele. Esse projeto está inscrito nas obras que acabam de sair no Brasil. Vale a pena conferir.

A propósito, você já acessou a fan page do meu livro infantil Juju Descobrindo Outro Mundo? Não imagina o que está perdendo. Acesse: www.fecebook.com/jujudescobrindooutromundo.


E o site da Juju Descobrindo Outro Mundo, já o acessou? Se eu fosse você iria conferir imediatamente. Acesse: www.admiraveljuju.com.br 


Imagens: Internet

2 comentários:

Anônimo disse...

Realmente fascinante uma boa leitura onde fala de muitas coisas curiosas que prende a atenção do leitor , conta a realidade da historia de um povo. Que observação magnífica de não querer que o Cristo ficasse de guarda, vendo toda aquela impunidade, mas não adianta ficar escondido que ele vê da mesma forma.
E muitos outros temas abordado super sensacional. adorei.
Assim que me sobrar um tempinho vou terminar de ler sobre o Islã

Dilson Paiva disse...

Obrigado pela visita, ficamos muito contentes com o seu precioso comentário. Sem dúvida um marco histórico deixado por uma pessoa tão ilustre como cidadão e tão significativa na história literária do nosso País.