sábado, 11 de janeiro de 2014

22 filmes que são diamantes para o cérebro


Na publicação anterior de Bússola Literária deu-se destaque aos “22 livros que são diamantes para o cérebro”, agora a ênfase será para os “22 filmes que são diamantes para o cérebro”. Dentre os filmes citados por Rafael Teodoro, cheguei a ver: Cidadão Kane, Casablanca, No Tempo das Diligências, 8½ e O Pagador de Promessas. 

A partir de uma análise criteriosa feita pelo jornalista Rafael Teodoro, para a Revista Bula deste mês de janeiro, na qual, ele faz sua própria escolha e considerações dos 15 filmes que compõem a continuação de “diamantes para o cérebro”, como forma de evidenciar o trabalho iniciado pelo jornalista Euler de França Belém sobre livros, aproveitei da oportunidade e inclui outros sete filmes, para assim, completar o número relativo à proposta inicial.

Que eu aprecio cinema, nem preciso afirmar, é o óbvio. Por gostar de filmes, não significa que sou crítico ou “expert” no assunto, pelo contrário sou apenas um simpatizante pela “sétima arte”.  Então com base no que me veio à mente, e que marcou minhas preferências pelo conjunto da obra, escolhi este filmes que se segue:
   
Nunca te vi. Sempre te amei, de David Hugh Jones

O seu título original é 84 Charing Cross Road, produção britânica de 1987. David Hugh Jones dirigiu o filme com a excelência de atentar para mínimos detalhes. Conseguiu além de mostrar a realidade do pós-guerra vivida pelos habitantes londrinos, a ambientação com sua atmosfera densa, onde a falta de alguns gêneros alimentícios e materiais de primeira necessidade tornaram-se coisa rara. Trata-se de uma trama envolvente e gostosa de se ver, pela empatia dos seus personagens principais. Para quem gosta de ler, e tem o cuidado de observar data de publicação, número de edição e raridades literárias, é uma boa orientação profissional. A escritora Helena Hanff, interpretada por Anne Bancroft e o gerente da livraria especializada em edições raras, Frank Doel, é interpretado por Anthony Hopkins. O roteiro é baseado no livro homônimo de Helene Hanff.
   

                           
A Noviça Rebelde, de Robert Wise

É uma produção norte-americana de 1965, considerado por muitos críticos como sendo um dos mais envolventes musicais já produzidos. O filme ganhou o Oscar de melhor filme em 1966. Sua trilha sonora foi nomeada ao Grammy de melhor álbum do ano. Escolhido pela Biblioteca do Congresso americano para ser preservado no Registro Nacional de Filmes em 2001. E suas cenas tiveram locações em Salzburgo na Áustria, e na região da Baviera alemã. Tem como atores principais Julie Andrews e Christopher Plummer. A história conta as peripécias e a ternura de uma noviça (Julie Andrews) que se dispões a trabalhar como governanta na casa de Von Trapp (Christopher Plummer) para zelar e educar sete crianças. Excelente filme e sua trilha sonora, além de belíssima e cantada até hoje com muita simpatia. 
                        
Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick

Seu título original é “A Clockwork Orange”. Trata-se de uma produção britânica de 1971. Laranja Mecânica tornou-se um clássico do cinema mundial e um dos filmes mais famosos e influentes de Stanley Kubrick. Escrito por Anthony Burgess, narra a história de Alex (Malcolm McDowell) que depois de ter cumprido dois anos de prisão, é liberado na condição de se submeter ao tratamento Ludovico, terapia experimental que causa aversão às drogas e às tendências criminosas. Enfim, o tratamento o faz rejeitar tudo que ele mais gostava como mulheres, violência sexual, músicas clássicas, principalmente ouvir a 9ª Sinfonia de Beethoven, sua música favorita. O filme pra sua época foi inovador e discutiu temas comportamentais importantes.
                   
Cantando na Chuva, de Gene Kelly

Produção norte-americana de 1952, sob o título original de “Singin’in the Rain”, canção de Arthur Freed e Nacio Herb Brown. O filme ocupa posição de destaque como, a primeira colocação na “Lista dos 25 Maiores Musicais Americanos” de todos os tempos, idealizada pelo American Film Institute (AFI), divulgada em 2006. Foi dirigido por Gene Kelly e Stanley Donen, tendo como protagonista principal o próprio Kelly, que também foi quem desenvolveu toda a coreografia. O filme transcreve o retrato alegre de Hollywood, principalmente no que se refere à mudança do cinema mudo, para a utilização da sonorização através da fala na interpretação do roteiro. 



O Império dos Sentidos, Nagisa Oshima

Trata-se de uma produção franco-japonesa de 1976. O filme é todo ambientado no Japão de 1936 e inspirado em uma história real. Todas as cenas de sexo apresentadas pelos personagens são reais. Sada (Eiko Matsuda), uma ex-prostituta, inicia um ardente caso com Kichizo (Tatsuya Fuji), seu atual patrão. O que parecia apenas uma diversão libidinosa, logo se transforma em uma intensa relação administrada pela obsessão do prazer. Para os amantes não existem fronteiras na busca do ápice pela mais completa sensação do envolvimento sexual. Alguns críticos consideraram o filme como pornô, outros sem dar muitas explicações, um trabalho de arte "cult".



Ben-Hur, de William Wyler 

Produção americana de 1959, baseada no romance do mesmo nome, escrito por Lew Wallace. O filme conta a vida de Judah Ben-Hur, interpretado por Charlton Heston e transcorre em Jerusalém no início do século I. O seu antagonista é Messala interpretado por Stephen Boyd. Ambos se conhecem desde a juventude. Contudo, por questões banais do ponto de vistas, Messala condena o amigo a viver como escravo em uma galera romana, passando por terríveis privações. Mas como em toda história desse gênero a vingança deve existir, as cenas além violentas tem um sentido humano/fé e amor intrínsecos muito fortes. Bonito filme, contém um número enorme de figurantes e o figurino digno de uma super produção épica. 
               


A Primeira Noite de um Homem, de Mike Nichols

Sem dúvida o maior destaque do filme se prende na sequência das cenas sustentadas pela trilha sonora, composta pela dupla Simon & Garfunkel. “The Sound of Silence” e “Mrs. Robinson” são as principais canções tema do filme. “A Primeira Noite de um Homem”, é uma produção americana de 1967, interpretada por Dustin Hoffaman, Anne Bancroft e Katharine Ross, escrita por Calder Wllingham e Buck Henry, baseado no livro do mesmo nome. O filme foi também o responsável pelo início da carreira de Dustin Hoffaman, um dos mais importantes do “Cast” americano.




15 Filmes que são diamantes para o cérebro
Por Rafael Teodoro – Revista Bula

Recentemente, o jornalista Euler de França Belém, ao elaborar uma lista com sugestões de livros para o Natal, defendeu a tese de que bons livros são, na verdade, “diamantes para o cérebro”. Acredito que essa premissa – com a qual concordo inteiramente – possa ser estendida também para o cinema. Talvez com muito mais razão para o cinema, forma de expressão que, posto que goze de amplo apelo popular, tem perdido progressivamente a pretensão do “fazer artístico”, a privilegiar-se a lógica da produção em escala industrial de “blockbuster”. Com isso, cada vez mais temos cinéfilos autodeclarados que desprezam a leitura da Pauline Kael (às vezes, nunca ouviram falar dela), mas não hesitam em cultuar bobagens infantis. O resultado é o declínio da inteligência do público que, perdido no meio de tantas referências esparsas, ou simplesmente influenciado por críticos de cinema de pouca credibilidade intelectual, passa a absolver a pobreza narrativa fílmica, entretido com efeitos especiais mirabolantes, muitos dos quais a causar uma sutil, porém agressiva, paralisia cerebral.

Essa introdução serve para justificar a presente lista. Trata-se de uma tentativa de orientar o leitor da Bula – por certo, alguém que preza pelo que há de mais refinado no campo da cultura – no mar de referências cinematográficas. Como sói acontecer, a lista é estritamente pessoal: ela elenca obras que agradam ao meu gosto estético na arte cinematográfica. Basta pensar que, tivesse outro autor assinado a lista, as referência decerto mudariam (talvez ele viesse a público afirmar que “Curtindo a Vida Adoidado”, do diretor John Hughes, é superior aos filmes de Godard, opinião que eu nunca endossaria). A lista também é limitada: são apenas 15 filmes, o que incontornavelmente deixará de fora muitas obras relevantes (inclusive procurei misturar obras canônicas, sempre referidas, a outras mais atuais, como sugestões incomuns ao leitor da Bula). O que importa é que são quinze bons filmes que, da mesma maneira que os bons livros podem muito bem servir como generosos diamantes para o cérebro.

A Felicidade Não se Compra, de Frank Capra

O mais belo filme de Natal de todos os tempos. Essa é uma definição perfeita para “A Felicidade Não se Compra”. Mas o filme de Capra vai além. Filmado em 1946, é um retrato do apogeu estilístico da “Era de Ouro” de Hollywood, quando os filmes eram feitos para enaltecer as qualidades morais do indivíduo, além de elevar a autoestima da população. A fábula da cidade de Bedford Falls, do homem que é visitado por um anjo ao bater as portas do suicídio, é um daqueles casos raros em que um filme é capaz de salvar vidas.








Era Uma Vez em Tóquio, de Yasujiro Ozu

Filme que assinala a maturidade artística de um dos maiores cineastas do século 20, o japonês Yasujiro Ozu. Com sua câmera parada, Ozu tinha a pretensão de captar a vida em sua fluidez natural. Nascia à estética do anticinema, oposição à grandiloquência hollywoodiana. O resultado é um filme lento (talvez o mais lento da história), a contar a saga do casal de idosos que viaja a Tóquio para rever seus filhos. E é exatamente esse compromisso inarredável com os detalhes que torna tão importante resgatar o cinema de Ozu: como estamos a viver na era da modernidade líquida (BAUMAN), no bojo da qual a velocidade fragiliza os laços humanos, a lentidão narrativa de “Era Uma Vez em Tóquio” contraria o porvir, a configurar-se num invulgar ato de resistência do artista (que enfrenta as pressões estéticas do seu tempo) e do público (que assim demonstra seu amor à potencialidade narrativa do cinema).

A Fraternidade é Vermelha, de Krzysztof Kieslowski

O problema com trilogias fílmicas é o risco que o diretor corre de não conseguir sustentar um padrão elevado de qualidade em todas as películas (vide o exemplo de Francis Ford Coppola, que, após dirigir com brilhantismo as duas primeiras partes de “O Poderoso Chefão”, falhou miseravelmente ao encerrar a saga da família Corleone). O polonês Krzysztof Kieslowski, felizmente, evitou esse risco. Sua ambiciosa Trilogia das Cores já tinha produzido dois filmes exitosos (“A Liberdade é Azul” e “A Igualdade é Branca”) quando veio à luma “A Fraternidade é Vermelha”, de 1944. De fato, Kieslowski reservou o melhor de sua trilogia inspirada nas cores da bandeira francesa para o capítulo final. Ao narrar à história do juiz aposentado que espiona seus vizinhos, o diretor posiciona a bela Valentine como epicentro da compaixão fraternal que se pode transmudar no amor contrito – o único capaz de redimir a solidão e a tristeza de toda uma vida.

Cidadão Kane, de Orson Welles

Este é um caso curioso de um filme que me parece prejudicado pelo prestigio que alcançou merecidamente junto à crítica. Incensado como “o melhor filme de todos os tempos”, enriquecido com centenas de teses acerca da correta interpretação do “Rosebud”, admirado pela técnica do diretor, empregada na condução de uma narrativa complexa, muita vez falta quem diga que a história do magnata que constrói um império jornalístico e tenta ingressar na vida política é bastante atual, especialmente no Brasil, que é pródigo em formar seus “Cidadãos Kane”. A diferença é que por aqui a vida pessoal desses magnatas não costuma ser infeliz como a de Charles Foster Kane. O “Cidadão Kane” brasileiro não tem escrúpulos.





Close-up, de Abbas Kiarostami

O Irã é um país muito conhecido dos brasileiros pela polêmica política externa que adota. É uma pena que se resuma a isso. A milenar cultura persa, de que o povo iraniano é herdeiro, é riquíssima. Tão rica quanto o cinema que se faz por lá. “Close-up, filme de 1990 do diretor Abbas Kiarostami, é um exemplo primoroso disso. A história de Sabzian, um homem tão apaixonado por cinema que forja a própria identidade autoral para enganar uma família, entrelaça documentário e ficção de maneira brilhante, a permitir uma salutar reflexão quanto aos limites da impostura (na vida como na arte cinematográfica).






A Separação, de Asghar Farhadi

Outra pérola recente do cinema iraniano. Um filme de 2011 que põe o dedo na ferida das tradições familiares de um país de moral teocrática rígida. O processo de divórcio do casal Nader e Simin serve como pretexto para atualizar a discussão em torno da fragilidade dos laços humanos num mundo de instituições anacrônicas. Decisões dramáticas, em princípio de consequências unilaterais, reverberam em estereotipagens consagradas (o papel da mulher na família) e na vida de terceiros, a causar o desfazimento não só da relação conjugal, mas a separação de muitos outros valores.






Casablanca, de Michael Curtiz

A história de encontros e reencontros da vida retratada com uma beleza poética indescritível. Um amor genuíno, que a guerra separou em Paris, tem a chance de acertar as contas em Casablanca (Marrocos). Rick, o insensível proprietário do bar, defronta-se com a amargura do amor perdido, que torna a assombrá-lo com a volta de Ilsa, que ele descobre casada com Victor Lasziu, o líder da resistência que planeja escapar à perseguição nazista. Estaria Rick disposto a ajudar Laszio, mesmo que isso acarretasse a perda do amor de sua vida? É o tipo de pergunta que só pode ser respondida em “Casablanca” ao som de “As Time Goes By”.






No Tempo das Diligências, de John Ford

John Ford eternizou-se em 1956 com “Rastros de Ódio”, sua obra-prima, presença constante na lista dos melhores filmes de todos os tempos. Mas o diretor dos filmes de faroeste começou a dar mostras do seu talento bem antes. Com “No Tempo das Diligências”, de 1939, Ford funda os estereótipos que permeariam boa parte das narrativas ambientadas no Velho-Oeste a partir de então: o xerife impoluto, o banqueiro cainho, o bêbado inconveniente, o anti-herói sedento de vingança, o ataque dos índios às diligências, as belas mulheres que convém proteger (e esposar). Eis aí um elenco de personagens carismáticos que, uma vez reunidos numa diligência, terão de enfrentar os perigos da travessia enquanto aprender a difícil arte da convivência humana.



Onde começa o inferno, de Howard Hawks

O título nacional pomposo (mas que eu adoro) ignora o quanto de humor Hawks inseriu no seu filme. Os estereótipos que “No Tempo das Diligências” ajudou a fundar em 1939 apresentam-se já consolidados neste filme de 1959: o xerife Chance, seu ajudante alcoólatra Dude, o vaqueiro egoísta Colorado Ryan (que faz, quando em quando, o papel de anti-herói), a beldade Feathers. É um filme que mostra como as relações locais de poder podem subjugar a autoridade do Estado – tese figurada no grupelho, liderado pelo xerife, que tenta resistir heroicamente à invasão à delegacia comandada pelo poderoso rancheiro Nathan Burdette. A cena em que Colorado e Dude, sitiados na delegacia principiam a cantar “My Rifle, My Pony and Me”, de Dean Martin, é tão cativante que dá vontade de pegar o violão e cantar junto!


Ladrões de Bicicleta, de Vittorio de Sica 

Fortemente influenciado pelas consequências que a 2ª Guerra Mundial impôs à população italiana na década de 1940, o movimento neorrealista tem em “Ladrões de Bicicleta”, de 1948, um de seus exemplares mais bem realizados. O diretor Vittorio de Sica conduz a narrativa de maneira pungente. O desemprego assola o país arrasado pelo conflito bélico. Os homens saem à cata de trabalho, necessitados que estão de pôr comida na mesa de suas famílias. É nesse contexto pobríssimo que Ricci consegue, após muita dificuldade, um emprego. Sua função é colar cartazes nas ruas. Seu instrumento de trabalho é a bicicleta. Ricci se desfaz de toda sua parca economia. Compra uma bicicleta, mas ela é roubada. Desesperado, temente ao desemprego, Ricci parte com seu filho Bruno numa jornada incansável pelas ruas da cidade, a farejar o rastro do ladrão. Se falhar, sua pena (e a de sua família) é a miséria. “Ladrões de Bicicleta” é, sem dúvida, um dos filmes mais tristes de todos os tempos. Uma obra-prima.

8½, de Federico Fellini

O que torna “8½” tão especial é a ousadia do diretor. Com esse filme, Fellini desconstrói os modelos narrativos lineares do cinema. Para desenvolver a trama derredor do cineasta Guido Anselmi, atormentado por uma crise criativa que obstaculiza suas ideias, impedindo-o de conceber novos filmes, o diretor italiano optou por criar uma atmosfera onírica, que a todo o momento leva o expectador a questionar se o que vê é sonho ou realidade (ou mesmo nenhum dos dois). É um filme de difícil compreensão por parte do público que acostumou a pensar que uma história deve ter começo, meio e fim (ainda que alguns dos elementos estejam investidos na urdidura narrativa). Em 8½, tudo que há são metáforas visuais fantasmáticas que se misturam em lembranças oriundas duma mente atormentada por uma tríade de fracassos: o artístico, o moral (repressão religiosa) e o amoroso (as mulheres que não soube amar).



Drive, de Nicolas Winding Refn

“Drive”, do dinamarquês Nicolas Winding Refn, é um exemplo maravilhoso de como um blockbuster de ação, quando bem dirigido, pode atingir a excelência fílmica. A história do dublê de cinema que à noite trabalha como piloto de fuga, ajudando bandidos, impressiona pelas referências estéticas (fortemente inspirada nos filmes da década de 1980), pela fotografia (a cidade escura) e pelo ritmo da narrativa, que alterna lentidão e celeridade, delicadeza e violência extrema. A cena do beijo no elevador entre o motorista (o protagonista não tem nome) e Irene é de uma sensibilidade artística tão grande que vale mais que todas as comédias românticas já produzidas em Hollywood.



Deixa Ela Entrar, de Tomas Alfredson 
A exploração do mito do vampiro numa perspectiva antivampiresca. Parece contraditório? Pois é, já que o suspense “Deixa Ela Entrar”, do sueco Tomas Alfredson, consegue se apropriar da figura estereotípica do vampiro (no caso, a vampira Eli) qual uma ponte para desenvolver uma trama psicologicamente violenta sobre o bullying e a solidão pubescente. Mérito do diretor, que, para criar um clima sombrio e atemorizante, não precisou socorrer-se do “terror de açougueiro”, despejando litros de sangue e violência gratuita, prática cretina que veio a vulgarizar-se na indústria. Experimente convidar a namorada para ver o filme, alegando tratar-se de spin-off europeu de “Crepúsculo”, e surpreenda-a com um lindo tratado psicológico sobre a crueldade e a solitude humanas.


Aguirre – a Cólera dos Deuses, de Werner Herzog 
No século 16, conquistadores espanhóis partem numa expedição em busca do Eldorado. Mas a selva amazônica reserva-lhes muitos perigos além dos ataques dos nativos. O ambicioso Lope de Aguirre assume o comando e lidera o grupo numa incursão suicida em busca de ouro. Esse é o mote desta produção alemã, em 1972, de alta densidade psicológica. Seu diretor Werner Herzog prima pela abordagem da loucura, ao filmar cenas lindas de uma natureza selvagem que aprofunda o isolamento e a angústia dos conquistadores, na medida em que os aproxima mais e mais da morte. Destaque para a atuação de Klaus Kinski. Sua personagem Aguirre quase não fala; toda sua demência é denunciada por uma postura corporal trôpega e um olhar insano como poucas vezes se viu no cinema. Coisa de gênio.


O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte 
O cinema brasileiro contemporâneo tem rendido muita porcaria (essas comédias escrachadas, que mais parecem telenovelas globais com uma hora e meia de duração, são vergonhosas), mas muita coisa boa também (“Lavoura Arcaica”, de Luiz Fernando Carvalho, “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles, “O Som ao Redor”, de Kleber Mendonça Filho, e as duas partes de “Tropa de Elite”, de José Padilha, são ótimos exemplos de cinema nacional de qualidade). Apesar disso, faço gosto em citar “O Pagador de Promessas”, de1962. Eis aí um filme mais lembrado pela premiação que levou (a Palma de Ouro em Cannes) que propriamente assistido. Na verdade, a película de Anselmo Duarte, que narra à jornada do Zé do Burro, o campônio que atravessa o sertão baiano a carregar a cruz redentora de sua promessa, é uma bonita representação da riqueza cultural brasileira, sem descuidar da crítica mordaz à burocracia eclesiástica que corrói a fé ao erguer muros discriminatórios e excludentes dos devotos.


A propósito, você já acessou a fan page do meu livro infantil Juju Descobrindo Outro Mundo? Não imagina o que está perdendo. Acesse: www.fecebook.com/jujudescobrindooutromundo.


E o site da Juju Descobrindo Outro Mundo, já o acessou? Se eu fosse você iria conferir imediatamente. Acesse: www.admiraveljuju.com.br 

Imagens: Google e Revista Bula 


segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

22 livros que são diamantes para o cérebro


Uuuaaaaauuuu! A primeira impressão foi de que não havia lido nenhum dos livros selecionados por Euler de França Belém – sugestões enviadas pela Revista Bula de dezembro passado. De repente comecei a me sentir decepcionado comigo mesmo. Um leve sorriso deu mostras de que não estou assim tão desinformado quanto parecia.

Eis que surge Sagarana de Guimarães Rosa que havia lido há muito tempo. Agora ressurgindo como um diamante da literatura brasileira. Preciso lê-lo novamente e relembrar os acontecimentos e o conteúdo rico em situações que somente Guimarães soube transferir para suas obras. E nas suas incursões pelo universo mineiro, acentuando os costumes e as práticas comuns dos habitantes nos pequenos povoados.

Sagarana é a primeira obra de Guimarães Rosa, publicada em 1946, contendo nove Contos de notável riqueza literária. Outras obras também mereceram aplausos, sendo Grande Sertão: Veredas de 1956 o seu livro mais popular e que o destacou pela sua incrível facilidade de expressar ocasiões em que o sertão mineiro foi palco de fantásticas aventuras envolvendo vaqueiros e jagunços.

Dentre os nove contos de Sagarana, gostei mais de: A volta do marido pródigo, Duelo, Conversa de bois e São Marcos, sem desmerecer os demais, é claro.

- Memorial de Aires foi a última obra de Machado de Assis, publicada em 1908, ano da sua morte.

Lamento, mas não o li, embora ele faça parte do acervo da minha pequena biblioteca. Consta no III Volume de uma coleção tipo capa dura, editada pela LEL – Linográfica Editora Ltda de São Paulo. Não deixa identificada a data de sua publicação, mas deduz-se ser bem antiga, pelo tipo de papel e as folhas já amareladas.

Todavia, pude perceber que foi escrito sob o formato de um diário. Veremos mais detalhes assim que o ler, iniciativa que prometo não tardar em torná-la realidade.

- São Bernardo foi o segundo livro de maior popularidade para Graciliano Ramos, publicado em 1936. Vidas Secas de 1938 foi sem dúvida a sua mais expressiva obra.

Em São Bernardo, narra-se a história de Paulo Honório - que se transcorre no interior alagoano -, desde sua infância pobre, suas aventuras e desventuras. Sem deixar de lado o seu principal objetivo: ganhar muito dinheiro e adquirir a fazenda São Bernardo que significava muito para ele, por se tratar do lugar onde trabalhara.

Para tanto, utiliza-se de métodos nada éticos. Favorecendo-se de atitudes indignas, manda matar seu vizinho de propriedade, que resulta na ampliação de sua fazenda São Bernardo.

- Poesia 1930–1962 do escritor mineiro, Carlos Drummond de Andrade, também é outro livro que não o li. Mas pelo que fui informado, foi escrito no auge de sua forma literária. Segundo analistas no assunto, por se tratar de uma edição com escritos selecionados de forma criteriosa, porém, disponíveis em publicações anteriores, passou por modificações atualizadas.

Em Poesia 1930–1962, Drummond, preocupou-se com a fácil assimilação do conteúdo, buscando expressões exatas na composição de suas ideias, por meio de pesquisas realizadas a partir de diversos arquivos e bibliotecas. Contém também um artigo de Júlio Castañon, descrevendo sobre as pesquisas que ocorreram, além de textos críticos da época.



22 livros que são diamantes para o cérebro
Por: Euler de França Belém - Revista Bula



Livros, bons livros, são verdadeiros diamantes para o cérebro ou, se quiser, para a alma. Aliás, até maus livros, se bem lidos, se tornam pelo menos uma vistosa bijuteria. Nesta lista, idiossincrática como qualquer outra, menciono livros que, em geral, foram editados no Brasil há alguns anos. Mas poucos estão fora de catálogo. Os que estão podem ser encontrados em sebos – caso da obra-prima “Paradiso”, romance do Lezama Lima. Quando Fidel Castro for um rodapé na história de Cuba, daqui a 55 anos, Lezamo Lima permanecerá sendo lido.




Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister, de Goethe


O livro de Johann Wolfgang Von Goethe “criou”, segundo Marcus Vinicius Mazzari, “o gênero que mais tarde foi chamado de “romance de formação” (Bildungsroman), a mais importante contribuição alemã à história do romance ocidental. (...) Goethe empreendeu a primeira grande tentativa de retratar e discutir a sociedade de seu tempo de maneira global, colocando no centro do romance a questão da formação do indivíduo, do desenvolvimento de suas potencialidades sob condições históricas concretas”. (Editora 34, tradução de Nicolino Simone Neto.)







A Consciência de Zeno, de Italo Svevo


Svevo às vezes é mais citado como “o” amigo italiano de James Joyce. O irlandês foi seu professor de inglês. Poucas vezes um burguês foi retratado com tanta felicidade quanto neste romance. Zeno, um fumante inveterado – nada politicamente correto -, submete-se à psicanálise e, em seguida, desiste, porque deixa de acreditar na “ciência” de Freud. O livro é de 1923. Zeno, grande personagem, faz um mergulho poderoso na sua própria vida. Otto Maria Carpeaux qualificou o romance de “genial”. (Tradução de Ivo Barroso. Editora Nova Fronteira.)







Folhas de Relva, de Walt Whitman


Walt Whitman não é “um” e sim “o” poeta norte-americano. Segundo Otto Maria Carpeaux, é um “poeta para poetas”. Dado o uso intensivo do verso livre, que ele “criou” como um método – então novo e rebelde em relação à poesia metrificada -, o poema longo de Whitman deveria ser de fácil acesso. Se fosse russo, seria cantão nas ruas, como se faz com Púchkin. A dificuldade teria a ver mais com o poema longo do que com o poema em si? Pode ser. O que a poesia de Whitman exige é um leitor atento. Harold Bloom o apresenta como “fundador” da poesia americana. “O” poeta. Há algumas traduções no Brasil. As mais citadas são as de Bruno Gambarotto (Hedra), Rodrigo Garcia Lopes (Iluminuras) e Geir Campos (Civilização Brasileira). Há uma da Editora Martin Claret.




A Montanha Mágica, de Thomas Mann


É o segundo grande romance de formação alemão. O livro conta a história do jovem Hans Castorp, que, ao visitar uma clínica para tuberculosos na Suíça, amadurece, participa de debates filosóficos. Enfim, vive e cresce. Mann escreveu: “E que outra coisa seria de fato o romance de formação alemão, a cujo tipo pertence tanto o “Wilhelm Meister” como “A Montanha Mágica”, senão uma sublimação e espiritualização do romance de aventuras?” (Nova Fronteira, tradução de Herbert Caro.)








A Lebre Com Olhos de Âmbar, de Edmund de Waal


O romance de Wall parece, à primeira vista, um trabalho de arqueologia literária escrito por uma sensibilidade do século 19. Há, aqui e ali, uma percepção meio proustiana da vida. Porém, a obra é de 2010. O belíssimo livro, escrito por alguém que tem a percepção de que Deus às vezes está nos detalhes, ganhou elogios de pesos pesados. “De maneira inesperada, combina a micro arte das miniaturas com a macro história, em um efeito grandioso”, disse Julian Barnes. “Uma busca, descrita com perfeição de uma família e de um tempo perdido. A partir do momento em que você abre o livro, já está numa velha Europa inteiramente recriada”, afirma Colm Tóibín. (Tradução de Alexandre Barbosa de Souza. Editora Intrínseca.)





Guerra e Paz, de Liev Tolstói


Se tivesse lido cuidadosamente o romance “Guerra e Paz” – literatura e história -, Adolf Hitler não teria invadido a União Soviética, em 1941, ou seja, 129 anos depois, mas com os mesmos resultados funestos das tropas de Napoleão Bonaparte. Liev Tolstói examinou a história cuidadosamente e escreveu um romance poderoso a respeito da invasão napoleônica de 1812. Seu trabalho literário rivaliza-se com as melhores histórias sobre o assunto. Detalhe: além da guerra, ele examina minuciosamente a vida civil do período. Como complemento, o leitor pode consultar “1812 – A Marcha Fatal de Napoleão Rumo a Moscou”, de Adam Zamoyski. (Tradução de Rubens Figueiredo, a única feita a partir do russo. Editora Cosac Naify.)





Paradiso, de Lezama Lima


Trata-se do mais importante romance escrito por um cubano. Lezama Lima é o James Joyce ou o Guimarães Rosa de Cuba. Sua posa barroca é densa, às vezes de difícil apreensão, mas uma leitura cuidadosa, observando-se seus vieses, leva o leitor ao paraíso. Julio Cortázar escreveu sobre o livro: “Paradiso é como o mar... Surpreendido em um começo, compreendo o gesto de minha mão quando toma o grosso volume para olhá-lo uma vez mais; este não é um livro para ler como se leem os livros, é um objeto com verso e reverso, peso e densidade, odor e gosto, um centro de vibração que não se deixa alcançar em seu canto mais entranhado se não se vai a ele com algo que participe do tato, que busque o ingresso por osmose e magia simpática”. (Brasiliense, com tradução de Josely Vianna Baptista. A poetisa refez a tradução, mas um imbróglio jurídico a impede de publicá-la.)



Enquanto Agonizo, de William Faulkner


O Som e a Fúria, de William Faulkner, é o “Ulisses” norte-americano. Mas o escritor que resgatou a história do sul profundo dos Estados Unidos por meio da literatura tem um romance menor (em tamanho) e de alta qualidade – “Enquanto Agonizo”. Neste livro, todos os personagens têm vozes, apresenta em igualdade de condições. As vozes parecem um coro e as pessoas estão carregando um caixão, com o corpo da matriarca da família, mas é como se não saíssem do lugar. (Tradução de Wladir Dupont, L&PM.)








Aquela Confusão Louca da Via Merulana, de Carlo Emilio Gadda.


James Joyce “inventou” clones em alguns países: William Faulkner, nos Estados Unidos e Guimarães Rosa, no Brasil, são, quem sabe, os mais conhecidos. Chamá-los de clone contém um certo desrespeito, mas, sem Joyce, Guimarães Rosa certamente teria sido um José Lins do Rego melhorado. Assim como Faulkner seria um Mark Twain mais denso. Mas pode-se falar num Joyce italiano? É possível. Carlo Emilio Gadda, autor de “Aquela Confusão Louca da via Merulana” (Record, tradução de Aurora Bernardini e Homero de Freitas Andrade), é uma espécie de Joyce que “canibalizou” Rabelais. É visto como intraduzível. Acima de tudo, é um belíssimo escritor, autor de histórias fortes contadas de modo inventivo e de uma maneira às vezes frenética.




Três Tristes Tigres, de Guillermo Cabrera Infante


O livro é uma orgia linguística e, por isso, às vezes assusta o leitor desavisado. Mas, se passar da página 50, o leitor não vai mais parar a leitura deste livro de arquitetura perfeita, que não se revela assim, dada sua fragmentação. Cabrera Infante diverte o leitor, em cada página ao resgatar com precisão a oralidade, a vida comum e a vida cultural de Cuba. Logo no início, no qual há mistura de línguas, Carmen Miranda e Joe Carioca são citados. Oswald de Andrade veria, neste belíssimo romance, a antropofagia trabalhada com mestria. (Luís Carlos Cabral traduziu o romance com rigor, decifrando ao máximo suas muitas dificuldades linguísticas e culturais. José Olympio Editora.)





A Branca Voz da Solidão, Emily Dickinson


Esclareça-se: a poetisa norte-americana Emily Dickinson não publicou nenhum livro. Seus quase 2 mil poemas foram publicados depois de sua morte, em 1886. Ela tem sido bem traduzida no Brasil, desde Manuel Bandeira até Augusto de Campos e Aíla de Oliveira Gomes. Mas ninguém fez tanto pela poesia de Emily Dickinson no Brasil quanto José Lira, tradutor desta coletânea. Lira não introduziu sua poesia no país, mas pode-se dizer que a consolidou – tanto com as traduções inventivas, quanto com a crítica refinada. Outro livro traduzido por ele: “Emily Dickinson: Alguns Poemas”. (Editora Iluminuras.)






Vida Querida, de Alice Munro


Alice Munro é uma das maiores escritoras canadenses. É considera como a Tchekhov da América, embora seja menos ousada do que o russo. Seus contos são romances em miniatura, amplamente desenvolvidos e, às vezes, sutis. Neste livro, além dos contos, há narrativas autobiográficas – um artifício inteligente no qual se usa a ficção para iluminar pedaços sempre escuros da vida dos indivíduos. (Tradução de Caetano W. Galindo. Companhia das Letras.)









Sagarana, de Guimarães Rosa


Todos sabem: a obra-prima de Guimarães Rosa é “Grande Sertão: Veredas”, o romance brasileiro que mais dialoga com a literatura internacional – e sem submissão. Nos contos não há a mesma invenção, aquela linguagem rodopiante, que às vezes deixa o leitor tonto. Ainda assim, os contos de “Sagarana” merecem uma leitura atenta, alguns são “Pequenos Sertões: Veredas”. Alguém é capaz de ler e esquecer, por exemplo, “A hora e a vez de Augusto Matraga” e “Corpo Fechado”? (Editora Nova Fronteira.)








Memorial de Aires, de Machado de Assis


Se der ouvidos a certa crítica, o leitor “patropi” passará a acreditar que Machado de Assis só escreveu três romances: Dom Casmurro, Quincas Borba e Memórias Póstumas de Brás Cubas. O mago dos contos raramente é citado, exceto por alguns especialistas, como o inglês John Gledson. Mas há um “romancinho” de Machado de Assis que é maravilhoso. “Memorial de Aires” é muito bem escrito. É de uma sutileza rara no panorama cultural brasileiro. E, claro, é divertido, talvez porque menos pretensioso (a grande arte é sempre pretensiosa) do que as obras-primas “Dom Casmurro” e “Memórias Póstumas de Brás Cubas”.






Reparação, de Ian McEwan


Pense em Ian McEwan como uma espécie de Henry James modernizado, pós-jazz e pós-rock. O autor, talvez o mais refinado escritor inglês vivo – acima de pares como Martin Amis e Julian Barnes (este, às vezes subestimado, ao menos no Brasil) -, aparentemente mistura, aqui e ali, tanto Virginia Woolf quanto Henry James em suas histórias. Mas sua dicção para mostrar a ambivalência dos indivíduos é moderna, não é do século 19, quando James, o Henry, se formou. McEwan conta, em “Reparação”, uma história extraordinária, mas o modo como a relata, com personagens “manipulados” pelo meio e pelas próprias personagens, ou por uma delas, é que torna o romance interessante. Fica-se com a impressão de que há duas histórias – uma dominante e uma alternativa. O que é e o que poderia ter sido.





Ulysses, de James Joyce


É o romance dos romances. Não é à toa que o idiossincrático Harold Bloom – que avalia que Shakespeare é Deus, e não apenas da literatura, pois teria inventado o homem que se tem hoje nas ruas – considere James Joyce como um par do autor de “Hamlet” e “Rei Lear”. Ulysses reinventa o romance moderno, tomando os posteriores espécies de sombras, não raro pálidas. Mesmo quem não o segue, rumando para outra estética, acaba se tornando tributário. As três traduções são de Antônio Houaiss (Civilização Brasileira). Bernardina Pinheiro (Objetiva) e Caetano W Galindo (Companhia das Letras.)







São Bernardo, de Graciliano Ramos


O romance mais importante de Graciliano Ramos é “Vidas Secas? Sem dúvida. Mas, num tempo de hegemonia dos estudos de gênero – que matam a literatura em nome de uma ideologia primária -, nada mais significante do que indicar “São Bernardo”. Este livro, se as feministas atuais lessem – as que leem são exceções -, se tornaria uma bíblia. Mas uma bíblia sem concessões moralistas. Poucos autores “patropis”, mesmo entre as mulheres, construíram tão bem um homem autoritário, até totalitário, quanto o Velho Graça (Editora Record.)








Retrato de uma Senhora, de Henry James


Mestre da ambiguidade, Henry James construiu romances de alta voltagem sobre grandes mulheres, americanas ou inglesas. Pode-se dizer até, que suas mulheres, sempre mais sutis, são mais bem construídas do que as personagens masculinas. Neste romance, há uma grande personagem, Isabel Archer. O leitor poderá sugerir: “Mas ela é enganada por um homem”. Por certo, é. Mas permanece como uma grande personagem. Este livro – ao lado de “As Asas da Pomba! – deveria ser lido por todos os leitores, sobretudo, pelas mulheres. Os homens deveriam amarrá-las para que lessem esta obra-prima? Nem tanto. É crime. A Lei Maria da Penha é um perigo. (Companhia das Letras, tradução de Gilda Stuart.)





Conversa no Catedral, de Mario Vargas Llosa


O percurso literário de Vargas Llosa é curioso. Começou como um autor inventivo, na linhagem de Faulkner, e se tornou, nos romances mais recentes, um escritor mais tradicional, tão límpido quanto, digamos, Flaubert. Tornou-se um grande narrad0or clássico, mais acessível. Seu romance mais experimental é “Conversa no Catedral”, no qual diálogos de personagens diferentes são misturados, numa bela orgia linguística. É como se o Nobel de Literatura nos dissesse que a Linguagem é uma personagem tão ou mais importante do que Santiago e Ambrosio. (Alfaguara, tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht.)






Poesia 1930-1962, de Carlos Drummond de Andrade


O poeta Carlos Drummond de Andrade talvez tenha apenas dois rivais em língua portuguesa – Camões e Fernando Pessoa. No Brasil, quem mais se aproximou a uma distância de 10 mil quilômetros, foi João Cabral de Melo Neto. Ninguém mais. “Poesia 1930-1962 – Edição Crítica contém o que há de melhor do escritor mineiro. É, digamos, sua bíblia. Aí está o Drummond, modernista total, de corpo e alma. Como presente de Natal, o preço é salgado, R$179 reais, mas a edição, caprichada, vale à pena. O preço será esquecido, mas o presenteador e o livro decerto jamais serão olvidados. (Editora Cosac Naify.)






O Deserto dos Tártaros, de Dino Buzatti


O maior crítico brasileiro Antonio Cândido, aponta o romance do escritor italiano como um dos mais importantes da história da literatura. Fica-se com a impressão de que a história não anda, ou que anda para trás, ou melhor, que a personagem central, o tenente Giovanni Drogo, espera tanto que insinua-se paralisado, como se a história estivesse estancada. De permeio, a linguagem refinada de Dino Buzatti. (Editora Nova Fronteira, tradução de Aurora Fornoni Bernardini e Homero de Freitas Andrade.)








Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust



Harold Bloom percebe Marcel Proust como o maior escritor francês, acima de Flaubert, o “santo” de devoção de Mario Vargas Llosa. Proust não sabia avaliar se “Em Busca do Tempo Perdido” era um romance, ou algo mais. Talvez seja muito mais do que um romance. Quiçá uma bíblia da civilização humana, mais do que da francesa. Ciúme, memória-tempo, amizade, sexualidade – eis alguns dos temas candentes do escritor. Duas editoras se encarregaram de traduzir a obra-prima, a Globo e a Ediouro. No time de tradutores da Globo, estão Mario Quintana, Manuel Bandeira, Calos Drummond de Andrade, entre outros. Fernando Py enfrentou solitariamente as centenas de páginas de um autor de prosa densa (quem só defende literatura concisa não sabe a delícia que é Proust). Mario Sergio Conti prepara a terceira tradução para a Companhia das Letras.


Imagens: Google image e Revista Bula