terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Fernando Pessoa - Virgílio no espelho




Fernando Pessoa - Virgílio no espelho
Por Reinaldo Azevedo




Fernando Pessoa - Virgílio no espelho: Texto originalmente publicado na revista Bravo!, pelo jornalista Reinaldo Azevedo, Edição nº 13, de outubro/1998, parte integrante do livro Contra o Consenso, publicado pela Editora Barracuda. Posteriormente foi transcrito em Veja de 23/12/1998 e depois no Blog do autor hospedado no site da revista Veja em 22/01/2007. Esta é uma das razões pela qual o Bússola Literária se orgulha de publicar também em suas páginas, este trabalho editorial fantástico de Reinaldo ao transmitir através da sua extraordinária sensibilidade intelectual e, de forma cuidadosa esta reflexão analítica/informativa literária sobre a obra do poeta Fernando Pessoa. Aproveite bem. Esta publicação está autorizada pelo Autor.


A apreciação crítica da obra de Fernando Pessoa esbarra, de cara, numa dificuldade. De tal sorte já se tentou apreender a sua especificidade que, ao fim, o trabalho resulta ou em redundância ou em impotência crítica, como se jamais avançássemos além da periferia da obra, passando por caminhos excessivamente conhecidos ou então nos fixando em arrabaldes de irrelevância. É o correspondente crítico da sensação de encantamento basbaque que experimentamos depois de ler cada poema: “Como alguém conseguiu ser tão grande, intenso, inteiro, personalista e, ao mesmo tempo, dialogar com toda uma era, traduzir sentimentos e sensações que dizem respeito a todos e a cada um de nós?”.

Com a possível exceção do irlandês Yeats (1865- 1939), um caso eventualmente mais complexo, não há na poesia de nenhuma outra língua moderna quem tenha sido tão ambicioso nos horizontes e tão radicalmente solitário. Na impossibilidade de flagrar em todos os seus contornos o bicho interno que corrói a alma do poeta, resta a tentativa de localizar Fernando Pessoa no seu tempo, afinal e sempre um poeta português.

Pessoa foi o autor completo de um país decadente. Um dos maiores poetas de uma língua moderna só se pôde fazer num país então — e por muitas décadas — obscurecido pela sombra de um passado glorioso. De Pessoa, pode-se dizer praticamente o inverso do que dizia Eliot de Virgílio (71-19 a.C.). No ensaio O que é um Clássico?, o poeta inglês via no latino o sumo e a síntese, o ápice e o vórtice de uma civilização — o poeta completo de um império triunfante, diria eu. As preocupações e formulações de Virgílio estavam destinadas a estender a sua perenidade e eram uma espécie de conclusão de uma civilização que o antecedera. Talvez seja útil avançar ainda um pouco nesse espelho ao avesso, e — quem sabe? — se comece a delinear um pouco mais do vulto pessoano.

Quando Virgílio mira o tempo, seja nas Bucólicas, nas Geórgicas ou na Eneida, era o conforto de um presente de glória e poder que se afigurava eterno o que se via refletir em seus versos. A glória mítica de Enéias, que foge à destruição de uma civilização para fundar outra, é pura aposta no porvir. A Eneida virgiliana, se traz o rumor ancestral das batalhas e o suor do périplo do herói, heranças, respectivamente, da Ilíada e da Odisséia homéricas, que a inspiram, mostra-se, ao mesmo tempo, como a afirmação da diferença. Ao escrevê-la sob os auspícios de Otávio Augusto, Virgílio assistia ao pleno funcionamento de uma sociedade que se queria — e era — o retrato fiel da mecânica celeste imaginada.

Quando Virgílio ensaia alguma utopia, ela tem até mesmo um caráter regressivo — bem típico de impérios cujos valores são hegemônicos —, numa espécie de volta saudosa à sociedade primitiva de agricultores (Geórgicas) e pastores (Bucólicas), embora estes já fossem cultos, refinados e quase amaneirados. Em sua trilogia, o poeta cumpriu as três palavras imaginadas para seu epitáfio (“pascua, rura, duces”): cantou os campos, o trabalho na terra e os heróis nacionais. Pessoa foi, diz-se aqui, segundo a linha eliotiana, esse Virgílio pelo avesso. Vejamos. Sua estréia crítica nas letras portuguesas se dá em abril de 1912 com um artigo para a revista A Águia, órgão de um movimento literário chamado Renascença Portuguesa. Ainda que boa parte da crítica queira ver nesse texto — A Nova Poesia Portuguesa Sociologicamente Considerada — não mais que a manifestação petulante e irresponsável de um jovem autor de 24 anos, nessa estréia estão resumidas algumas das preocupações que marcaram para sempre a sua obra.

Não era ainda o poeta maduro que Eliot exigia. Para Pessoa, naquele texto, a vitalidade de uma nação não está em sua riqueza comercial, mas na “exuberância de alma”, em sua capacidade de criar “novos moldes, novas idéias gerais, para o movimento civilizacional a que pertence”. Depois de algumas digressões sobre as literaturas inglesa e francesa, ele diz (como o Eliot de há pouco) que “o valor dos criadores literários corresponde ao valor criador das épocas”. E conclui: “O valor da literatura, perante a história literária, corresponde ao valor da época perante a história da civilização”.

Na seqüência, Pessoa permite-se um salto sofístico. Olha em torno e enxerga a mediocridade da sociedade e da política portuguesas, a condição deprimente de um país irrelevante na Europa, o que deveria levá-lo, pela lógica elementar, a concluir pela impossibilidade do surgimento de um grande vulto literário. Nada disso. Ao vislumbrar o que considera uma literatura de teor nacionalista, com destaques individuais que contrastam com a pequenez do país, ele supõe a antecipação de um período de glória: “Tornemos essa crença, afinal, lógica, num futuro mais glorioso do que a imaginação o ousa conceber, a nossa alma e o nosso corpo, o cotidiano e o eterno de nós” para “criar o supra-Portugal de amanhã”. E vem a suprema heresia: “E isto leva a crer que deve estar para muito breve o inevitável aparecimento do poeta ou poetas supremos, desta corrente, e da nossa terra, porque fatalmente o Grande Poeta, que este movimento gerará, deslocará para segundo plano a figura, até agora primacial, de Camões”.

É claro que o autor estava atento à contradição e concede: “Pode-se objetar (…) que o atual momento político não parece de ordem a gerar gênios poéticos supremos”. Então, vem a conclusão, que, se afrontava a lógica, iria premiar a posteridade: “Mas é precisamente por isso que mais concluível se nos afigura o próximo aparecer de um supra-Camões (…). Porque a corrente literária (…) precede sempre a corrente social nas épocas sublimes de uma nação (…). Prepara-se em Portugal uma renascença extraordinária, um ressurgimento assombroso”.

Passado como desterro

O artigo gerou barulho. Pessoa afrontava — irresponsavelmente, é fato — a santidade; não por acaso, o Virgílio português, o autor de Os Lusíadas, a Eneida lusitana, o sumo literário do período em que o país salgou os mares com as lágrimas das mães e das noivas portuguesas, o cantor da civilização onde o sol nunca se punha. O bardo e o demiurgo de um povo e seus valores triunfantes deveriam ser superados, já agora numa era decadente, por um poeta que, parafraseando o próprio Pessoa num texto sobre política, na impossibilidade de ser o resultado da vontade de todos os poetas, resumisse as qualidades de todos eles. Estava anunciado o fenômeno da heteronimia: diante da impossibilidade de um só poeta conseguir ser todos, todos em um só resultariam no supra-Camões. Se Pessoa não logrou seu intento, é certo que está sentado à direita de Deus-pai.

Se Pessoa não conseguiu navegar águas tão extensas quanto Camões — faltou-lhe o poema épico? —, o pertencer a uma era decadente certamente o fez avançar por verbos até então ignotos. É de se perguntar: a civilização moderna seria capaz de sustentar a aventura épica? Provavelmente, não. Nos fragmentos lírico-históricos de Mensagem, o poeta reconta, magnifica e lamenta o passado português segundo o ponto de vista do narrador de uma epopéia, é fato, mas cada herói é, por assim dizer, privatizado pela dor de quem olha. Camões concluiu o seu poema épico no desterro. Pessoa deu à luz seu Mensagem desterrado do tempo. A sua pátria era lugar nenhum, e a sua terra estrangeira era o passado. Muito já se falou no que há de distinto e radicalmente disforme nas várias vozes poéticas de Pessoa. Mas a questão relevante, parece, é saber como essas várias vozes se harmonizam num coro que ecoa um tempo.

Esse Virgílio da queda enfeixou nos seus heterônimos um só e mesmo sentimento de desconformidade com o mundo, que se traduz no sensacionismo modernista de Álvaro de Campos, na poesia culta de inspiração clássica de Ricardo Reis, na negação dos maneirismos poéticos de Alberto Caeiro, na recuperação do Portugal tragicamente heróico de Pessoa-ele-próprio ou na metafísica cinza, entristecida e reflexiva dos Poemas Ingleses. A dor de Pessoa é uma aventura do espírito. Mesmo o Camões mais tristemente reflexivo, que lamenta a crueza de seu destino, aquele poetizado por Bocage, que destaca num soneto não apenas seus “dons do pensamento”, mas também “os transes da ventura”, que lembra que ele teve de “arrostar o sacrílego gigante” e viver “junto ao Ganges sussurrante” — referências à atribulada e quase heróica vida do poeta em seu exílio —, mesmo esse Camões não eleva o desconforto às alturas pessoanas.

Camões fundia magnificamente suas desventuras pessoais à herança petrarquiana, ao que se poderia chamar “uma maneira de sentir”. O Pessoa de Mensagem inventou um passado — e uma forma de expressá-lo — ao qual se sente intelectualmente vinculado, mas muito mais inóspito do que qualquer terra estrangeira, porque irremediavelmente perdido. Ao recuperar, na dor, esse Eldorado onde o sol só se põe, que não é lugar, mas tempo, vaza a herança clássica (“Os Deuses vendem quando dão”), o catolicismo medieval (“Deu-me Deus o seu gládio, porque eu faça/ A sua santa guerra”), o limite entre o humano e o divino do Renascimento (“Deus quere, o homem sonha, a obra nasce”), a saga épica de um povo traduzida em minimalismo lírico (“Ó mar salgado, quanto do teu sal/ São lágrimas de Portugal!”).

Todos os poemas de Mensagem, a mais espetacular obra pessoana — a única publicada em vida e talvez, de fato, concluída —, podem ser resumidos no poema “A Última Nau”, em homenagem a dom Sebastião:
“Levando a bordo El-Rei D. Sebastião,
E erguendo, como um nome, alto o pendão
Do Império,
Foi-se a última nau, ao sol aziago
Erma, e entre choros de ancia e de presago
Mystério.
(…)
Ah, quanto mais ao povo a alma falta,
Mais a minha alma atlântica se exalta

E entorna
E em mim, num mar que não tem tempo ou spaço,
Vejo entre a cerração teu vulto baço
Que torna. (…)”.

Os múltiplos interesses de Fernando Pessoa, que passeavam pela astrologia e pelo ocultismo, e suas preferências políticas francamente reacionárias ajudaram a consolidar a imagem do poeta sebastianista. É de se desconfiar. Desde seu primeiro texto público, o que se vê é antes um poeta com ânsia de futuro (aquele que esperava pelo “supra-Portugal”) do que saudoso do passado. A poetização de uma história tão estreitamente portuguesa e, ao mesmo tempo, tão largamente universal parece antes a rejeição de um dia-a-dia “cotidiano e tributável”, concessão, diga-se, em que se perdem muitos poetas contemporâneos. Até mesmo um Carlos Drummond de Andrade — simbolicamente, o nosso Pessoa — se deu às bobajadas jornalísticas de Versiprosa (se bem que nem ele as considerasse poesia), quando já nos tinha dado Brejo das Almas, Sentimento do Mundo e Rosa do Povo, entre outras lições de coisas e brancuras impuras.

De certo modo, nas mesmas águas ousadas navegou o futurista Álvaro de Campos, talvez o mais popular dos heterônimos pessoanos, porque supostamente mais fácil, mais inteligível. Além da adesão ao verso livre — por oposição à miscigenação formal entre clássica e medieval de Pessoa-ele-mesmo — e ao ritmo quase prosaico dos poemas, Álvaro de Campos, parece alçar às alturas uma sensibilidade destrambelhada, sem freios, que pode ser confundida com certa poesia marginal, que faz a apologia do destampatório sentimental. Mas há uma insuspeitada e exata correspondência entre o Pessoa de Mensagem e Álvaro de Campos, da qual o poema “Ode Marítima” é o exemplo perfeito.

O mar de Mensagem — de onde surge inteira e redonda a Terra — é metonímia, e o da “Ode Marítima”, metáfora; aquele afigura todas as dificuldades da civilização que foi “muito além da Taprobana”, este outro transporta uma alma sem cura; aquele existe para que, por intermédio dele, se vislumbre uma nesga de glória e se experimente o desterro no presente, este para que continue, metáfora ativa, a despertar em nós desejos de viagem, de fuga para dentro de nós mesmos, entre nossas misérias íntimas e nossos limites. No mar da metonímia, navega o vulto de dom Sebastião; no mar da metáfora, vê-se

“A ânsia do ilegal unido ao feroz,
A ânsia das coisas absolutamente cruéis e abomináveis,
Que rói como um cio abstrato os nossos corpos franzinos,
Os nossos nervos femininos e delicados,
E põe grandes febres loucas nos nossos olhares vazios!”.

Na “Saudação a Walt Whitman”, três versos dão conta da natureza futurista de que era feito Álvaro de Campos. Assim ele classifica o poeta americano:
“Jean-Jacques Rousseau do mundo que havia de produzir máquina,
Shakespeare da sensação que começa a andar a vapor,
Milton-Shelley do horizonte da Eletricidade futura”.


Cada um dos autores citados, de algum modo luminares do mundo das idéias, se resume num Whitman que prenuncia a democracia e suas conquistas técnicas. O futurismo de Álvaro de Campos não é do tipo que empresta às banalidades da vida moderna o estatuto de poesia ou que tenta consolidar novos cânones em detrimento de outros fundadores do pensamento que lhe é contemporâneo — alô, moderneiros de 1922 e de 1998! Álvaro de Campos extrai do moderno o perene, atualiza a idéia e o conceito na matéria viva, revela o eterno no aparentemente transitório. A saudação a Whitman, destaque-se ainda, não é acidental. O poeta americano e seu pansexualismo — “sexualizado pelas pedras, pelas árvores, pelas pessoas, pelas profissões” — se afiguram uma revelação feliz e bem resolvida de uma certa palpitação erótica — insatisfeita, sofrida, impotente — que se percebe em todos os poemas de Álvaro de Campos. Em seu caso, no entanto, o desejo, sem definição de gênero, como o de Whitman, parece jamais ter encontrado um lugar, um objeto em que se fixar, um corpo em que se exercer.

É na poesia de feição pastoril de Ricardo Reis, o pagão culto, e de Alberto Caeiro, o pastor rústico, que Fernando Pessoa, aparentemente ao menos, se reconcilia com o mundo. Aparentemente. Os poemas do primeiro seguem de muito perto as odes e os epodos do latino Horácio (65-8 a.C.). Escreve o latino:

“Não queiras saber, Leocone, é um sacrilégio
Que destino os deuses a mim e a ti nos concederam”
Ao que responde Ricardo Reis:
“Aos deuses peço só que me concedam
O nada lhes pedir. A dita é um jugo
E o ser feliz oprime
Porque é um certo estado. (…)”.
Horácio conclui o seu poema com um ambíguo “carpe diem, quam minima credula postero” (“aproveita o tempo e desconfia do futuro”), sem deixar claro se devemos nos entregar irresponsavelmente aos prazeres ou não perder um minuto que seja no pleno domínio de nossa própria vida. A julgar pela obra que deixou, à qual se refere no verso-divisa “Exigi monumentum aere perennius” (“Ergui um monumento mais duradouro do que o bronze”), a segunda interpretação parece fazer mais sentido. Mas Horáci
o era o outro poeta de uma era triunfante.

A retomada da Antiguidade em Reis é uma busca sem esperança (jamais ele demonstra a autoconfiança horaciana) do locus amoenus (o lugar aprazível) e da aurea mediocritas (o equilíbrio de ouro, o ideal de tranqüilidade) para dar curso ao seu desalento, posto que seus temas são claramente portugueses, a saudade que sente é da mesma glória que constitui a matéria de Mensagem, a desconformidade com o mundo tem o mesmo matiz dos poemas de Álvaro de Campos, que poderia assinar, por exemplo, o fatalismo dos versos que seguem, mas não seu comedimento:
“Nada podendo contra
O ser que me fizeram,
Desejo ao menos que me haja o Fado
Dado a paz por destino”.

Caeiro é o fecho de ouro de nosso Virgílio às avessas: não se dedica à recuperação de um passado improvável, não se entrega às dores incuráveis de uma alma passível de todas as sensações, não se redime na busca estóica do equilíbrio e da medida; Caeiro simplesmente nega, ao fazê-la, a poesia. Seus versos têm um norte estético que é também uma espécie de norte moral: inutilia truncat — a busca da simplicidade. O poeta é sucinto no expressar-se, mas ainda mais no sentir. A verborragia de Campos lhe cheira a desequilíbrio; o equilíbrio de Reis, a afetação, e a afetação culta de Pessoa, a fuga da realidade natural, a única matéria da poesia para Caeiro. Não é sem certa ironia que ele se volta para ninguém menos que o próprio Virgílio:
“Os pastores de Virgílio tocavam avenas e outras cousas
E cantavam de amor literariamente.
(Depois — eu nunca li Virgílio.
Para que o havia eu de ler?)
Mas os pastores de Virgílio, coitados, são Virgílio,
E a Natureza é bela e antiga”.

Desprezava tudo o que lembrasse poesia. Não partiu Caeiro para a desconstrução do verso (jamais flertou com tolices afins…), mas fez uma poesia na contramão do fluxo influente das figuras de linguagem disponíveis, em oposição aos desejos reformadores e lamentos lacrimosos de que nenhum autor escapa (especialmente Álvaro de Campos), em contraste com qualquer utopia restauradora, de que Pessoa foi mestre. Seu refúgio é o alheamento:
“Ontem à tarde um homem das cidades
(…)
Falava da justiça e da luta para haver justiça
E dos operários que sofrem,
(…)
e dos que têm fome,
E dos ricos, que só têm costas para isso.
E, olhando para mim, viu-me lágrimas nos olhos.
E sorriu com agrado, julgando que eu sentia
O ódio que ele sentia e a compaixão
Que ele dizia que sentia.
(…)
(Que me importam a mim os homens
E o que sofrem ou supõem que sofrem?
Sejam como eu,
não sofrerão.
Todo o mal do mundo vem de nos importarmos uns com os outros
(…)”.

Um único monossílabo, nesse poema, resume a poesia de Caeiro:
“Eu no que estava pensando
Quando o amigo de gente falava
(E isso me comoveu até as lágrimas),
Era em como o murmúrio longínquo dos chocalhos
A esse entardecer
NÃO parecia os sinos duma capela pequenina
A que fossem à missa a
s flores e os regatos
E as almas simples como a minha.”
Eis aí: para ele, a verdadeira poesia liberta a realidade da metáfora. Caeiro também era um fingidor. Mentiu ao dizer que não lera Virgílio. A IV Bucólica virgiliana, a do menino que viria para anunciar a Idade do Ouro (e que o imperador Constantino e Santo Agostinho achavam prenunciar a vinda do Messias…) — “Sem trato algum, menino, a terra te oferecerá/ Como primícia as heras que se alastram, mais o bácar (…)/ Por si, cheias de leite, as cabras voltarão ao aprisco,/ E os rebanhos não mais terão pavor dos grandes leões (…)”—, mereceu uma versão de Caeiro. Em seu poema, ele dá curso à leitura impossível de que Virgílio previu o Cristo, torna o garoto, de fato, o Menino Jesus, mas lhe dá uma feição pagã:
“(…) Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte,
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
(…)
A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas.
(…)
Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
(…)
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
(…)”.

Há ainda muitos outros Pessoas, o dos poemas ingleses, o dos poemas dramáticos, o das poesias coligidas, e inéditos devem sair ainda do famoso baú de madeira onde ele abrigou toda a sua obra, que, a cada novidade, obriga a que se releia o que já se conhece. Portugal esperou quase quatrocentos anos, e das águas não emergiram dom Sebastião ou o supra-Camões que anunciariam a era de ouro. O país — o “rosto da Europa” a “fitar o Occidente, futuro do passado” — deu-nos, no entanto, Fernando Pessoa. Agora reintegrado à Europa, partilhando, com justiça, do quinhão de civilização que espalhou pelos quatro cantos da Terra, Portugal pode esperar outros quatrocentos anos até que um supra-Pessoa surja do azul profundo.

A eternidade não tem pressa.


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Imagens: Internet, Fotosearch

domingo, 31 de janeiro de 2010

Insólito Ipê-amarelo





Brasil é um recanto de belezas naturais fascinantes. Capazes de provocar a cobiça e interesses de outros povos e até mesmo do próprio brasileiro pelo seu patrimônio de recursos naturais de inestimáveis valores. Nossas riquezas nativas vêm ganhando espaço nos principais fóruns de discussões sobre as mudanças climáticas realizados nos últimos anos, desde o ambicioso Protocolo de Quioto no Japão em 1997. Reflexo da ECO-92 realizada no Rio de Janeiro.

Este mesmo tema foi destaque na irrelevante reunião de Davos na Suíça, envolvendo a participação dos principais países economicamente superiores, onde abriu-se espaço nos debates sobre as questões climáticas com destaque para os temas ambientais e, recentemente em Copenhague na Dinamarca outra tentativa ilusionista foi analisada sem grandes resultados efetivos.

O certo é que o planeta pede socorro. Pede clemência, em particular a nação brasileira, preocupada com a defesa de suas preciosas reservas contra atitudes imbecis, praticadas em grande parte por interesses de posse. Sendo que, na maioria das vezes, de maneira escusa. O lamentável desta história, é que, esses visíveis interesses praticados de forma gritante e covarde, já comprovados são instaurados pela negligência irracional de uma parte da sociedade gananciosa e hipócrita em detrimento de fatores meramente financeiros.

Sem o menor pudor, envolvem pessoas das mais variadas atividades sócio-econômicas, tendo o agronegócio com suas queimadas despropositadas e criminosas, um fator que exige punições graves. Eliminam de forma impiedosa e acelerada a fauna e a flora de forma incompreensiva. Animais de todas as espécies agonizam e morrem sem nenhum sentimento da parte dos autores; a indústria madeireira derruba de maneira absurda árvores centenárias, causando um efeito de devastação capaz de pasmar até o mais otimista pesquisador em assuntos ambientais.

Em determinadas regiões chegam ao descabido de em apenas um ano promoverem a destruição de áreas superiores a de alguns países europeus e asiáticos. E a exploração do solo e dos recursos hídricos segue na mesma toada. São os herdeiros da destruição e do efeito ambição pelas nossas riquezas minerais, utilizando suas dragas e outros instrumentos nocivos contribuindo de forma decisiva, com a destruição irreversível de rios, riachos e córregos.

Este caos já há tempo instalado e ironicamente praticado principalmente pelas elites, os maiores responsáveis pela degradação ambiental e o efeito estufa. Contudo, este olhar de desejo tem sido fonte de estímulos nas campanhas feitas pelos vaidosos governantes da nossa Pátria Amada no sentido de atrair a atenção de investidores internacionais, com os slogans de “O País do futuro”, “O País das oportunidades”.

No entanto, pouco se tem feito para impedir o câncer da calcificação e mudança gradativa do nosso solo fértil, para o caos desértico que se aproxima de forma vertiginosa. Em contrapartida, também pouco se tem feito de maneira visível e realista, ações inovadoras que contribuíssem de fato, para a preservação do nosso bem mais precioso e invejado por todos os povos que já viram suas reservas destruídas, restando apenas uma ou duas fotos no álbum de recordações.

Na velocidade em que o problema se avança, nossos netos ou bisnetos, provavelmente não verão este patrimônio vivo de florestas nativas, e o cerrado com sua biodiversidade exuberante, além é claro, de outros recantos e manancial igualmente importante, simplesmente porque deixarão de existir. De quem é a culpa? Lógico que o culpado não quer e não vai aparecer. É inegável que uma minoria abastada e insaciável, de forma declara não assume a responsabilidade. Vários satélites ao redor da terra têm fotografado e registrado as áreas mais afetadas, nem assim se preocupam.

Também é esse contingente de dissimulados imperialistas do agronegócio os principais contribuintes com os deploráveis exemplos já constatados, como sendo os vilões que já dilapidaram suas riquezas naturais, e, hoje uivam como leões, tentando convencer que estão preocupados com o futuro da humanidade.

Como se fosse o último suspiro, esses supostos defensores das reservas naturais, utilizam a tribuna e a mídia, para se passarem por verdadeiros paladinos e, de forma arrogante e hipócrita, apontam em direção da floresta amazônica, como sendo o único elo entre a sobrevivência saudável e a perpetuação das espécies.

Várias tentativas políticas de preservação do ecossistema realizadas nos últimos cinquenta anos não obtiveram o êxito esperando, despencaram-se todas as tentativa, ainda na sua implantação, pela ausência do respeito e da moral. Até mesmo, por não conter no cerne da proposta, critérios de envolvimento sistemático da própria população, que de braços cruzados assistem o circo pegar fogo, ou seria, a vegetação nativa condenada ao fogo inferno?

Resultado: As frustradas tentativas vieram a falecer ainda na infância simplesmente porque não viriam privilegiar interesses pessoais de alguns políticos travestidos de bons cidadãos e empresários ambiciosos em busca de resultados imediatos.

A natureza tem provado que tanto é bondosa, quanto é perversa. Detesta ser desafiada e vem mostrando sua fúria de advertências. Mesmo assim, parece que o que ela tem ocasionado com os exemplos de terremotos, tsunamis, enchentes, falta de abastecimento de água e alimentos, não passa de um simples fenômeno da natureza. A verdade é inquestionável, aqueles que realmente poderiam agir criando leis práticas, eficientes e gerir ações de preservação, ofuscam suas atitudes em benefício corporativistas.
Não faz muito tempo, um exemplo de persistência e amor à vida, foi divulgado inicialmente através de uma publicação gaúcha, depois ganhou o mundo por intermédio da internet. Trata-se do ipê-amarelo que desafiou a impiedosa motosserra, ou quem sabe o próprio machado, sabe-se la, para ser transformado num poste de sustentação da rede elétrica na cidade de Porto Velho-RO.

Como foi incrível sua manifestação e exemplo de soberania e humildade! Mesmo sendo vilipendiado, arrastado, escalpelado, desnudado de sua casca e de sua nobreza, ainda assim, além de colaborar com o benefício da iluminação pública conseguiu fazer acontecer o que parecia impossível. Criou raízes no chão bruto no qual fora plantado para atender as necessidades da comunidade, reviveu e floriu magnificamente diante do espanto e admiração de todos.

Eis a pergunta: Como poderia um pedaço de pau, ressuscitar da serraria e ainda responder aos seus verdugos e algozes com o sorriso de vitória demonstrado por meio de suas flores amarelas como o ouro? Como pode suportar a atrocidade recebida com tamanha nobreza, deixando pasmos aqueles que o sacrificou? A verdade é que isto aconteceu e foi registrado pelas imagens do fotógrafo Leandro Barcelos, cidadão gaúcho, atualmente morador da região. Este é só um exemplo dentre tantos mostrados diariamente nos rincões a fora, mas que nem todos veem.

A questão sobre o desmatamento criminoso e o tráfego de espécies nativas acontece deste o descobrimento pelos portugueses. E o pau-brasil na época, não foi o único a passar por este interesse e exemplo amplamente divulgado. Várias outras plantas sentiram esse dramático casuísmo, utilizadas para fins medicinais ou mesmo ornamentais foram roubadas e disponibilizadas em negócios rentáveis pelos descobridores. 
O ipê não fossem suas próprias características de habitat, preferindo áreas descampadas e mais expostas ao sol. Teria sido alvo fácil pela sua beleza notável e resistência da sua madeira, muito apreciada e empregada nas estruturas dos telhados das igrejas e mansões coloniais nos séculos XVII e XVIII.

Sua beleza também justifica o fascínio que causa entre as demais árvores. É inegável que se trata de uma planta privilegiada e abençoada pelo Criador. Fatos curiosos envolvem sua existência. Quando se aproxima o final do inverno, enquanto suas folhas começam a cair já se inicia sua florada, atraindo abelhas e beija-flores, importantes responsáveis pela polinização. E, quando está concluindo o seu ciclo floral, outra esplêndida maravilha se estampa na sua copada para a alegria dos seus admiradores.

Assim que começa o nascimento de suas folhas, pelo seu matiz esbranquiçado bem próximo do prateado, causa outro verdadeiro deslumbre de encanto de beleza, provando mais uma vez ser a planta dos sonhos e das inspirações. Não é à toa que o seu encanto e importância à flora brasileira também ganhou reconhecimento dos legisladores através da Lei Federal nº 6.607 de 07/12/1978, considerando-o como Flor Nacional Símbolo do Brasil e o pau-brasil declarado Árvore Nacional.

Na década de 60, uma das espécies do ipê-roxo foi seriamente ameaçada pelo comentário infeliz e irresponsável de um cientista ao afirmar que a ingestão do chá extraído da sua casca, ser um excelente remédio contra o câncer. Parece pura ironia, mas os ipês continuam desafiando seus inimigos oferecendo em troca sua sombra e a beleza de suas flores, mesmo sendo apenas entre os meses de agosto e setembro, sem mágoas presenteiam a humanidade com suas fantásticas cores nos tons de amarelo, rosa, lilás/roxo e branco.

Diz uma lenda sobre os ipês que o vento depois de viajar dias e noites avistou uma simpática árvore que se chamava ipê. Suas belas flores exibiam um amarelo intenso que mais pareciam flocos de ouro brilhando no horizonte. Com o seu exuberante fascínio reinava solene numa área de inesgotável beleza, onde outras espécies de cores diferentes também esnobavam beleza.

Encantado com tamanha maravilha resolveu parar e contemplar aquele presente da natureza. De repente a chuva que também passava por ali achou que seria interessante dar sua contribuição e suavemente banhou suas flores tornando-as mais alegres. O sol por sua vez, presenciando aquele ato espontâneo, achou que também deveria fazer à sua parte e com os seus raios reflexos da vida, completou aquele cenário deslumbrante. A combinação das pequenas gotículas de água que permaneciam sobre as pétalas das flores com os efeitos dos seus raios e o balanço suave dos galhos embalados pelo vento, criou-se uma cintilante visão que resplandecia na copa da bela árvore.

Então os três amigos: vento, chuva e sol sentaram-se nas proximidades daquele resplendor e não deixaram de exaltar aquele acontecimento único e maravilhoso. Conversando concluíram que havia regiões onde o ambiente era de pura solidão e abandono e que, deveriam fazer algo para alegrar esses lugares carentes de felicidade.

Entenderam que mesmo com todo o poder que possuíam precisariam de ajuda para levar as sementinhas dos ipês em cores diferentes até onde deveriam embelezar. Uma abelha ouvindo a conversa dos amigos, percebendo o quanto seria difícil para eles realizarem os seus desejos, se prontificou em ajudá-los, para isto, convidou outras companheiras da espécie e juntas transportariam os pequenos grãos do pólen que iriam dar vida aqueles lugares esquecidos na tristeza a que submetiam.

Enquanto as bondosas e atenciosas abelhinhas operárias faziam o trajeto o vento soprava de mansinho ajudando-as a não se cansarem. A chuva prestativa as acompanhava para regar a nova esperança de vida que viria nascer e o sol cuidadoso iluminava o caminho para que não se perdessem.

Depois de alguns anos, os amigos novamente juntos, mais as abelhinhas se reuniram para verificar o resultado das suas iniciativas. Ao chegarem às regiões escolhidas encontraram orgulhosos todos os ipês floridos cada um com sua beleza própria nas cores, amarelo, branco, roxo/lilás e rosa. Como se não bastasse, para completar aquela maravilhosa imagem, uma grande quantidade de pássaros canoros de diferentes espécies entoava belíssimas canções compondo aquela cena de esplêndida alegria e bem-estar. E assim a natureza num ato de amor e união levou a beleza do ipê a outros recantos onde precisavam de cor e brilho.

A preservação ambiental e o bem-estar da humanidade dependem de ações conscientes de cada habitante global.


A artista plástica e poetisa Neli Vieira, presta sua homenagem à vida, através do exemplo Ipê-amarelo da cidade de Porto Velho-RO. 




Milagre da vida
  

O ipê amarelo
Agoniza na serra elétrica
Depois... Enterram-no
Feito poste de uma rua
Vestem-no de fios
E transformadores
  
Não há anjos
Nem pássaros que o salve
  
Porém a terra
Mãe sábia
Alimenta seu filho mutilado
Com a seiva de seu santo seio
E no milagre da vida
A Fênix renasce no coração da árvore
Agora...
Não é só um poste da rua
É uma obra de arte
Que resplandece em flores lindas
Volta a ser a inspiração
Dos poetas que creem na vida
E passeiam desnudos sobre
As flores do chão
Poetas que renascem entre
Mentiras e verdades cruas
Quando o olhar alcança o céu
E a alma tenta beijar a lua.


Nota: Esta crônica Insólito Ipê-amarelo já esteve disponível aqui mesmo no Bússola Literária, desde 31 de janeiro de 2010. Agora resolvemos dar uma repaginada e, revivê-la com várias modificações no seu texto original. Quem sabe também, seja o momento ideal para servir como objeto de discussão num fórum de debates, abrangendo não só o seu conteúdo sob forma de pesquisa, mas literário e ortográfico. 

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Imagens: Internet.
Foto do poste ipê: Leandro Barcelos

domingo, 24 de janeiro de 2010

Veja Cultural e a Biblioteca Nacional



Os assuntos mais procurados pelos leitores
Biblioteca Nacional

A pedido de VEJA, quinze intelectuais escolhem os melhores livros do Brasil 
Veja Cultura – 23/novembro/1994
Por: Rinaldo Gama

Lançado há três meses nos Estados Unidos, o livro Cânone Ocidental, do intelectual americano Harold Bloom, tem uma proposta ambiciosa: listar os livros mais importantes da história da cultura deste lado do mundo. O livro de Bloom aponta 26 autores que, segundo ele, seriam o supra-sumo literário. Apenas um nome de língua portuguesa conseguiu seu lugar entre os 26, o poeta Fernando Pessoa, que faz companhia a William Shakespeare e Marcel Proust. No fim do livro, Bloom aponta outros 824 escritores que, mesmo abaixo do primeiro escalão, também produziram obras cujo valor considera eterno. Um brasileiro conseguiu ingressar nessa segunda seleção, Carlos Drummond de Andrade. Não é pouca coisa. Bloom colocou Drummond na mesma faixa que o alemão Thomas Mann e o russo Fyodor Dostoievsky. O Cânone Ocidental já vendeu 10.000 exemplares nos Estados Unidos e deve sair no Brasil no ano que vem (1995), pela editora Objetiva.

Discutível como todas as listas de melhores em qualquer atividade humana, tanto na escolha dos melhores filmes de todos os tempos como na escalação da melhor seleção de futebol, o esforço de Bloom tem uma utilidade indiscutível. Abre uma polêmica sobre obras e autores, entre o que tem valor e aquilo que é fútil, o descartável e o duradouro. "Pode ser uma arte em extinção a de ler atentamente, com amor, com a emoção de ver como o texto se desdobra", diz Bloom. "Mas todo mundo tem ou deveria ter uma lista de obras que lhe serviriam de companhia numa ilha deserta." Com esse mesmo espírito, VEJA montou um cânone brasileiro. Para tanto, solicitou a quinze dentre os intelectuais de porte do país que fizessem uma lista das vinte obras mais representativas da cultura brasileira, em todos os setores e em todas as épocas. Dessa forma, chegou-se a um cânone de 22 obras. Além dos intelectuais cuja lista de vinte obras é publicada na íntegra, VEJA também ouviu o antropólogo e senador Darcy Ribeiro, o historiador José Murilo de Carvalho; o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos: e o
crítico literário Fábio Lucas.


                                                                                              
1) - Os Sertões - Votos: 15
2) - Casa-Grande & Senzala - Votos: 14
3) - Grande Sertão: Veredas - Votos: 13
4) - Macunaíma - Votos: 11
5) - Dom Casmurro - Votos: 8
6) - Raízes do Brasil - Votos: 8
7) - Memórias Póstumas de Brás Cubas - Votos: 7
8) - Vidas Secas - Votos: 6
9) - Um Estadista do Império - Votos: 6
10) -Formação da Literatura Brasileira - Votos: 5
11) - O Tempo e o Vento - Votos: 5
12) - Fogo Morto - Votos: 5
13) - Formação Econômica do Brasil - Votos: 5
14) - Gregório de Matos - Votos: 5
15) - Os Donos do Poder - Votos: 4
16) - Triste Fim de Policarpo Quaresma - Votos: 4
17) - Formação do Brasil Contemporâneo - Votos: 4
18) - Os Donos do Poder - Votos: 4
19) - Iracema - Votos: 4
20) - Gabriela, Cravo e Canela - Votos: 4
21) - Carlos Drummond de Andrade - Votos: 4
22) - Manuel Bandeira - Votos: 4


ADULTÉRIO E CANUDOS – O cânone brasileiro consagra um autor, Machado de Assis, lembrado por todos os ouvidos. Ele é o único a figurar na lista com duas obras: Dom Casmurro (1899) e Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881). Seus livros só não chegaram em primeiro lugar porque os votantes discordam sobre qual seria o melhor. Além dos que entraram no cânone, Machado também recebeu votos por Quincas Borba e O Alienista. O reconhecimento de Machado não chega a ser uma surpresa. Basta ler ou reler uma de suas obras principais. O que dizer de Dom Casmurro? Que é a maior história de um adultério jamais escrita em qualquer época? Que ali se reúnem os personagens mais bem definidos psicologicamente de toda a literatura nacional? Memórias Póstumas também desafia a coleção de adjetivos do idioma. O que pode haver de mais desconcertante do que um morto contando sua própria vida, começando pela descrição de seu próprio enterro? Ou do que um capítulo onde uma conversa entre Brás Cubas e sua paixão, Vigília, se resume a pontinhos, exclamações e interrogações?

Como obra isolada, o campeão de indicações foi Os Sertões, de Euclides da Cunha, com quinze votos. Repórter, Euclides da Cunha seguiu para Canudos em 1897, impressionado com as seguidas derrotas das forças do governo frente aos jagunços liderados pelo místico Antonio Conselheiro. Organizado bem de acordo com a filosofia positivista, em voga na época, Os Sertões é um livro rico em informações científicas, imagens bem construídas e narrativa eficaz. Até hoje os leitores de Euclides não esquecem alguns trechos, como a constatação definitiva: "Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a História, resistiu até ao esgotamento completo".

Entre os 22 do cânone, há onze romances, três livros de poesia e oito obras de não-ficção. Cento e cinqüenta e dois livros foram lembrados, dos quais 112 tiveram apenas uma indicação. O cânone não é jovem. Desconsiderando as Poesias Completas de Carlos Drummond de Andrade, que incluem obras de 1930 até 1987. O livro mais novo da lista é Formação Econômica do Brasil, de Celso Furtado, o único entre os votantes a figurar no cânone. Foi lançado em 1960, ou seja, há 34 anos. O autor mais antigo é Gregório de Matos, que viveu no século XVII. O cânone também tem apenas quatro autores vivos. Além de Furtado, de 74 anos estão nele o jurista Raymundo Faoro, 69 anos, autor de Os Donos do Poder, Antonio Candido, que escreveu Formação da Literatura Brasileira e tem 76 anos; e Jorge Amado, de 82, que figura na lista com Gabriela. A idade média dos intelectuais consultados beira os 66 anos. O mais jovem é João Ubaldo Ribeiro, de 53 anos. Os mais velhos Josué: Montello e Roberto Campos, já completaram 77.

Com treze indicações, mais do que qualquer obra de Machado tomada de forma isolada, as 538 páginas de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, apresentam aquela que talvez seja a criação mais original que a literatura brasileira já produziu. Lançado em 1956. O livro conta, num texto caudaloso, que despreza o recurso da narração em capítulos, a fabulosa história de Riobaldo, um ex-jagunço do norte de Minas Gerais. Fazendeiro pacato, vivendo às margens do São Francisco, Riobaldo narra histórias de perseguição, violência e vingança, mas, sobretudo a desventura de seu amor por Diadorim - que ele conhecera como Reinaldo e só com sua morte fica sabendo que se tratava de uma mulher.

ALEGORIA E VERSOS – As maiores qualidades de Macunaíma (1928), de Mário de Andrade, e Triste Fim de Policarpo Quaresma (1915), de Lima Barreto, são outras. Ambos se batem na questão da nacionalidade. Macunaíma, o "herói sem nenhum caráter", retrata, nas palavras do próprio Mário, "uma alegoria dos destinos do Brasil". Já o major Quaresma, senhor das riquezas do país, é tido como louco ao propor que o tupi seja adotado como idioma oficial em lugar do português. A ironia é evidente. Estruturado a partir de contos independentes e harmônicos, que encadeados formam um dos melhores romances já escritos no idioma, Vidas Secas é uma lição de como se deve contar urna história. É econômico, contundente e, como poucos, impecável na combinação entre o que narra e a forma de narrar à secura da vida de Fabiano e os seus se acopla a linguagem depurada de Graciliano.

Fogo Morto é uma síntese da obra de Lins do Rego, o mais acabado testemunho literário sobre a agonia do Brasil dos engenhos do Nordeste. Gabriela romance de costumes ambientado em Ilhéus e narrado numa linguagem que prima pela agilidade, desenvolve-se em dois planos: o das disputas políticas e o do amor, em especial do sírio Nacib pela fogosa personagem-título. Já O Tempo e o Vento é uma ambiciosa trilogia do escritor gaúcho Érico Veríssimo, iniciada em 1949 e concluída em 1962. Através da saga da família Terra-Cambará, Veríssimo conta a História do Rio Grande do Sul. Como ciclo romanesco é insuperável no Brasil e produziu pelo menos um personagem inesquecível, o capitão Rodrigo.

Iracema (1865) de José de Alencar, é, no fundo, um poema em prosa, como já observara Machado de Assis. O livro, composto de capítulos curtos e linguagem bem trabalhada. Vocabulário rico e imagens românticas, conta de forma lírica a história da personagem-título e de seu amor pelo branco Martim. O Ateneu (1888), de Raul Pompéia, é uma espécie de "romance de formação" de um adolescente. O jovem é Sérgio, que vive num internato e tem traços autobiográficos. A poesia aparece no cânone em três volumes de obras completas: de Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e Gregório de Matos. No caso dos dois primeiros, que publicaram livros em vida, a indicação das Poesias Completas foi justificada pelos votantes com o argumento de que temiam privilegiar apenas uma fase dos autores em detrimento de outra.

Celso Furtado – Economista e ex-ministro do Planejamento: Dom Casmurro de Machado de Assis; O Guarani de José de Alencar; Vidas Secas de Graciliano Ramos; Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa; Gabriela, Cravo e Canela de Jorge Amado; Meninos de Engenho de José Lins do Rego; Macunaíma de Mário de Andrade; O Ateneu de Raul Pompéia; Quarup de Antonio Callado; O Lustre de Clarice Lispector; Casa-Grande & Senzala de Gilberto Freyre; Os Sertões de Euclides da Cunha; Minha Formação de Joaquim Nabuco; Raízes do Brasil de Sérgio Buarque de Holanda; Formação do Brasil Contemporâneo de Caio Prado Júnior; Formação da Literatura Brasileira de Antonio Candido; Aves do Brasil de Augusto Ruschi; Oscar Niemeyer de Oscar Niemeyer; Exposição aos Credores de Visconde de Mauá; Fluxo e Refluxo de Pierre Vergé.

Wilson Martins – Crítico literário: A Cultura Brasileira de Fernando de Azevedo; Quincas Borba de Machado de Assis; Formação da Literatura Brasileira de Antonio Candido; O Guarani de José de Alencar; Os Sertões de Euclides da Cunha; Casa-Grande & Senzala de Gilberto Freyre; Dom João VI no Brasil de Manuel de Oliveira Lima; Primeiros Cantos de Gonçalves Dias; Contribuição à História das Idéias no Brasil de Cruz Costa; A Literatura no Brasil de Afrânio Coutinho; Rio Branco de Álvaro Lins; História do Positivismo no Brasil de Ivan Lins; História da Inteligência Brasileira de Wilson Martins; Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro de Andrade Murici; Um Estadista do Império de Joaquim Nabuco; O Livro, o Jornal e Tipografia no Brasil de Carlos Rizzini; História da Literatura Brasileira de Sílvio Romero; A Rosa do Povo de Carlos Drummond de Andrade; Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa; Populações Meridionais do Brasil de Oliveira Vianna.

Alfredo Bosi – Professor de literatura, ensaísta e crítico literário: Poesias Completas de Gregório de Matos; O Uruguai de Basílio da Gama; Poesias Completas de Gonçalves Dias; Iracema de José de Alencar; Dom Casmurro de Machado de Assis; O Abolicionismo de Joaquim Nabuco; O Ateneu de Raul Pompéia; Os Sertões de Euclides da Cunha; Triste Fim de Policarpo Quaresma de Lima Barreto; Macunaíma de Mário de Andrade; Vidas Secas de Graciliano Ramos; Fogo Morto de José Lins do Rego; Formação do Brasil Contemporâneo de Caio Prado Júnior; Formação da Literatura Brasileira de Antonio Candido; Casa-Grande & Senzala de Gilberto Freyre; Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa; Poesias Completas de Carlos Drummond de Andrade; Poesias Completas de Manuel Bandeira; Laços de Família de Clarice Lispector; O Escravismo Colonial de Jacob Gorender.

"HOMEM CORDIAL" – Entre os ensaios, o cânone publicado por VEJA apresenta obras-chave, três delas publicadas num espaço inferior a dez anos que, verifica-se agora, concentrou um período riquíssimo da cultura brasileira: Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, de 1933; Raízes do Brasil. de Sérgio Buarque de Holanda, de 1936; e Formação do Brasil Contemporâneo, de Caio Prado Júnior, de 1942. Mais bem-sucedido arquiteto daquela visão do Brasil como um país diferente dos demais, onde as diferenças de cor e classe social sempre se harmonizaram com benefícios para ambas as partes, Gilberto Freyre fez uma obra que é, acima de tudo, muito agradável de ler.

Partindo da ideia de que "somos ainda hoje uns desterrados, em nossa terra", uma vez que as instituições brasileiras nasceram de sementes trazidas "de países distantes de nossas formas de convívio", Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil, explora o conceito de "homem cordial", a síntese do perfil do caráter do brasileiro. "A lhaneza no trato, a hospitalidade, a generosidade representa, com efeito, um traço definido do caráter brasileiro na medida ao menos em que permanece ativa e fecunda a influência ancestral dos padrões de convívio humano, informados no meio rural e patriarcal", escreve Buarque de Holanda.

DIDATISMO – Ler Formação do Brasil Contemporâneo, de Caio Prado Júnior, é entrar em contato com a obra mais importante de um dos raros intelectuais marxistas; de porte do país. No livro, Prado Júnior expõe uma visão pioneira, a época, do peso da colonização na constituição da nação e mostra, com brilho que permanece atual em vários momentos, que "os problemas brasileiros de hoje, os fundamentais, pode-se dizer que já estavam definidos e postos em equação há 150 anos".

Escrito com o propósito de ser "tão-somente um esboço do processo histórico de formação da economia brasileira", o livro Formação Econômica do Brasil, de Celso Furtado, tem uma qualidade rara em obras dessa área: a clareza. Em menos de 250 páginas, Furtado traz à tona mais de quatro séculos de história econômica do país. É de longe, a introdução mais didática e influente que se escreveu sobre o tema. Num espírito semelhante, Raymundo Faoro publicou em 1958 os dois volumes de Os Donos do Poder. Neles, repassa a formação sociopolítica do país, das origens do Estado Português até Getúlio Vargas. A prosa é difícil, tortuosa, mas o resultado final é um insuperável retrato do comportamento daqueles que, ao longo dos séculos se tomaram e reproduziram como, justamente, "os donos do poder".

Em Formação da Literatura Brasileira, de Antonio Candido, há um esforço notável em harmonizar duas visões dispares que em geral caracterizam ensaios desse tipo: a que se apóia na evolução histórica e aquela que privilegia os experimentos formais. Encerra o cânone uma biografia Um Estadista do Império, livro que Joaquim Nabuco escreveu sobre seu pai, senador José Thomaz Nabuco de Araujo. De todas as obras do cânone, é a única que saiu de catálogo e não se encontra disponível nas livrarias.

João Ubado Ribeiro – Escritor, membro da Academia Brasileira de Letras: Sermões de Antônio Vieira; Formação do Brasil Contemporâneo de Caio Prado; Espumas Flutuantes de Castro Alves; Romanceiro da Inconfidência de Cecília Meireles; O Tempo e o Vento de Érico Veríssimo; Os Sertões de Euclides da Cunha; Casa-Grande & Senzala de Gilberto Freyre; Vidas Secas de Graciliano Ramos; Poesias Completas de Gregório de Matos; Grande Sertão Veredas de Guimarães Rosa; Terceira Feira de João Cabral de Melo Neto; Ensaios de João Ribeiro; Mar Morto de Jorge Amado; Invenção de Orfeu de Jorge de Lima; Iracema de José de Alencar; Triste Fim de Policarpo Quaresma de Lima Barreto; Dom Casmurro de Machado de Assis. Macunaíma de Mário de Andrade. Obra Infantil de Monteiro Lobato. Raízes do Brasil de Sérgio Buarque de Holanda.

Roberto Campos – Economista e ex-ministro do Planejamento (1964-1967): Casa-Grande & Senzala de Gilberto Freyre; Os Sertões de Euclides da Cunha; Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis; Grande Sertão Veredas de Guimarães Rosa; Ensaios Analíticos de Mario Henrique Simonsen; Formação Econômica do Brasil de Celso Furtado; Liberalismo Antigo e Moderno de José Guilherme Merquior; Um Estadista do Império de Joaquim Nabuco; Instituições Políticas Brasileiras de Oliveira Vianna; História da Literatura Brasileira de Sílvio Romero; História da Inteligência Brasileira de Wilson Martins; Raízes do Brasil de Sérgio Buarque de Holanda; Os Donos do Poder de Raymundo Faoro; Filosofia do Direito de Miguel Reale; Princípios de Economia Monetária de Eugênio Gudin; Comentários ao Código Civil de Pontes de Miranda; Poesias Completas de Gregório de Matos; Cartas da Inglaterra de Rui Barbosa; O Índio Brasileiro e a Revolução Francesa de Afonso Arinos; Poesias Completas de Carlos Drummond de Andrade.

José Paulo Paes – Poeta e tradutor: Poesias Completas de Gregório de Matos; Marília de Dirceu de Tomás Antônio Gonzaga; Memórias de um Sargento de Milícias de Manuel Antônio de Almeida; Os Escravos de Castro Alves; O Cortiço de Áluísio Azevedo; Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis; Dom Casmurro de Machado de Assis; Os Sertões de Euclides da Cunha; Eu de Augusto dos Anjos; Triste Fim de Policarpo Quaresma de Lima Barreto; Macunaíma de Mário de Andrade; A Saga do Sítio do Pica-pau Amarelo de Monteiro Lobato; Fogo Morto de José Lins do Rego; Vidas Secas de Graciliano Ramos; Poesias Completas de Manuel Bandeira; Poesias Completas de Carlos Drummond de Andrade; Casa-Grande & Senzala de Gilberto Freyre; Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa; O Tempo e o Vento de Érico Veríssimo; Gabriela, Cravo e Canela de Jorge Amado.

RURAL X URBANO – Um primeiro exame da lista mostra que ali está representado apenas um pedaço do Brasil. Isso porque o Brasil do cânone é muito mais rural do que urbano. Lá está o grande sertão, os sertões, as vidas secas. Mas não há grandes espaços para o Brasil urbano. Uma explicação é histórica. O Brasil de hoje é um país urbano, mas foi no campo que se forjaram os veios mais ricos e permanentes de sua cultura. "O Brasil passou quatro séculos voltado para o campo. Nosso processo de urbanização e industrialização teve início há apenas cinqüenta anos. É natural que a reflexão sobre esse passado domine as preocupações dos intelectuais e tivesse gerado, por exemplo, o mundo de um Guimarães Rosa", explica Alfredo Bosi, professor da Universidade de São Paulo. A explicação faz nexo, mas também envolve uma questão de opinião. Clarice Lispector recebeu apenas três votos, insuficientes para colocá-la na lista. Será que sua obra não é superior à de José Lins do Rego?

O Brasil que a lista revela tem um aspecto semelhante ao país de todos os dias. que trouxe à teoria, mais uma vez, o debate em tomo da questão de sua identidade como nação. Dos 22 livros destacados, essa preocupação aparece em nove obras: Os Sertões, Casa Grande & Senzala. Raízes do Brasil, Formação do Brasil Contemporâneo, Formação Econômica do Brasil, Formação da Literatura Brasileira, Os Donos do Poder, Macunaíma e Triste Fim de Policarpo Quaresma. "Se uma pesquisa como essa fosse feita num país de identidade cultural solidificada, como a França, por exemplo, ninguém incluiria no cânone nenhum livro do tipo Formação da Literatura Francesa, a não ser que ele tivesse sido escrito por Charles Baudelaire - e aí entraria pela força do autor, e nunca por seu caráter canônico", raciocina o professor da PUC, de São Paulo, e editor Arthur Nestrovskí. "No fundo, se eu tivesse de definir o caráter do homem brasileiro, eu diria que se trata não do 'homem cordial', mas do 'homem inseguro' uma insegurança que nasce justamente dessa incerteza quanto ao que ele é-, diz o poeta Ferreira Gullar.


Lembrando que apenas um dos 22 livros não se encontra em livrarias, irias apenas em sebos, é lícito afirmar que o cânone está composto de obras que têm sido lida pelos brasileiros com tempo e gosto para isso. Como catorze dos 22 livros do cânone são obras de ficção ou poesia, é certo que boa parte de sua popularidade esteja relacionada, à escola ou aos exames vestibulares. É verdade que nenhuma das treze obras de literatura brasileira que integram a lista do vestibular da Fuvest, o principal do país, neste ano, aparece no cânone. Ocorre, porém, que a Fuvest estabelecem agora uma lista de 131 livros, de literatura portuguesa e brasileira, dos quais se escolherá a cada ano de oito a doze obras, que cairão no exame vestibular. De um ano para outro, de quatro a seis livros serão trocados.

A idéia da comissão que escolhe as obras é estimular a leitura de um maior número de livros. Naturalmente, da lista primária de 131 obras fazem parte os catorze livros de ficção ou poesia que aparecem no cânone. Já a lista de livros que cairão no vestibular deste ano da PUC de São Paulo contempla sete obras, de um total de onze, que se encontram no cânone. As listas de vestibular refletem, em certa medida. o que o aluno lê no 2º grau. O currículo do colegial da rede pública carioca privilegia várias das obras do cânone. Neste ano, os alunos do Colégio Estadual André Maurois, por exemplo, do Leblon, Zona Sul do Rio, leram Vidas Secas e trechos de Os Sertões, além de entrar em contato com a obra de Guimarães Rosa e Lima Barreto através de contos. Já os alunos do 2º grau do Centro Educacional Anísio Teixeira Ceat, uma escola particular do centro do Rio, leram três obras do cânone: Memórias Póstumas de Brás Cubas, Macunaíma e Triste Fim de Policarpo Quaresma.

Ferreira Gullar – Poeta: Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis; Iracema de José de Alencar; Os Sertões de Euclides da Cunha; Últimos Cantos de Gonçalves Dias; Eu de Augusto dos Anjos; Macunaíma de Mário de Andrade; Vidas Secas de Graciliano Ramos; Fogo Morto de José Lins do Rego; Gabriela, Cravo e Canela de Jorge Amado; Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa; Laços de Família de Clarice Lispector; Libertinagem de Manuel Bandeira; A Rosa do Povo de Carlos Drummond de Andrade; Poesia Liberdade de Murilo Mendes; Duas Águas de João Cabral de Melo Neto; Vestido de Noiva de Nelson Rodrigues; O Pagador de Promessas de Dias Gomes; Formação Histórica do Brasil de Nelson Werneck Sodré; Raízes do Brasil de Sérgio Buarque de Holanda; O Cobrador Rubem Fonseca.

Francisco Iglésias – Historiador: O Brasil na História de Manuel Bonfim; História Concisa da Literatura Brasileira de Alfredo Bosi; Formação da Literatura Brasileira de Antonio Candido; Os Sertões de Euclides da Cunha; Os Donos do Poder de Raymundo Faoro; A Revolução Burguesa no Brasil de Florestan Fernandes; Casa-Grande & Senzala de Gilberto Freyre; Formação Econômica do Brasil de Celso Furtado; Raízes do Brasil de Sérgio Buarque de Holanda; Coronelismo, Enxada e Voto de Vitor Nunes Leal; Macunaíma de Mário de Andrade; Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa. Um Estadista do Império de Joaquim Nabuco; Consciência e Realidade Nacional de Álvaro Vieira Pinto; Formação do Brasil Contemporâneo de Caio Prado Jr.; Aspirações Nacionais de José Honório Rodrigues; Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis; A Política Geral do Brasil de José Maria dos Santos; Introdução à Revolução Brasileira de Nelson Werneck Sodré; O Tempo e o Vento de Érico Verísssimo.

Roberto DaMatta – Antropólogo: O Alienista de Machado de Assis; Os bruzundangas de Lima Barreto; Gabriela, Cravo e Canela de Jorge Amado. Sagarana de Guimarães Rosa; Gato Preto em Campo de Neve de Érico Veríssimo; Formação Econômica do Brasil de Celso Furtado; Os Sertões de Euclides da Cunha; Casa-Grande & Senzala de Gilberto Freyre; Raízes do Brasil de Sérgio Buarque de Holanda; Bandeirantes e Pioneiros de Viana Moog; Dialética da Malandragem de Antonio Candido; O Messianismo no Brasil e no Mundo de Maria Isaura de Queiroz; O Negro no Mundo dos Brancos de Florestan Fernandes; Tanto Preto Quanto Branco de Oracy Nogueira; Da Monarquia a República de Emília Viotti da Costa; Capitalismo Autoritário e Campesinato de Otávio Velho; Quarto de Despejo de Carolina de Jesus; Brasil aos Trancos e Barrancos de Darcy Ribeiro; A Vida como Ela É de Nelson Rodrigues; Macunaíma de Mário de Andrade.

AVES – A compreensão do que seria importante para a cultura do país variou muito de um para outro intelectual. Com isso, as listas individuais estão repletas de obras desconhecidas da imensa maioria do público e de outras que chamam a atenção pelo inusitado da escolha. Na seleção de Celso Furtado, por exemplo, aparece o livro Aves do Brasil, de Augusto Ruschi - o naturalista que, ironicamente, morreu envenenado por um sapo em 1986. Na lógica de Furtado, a inclusão de Aves do Brasil faz todo o sentido. "Não é possível que alguém que queira conhecer o país através de livros não leia nada sobre fauna ou flora brasileira, que são tão importantes em nossa cultura", ele explica. O mesmo critério levou Furtado a incluir em sua lista a autobiografia de Oscar Niemeyer. Ele foi o único a votar nessa obra. Roberto Campos votou em Comentários ao Código Penal, de Pontes de Miranda, um clássico dos estudos de Direito, "que marcou diversas gerações".

Quem se dispuser a comprar os livros do cânone disponíveis em livrarias irá desembolsar 530 reais. Obedecendo a um ritmo razoável, de 25 páginas por dia, levará cerca de um ano e meio para desincumbir-se da tarefa de ler as 22 obras da lista. Há várias formas para se enfrentar a empreitada. A exemplo do que recomendam os professores de cursinho, uma das maneiras possíveis é começar pelas leituras ficcionais mais leves, como Gabriela Cravo e Canela. Nesse método, ensaios densos e caudalosos, como Casa-Grande & Senzala, seriam deixados para o final da leitura.

Outra maneira de se empreender a leitura é seguir justamente o contrário, ou seja, começar pelos ensaios para depois se dedicar à ficção. "O leitor deve começar por Formação do Brasil Contemporâneo, que fornece um primeiro panorama da cultura brasileira num estilo claro e nada personalista", recomenda Antonio Medina Rodrigues, professor de Literatura da Universidade de São Paulo. Por último, Mediria recomenda a leitura de Drummond, que considera "a síntese mais fina e profunda da cultura brasileira".

Josué Montello – Escritor, presidente da Academia Brasileira: Poesias Completas de Gregório de Matos; Marília de Dirceu de Tomás Antônio Gonzaga; Cantos de Gonçalves Dias; Espumas Flutuantes de Castro Alves; Os Sertões de Euclides da Cunha; Memórias de um Sargento de Milícias de Manuel Antônio de Almeida; Broquéis de Cruz e Sousa; Um Estadista do Império de Joaquim Nabuco; Jornal de Timon de João Francisco Lisboa; Dom Casmurro de Machado de Assis; Casa-Grande & Senzala de Gilberto Freyre; Lira dos Cinquet'Anos de Manuel Bandeira; Fogo Morto de José Lins do Rego; O Tempo e o Vento de Érico Veríssimo; Segredos da Infância de Augusto Meyer; Os Velhos Marinheiros de Jorge Amado; Macunaíma de Mário de Andrade; Morte e Vida Severina de João Cabral de Melo Neto; Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa; Os Donos do Poder de Raymundo Faoro.

Luís Costa Lima – Professor de literatura e ensaísta: Iracema de José de Alencar; Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis; Quincas Borba de Machado de Assis; Um Estadista do Império de Joaquim Nabuco; Os Sertões de Euclides da Cunha; Casa-Grande & Senzala de Gilberto Freyre; Instituições Políticas Brasileiras de Oliveira Vianna; A América Latina de Manoel Bonfim; Macunaíma de Mário de Andrade; Memórias Sentimentais de João Miramar de Oswald de Andrade; Serafim Ponte Grande de Oswald de Andrade; Libertinagem de Manuel Bandeira; Sentimento do Mundo de Carlos Drummond de Andrade; Poesia Liberdade de Murilo Mendes; A Educação pela Pedra de João Cabral de Melo Neto; Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa. Angústia de Graciliano Ramos; Menina Morta de Cornélio Pena; Visão do Paraíso de Sérgio Buarque de Holanda; Triste Fim de Policarpo Quaresma de Lima Barreto.


A propósito, você já acessou a fan page do meu livro infantil Juju Descobrindo Outro Mundo? Não imagina o que está perdendo. Acesse: www.fecebook.com/jujudescobrindooutromundo.



E o site da Juju Descobrindo Outro Mundo, já o acessou? Se eu fosse você iria conferir imediatamente. Acesse: www.admiraveljuju.com.br 

Imagens: Internet, Fotosearch