quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Valentes e corajosos homens do mar - 2ª Parte.


Na parte anterior você viu o perfil de Charles Grahann, a forma e os motivos que o fezeram se transformar no temível pirata
capitão Moribundo.
Agora verá sua trajetória de bucaneiro determinado em arquitetar o seu plano de se aproximar dos seus devedores.

Após o saque ao Galeão Constelación, quem via Tigre Veloz singrando o mar calmamente amparado pela bandeira portuguesa, imaginaria de imediato tratar-se de ricas personalidades em viagem rumo a algum lugar majestoso, quem sabe até à corte brasileira. Todos vestidos a caráter para não deixar qualquer dúvida e também se protegerem de navios de combate a serviço da coroa inglesa ou francesa, países contrários a pirataria no Atlântico em defesa de seus interesses. Para esses momentos de garbo, quem aparecia visivelmente à frente no comando, era Charles Grahann elegantemente vestido com sua túnica branca que destacavam lindos botões dourados e o seu belo boné de capitão com lustrosos detalhes também em dourado, navegando logo abaixo a linha do equador no hemisfério sul. Era tardinha quando o vigilante atento do alto do seu obervatório avistou ao longe outro navio de aparência suspeita dirigindo-se em sua direção. Imediatamente, Charles Grahann deu suas ordens de manterem-se calmos como inofensivos passageiros. Também orientou os canhoneiros para se posicionarem e no momento oportuno tornarem visíveis as escotilhas e abrirem fogo sem chances de revide.

Quando o navio inimigo se posicionou a estiboro da nau comandada pelo astuto bucaneiro com larga experiência em combates, este se certificando serem também piratas confiantes de presa fácil surpreendeu-os com uma saraivada de tiros por 14 canhões infalíveis que partiram certeiros do confiante Tigre Veloz em direção à embarcação aventureira. Antes de ir a pique, os desavisados sobreviventes inimigos ainda tiveram o tempo suficiente para se atirarem ao mar, deixando a embarcação disponível para que os homens do capitão Moribundo recolhessem armas e munições que serviriam para abastecer e ampliar seu arsenal. A intenção não era deixar sobreviventes, mas valia o direito do salve-se quem puder, porém, nada de resgatar marinheiros ou fazê-los prisioneiros. Sempre que ocorria um embate com resultados favoráveis e sem baixas, capitão Moribundo nas vestes do elegante Charles Grahann, como aprendiz de astrônomo cercado de superstições acreditava que no momento das abordagens os astros estavam alinhados a seu favor. Também como curioso vigilante e interessado em astronomia, gostava de se orientar principalmente nas suas navegações noturnas pelas estrelas, quando ficava horas contemplando o espaço com um pequeno telescópio a bordo.

Novamente Tigre Veloz seguiu seu rumo. Com o mar traquilo, saboreando o ar do verão e a sensação de liberdade, confiantes de nenhum transtorno pela frente aproximaram-se da costa caribenha, serenando nas águas rasas, mornas e azuladas do Mar das Antilhas. Abaixaram as velas mantendo-se suavemente a deriva, todavia, atentos ao posicionamento da bússola e cartas náuticas sob comando. A intenção era aportar na Ilha de New Providence, de onde ouvira contar várias histórias de piratas e suas notáveis aventuras de saques milionários em riquezas provindas do continente já em curso de dominação definitiva pelos espanhóis. Antes de ancorar especificou detalhadamente como seu pessoal deveria se comportar. Enquanto ele e uns poucos permaneceriam a bordo.

- Quando chegarmos à ilha procurem andar em grupos menores. - Disse àqueles que iriam se aventurar em terra firme.

- Comportem-se como pessoas ricas. Levem bastante moedas de ouro.

- Conversem em voz rozoavelmente audível. Traçam planos de aquisição de terras quando chegarem ao Brasil. E que suas passagens pela ilha deveu-se a erro nos cálculos de navegação, mas logo pretenderiam retomar a viagem com destino certo. Dessa forma atrairão a atenção dos faras-da-lei e assim chegaremos aos seus chefes, ou comandante. - Reforçou seus argumentos o capitão Moribundo.

Esclarecidos os detalhes, deixou por conta de cada um. Não haveria de dar errado. Eram homens experientes e sabiam comportarem-se como tal.

Não demorou muito o plano começou a surtir efeito, quando um dos grupos conseguiu fazer prisioneiros quatro elementos mal intencionados que haviam tentado roubar-lhes. Como não estavam lidando com amadores, tornaram-se facilmente dominados, sendo logo levados à presença do capitão que já os aguardavam em lugar seguro, fora do navio. Forçados a falar contaram tudo que queriam saber e foram logo liberados confiantes de que imediatamente seu comandante tomaria conhecimento e assim seria fácil ser capturado. O plano não era matá-lo, mas sim, se informar das forças repressoras e também quem dominava aquelas águas e ilhas para eles desconhecidas.

Através desta atitude foi informado de que Henry Morgan antigo corsário inglês como ele, havia enveredado para o mundo dos infratores, com um diferencial: tornara-se importante na região após seu ataque à cidade do Panamá em 1670, e posteriormente ter se transformado em vice-governador de Port Royal na Jamaica, e por fim, rico dono de plantações de canas-de-açúcar.

Não tomando conhecimento da importância do seu rival naquelas águas, soubera impor suas condições de audacioso e temido homem do mar. Após cinco anos de inesquecíveis aventuras e se tornado rico juntamente com seus marinheiros e elegantes marginais, retornou a Europa. Antes da partida fez uma cuidadosa reforma no Tigre Veloz ampliando suas condições de acomodações e outros requintes internos, com a finalidade de lhe valer tanto como navio de combate e pirataria, como de uma luxuosa embarcação de cruzeiro. Tornou-se, digamos, num perigoso camaleão de luxo e de ataques precisos. Fez questão de instalar no seu camarote, importantes e modernos instrumentos de comando marítimo, com o que existia de melhor para sua época e só possíveis para quem tivesse muito dinheiro, detalhe que para ele não fazia mais a diferença. Sobretudo, acreditava que o momento era ideal de retornar à sua terra de origem e fazer as reparações contra ele e seus seguidores.

Além de ter se tornado rico, sua imagem apareceria renovada. Os resquícios que ainda poderiam existir dos tempos em que era comandante pirata na área, haviam ficado para trás e o que importava daquele instante pra frente, seria concretizar sua vingança provando sua inocência. Esclarecer as acusações de que fora vítima pela armação engendrada com intenções escusas de torná-lo bode expiatório pelas pilhagens praticadas por ricas autoridades inglesas, dentre elas George Lemmon, importante figura na Administração Comercial do Rei, que havia se beneficiado do seu infortúnio.

Nesse período em que esteve longe dos acontecimentos em torno do reino inglês e também dos ataques e saques por piratas na costa européia e africana, imaginou-se esquecido pelas autoridades que atuavam contra a pirataria, ou até mesmo ter sido considerado como morto. Como gratificação, foi o tempo suficiente para construir o seu próprio império econômico, contabilizando muitas riquezas em ouro e pedras preciosas, oriundas das terras em fase de dominação e colonização pelos espanhóis. Espantalho havia se transformado num mito do alto-mar, graças a sabedoria do seu comandante e sua aparência convenhamos, nada atraente. Dentre as batalhas travadas por eles, duas mereceram destaque. A primeira quando Tigre Veloz interceptou um Galeão Espanhol desconhecendo a escolta que o acompanhava algumas milhas atrás. Quando tudo parecia resolvido e os piratas do capitão Moribundo comemoravam, foram surpeendidos por tiros de canhões que por pouco acertavam em cheio a embarcação espanhola que acabara de saquear abarrotada de homens invasores festivos. Com a surpresa, utilizando-se de calma e perícia, o comandante pirata ajudado por outros quatro companheiros que continuavam a bordo do Tigre Veloz, fez da embarcação inimiga vencida de escudo. Com a habilidade de uma raposa do mar, surgiu inesperadamente a bombordo sorrateiro e infalível. Só precisou disparar quatro tirambaços certeiros - também o que dispunham no momento - no navio escolta para desativar todas as defesas do oponente, deixando a conclusão da missão por conta dos seus bem treinados e inflexíveis soldados piratas. O confronto deixou o cenário da imensidão marítima em um amontoado de destroços fumegantes.

Outra ocasião de destaque foi no momento em que estavam ancorados na Ilha dos Mascates, próximo da gruta Fossor, quando recebeu a visita indesejada do também pirata Henry Avery outro ambicioso rival e outro Henry no seu caminho. Este imaginando a tripulação inimiga entretida na comemoração pelo seu rico saque, onde essa mesma fortuna era esperada com alguma antecedência por ele sua corja, e por se sentir lesado pela adversidade da ocasião resolveu agir de surpresa e por conta própria. Como estavam em terra, distantes dos seus canhões vitoriosos, o implacável capitão de dupla personalidade Moribundo, teve que lutar com todas suas forças e coragem. Podia-se ouvir o tilintar das espadas e assistir a agilidade dos saltos felinos praticados pelos dois oponentes, esquivando-se dos golpes brutais das lâminas afiadas. Havia sangue no canto da boca e dentes de Henry Avery provocado pelo soco certeiro que atingiu o seu maxilar dado pelo jovem adversário durante um instante de vacilo. A violência da pancada com o punho da mão esquerda agarrada ao cabo da espada transformou-se num duplo impacto. Depois era conhoto o que tornava mais difícil antecipar seus gestos. Enquanto isto os demais lutavam impondo todas suas destrezas com suas armas letais. Ocorreu-se então uma sangrenta colisão de forças experientes, quando henry ficou mortalmente ferido pela espada cortante de Moribundo, revelando mais uma vez suas habilidades com as armas, principalmente com a espada e adagas.

Com o objetivo de colher o maior número de informações sobre o que estava acontecendo na corte inglesa sem deixar suspeitas, Charles Grahann resolveu primeiro se instalar provisoriamente na França. Neste país ele sabia que uma vez infiltrado no alto escalão social, saberia como adquirir as informações necessárias para dar curso aos seus propósitos. Sob a identidade de um escritor irlandês, frequentando altas rodas da cultura e da sociedade imperial, na companhia de ilustres personalidades, foi colhendo dados importantes que lhe serviriam para arquitetar o seu plano. Nesta época ficou conhecendo Jacques Villefronsiér um rico empreendedor no setor de perfumaria. Não poderia ter uma parceria melhor e mais oportuna. Através de Jacques, Charles Grahann sempre bem acompanhado das mais importantes figuras da corte francesa, especializou-se em fragrâncias e dos processos de industrialização. Sua ideia inicial seria se especializar em vinicultura, assim penetraria com mais facilidade na nobreza inglesa grande apreciadora de vinhos. Contudo, a sorte acompanha aquele que persiste indo à busca de evidências e de quem não tem medo de encará-las. Sendo assim, o setor de perfumaria estaria de bom tamanho, mesmo porque as damas inglesas pelas suas vaidades davam grande valor à perfumaria francesa.

Com os conhecimentos adquiridos e consolidando a parceria através do emprego de significativa quantia em recursos financeiros, idealizou abrir uma filial francesa no seu país. O sucesso não demoraria. Sob uma nova identidade, agora como Claude Fontaine, propositadamente criado para não revelar sua verdadeira cidadania, partiu com destino à Londres com o seu plano de vingança pré-estabelecido. Lógico que faltava muita coisa para adentrar no cerne da sociedade inglesa. Mesmo sob a pele de um importante investidor no setor de essências aromáticas algo mais seria indispensável. Mas não desistiria, os demais benefícios viriam naturalmente, perspicácia não lhe faltavam.

Brevemente, ainda nesta semana estarei publicando a última parte deste conto, que não deixa de ser uma aventura para cada leitor. Obrigado pela atenção.

Imagens: Internet, Fotosearch

sábado, 17 de outubro de 2009

Valentes e corajosos homens do mar.


O dia amanhecia depois de uma longa noite a espreita de que a qualquer momento uma tormenta quebrasse o mar com ondas de mais de três metros, o navio Constelación de bandeira espanhola, carregado de especiarias vindas das Índias, navegava incauto sobre nuvens escuras e carregadas. No céu ensurdecedores trovões ecoantes e horrendos raios cortantes. O horizonte ainda escuro pelo nevoeiro e a chuva que teimava não cair, a embarcação cumpria o seu destino, próximo da costa africana a oeste das Ilhas Canárias. Sua tripulação já havia passado por situação quase semelhante há alguns anos atrás, quando o Galeão carregado, enfrentou ondas que batiam no seu casco com tanta violência, parecia que ia virá-lo. A fúria das águas chegava a lavar o convés fazendo da embarcação um brinquedo de criança. Enquanto isto seus ocupantes agarravam-se aos seus credos com fé. Mesmo com todo esse clima perverso causado pela natureza arredia e descontente, se sentiam melhor do que ter que enfrentar a perigosa nau capitaneada pelo capitão Moribundo, nome atribuído a Charles Grahann, temido pirata que tinha o Atlântico como o seu principal reduto de ação e pilhagens. Tinham consciência que se enfrentassem os piratas a situação lhes seria desfavoráveis. Seria vencer ou morrer. Haveria muito derramamento de sangue. Não existiram possibilidades de contar somente com a sorte e sim com a habilidade de cada um e as condições das armas disponíveis.

O grande e pesado galeão espanhol Constelación navegava lento em direção ao Mediterrâneo. Próximo a Gibraltar, Tigre Veloz o aguardava impune de qualquer suspeita. No momento oportuno bastava arriar a bandeira francesa da qual usava como escudo, para de imediato hastear a temida flâmula com a imagem do Tigre Dourado estampada a tremular no mastro superior, transformando-se no terror dos mares.

Infiltrado na tripulação do Galeão um fiel espião facilitaria toda a ação da embarcação pirata. Teria como pretexto desviar a atenção dos marujos e no momento apropriado provocaria um premeditado incêndio no tombadilho, lugar ideal para emissão de sinal e de fácil propagação das chamas. A carga muito ambicionada e valiosa há muito era aguardada. O valor da carga subtraída os permitiria desaparecer por uns tempos, escondendo-se nas Antilhas, mais precisamente em uma das centenas de ilhas do arquipélago das Bahamas.

Enquanto o tombadilho ardia em chamas e tripulação envolvida em deter o fogo, eis que surge lado a lado do Galeão como um fantasma, Tigre Veloz. A surpresa foi tamanha que a rendição aconteceu sem violência e precisar efetuar um disparo sequer. Os próprios piratas ajudaram a conter as chamas. Após o vitorioso saque, capitão Moribundo representado pelo o Espantalho, liberou a embarcação e sua tripulação, deixando-lhes todos os víveres indispensáveis e desapareceu mar adentro. Destino, Mar das Caraíbas.

Quando terminou o confronto capitão Moribundo reuniu os seus valentes companheiros e expôs o seu plano de imediato:

- Companheiros amigos! - Disse-lhes em voz firme e alta.

- Esta nossa conquista de hoje será a última, pelo menos por enquanto, nestas áreas. - Continuou dizendo seguro de sua decisão aos companheiros.

- Estamos sendo muito constantes nestas áreas. Com o resultado deste saque temos mais que o suficiente para ficarmos fora por uns tempos. - Continuou explicando.

- Estou convencido e decidido de que devemos seguir para o Mar do Caribe. Temos informações que vultosos tesouros são transportados de lá com destino à Espanha e a França. Podemos ganhar muito mais se formos pra lá, depois deixaremos de sermos notícias por uns tempos. - Expôs sua decisão.

- O que me dizem? - Questionou.

- Lá podemos nos misturar entre os outros piratas e tornar nossas ações menos declaradas, além é claro, se tivermos sorte podemos construir um grande império financeiro. Temos uma meta, um objetivo, e dele não podemos nos afastar, ou nos furtar. É uma questão de honra, arriscar para defender nossa própria integridade de homens de bem. Pelo menos éramos! Concordam que é o certo e o mais seguro? - Definiu a proposta.

Não foi preciso dizer mais nada, sendo apoiado de imediato por todos.

Uma vez acertados os detalhes partiram dali mesmo em direção de seus ideais, como homens em busca da glória e fortunas; como homens que colocam suas vidas à disposição de uma aventura para buscar resultados que os levassem a provar suas inocências ultrajadas pela ganância de pessoas maldosas e sem nenhum critério de justiça.

No ano de 1698 o navio ostentando magnífica bandeira inglesa, navegava retornando pra casa, quando foi surpreendido nas proximidades do Canal da Mancha por outro navio também de bandeira inglesa que Charles Grahann o conhecia muito bem. Seu comandante capitão Johnny Flampper era outro respeitado corsário inglês pelas inúmeras façanhas e bem-sucedidos ataques a outros navios inimigos. Na época a Inglaterra e a França haviam acabado de resolver algumas pendengas que resultaram em perdas para ambos os lados. Na ocasião a Inglaterra também estava passando por problemas de questões internas. Neste ano foi estabelecido o resultdo da Revolução Gloriosa, que eliminou definitivamente o Absolutismo inglês para proclamar o Parlamentarismo.

O capitão Charles Grahann julgando-se seguro continuou seu curso despreocupado. De repente notou a aproximação inesperada do navio conterrâneo sem nenhum aviso prévio, mesmo assim resolveu esperá-lo, contudo, dedicando-lhe mais atenção, não era normal tal atitude por isto não confiava plenamente no que via. Arriou as velas porque em caso de um confronto inevitável, não arriscaria perder seu importante instrumento de navegação e o aguardou imaginando na possibilidade de que também poderiam ser ordens vindas da corte, visto que, estavam no mar a longos meses em combates ou atracados em algum porto do Atlântico para vistorias ou manutenção. Sua aparente tranquilidade não durou muito, há distância de alguns metros notou algo estranho no comportamento do suposto amigo. Através de sua luneta percebeu Johnny Flampper dar ordens para atacar o seu navio. Só poderia estar cumprindo ordens, não faria isto deliberadamente, ainda mais em se tratando de um navio com a mesma bandeira, pensou. Com fúria, rapidamente também emitiu ordens para sua tripulação se posicionar adequadamente que seriam atacados. Uma batalha sem precedentes foi declarada entre as duas forças. Entretanto, com sua destreza de exímio espadachim e certeiro atirador com suas armas, Charles Grahann só esperou o primeiro disparo e partiu para o revide, para surpresa geral do oponente que o imaginava desguarnecido e despreparado.

Usando de muita astúcia, Charles Grahann enfrentou Johnny e seus asseclas. Depois de sangrento embate saiu-se vitorioso. Entretanto, foi ferido nas costas por um tiro de mosquete que o fazia sangrar muito, mas não lhe impediu de lutar até o final. Como era jovem e forte suportou a dor, a fraqueza e a febre até ser levado ao litoral português e ser atendido por uma senhora que por não saber o seu nome, e nos seus momentos de delírio falar coisas com coisas, passou a lhe chamar de moribundo. Assim passou a ser conhecido, tanto pela homenagem à obstinada e cuidadosa senhora portuguesa como pela simpatia que o nome traria para a saga e o futuro de um transgressor e líder destemido, no comando da tripulação do navio que passou a ser denominado de Tigre Veloz. E que nos momentos de confronto indiscutivelmente fazia tremular o seu respeitado estandarte de guerra com a estampa de um grande Tigre Dourado, animal que passou a admirar nas suas viagens à Índia.

Tigre Veloz, seu navio agora de várias bandeiras, artimanha utilizada para confundir suas presas, era rápido e com facilidade desaparecia no horizonte sem deixar rastros. Com esta capacidade diabólica de evaporar após um bem-sucedido saque, já havia ganhado destaque e temor para qualquer navegante.

Levava a bordo além de homens corajosos, 28 canhões escondidos por escotilhas que não deixavam quaiquer indícios e vestígios de suspeitas. Para todos que o viam não passava de um navio de passageiros. Por isto eles próprios o chamavam de navio camaleão. Quando atracava sua tripulação transitava pelas cidades livres e incólumes. E o seu comandante podia frequentar com naturalidade altas rodas sociais, como um elegante e bem sucedido fidalgo de origem e descendência desconhecidas.

Eram através destas facilidades, espertezas e a camuflagem sob as vestes de elegantes senhores, é que conseguiam as informações importantes e devidas para arquitetar suas ações com antecedência. Tempo suficiente para um planejamento eficiente de suas atitudes, aliado à previlegiada competência e sabedoria do seu comandante, que não perdia uma boa oportunidade de efetuar uma valiosa intervenção.

Grahann antes de se tornar homem do mar era uma pessoa comum. Filho de uma bem estruturada família inglesa. Talvez seu fascínio pelo mar se devesse pelos inúmeros livros que havia lido no decorrer de sua juventude. Por determinação e cuidados dos pais, estudou sob a batuta de nobre professores em ricas e importantes escolas do reino. Dedicou-se com afinco a todas as disciplinas e assuntos, com interesse maior por idiomas, história, filosofia e estronomia. Havia lido autores importantes e sabia comportar-se com desenvoltura e distinta elegância em qualquer situação. Com os seus 30 anos, porte físico forte, esbelto era um exemplo de beleza e simpatia, também era um sedutor contumaz, capaz de impressionar as mais exigentes damas.

Acontecimentos involuntários e imprevistos às vezes determinados pelo acaso são capazes de mudar a postura de uma pessoa levando-as a trilhar caminhos antes não imaginados. Foi o caso do capitão Moribundo, ou capitão Charles Grahann. Não fazia parte de seus ideais baseados na retidão, na honra e na disciplina de um bom patriota se tornar transgressor. Era um jovem e destemido corsário a serviço da coroa inglesa. Após ser traído de forma ardilosa, covarde e vergonhosa, imputando-lhe crimes deploráveis de roubo contra o patrimônio econômico do seu país e assassinatos com requintes de crueldade sem merecimento. Com estas consequências e para evitar ser julgado e condenado por fatos por ele não praticados, resolveu impor o seu próprio regime de lutar contra os mal intencionados líderes da coroa e de forma pouco convencional, iria construir o seu império mesmo de forma ilegal, com o propósito de obter o necessário para financiar seus objetivos de vingança, além de mostrar seu poder de domínio sobre qualquer potência marítima de sua época nas águas profundas dos oceanos, indepenente da cor ou do desenho do brasão estampado na bandeira de suas vítimas.

Capitão Moribundo também usava como estratégia esconder-se por trás da figura de um de seus marinheiros e amigo de batalhas Gaborow, o Espantalho. Senhor surdo com aproximadamente 45 anos, aparência desgastada pelas brabezes do tempo, olhar firme e frio; sobrancelhas espessas davam-lhe a impressão de um homem implacável, reforçada por uma longa barba grisalha, permitia-lhe que o seu comandante fora-da-lei se mantivesse no anonimato. Como não era possível se expressar através de palavras, seus gestou rústicos impunham-lhe um estereótipo de uma medonha e desalmada criatura, com poucas características humanas, demonstrando estar mais próxima do assustador e intrépido espantalho, curiosamente maquiado pela sua aparência asquerosa e mal vestido, onde era comum vê-lo usando um grande chapéu semelhante aos da corte francesa, com um grande penacho vermelho carmim na extremidade lateral de uma das largas abas.

Esta intrigante história de ação e aventura continua rapidinho, ainda esta semana. Muitos acontecimentos envolvendo coragem e emoção estarão por vir. Não deixe de conferir.

Imagens: Internet, Fotosearch

sábado, 10 de outubro de 2009

Na trilha do lirismo - Nº 02

Ana Carolina Sansão, ou simplesmente Nina Sansão, como gosta de se identificar é uma adolescente de 17 anos, que escreve com a maturidade de uma pessoa que trilhou experiências de gente grande. O seu trabalho literário é digno de ser observado com atenção pelo olhar exigente dos editores e livreiros. Logo seus versos vergarão o comportamento e o pensamento pragmático de muitos caçadores de talentos


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No seu poema "Um ser irrelevante" a autora transcende a visão lúdica do poeta na construção dos seus versos, ao contar sua história baseada mais no sentimento do que na razão. Nesta viagem poética, normalmente o escritor conta o que lhe vem da alma, fertilizando o brotar da semente do amor com toda a magia do serenar do orvalho que embeleza uma flor. Contudo, esta maturidade precoce faz de Nina uma poeta que cresce sabendo aonde o seu caminhar a levará. Sem dúvida um conhecimento só permitido àqueles que têm talento.






Um ser irrelevante



O poeta não sabe fingir,

ele interpreta a realidade.

Nunca vê o fim

porque nada é de verdade.




O poeta não ama,

fala de amor, apenas.

De nada ele reclama,

mas de tudo se lamenta.




Foge da verdade...

Em cada verso um disfarce!

Canta um mundo de felicidade

e lágrimas de crueldade.




O poeta se esconde no medo

e no desejo de ser melhor.

Tem na mente um segredo:

"Queria ser um ser pior!"




Não vê maldade,

não sente rancor...

Mas na verdade

gostaria de renunciar ao amor.




Um poeta de verdade

não conta sílabas ou métrica,

ele sente, a alma invade,

e nasce então o falso poema!

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Em "Eis a realidade", seu outro poema, a autora remete as fantasias do pensamento, para contar os seus desejos juvenis, numa imaginária vontade de viver sua fábula pessoal. É como se Esopo e La Fontaine emergissem das lembranças, para incorporar suas mãos seguras na caneta mágica dos sonhos, correndo sobre a pauta livre de uma página em branco carente por uma mensagem de amor. Ainda que necessário seja para tocar o coração de criança sonhadora que queima sua alma, a espera do seu príncipe encantado montado em seu fogoso cavalo branco, para fazer reviver do sono profundo a Bela Adormecida de sua meiga sensibilidade infantil, aguardando com ansiedade o beijo da descoberta.






Eis a realidade



Uma criança caminha pela estrada

sem olhar para trás,

à procura do conto de fadas

que não existe mais...




Em meio à sua jornada

ela encontra um atalho

e no meio do nada

surge um jardim encantado.




O sonho muda de cor

quando um pequeno príncipe

declara seu amor

sob o luar que ali existe.




Com um beijo sela-se o laço

que encerra o sonho encantado.

O conto de fadas é esquecido

e o sentimento fortalecido...




Eis mais um final feliz

para uma história mal contada:

O que a criança sempre quis

morreu com seu conto de fadas!

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Na trajetória do ser humano, depois de ter vivido todas as estações da vida com total entrega, dizer adeus torna-se um martírio pessoal. A autora Nina Sansão em "Não escolhemos dizer adeus", navega sua imaginação por sitações onde mesmo com toda a frieza do tempo, as boas recordações se aquece na lareira da boa convivência. Faz lembrar a criança que chora na despedida da mão que a protege; faz acreditar que o céu com todo o seu esplendor de encantos e brilhos, ilumina o ambiente ressequido e insano do vento gélido no inverno da pureza do olhar. E novamente dizer adeus não é fácil, mesmo que a esperança tenha sido contada e que o próprio destino também irá contar.





Não escolhemos dizer adeus



O sol brilhava intensamente

ignorando o auge do inverno

quando uma estrela cadente

alcançou o longinquo universo...




A pequena muito temia

porque nada mais era igual.

O céu estrelado que antes havia

jamais voltaria a ser real.




Ao deparar-se com o novo mundo

uma criança pode confortar

a incerteza e o medo profundo

com a magia do olhar.




Um doce e sincero sorriso

acalentou o caração aflito,

mas a mudança de estação

separou um só coração.




Cada um seguiu seu caminho

vivendo o que ditava o destino,

sempre perdendo-se em olhares e sorrisos

de um sentimento impreciso.




Quanta esperança foi cantada?

Quanto poderiam viver?

Não saberemos, pois outro conto de fadas

o destino começa a escrever!


Fotos: Internet