segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Tankamirés, o píncipe das múmias (cont...)


Na primeira parte do conto Tankamirés acompanhado do amigo Ankhetamon, partem em busca de uma solução eficiente para combater a enfermidade da sua amada Minakhasis, apostando nas habilidades do ermitão Shorubhak.



...Já era noite quando o velho eremita explicou a respeito do preparado que iria entregar a eles e da meneira como seria ministrado. A partir daí, estariam prontos para o retorno levando em mãos um frasco contendo uma poção que poderia salvar a vida da amada. O ermitão adiantou que se o remédio não proporcionasse a cura total pelo menos adiaria por um tempo o estágio definitivo e deplorável da enferma, diminuindo a dor e o sofrimento. Enquanto isto, novos preparados ele se encarregaria de providenciar, sem, contudo alimentar qualquer expectativa de cura. Sabia da gravidade do problema pois conhecia muito bem aqueles sintomas, tantas vezes presenciados em outras pessoas há quem um dia servira, oferecendo-lhes os seus préstimos.


De repente interrompeu a conversa dizendo: - Vocês me fizeram lembrar de quando aqui cheguei.


- Ao fazer a escolha de morar sozinho, depois de ter viajado por lugares nunca antes imaginados; conhecido pessoas de diversas origens, etnias, gostos, aparências e poder, mesmo assim achei que não sentia solidão. Pouco eu sabia que já era uma pessoa solitária. Viajava em busca de algo que não conseguia encontrar. Depois de muito procurar, descobri que estava em busca de mim mesmo. Observando as pessoas que encontrava pelo caminho, sem perceber tentava me enxergar. - Disse o velho falando sobre reminiscências.

- Depois de alguns meses que havia me instalado entre estas rochas, percebi que um pássaro todas as manhãs me visitava. Pousava naquela pedra preta - apontou uma pequena elevação rochosa próxima de onde se encontravam -, por incrível que pareça contrastava perfeitamente com sua plumagem branca. Aos poucos fui conquistando sua confiança atirando-lhe migalhas de comida. Ele continuou agindo da mesma maneira. Todo dia podia contar com sua visita. - O velho falava com expressão de admiração.


- Certa vez enquanto o alimentava com as migalhas que lhe atirava, despercebido comecei a assobiar uma música antiga, dos meus tempos de infância, muito bonita e uma das poucas que conhecia. O pássaro alimentou-se e foi se embora. No dia seguinte ele voltou e enquanto lhe oferecia o seu alimento habitual para minha surpresa ele começou a trinar o seu canto melodioso a canção que assobiava no dia anterior. Não conseguiu cantá-la toda, mas já havia aprendido a soltar sua voz pelo menos por pouco tempo. Havia dado suas primeiras entoações. Imaginei o quanto ele deveria ter ensaiado pra me mostrar o que aprendera.


- Continuamos a nos encontrar no mesmo horário e a cada dia ele cantava um pouco mais, até que um dia ele apareceu, cantou três vezes aquela nossa canção linda, cheia de emoção, voou e nunca mais voltou. Até hoje deixo migalhas para ele, sem receber a graça da sua visita. Imagino que talvez tenha sido vitima de um caçador inescrupuloso; estaria preso em alguma cela alimentando o egoísmo de algum indivíduo que queira o seu canto só pra ele; ou ter considerado que havia aprendido o suficiente e não precisaria mais do amigo que ele cativou apenas com sua simplicidade e cordialidade. - Disse o velho agora deixando fluir sua emoção.


- Vou continuar esperando-o, pois, em todo esse tempo de convivência o ensinei a cantar, mas não disse que também tinha me ensinado o quanto era importante para mim. Concluí que havia me fechado para ele, enquanto deveria ter dado a chance de conhecer-me melhor e ter agido ao contrário. Ter externado a felicidade que proporcionava com sua visita, afinal, ele também parecia tão solitário quanto eu. Ter dito que era o meu amigo das manhãs e que me trazia gratidão, porque fazia esperá-lo na manhã seguinte antes do sol mostrar o seu sorriso, e depois poderia vê-lo voar livre para o seu mundo de descobertas.


- Hoje eu penso que aquele pássaro que tanto demonstrou companheirismo sem pedir nada em troca, apenas às migalhas que lhe oferecia por prazer pessoal, agora está fazendo com outra pessoa o mesmo que fez comigo. Ensinando-lhe a ter paciência, esperança e acreditar que enquanto esperamos um novo dia, uma nova vida renasce, um novo sol irá brilhar e o ar de ontem não é o mesmo que respiramos hoje, embora o oxigênio seja semelhante. - O velho respirou em fortes haustos e continuou o seu raciocínio explicando melhor sua metáfora.


- Sua noiva está experimentando essa mesma experiência, ela já cantou ao seu ouvido e encantou o seu coração. Agora vai voar em busca de um novo aprendizado, porém, livre e distante do cárcere da dor e do sofrimento do corpo. Mas vai deixar uma luz no seu caminho, uma recordação angelical no seu pensamento; o reconhecimento de que cada passo que der, estará conquistando uma nova leitura da vida e deixando para trás pegadas consistentes e fundamentadas. - Disse o ancião de maneira contemplativa e filosófica.


- O mal que sua noiva experimenta não tem cura perante a medicina dos homens. O seu organismo está sendo dilacerado rapidamente e a vida esvaindo-se a um agitar do vento em tormentas; volta pra junto dela e diga o necessário. Diga o quanto ela representa pra você e não faça como eu, que deixei de dizer para o meu amigo pássaro da sua importância. Nem nome eu lhe dei para selar com mais intensidade nossa amizade. Diga ainda, que pela primeira vez algo importante brotou na sua vida, e que ela o ensiou a dar os seus primeiros passos projetando perspectivas alentadoras. - Elegantemente e de maneira virtuosa o velho concluiu suas considerações enobrecedoras.


Após aquele relato, e de terem ouvido extasiados a história, os amigos perceberam que o velho eremita tinha doçura na alma. Vivia no seu mundo de reclusão existencial, porém carregava no bojo de seus conhecimentos, ensinamentos ricos de exemplos nobre e valor a vida. E que depois de todas essas observações, percebia-se que realmente Manakhasis havia restaurado o sentido da vida no coração de Tankamirés.


Continuaram conversando por um longo tempo, depois foram dormir. Iriam partir antes do alvorecer e a caminhada seria longa e cansativa. Lutavam contra o tempo e uma doença impiedosa. O velho e agora amigo, depois de todo esse tempo pronunciou o seu nome Shorubhak, em seguida colocou-se à disposição de ajudá-los no que fosse necessário dentro de suas limitações, continuaria pesquisando alternativas no sentido de encontrar uma poção milagrosa para combater o mal que acometera a jovem. E que na verdade se tratava de um câncer abdominal que se espalhava de forma vertinosa pelo interior do seu corpo destruindo todas as resistências que encontrava pela frente.


Tankamirés contou-lhe suas intenções de perpetuar o corpo da amada pelo processo da mumificação e que sabia não ser fácil. Não conhecia as técnicas e ainda teria que fazer os procedimentos às escondidas para sua atitude não ser considerada como uma heresia ao culto religioso da cultura do seu povo. Somente os sacerdotes poderiam exercer, ou supervisionar aquela função, assim como, iniciativas medicamentosas. Depois teria ainda que convencer a família muito arraigada ao culto a Aton, o disco solar, e ao faraó que se nomeou com o título de legítimo representante da divindade poderia ser digno de adoração, portanto, as dificuldades se faziam presentes e a princípio difíceis de se transpor.


Partiram relativamente confiantes. Se não conseguissem a cura pelo menos retardariam a corrida acelerada da doença rumo à morte. Tankamirés entregou a poção à família e ensinou-lhes todas as recomendações necessárias para sua aplicação. Outra batalha teria que enfrentar: pesquisar os procedimentos da mumificação e a confecção do esquife (sarcófago) onde o corpo seria colocado para sua morada eterna, ou até quando a ressurreição fosse estabelecida. Crença alvissareira do povo agípcio quanto aos caminhos da alma, do espirito.


Em nenhum momento os amigos se afastaram dos seus propósitos, atitude que alicerçaria ainda mais o vínculo de amizade entre os dois. Assim o tempo foi passando até que chegou o fatídico momento que tanto temiam. Manakhasis veio a falecer. O remédio que tomou protelou a fim antes imediato, sem deformar sua aparência jovem e bela. Quem a visse nem perceberia que sua enfermidade fosse tão severa e destruidora. Tankamirés e o amigo Ankhetamon com dificuldade conseguiram junto aos familiares romper a barreira que os impedia fazer a perpetuação do corpo.


Uma vez concluído os detalhes dos procedimentos a serem tomados deveriam manter a cirurgia com extremo cuidado. Para tanto estabeleceu-se um tipo de juramento inviolável de que somente eles saberiam e deveriam guardar o segredo, sob a infelicidade de cair no conhecimento da população, depois chegar até aos sacerdotes e por fim ao faraó que exerciam o poder sobre a vida e a morte. Todos os envolvios correriam esses riscos evitando com isto a pena de morte por heresia.


O enterro seria forjado. Com os devidos cuidados antes do cortejo fúnebre o corpo deveria ser substituído por um boneco de pano moldado em resina com as características da falecida elaborado com perfeição pelas mãos de um artista. Todo esquema havia sido estudado e desenvolvido no mais absoluto segredo. O verdadeiro iria ser levado para um lugar seguro devidamente planejado e preparado para os procedimentos da mumificação. Haviam buscado o velho Shorubhak que muito os ajudariam na consecução da cirurgia, dado aos seus amplos conhecimentos de medicina natural, baseados nos seus preparados especiais. Era conhecedor de elementos químicos que não alteraria a cor da pele, com fórmula exclusiva e secretamente mantida, além de incensos, perfumes e fluídos de assências aromáticas. Como bens pessoais ela não possuía camafeus, jóias e pedras preciosas além de sua beleza natural irretocável. O velho ermitão havia também escolhido o lugar apropriado para esconder o sarcófago que somente ele e Tankamirés saberiam.


Como estava velho, após sua morte apenas o jovem ficaria com o segredo, seria a sua "caixa de pandora". O lugar escolhido para a câmara mortuária ficava num penhasco rochoso situado a pouca distância de onde morava. Era bonito e de difícil acesso. Antes de se chegar até ao local, teria que superar um pequeno pântano infestado pelos temíveis crocodilos do Nilo, que reforçaria a segurança, garantindo a confiabilidade de impedir possível violação e saque. O lugar era perfeito, recebia privilegiadamente o frescor da aragem do rio sagrado; ambiente verdejante e florido, berço de lindas borboletas primaveris. A flora e a fauna eram exuberantes, lugar mais primoroso seria quase impossível. O experiente Shorubhak havia pensado em tudo nos mínimos detalhes. Parecia que estava cuidando da segurança dos despojos de uma filha, que não conhecera.


Ilustrações: Neli Vieira


(Continua em breve a última parte...)

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Gari, limpando o caminho do incompreensivo



Desde a era primitiva que o homem sentiu a necessidade de viver em sociedade; construir família e cria um ambiente seguro para morar. Utilizando-se de instrumentos rústicos faziam os seus roçados, limpavam o terreno escolhido, onde a terra poderia render bons resultados e, a caça e a água fossem abundantes. Eram detalhes que garantiriam suas sobrevivências.

Com o transcorrer dos tempos, cuidados com os problemas de higiene, tanto pessoal, quanto ambiental, tornaram-se necessários. A preservação da saúde passou a ser considerada imprescindível, e, dependiam desses elementos básicos, para mantê-la menos vulnerável.

Evidente que, para manter suas moradas limpas, criaram conceitos elementares, que até hoje são fundamentais e só depende de cada um, para torná-los eficientes e livres de impurezas. Evitando a propagação de insetos e outros animais ambientados com o lixo, como: ratos, baratas e outros micros organismos nocivos à saúde. Tais conceitos criaram forma e robustez, a partir do imperativo de manter não somente as casas higienizadas, mas também, as via pública.

Como no começo nada é fácil, principalmente, no que se refere à concentração acelerada do crescimento das cidades e suas populações. Seja com o trato da sua formação cultural, na maioria das vezes formadas por indivíduos com os mais diversos estágios de princípios. Ou até mesmo, com os cuidados de ordem educacional familiar e social. Essa heterogenia transformou-se num problema sério de saúde pública a ser resolvido. Algo deveria ser feito com urgência, antes que o caos fosse instalado de forma nefasta.

As pessoas já haviam adquirido o hábito de jogar os seus lixos domésticos nos logradouros públicos, praças e ruas. Da mesma forma, se repetia, nas áreas particulares baldias, sem a devida conservação – comum até hoje. Estes eram os ambientes propícios para o despejo de dejetos e naturalmente, excelentes proliferadores e habitats perfeitos, desses elementos característicos da sujeira e do abandono. Onde o mato, o entulho e outras impurezas desovadas, sem nenhum critério de higiene, comprometiam a saúde dos córregos, rios, mangues e praias, causas muito comum do progresso desordenado.

Foi ainda, durante o Império que o francês Pedro Aleixo Gari, radicado no Brasil, vendo a situação, resolveu tirar proveito da situação, como meio de negócio. Certamente um visionário, com antecedentes do velho continente. Para tanto, apresentou uma proposta de higiene pública ao poder constituído na época, de manter a cidade do Rio de Janeiro, limpa. Uma vez, aprovada a proposta, pela Corte, as partes envolvidas, assinaram um contrato de limpeza urbana.

Outro fator, próprio das desigualdades sociais, contribuiu com os interesses de Pedro Gari: a mão de obra barata. O desemprego alcançava índices alarmantes, sendo os negros, a sua grande maioria. Sua primeira iniciativa foi reunir um grupo de desempregados e oferecer esta nova modalidade de trabalho, como funcionários remunerados, coisa incomum até então.

Na época cavalos, cães, galinhas, porcos, circulavam livremente pelas ruas. Então, essa nova classe de trabalhadores passou a recolher seus excrementos, que se espalhavam sem controle algum, nas vias públicas. Além, é claro, do lixo doméstico, impurezas dos banheiros corriam pelas ruas sem nenhum rigor de controle, jogado a céu aberto, nos mais diversos lugares.
A princípio, não foi uma tarefa fácil, os trabalhadores eram ridicularizados, mas, a necessidade falou mais alta, e, logo, passaram a ter importância, mesmo com restrições.

Com o passar do tempo a atividade, mantendo-se fiel à sua proposta de manter a cidade mais saudável, os próprios habitantes do Rio de Janeiro, começaram a associar os trabalhadores da higiene pública, ao nome de Aleixo Gari, Passando assim, a serem reconhecidos como a “A turma do Gari”. Daí surgiu o nome desses profissionais de limpeza urbana.

Outro exemplo, digno de destaque, e na época, mereceu atenção especial, aconteceu em 1899, quando o médico sanitarista Osvaldo Cruz, ao lado de Vital Brasil e Adolfo Lutz, foram convidados para estudar a combater com a peste, que destruía a população de Santos. Os estudos confirmaram tratar-se da Peste Bubônica ou Peste Negra, provocada principalmente, pela pulga do rato. E, também, das suas fezes e urinas como causadoras de outras doenças infecto-contagiosas, que poderiam causar inclusive, a morte. O que, já vinha ocorrendo.

Através da fantástica evolução da modernidade e, o poder da industrialização, uma nova era transformadora, se fez presente. Contudo, pouco praticada, sob todos os níveis: a reciclagem. Mas a odisseia dos garis continua sem mudanças significativas. Continuam cumprindo suas obrigações, como no passado. Entretanto, enquanto, no período do Império, eram notados, como sendo “A turma do Gari”, hoje se tornaram invisíveis, anônimos. Seria uma ironia do destino? Eis a questão.

O anonimato ou invisibilidade do gari é tão perceptível, que grande parte das pessoas não os notam. O ignoram, mesmo vestindo-se com suas roupas chamativas, de laranja fosforescente, com detalhes de verdes. A indiferença chega ao limite de não receber dos habitantes, pelo menos um cumprimento educado: um bom dia, uma boa tarde. São indiscutíveis habitantes do mundo da exclusão. Se o exemplo é uma genuína atitude de descaso ou preconceito, quem sabe? A verdade é que esse comportamento nada digno existe.

No entanto, são eles que fazem o serviço sujo. São eles que limpam a sujeira que as pessoas, sem nenhum pudor, escrúpulo e educação, jogam pelas ruas e calçadas. São eles que “limpam o caminho do incompreensivo”. Ao contrário de muitos países desenvolvidos, onde jogar qualquer objeto nas ruas requer multas educativas. Onde as pessoas, por princípios, guardam nos seus bolsos, as pequenas coisas dispensáveis, para serem colocadas na lixeira mais próxima. Onde os fumantes, têm um lugar específico para saciar o seu vício, sem ter que, contaminar as vias públicas com pontas de cigarros.

Entre os garis, como em qualquer outra atividade, cada um tem suas peculiaridades. É o caso de Isabel, uma jovem senhora, com 25 anos, casada, mãe de dois filhos pequenos – um casal –, profissão gari. Às 5h da madrugada, sai da sua casa na periferia de Goiânia; às 7h já está iniciando sua tarefa de limpeza pelas ruas da cidade.

Na mochila, sua fiel companheira, o seu uniforme de trabalho, que será trocado ao final do expediente, por outras roupas modestas do seu vestuário, no regresso ao lar. Porque, a utilizada no trabalho, não está mais em condições de circular dentro de um ônibus urbano lotado. Assim, aquele uniforme de trabalho repugnante aos olhos das pessoas, possa ser alvo de constrangimentos dolorosos.

Sobre o ombro cansado, sua mochila a tira colo, carrega no seu interior, alguns produtos de higiene pessoal, como batom, papel higiênico, entre outros produtos. Além, é claro, a indispensável marmita. A “cromada”, como ela mesma a define.

Isabel, pela sua condição humilde, dá exemplo de paciência, fé, caráter, bondade e otimismo. Dificilmente reclama da sua condição de vida. Sabe como poucos, a importância da coleta seletiva, do combate à dengue, das cooperativas de catadores de produtos recicláveis. Também, tem os seus sonhos secretos. Consciente de que o mesmo sol que brilha para um rico empresário ou para, uma figura eminente da sociedade, é o mesmo que bilha para ela. Afinal, o sol nasce para todos. Não é o que dizem?

José, seu companheiro de lidas diárias, senhor de 52 anos, trás no semblante, uma aparência superior aos 60. Anos a mais, adquiridos, em decorrência de uma juventude carregada de muitas jornadas de serviços prestados para garantir sua sobrevivência útil, digna e dedicada à família.

Seu Zé, como todos o conhecem e o chamam, é outro morador da periferia de Goiânia. Como Isabel, tem sua história singular: é casado, pai de cinco filhos. O filho caçula, com 15 anos, como os demais irmãos, estuda e trabalha, para orgulho e felicidade do pai amoroso. Seu Zé faz questão de dizer com o peitos estufado e a mão direita sobre o coração: “Com fé em Deus, eles terão um futuro, perante a sociedade, melhor e mais tranquilo que o meu.” Estas são suas palavras redentoras, que o faz cada dia mais forte para encarar, fazendo chuva ou sol, sua obrigação diária.

Talvez pela sua resignação, acostumada com o serviço pesado, seu Zé, é dotado de uma compreensão e alegria incomuns. Todos o admiram pelo seu sorriso farto, e uma capacidade sincera de fazer amigos. Fã incondicional da música sertaneja consegue manter com equilíbrio – melhor até que, a balança representativa e símbolo da justiça dos doutores das leis – o seu trabalho e sustento da família, cantando com espírito elevado, suas canções preferidas, no compasso alegre da companhia dos companheiros de labuta.

Pode parecer ironia, contudo, é bom fazer um breve exame de consciência. verdade não tem como ocultar. Constantemente, deparamos com pessoas privilegiadas pelo estudo, pelo status socioeconômico,  que os notabilizam, ficarem lamentando as pequenezas de suas vidas diárias.

Enquanto outros, fadados da falta nas necessidades básicas essenciais, aquecem os seus dias com ideias construtivas e bons hábitos. Aliados, ao trabalho edificante e de superação à todas as mazelas, com galhardia e distinta nobreza do ser. Transpondo obstáculos, sempre confiantes, num outro dia melhor: o dia seguinte.

Com esses detalhes enobrecedores, imagina-se que, estamos falando de jóias raras. Preciosidades abençoadas por Deus; pessoas quase perfeitas, sem defeitos estigmatizados, mesmo fadados a uma vida árdua. Todavia, como são humanos, tem suas imperfeições, seus pecados. Entretanto, eis a questão: quantas Isabeis existem por aí? Quantos Josés também sentem na pele esses mesmo desafios de sobrevivência?

Esta é a sua oportunidade, de olhar à volta, ampliar sua visão, sensibilizar o seu coração e, notar que eles, os anônimos ou invisíveis, todos os dias vestem a camisa da responsabilidade, cumprindo honradamente suas obrigações, como qualquer outro magnata do alto escalão social, às vezes, com muito mais dignidade.


Imagens: Google  

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Tankamirés, o príncipe das múmias


No Egito, por volta do ano 1348 a.C., durante o império do faraó Akhenaton (Amen-hotep IV) esposo de Nefertiti, filho de Amenófis III o monarca a quem sucedeu, o país gozava de um período de prosperidade, inclusive nas artes, sustentado pelas conquistas e políticas herdadas do pai. As lutas e invasões quase não existiam. O poder egípcio dominava quase todos os outros povos de seus interesses, e a população nutria um período de harmonia, paz e uma economia sólida. Tebas havia se transformado num centro econômico. Pela sua soberania na época, detinha o poder sobre os demais impérios. Através destas conquistas, vultosas quantias em tributos, mercadoria e ouro eram entregues sob a forma de impostos, além de convergir para seus domínios o fluxo de escravos, riquezas e artes de outros países. Porém no seio dessa tranquilidade aparente, o povo, sofria por enfermidades graves que ainda não haviam encontrado respostas para suas curas.

Tankamirés era um jovem de vinte anos, sonhador como todos da sua idade. Estava apaixonado por Minakhasis, uma linda garota de dezesseis anos, que se encontrava tristemente enferma e sem perspectivas de recuperação. Já havia feito promessas ao deus Aton, consideradas difíceis de serem cumpridas. Todavia, ainda faria muito mais se fosse necessário em benefício daquela que um dia queria como sendo sua esposa. Sua recuparação seria uma luta que ele não admitia perder. Primeiro acreditava que sua crença não o trairia, depois tinha uma esperança inquebrantável que reforçava o desejo de vê-la feliz ao seu lado construindo uma família com vários filhos.

Certo dia Tankamirés conversando com o amigo Ankhetamon resolveu dividir suas dificuldades emocionais contando-lhe o drama por que passava sua pretendida, na expectativa de que ele pudesse dar uma sugestão confiável, apontando um caminho seguro a seguir no sentido de tirar Minakhasis daquele tormento de dor e angústia.

O amigo depois de ouvi-lo atentamente, como que iluminado por uma luz redentora, aconselhou-o a procurar um antigo eremita de quem ouvira falar possuidor de incríveis virtudes como curandeiro. E até onde tinha conhecimento violava discretamente às imposições dos sacerdotes aos quais eram atribuídos o poder de cura, e naquele instante vivia como ermitão numa isolada região às margens baixas do Nilo, distante um dia de viagem de onde estavam.

Tinham consciência de que iriam deparar com a resistência da parte o homem solitário de cooperar. Geralmente pessoas com esse perfil se isolam por não acreditarem mais nas atitudes da maioria dos indivíduos, preferindo levar uma vida de abandono, mas fiel às suas convicções. Acreditavam que vivendo dessa maneira não poderiam ser enganadas por elementos impetuosos, mantendo-se ausentes de preconceitos, maldade e hipocrisia. Todavia, valia a pena a tentativa, já que a situação parecia conspirar contra ele e a mulher amada, ainda mais estando ela desenganada e aguardando os instantes finais. Sem hesitar Tankamirés pediu quase implorando que o amigo o acompanhasse naquela busca de esperança e que deveriam partir imediatamente. O tempo estava exíguo e a enfermidade da mulher querida a devorava sem piedade. Constituindo sua grande inimiga e teria que ser combatida de imediato.

Por outro lado, ele desiludido pensava: - "Será que o ermitão iria ajudá-lo naquele momento de desespero, apresentando soluções confiáveis através e seus conhecimentos? - Queria acreditar que sim - Morava isolado, bem longe da civilização, vivendo dessa maneira, deveria saber de poções mágicas poderosas e eficientes, portanto, seria ele mesmo o responsável pela manutenção da sua saúde". - Concluiu o seu pensamento com uma pontinha de esperança. Tudo acertado pôs-se a caminho. Enquanto caminhavam, vários assunstos vieram à tona em relação à Minakhasis. Entre esses assuntos dois deles simbolizou o quanto a amava. Dizendo ao amigo, caso não conseguisse salvá-la da morte, iria perpetuar sua imagem com boas recordações e em relação à sua beleza física faria por meio da mumificação do corpo.

Sabia que tal procedimento seria difícil e a realização quase impossível. Tanto ele quanto ela não faziam parte da elite dominante e muito menos da realeza para serem beneficiados com aquele recurso e conseguir o seu intento de perpetuar a amada. Embora tivesse algum conhecimento intelectual adquirido através de Ankhetamon, que pertencia uma classe social de destaque na sociedade reinante. O pai era um rico comerciante possuidor e uma próspera propriedade às margens do rio sagrado.

A amizade entre os dois vinha desde a infância. Foram criados praticamente juntos. Como era filho de um simples camponês com poucas oportunidades, ainda assim, gozava de certos benefícios casuais. Seu pai trabalhava para o rico comerciante. Enquanto o amigo tinha acesso aos estudos os dois por estarem sempre próximos se ajudavam. Tankamirés aprendia ouvindo ou até mesmo praticando o exercício da alfabetização as escondidas em troca de alguns favores.

Naquela época somente os mais poderosos e providos economicamente tinham o benefício do estudo, os mais humildes não passavam de reles empregados ou servidores. Entretanto ele não chegava a ser filho de escravos, mas, sua condição econômica e social tornava-o distante das possibiliades de estudar e enriquecer-se culturalmente. Com dedicação e força de vontade foi conquistando confiança. Já havia adquirido inclusive, o suficiente para entabular sonhos e perspectivas animadoras no mundo do conhecimento.

Durante todo o percurso da viagem conversavam esperançosos com os resultados de poderem salvar a jovem Minakhasis. Como não sabiam com precisão onde encontrar o velho ermitão, foram perguntando sempre que possível às pessoas, o paradeiro do homem que poderia apresentar uma solução concreta para o caso que os afligia. Depois de muitas buscas conseguiram chegar ao seu destino. A morada do ermitão.

Ao se aproximarem encontrou o velho homem sentado debaixo de um pequeno arbusto, esculpindo calmamente com o seu canivete um pedaço de madeira a figura de um pássaro, alheio aos acontecimentos à sua volta. Ficaram durante algum tempo espiando-o a manipular sua criação. Após esse período de observação o velho olhou para os dois, simplesmente para demonstrar que sabia das suas presenças. Sem dizer sequer uma palavra, voltou ao seu ofício de artesão como se estivesse fazendo uma terapia ocupacional, totalmente despreocupado com o tempo. Tankamirés não viu outro jeito senão cumprimentá-lo e tentar estabelecer um vínculo de cordial entendimento.
Já estava escurecendo quando o encontraram. Aproximaram um pouco mais e o saudaram quase que ao mesmo tempo.

- Boa tarde, senhor. Que Aton esteja convosco! - Disseram.

- Desculpe-nos interromper seu momento e trabalho e dedicação. Acontece que estamos a um dia de viagem tentando localizá-lo, precisamos muito da vossa atenção, no sentido e alguns esclarecimentos. - Disse de maneira respeitosa o jovem Tankamirés.

O velho de cabeça baixa continuou entalhando sua obra, sem dizer uma só palavra em resposta ao cumprimento recebido. Comportando-se como se estivesse surdo àquela iniciativa de estreitar relacionamento.

Tankamirés não desistiu e voltou a saudá-lo repetindo o que havia dito, ainda à sua frente aguardou resposta. O velho de maneira incompreensiva continuava a lavrar sua arte.

Após algum tempo ainda de cabeça virada para o que estava fazendo, indicou com a mão um outro lugar, pedindo que se sentassem. Os amigos se entreolharam e obedeceram ao convite do senhor de poucas palavras, sem perceberem que aquele experiente homem de cabelos grisalhos e emaranhados, barba longa e encanecida estava estudando-os detalhadamente desde a maneira de se vestirem até a forma de se expressarem.

Como o velho não dizia uma palavra os dois amigos tembém emudeceram, esperando uma manifestação amigável daquele a quem tanto devotavam bons presságios. Ficaria ali o tempo quanto fosse necessário, mas não se afastariam enquanto não fossem atendidos. A noite estava mostrando todo seu negrume; o velho já havia se levantado e caminhado até sua morada em silêncio, seguido pelos dois. Parecia um teste de resistência imposto para ambos os lados. Enquanto de um lado fazia os seus estudos de personalidades, do outro se mantinham firmes e irredutíveis por respostas.

Sentados em volta de uma fogueira que crepitava jogando suas labaredas ao vento, compondo com suas fagulhas brilhantes e esvoaçantes feito pequenas luzes que se perdiam na escuridão. A magia da noite dava um toque de beleza no ar morno, embalado por um leve vento que contribuía com o suspense do momento. Estavam devidamente acomodados, porém inflexíveis e determinados, nas proximidades da improvisada moradia do ancião, feita a partir do aproveitamento de duas rochas que serviam como paredes, coberta por folhas de palmeira. Permaneceram interrogativos observando a situação até que o velho num arrastar de garganta demonstrou interesse querendo saber o que os levara até ele, visto que raramente tinha alguém com quem conversar.

- A que devo vossas visitas? - Perguntou o ancião com curiosidade.

Os amigos se apresentaram e narraram detalhadamente toda a história de Minakhasis, motivo que os levara até ele. Continuaram conversando e melhor se conhecendo até bem tarde da noite quando foram dormir ali mesmo próximos à fogueira.

No outro dia, o sol estava quente, era quase meio-dia e o velho ainda não havia apresentado uma solução animadora que viesse abrandar ou curar a doença da noiva. Continuava mantendo-se totalmente indiferente ao problema, motivo que intrigava e até irritava os amigos. Contudo tentavam dissimular calma, para não demonstrar qualquer sintoma de desagrado, diante daquela atitude inexplicável e com isto não comprometer a missão. Dessa maneira pensativos, ficaram até à noite reiniciar. Os amigos não conseguiam mais esconder suas ansiedades e angustiantes expectativas, afinal, alguém muito querida encontrava-se com a vida por um fio. Diante do problema aparente não notaram, mas o ermitão já havia feito um preparado com ervas especiais da sua medicina secreta, sem que eles tomassem conhecimento, e que no momento passava pelo processo de maturação e eficácia.

Ilustrações: Neli Vieira

(O texto continua brevimente)