domingo, 11 de julho de 2010

O fascínio da jade









Quando falamos sobre a pedra jade, logo vem à mente o seu poder de sedução. Depois sua história nos remete há milhares de anos, ao princípio da humanidade, talvez. Portanto, tudo que envolve sua presença deixa os curiosos historiadores e antropólogos fascinados pela sua soberania entre as pedras para os povos orientais, mais intimamente, os chineses. Neste olhar, iremos ver que esta nossa andarilha mística, a partir do momento em que resolveu mostrar os seus encantos para os mortais, muitas histórias e lendas a acompanham.

Orgulhosa e poderosa sobrevive os domínios do tempo sem ser facetaria, embora em algumas circunstâncias pela sua associação com alguns minerais, como o ferro e o cromo, possa mudar o tom de sua cor. Contudo, a forma que mais chama a atenção e se tornou popular, é o verde esmeralda leitoso. 


Evidentemente que sua trajetória pelo mundo, levou consigo toda a resplandecência da sua magia mística. Nem poderia ser diferente. Tantas histórias e mistérios envolvem o seu poder de conquistas, lutas, glórias e tristezas. Nesse seu caminhar pelo universo das ilusões e sua gloriosa aventura no cenário contemplativo, presente no imaginário daqueles que a cultuam, continua mostrando o seu valor de admiração.

Recentemente o mundo maravilhou-se e aplaudiu os Jogos Olímpicos de Beijing em 2008, que aconteceu na China, onde a pedra jade deslumbrou de felicidade no peito e no coração de valorosos atletas, estampando orgulhosos seus feitos de notáveis competidores e preparados vencedores. Foi usada pelos chineses como expressão de amizade com todas as nações, através do selo chinês “Beijing Dançante” e das Medalhas Olímpicas, feitos com o jade Hontan da província de Qinghai.

Tudo começou no outro lado do mundo, na China. Onde é conhecida como “yu” ou como “pedra flecha”, devido sua extraordinária resistência. Estudiosos descobriram que, por volta do ano 3 mil a.C. a pedra jade já era usada em instrumentos de rituais. E no período Neolítico, era utilizada na fabricação de machados, faca e armas de caça. Vários objetos com essas características foram encontrados junto a corpos de supostos guerreiros com a finalidade de protegê-los dos maus espíritos durante o caminho para a eternidade.

Provocante e sedutora que sempre foi, consta por meio de dados históricos lendários, que o bisavô do Imperador Qin Shihuang, trocou 15 cidades por um pequeno pedaço de jade, por acreditar no seu valor místico. O Imperador Qin é o mesmo que no século III a.C., foi o responsável pela unificação da China e também teria sido o soberano que deu início à construção da Muralha da China, uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo.

O influente sábio chinês Confúcio, achava que um homem honrado ou erudito precisava levar consigo uma pedra de jade como demonstração de fidelidade e respeito, além, de comparar sua pureza com a fé firme, paz e inteligência. Chegou a dizer que a jade servia como uma manifestação da integridade da mente e da alma.

Pela sua beleza e capacidade de se transformar em símbolos históricos nas mãos dos artesãos escultores, chegou a ser arrogante, ao se autoproclamar como irresistível. Está aí o motivo mais marcante na sua conquista do povo chinês. 


Embelezava o sentimento humano, ao traduzir que a felicidade é um momento de grande prazer pessoal. Ativa os sentidos da emoção e da alegria, fazendo a imaginação atravessar veredas floridas, em busca da satisfação plena. De posse destes conceitos e sabedoria, foi capaz de enfeitiçar o olhar da cobiça dos mortais, fazendo com que se sentissem extasiados, quando descobriram o seu valor sentimental empírico. 

A fascinação pelos seus poderes imaginários e de sua estrutura ser mais resistente que o aço e mais dura que o vidro, fez com que acreditassem que era símbolo de felicidade, poder e riqueza; era a essência do céu e da terra; e uma forma de se comunicar com os deuses.

Baseado nestas convicções acreditava-se que seu poder estava ligado à imortalidade. Indícios desta crença tornaram-se evidentes a partir de descobertas onde constataram que era comum colocar um amuleto de jade na boca, no rosto ou no peito dos mortos com o objetivo de evitar a decomposição. 


Além, de possuir forte relação com o lamento, atraindo forças que abriam caminhos para as vidas passadas, especialmente às vividas no oriente. Seu poder extrapolava o científico na visão dos antepassados, podendo inclusive, gerar o amor de divindades, por ela estar relacionada com as principais virtudes: coragem, justiça, misericórdia, modéstia e sabedoria.

Como existiu a mitologia grega, egípcia e romana a China também tinha sua mitologia, tendo o Imperador de Jade, como um dos deuses mais poderosos do panteão da religião tradicional chinesa. Diz-se que ele é o próprio príncipe real do reino da Pura Felicidade e das Majestosas Luzes e Ornamentos Celestes. Elemento principal de várias fábulas populares no oriente.

Conta uma lenda que o Imperador de jade tinha uma filha chamada Chih’nü. Todos os dias ela descia a terra com a ajuda de um robe mágico para se banhar. Certo dia enquanto se banhava num lago, um vaqueiro solitário chamado Niu Lang, quando a viu apaixonou-se imediatamente, foi instantâneo. 


Instintivamente roubou o seu robe mágico que se encontrava sobre uma pedra. Sem os seus poderes, tornou-se refém do jovem apaixonado que a levou para sua casa. Quando o Imperador de Jade descobriu o ocorrido ficou furioso, porém, incapaz de interceder. Mesmo com todo o poder disponível, teve que admitir e ceder, acontece que sua filha na convivência com o jovem vaqueiro, também se apaixonara por ele. 

Um dia ao acaso Chih’nü, encontra a caixa contendo o robe que o seu então marido havia escondido. De posse novamente dos poderes, resolve ir visitar o pai para amenizar a situação e matar a saudade. Quando decidiu retornar para junto do marido, seu pai o Imperador de Jade, para castigá-la cria um rio que passaria pelos céus, que conhecemos como Via Láctea. 

Com esta atitude do pai, não conseguiu retornar para o seu marido Niu Lang. Então o Imperador de Jade, com pena pelo sofrimento dos jovens amantes, resolveu que, uma vez por ano, no sétimo mês do calendário lunar, ele permitiria que eles se encontrassem numa ponte sobre o rio.

Assim ficou estabelecido: O sétimo dia do Sétimo mês do calendário lunar é um feriado na China chamado Qi Xi, que é o dia para os jovens amantes, dia dos namorados nos países ocidentais. No Japão, é chamado Tanabata (Dia da Estrela) e na Coréia é chamado Chilseok. Se chover no dia, é dito que Chih’nü está chorando por se reunir com seu marido.

Já em outra situação, a mais famosa escultura asteca é sem dúvida a Pedra do Sol, também conhecida como Calendário de Pedra Asteca. Mede 3,7m de diâmetro, tem no centro a imagem do deus sol, mostrando os dias da semana asteca e suas versões da história do mundo, mitos e profecias. 


Contudo, é provável que O Homem de Jade, seja uma das mais misteriosas relíquias desse povo indígena que habitou o México e foi dominado por Hernán Cortés, com a ajuda de seus milhares de soldados, arma de fogo, cavalos e outras tribos inimigas dos astecas, que se uniram em favor do espanhol, contra Montezuma em 1521. Os astecas eram artesãos hábeis, tingiam algodão, faziam cerâmicas e ornamentos de ouro e prata e esculpiam muitas jóias finas em jade.

A história da preciosa andarilha jade, continua fascinando o mundo. Chegou há quinze anos ao sertão goiano, às margens do rio Vermelho, no antigo Arraial de Sant’Anna, atual Cidade de Goiás, majestoso lugar onde se encontra a preciosa Jade goiana. Garota sonhadora que encanta pela sua beleza e a sonoridade do seu Sax, que um dia há de brilhar feita a lendária pedra que originou seu nome. Doando seu talento e profissionalismo como designo de moda ou psicóloga, principal motivo de alegria da família de condecorados militares.

Curiosamente, esta preciosa joia humana, veio ajudar a ilustrar as terras que um dia Bartolomeu Bueno da Silva, esteve no ano de 1682 e ficou conhecido como O Anhanguera ou Diabo Velho, pelos indígenas goya ou goiazes, que habitavam a região. 


E com a sagacidade de um experiente homem de muitas andanças, conseguiu enganar esses silvícolas, através da proeza de colocar fogo numa tigela contendo aguardente, simulando ser água. Com esta atitude inegavelmente admirável e desconhecida por aqueles habitantes primitivos, ameaçou lançar fogo em todos os rios e nascentes. Esta sua astúcia, não só possibilitou descobrir de onde retiravam o ouro que ornavam as mulheres da aldeia, com também, o respeito e o temor, pelo feito inusitado. Anhanguera foi um importante Bandeirante que desbravou o Centro-Oeste brasileiro durante o período colonial.


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segunda-feira, 21 de junho de 2010

Quase Poesia



Enquanto os anjos dizem Amém! Os pássaros, flores e borboletas embelezam campos e jardins; as pessoas ainda encontram nas estrelas, no luar e na serenata o canto poético de expressão e dedicação à ternura do amor espontâneo.

A poesia com sua linguagem fecundada na alma e abençoada pela pureza do sentimento pleno sintetizam a carência do carinho e do aprendizado. Neste olhar além do horizonte sensitivo, é que a poesia abre rincões e pavimenta caminhos que nos levam ao amor pelas palavras bem empregadas. Exilando a tristeza e abraçando as boas intenções com o ósculo da amizade sincera.

Como se numa conexão profética, recebi recentemente o livro “Quase Poesia”, enviado pela própria autora, a escritora e poeta Basilina Pereira. Na sua apresentação, ela anuncia para nossa surpresa, que este exemplar é a sua primeira obra literária publicada. Porém, o que nos mostra é uma consciência madura de quem nasceu escrevendo as belezas do sentimento através da poesia, de forma muito consciente. Nada melhor que externar as entranhas do âmago lúdico, permeando cada etapa do crescimento espiritual, com ideias vibrantes do caráter poético, sem a interferência da vaidade soberba.

Em “Quase Poesia” a poetisa Basilina nos presenteia uma coletânea com mais de cem poemas, onde você terá à sua escolha, aquele que mais identificar com o seu momento. Separei entre eles, três que particularmente me disseram o que desejava sentir. Espero que comunguem comigo este mesmo prazer.

Se não foi o bastante, o que é provável procure adquirir esta obra poética através do blog da autora, http://www.poesiasbasilina.blogspot.com/, ou pelo endereço: www.recantodasletras.uol.com.br/poesias/1299361.
À Basilina, o meu agradecimento e minha admiração. Sucesso pleno, amiga...




Perspectivas


Eu quero...
mergulhar na vida com o elã da juventude,
sentir o frescor da brisa
arrepiando meus cabelos,
enfrentar as tempestades
com o destemor dos guerreiros medievais.


Eu posso...
Percorrer muitos caminhos,
Sentir todos os arrepios,
Chorar, sorrir, ousar, crescer.

Eu vou...
amanhecer feliz a cada dia,
embrenhar-me no mundo da poesia
e experimentar, talvez, outras emoções.

Eu preciso...
Investir, esperar, plantar e colher.

Eu anseio por...
viver em plenitude como os insensatos,
experimentar o êxtase dos amantes,
na voragem de seus corpos entrelaçados,
no sentimento da busca e da entrega total.

E assim...
alçar voos impossíveis,
buscar na incerteza o caminho certo,
caminhar na chuva até o próximo deserto
e buscar a plenitude,
de um novo amanhecer.



O Amor Maior
(Homenagem às filhas: Cláudia, Vânia e Valéria)

Como um rio que vem da alma
da terra fecunda, berço da vida,
aflora uma lágrima, transborda no peito
a emoção maior, nunca antes sentida.

Explode em choro, o coro nascente
o fruto do amor, incenso dourado,
é como se o galho descesse da árvore
e todo o universo ficasse parado.


Respinga ansiedade, dissolve a certeza,
ante o milagre que se faz criatura,
trazendo no mel que lhe corre nas veias
os mais belos sonhos de uma mãe insegura.


Aquela que tenta, que ri e que chora,
que canta cantigas, faz ninho de flores,
é a mesma que erra, acerta, em amor transborda
e agradece aos céus por serem dela as dores.




O Jardineiro


Por todo o tempo esteve ali aquele jardim.
Como tantos, presença melancólica,
impessoal...
Grama aparada, sempre verde,
algumas touceiras de gerânios e taguetes
indiferentes ao fluir das estações...
Flores minguadas e reticentes
teimando em esconder-se de olhos curiosos
e do buliço das crianças.
Até a sequóia, majestosa senhora das alturas,
mantinha-se contida em sua posição
de espera.
Mas um dia chegou o jardineiro
e olhou aquele jardim de perto.
Cuidou de cada planta como se fosse única,
regou-as como só amam os poetas...
E assim, numa linguagem só deles,
o milagre se fez flor:
a quaresmeira tingiu-se de roxo
e as açucenas, há tanto adormecidas,
romperam seus torrões vincados
e bailaram ao sabor do vento.
Sem falar do jasmineiro...
Há! esse transgrediu os limites da modéstia.
Há quem tenha notado a diferença,
(suponho)
e os outros seguirão seu caminho,
alheios aos apelos da cor, do perfume
e do brilho
que só os pássaros conseguirão captar.


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quarta-feira, 19 de maio de 2010

Tom Jobim o mestre da Bossa Nova






Trabalho Inista de

Tom Jobim

Assim nasce um astro de primeira grandeza no universo das artes, destilando sua sensibilidade poética musical para a imortalidade. Capaz de perpetuar a nossa extraordinária Bossa Nova, cantando em bom "Tom" para o mundo ouvir e aplaudir.

Esta biografia do Tom Jobim, com linguagem liberta das fórmulas tradicionais, é muito parecida com o seu comportamento irrequieto e inovador de músico, compositor e poeta das praias de Ipanema. Do talento criativo que falou maravilhado e de forma esplêndida as belezas do Rio de Janeiro e do Brasil em versos e canções.

Recomendo sua leitura com prazer. Mais uma contribuição do site Memória Viva, com o acervo do Bússola Literária.


Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim nasceu em 25 de janeiro de 1927, no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro. Em 1931, ano de nascimento de sua única irmã, Helena, a família se muda para Ipanema. Aos 13 anos inicia seus estudos de piano com Hans Joachim Koellreuter, um jovem alemão que fugira do nazismo. Nesse tempo ele preferia certas aventuras e a prática de esportes. 

No alto de uma pirâmide humana na praia de Ipanema, em 1944, Tom tentou se apoiar no ombro de um amigo. Escorregou no corpo suado e despencou na areia o que resultou numa crônica dor no nervo ciático. “Ipanema perdia um jovem atleta que praticava capoeira, peteca e vôlei de praia, além de atravessar a nado a Lagoa Rodrigo de Freitas” sem dificuldades. Para compensar, estava nascendo para o mundo o mais conhecido e um dos mais respeitados compositores brasileiros.

Em 1946, entra para a Faculdade de Arquitetura, que é abandonada naquele mesmo ano. Em 1949, casa-se com Thereza Hermanny, uma paulista pela qual se apaixonara sete anos antes em Ipanema. No ano seguinte nasce Paulo, primeiro filho do casal. Em junho de 1953 acontece a primeira gravação de suas músicas: Pensando em Você, Faz uma semana (também de João Stockler), na voz de Ernani Filho.

Já em 1954, Dick Farney e Lúcio Alves gravam Tereza da Praia, que se tornou o primeiro sucesso de Tom, em parceria com Billy Blanco. Neste mesmo ano seria lançado o LP Sinfonia do Rio de Janeiro, também em parceria com Billy Blanco e, Tom conheceria Vinícius de Moraes, de quem se tornaria parceiro, dois anos mais tarde, ao musicar a peça Orfeu da Conceição. 

Em agosto de 57, nasce Elizabeth, sua segunda filha. Em 1958, compõe a trilha sonora para o filme Pista de Grama, de Haroldo Costa. A música Eu não existo sem você, de Tom e Vinícius, inédita na época, foi cantada no filme por Elizete Cardoso, com acompanhamento de João Gilberto no violão e Tom ao piano. 

Ainda nesse ano, surgiriam o LP Canção do Amor Demais, em parceria com Vinicíus, tendo João Gilberto ao violão e Elizete Cardoso como cantora; e as gravações de Desafinado e Chega de Saudade, por João Gilberto. Era o grande passo para a Bossa Nova consquistar o mundo.

Em 1962, Tom e Vinícius compõem Garota de Ipanema e, em novembro do mesmo ano acontece o show da Bossa Nova no Carnegie Hall, em New York. É a primeira viagem de Tom ao Estados Unidos. Em menos de 5 anos, em janeiro de 1967, começaria a gravação do LP Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim. A América já havia se rendido a Tom Jobim e à Bossa Nova. 

Nos próximos dez anos sua vida seria uma eterna ida e vinda entre Brasil e Estados Unidos. Em maio 1978 Tom viaja com Ana Beatriz Lontra para New York, em lua de mel. O primeiro filho do casal, terceiro de Tom, João Francisco, nasceria em outubro de 1979. Em março de 1987 nasce sua quarta filha, Maria Luíza Helena. Tom já tem 60 anos.

Tom Jobim morreu no dia 8 dezembro de 1994, no Hospital Mount Sinai, em New York. Já nesta época, eram sete as músicas suas com mais de 1 milhão de execuções nos Estados Unidos (John Lennon e Paul McCartney, os estrangeiros mais tocados no país, tinham 12).



Festival de Cannes só deu Doce Vida, o próximo texto para atender sua expectativa.



Os estigmas da política brasileira não calaram a nossa liberdade de expressão, mas deu de presente os nossos valores como produto de mercado livre. Fez prevalecer à ignorância daqueles que se intitulavam credores de sabedoria e crítica, travestidos sob a pele de um Golias soberbo da literatura mal informada.

Orfeu Negro, brasileiríssimo, não pode representar o Brasil no Festival de Cannes de 1960. Porém, não ficou à margem, sem representatividade. A França abraçou o tabu do racismo hipócrita dos analistas da augusta sabedoria do Itamarati, e aplaudiu o talento dos artistas da nossa Pátria Amada. Pura ironia, não fosse à qualidade da sua trilha sonora, assinada por Tom Jobim e Vinícius de Moraes, que o mundo cantou e cantou e encantou...

Muito interessante artigo assinado por Helder Martins, enviado especial da revista O Cruzeiro em 1960. O jornalista com o seu estilo bem brasileiro não se esqueceu de descrever o comportamento pouco comum dos notáveis do Jet Set do cinema, para a sociedade da época. Trazendo à tona modelos ousados que revolucionaria a moda das criações feitas pelos estilistas, destacando a liberdade nas atitudes do novo segmento inovador das celebridades emergentes que surgiam.


Devo esclarecer que pela data de sua publicação, estão mantidas as regras gramaticais ortográficas da época na sua íntegra.



O Cruzeiro - 4 de junho de 1960
.

Cannes foi só ‘Doce Vida’


Reportagem de HELDER MARTINS(enviado especial de “O Cruzeiro”)
COTE D'AZUR (Via Panair do Brasil)



Chegamos ao fim da primeira semana do XIII Festival Internacional do Cinema, em Cannes. Dos primeiros dias de atividades restaram, no plano das realizações cinematográficas, as discussões em tôrno do filme a Doce Vida , de Frederico Fellini. Êste filme narra, em alguns capítulos sem seqüência e com certo simbolismo, a doce vida da sociedade romana dos nossos dias. 

Trata-se de uma obra magistral, cuja importância pode ser resumida na fórmula que encontrou um crítico: “É ao mesmo tempo o melhor e o pior dos filmes do realizador de La Strada”. As histórias narradas pela câmara de Frederico Fellini, como motivo complementar de debates, junta-se a duração do filme (três horas). Lembrando a projeção de Ben Hur, outra produção demasiado longa, alguém disse: “Êsse XIII Festival de Cinema surgiu sob o signo do gigantismo”. O que é certo é que a obra de Frederico Fellini descongestiona a atmosfera.


Êste ano, os jornalistas brasileiros tiveram uma surprêsa: raros experts e os próprios interessados anunciavam a participação do Brasil no Festival de Cannes. No ano passado, a possibilidade de sermos representados se desfez pouco antes do Festival. Orfeu Negro só pôde ser exibido como produção francesa, segundo deliberação dos velhos críticos do Itamarati que se recusaram a autorizar a sua exibição como filme nacional, conforme se desejava. Mais uma vez prevalecia o tabu do negro. 

Em 1960, não tivemos maiores chances. Já as fotos dos nossos filmes anunciavam um dêsses impertinentes lugares-comuns - um novo Gimba -, com histórias de favelas, a corrupção policial, o sensacionalismo da imprensa, a macumba e quejandos. Salvava-se apenas o interêsse comercial, bem como a boa intenção artística da fita, que os criticos combateram assim mesmo com veemência só igual à falta de inibição dos autores de Cidade Ameaçada.


No plano mundano, registrou-se a tentiva de suicídio (felizmente contrariada) de Perrete Pradier, vedete de Os Celerados. Pensou-se em golpe publicitário, mas a atriz entrou no Hospital de Nice, em estado de coma. Não houve bilhetes para dizê-lo, mas se soube que o gesto derivou de contrariedades sentimentais.


As grandes vedetes do cinema - as que provocam furor e que incendeiam o ambiente do Festival de Cannes - ainda estão por chegar quando redigimos estas notas. Como sempre, anunciou-se a vinda iminente de nomes famosos: Michèle Morgan, Daniel Gelin, Gina Lollobrigida, Brigitte Bardot, Sofia Loren. Quem quiser vê-los, por enquanto, deve consolar-se com os retratos profusamente distribuídos pelas vitrinas das lojas da cidade. 

Ontem, talvez por falta de matéria, um jornal anunciou, sem convicção, a chegada de Sacha Distel, ex-noivo de Brigitte Bardot e uma espécie de Caubi Peixoto francês. Centenas de jovens acorreram às imediações do Hotel Carlton. Foi o maior agrupamento dêste Festival Internacional.


A falta de inspiração chegou até mesmo ao domínio dos tradicionais escândalos, de que é exemplo típico o caso daquele suicídio. Uma agência de Paris resolveu fabricar assunto para reportagens, promovendo festa à beira de uma piscina. Aguardava-se um acontecimento excepcional, tal o mistério com que a anunciavam. 

A atração da reunião consistiu simplesmente em empurrar-se algumas môças dentro d’água, estando elas vestidas... Mais tarde, os organizadores do Festival promoveram um jantar. A parte de espetáculos foi confiada a uma vedete russa, mas não houve animação...


Aconteceu, ainda, o concurso de “Miss” Festival. Reuniu-se sôbre um rochedo uma dezena de biquínis em disponibilidade. Foi eleita (sem discussões maiores) uma bela crioula norte-americana.


Enfim, a parte mundana, a geralmente mais apreciada pelo público e a que faz o prestígio do Festival de Cannes, passou quase despercebida. Há apenas a lembrá-lo furtivas pin-ups posando para fotógrafos (amadores) e alguns senhores idosos, de ar severo e de gravata-borboleta, que à noite passam com jovens starlets para as soirées do Palácio do Cinema.


TOUREIRO DE SAIA NUMA - tourada que um grupo de cavalheiros idealizou à margem do Festival Internacional de Cannes, o touro negou-se a atacar o toureiro. Criou-se sério embaraço, até que a artista norte-americana Tina Louise se decidiu a salvar a tarde mexicana, enfrentando um touro adhoc, protagonizado por um dos fãs franceses em disponibilidade, que se muniu, inclusive (e necessàriamente), de pontiagudos chifres. 

Na foto, a toureira improvisada em plena ação contra o touro, com capa e tudo. Várias pessoas presentes asseguraram que aquela pode não ter sido a tourada mais violenta, todavia foi, sem dúvida alguma, a mais desejável...


À MARGEM - do concurso do Festival de Cannes, Roberto Rosselini fêz projetar uma de suas películas, sôbre a qual buscara convergir o noticiário. “Era Noite em Roma” explora uma história já abordada por outros cineastas: os problemas do após-guerra. Os críticos, unânimemente, proclamaram que o ex-marido de Ingrid Bergman conseguiu, mais uma vez, produzir uma fita de “lentidão soporífera, fria e sem brilho no relato”. Nem mesmo a presença do ator soviético Sérgio Bondartchouk, pela primeira vez integrando um elenco ocidental, conseguiu alterar a monotonia da última produção de Rosselini.

A Argentina seguiu o exemplo (negativo) de RR, pois a fita que a representou no Festival, La Processión, não conseguiu agradar os comentaristas reunidos em Cannes. Coube ao México, entre os países de menor expressão na arte cinematográfica, apresentar a melhor película. Macário, de Roberto Gavaldon, conta a história terna de um lenhador do interior do México, que, um dia, sob as dificuldades financeiras mais terríveis, resolve roubar um peru. A fita é desenvolvida com bom gôsto, tendo uma fotografia excelente.

Macário transformou-se, destarte, numa agradável surprêsa do Festival Internacional de Cannes, projetando de forma marcante a cinematografia mexicana. A fita não alcançou, é óbvio, a repercussão de Doce Vida, tema central dos comentários de Cannes, mas também não recebeu as críticas amargas com que essa película foi contemplada - em meio aos elogios de alguns - por certos cronistas.

Por último, poderíamos destacar, na categoria das pequenas metragens, “Le journal d’un certain David”, de Pierre e Sylviane Jalud, que narra a história de um menino de Copenhague. Fita de grande teor de lirismo, poderá ela, ao final, ser incluída entre as menções honrosas do Festival.


Não obstante, à margem dos espetáculos cinematográficos, Cannes conseguiu manter intatas as suas tradições neste XIII Festival Cinematográfico. As fitas exibidas só em pequeno número terão logrado êxito; muitos dos cartazes anunciados não compareceram; houve a desorganização de sempre; espetáculos marginais foram pobres de técnica ou de imaginação - mas as praias se encheram das belas mulheres de sempre, de pin-ups sensacionais, que podem não entender rigorosamente da Arte Cinematográfica, mas entendem perfeitamente da arte (às vêzes mais difícil) de aprisionar novos e velhos corações.


Fonte: Site Memória Viva
Fotoinipoesia (Poema Imagem) - Da série: Cartão Postal IniBrasil 2010, criação da poeta, artista plástica e fotógrafa Neli Vieira.
Imagens: O Cruzeiro e Google Imagens.



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