domingo, 24 de janeiro de 2010

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A pedido de VEJA, quinze intelectuais escolhem os melhores livros do Brasil 
Veja Cultura – 23/novembro/1994
Por: Rinaldo Gama

Lançado há três meses nos Estados Unidos, o livro Cânone Ocidental, do intelectual americano Harold Bloom, tem uma proposta ambiciosa: listar os livros mais importantes da história da cultura deste lado do mundo. O livro de Bloom aponta 26 autores que, segundo ele, seriam o supra-sumo literário. Apenas um nome de língua portuguesa conseguiu seu lugar entre os 26, o poeta Fernando Pessoa, que faz companhia a William Shakespeare e Marcel Proust. No fim do livro, Bloom aponta outros 824 escritores que, mesmo abaixo do primeiro escalão, também produziram obras cujo valor considera eterno. Um brasileiro conseguiu ingressar nessa segunda seleção, Carlos Drummond de Andrade. Não é pouca coisa. Bloom colocou Drummond na mesma faixa que o alemão Thomas Mann e o russo Fyodor Dostoievsky. O Cânone Ocidental já vendeu 10.000 exemplares nos Estados Unidos e deve sair no Brasil no ano que vem (1995), pela editora Objetiva.

Discutível como todas as listas de melhores em qualquer atividade humana, tanto na escolha dos melhores filmes de todos os tempos como na escalação da melhor seleção de futebol, o esforço de Bloom tem uma utilidade indiscutível. Abre uma polêmica sobre obras e autores, entre o que tem valor e aquilo que é fútil, o descartável e o duradouro. "Pode ser uma arte em extinção a de ler atentamente, com amor, com a emoção de ver como o texto se desdobra", diz Bloom. "Mas todo mundo tem ou deveria ter uma lista de obras que lhe serviriam de companhia numa ilha deserta." Com esse mesmo espírito, VEJA montou um cânone brasileiro. Para tanto, solicitou a quinze dentre os intelectuais de porte do país que fizessem uma lista das vinte obras mais representativas da cultura brasileira, em todos os setores e em todas as épocas. Dessa forma, chegou-se a um cânone de 22 obras. Além dos intelectuais cuja lista de vinte obras é publicada na íntegra, VEJA também ouviu o antropólogo e senador Darcy Ribeiro, o historiador José Murilo de Carvalho; o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos: e o
crítico literário Fábio Lucas.


                                                                                              
1) - Os Sertões - Votos: 15
2) - Casa-Grande & Senzala - Votos: 14
3) - Grande Sertão: Veredas - Votos: 13
4) - Macunaíma - Votos: 11
5) - Dom Casmurro - Votos: 8
6) - Raízes do Brasil - Votos: 8
7) - Memórias Póstumas de Brás Cubas - Votos: 7
8) - Vidas Secas - Votos: 6
9) - Um Estadista do Império - Votos: 6
10) -Formação da Literatura Brasileira - Votos: 5
11) - O Tempo e o Vento - Votos: 5
12) - Fogo Morto - Votos: 5
13) - Formação Econômica do Brasil - Votos: 5
14) - Gregório de Matos - Votos: 5
15) - Os Donos do Poder - Votos: 4
16) - Triste Fim de Policarpo Quaresma - Votos: 4
17) - Formação do Brasil Contemporâneo - Votos: 4
18) - Os Donos do Poder - Votos: 4
19) - Iracema - Votos: 4
20) - Gabriela, Cravo e Canela - Votos: 4
21) - Carlos Drummond de Andrade - Votos: 4
22) - Manuel Bandeira - Votos: 4


ADULTÉRIO E CANUDOS – O cânone brasileiro consagra um autor, Machado de Assis, lembrado por todos os ouvidos. Ele é o único a figurar na lista com duas obras: Dom Casmurro (1899) e Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881). Seus livros só não chegaram em primeiro lugar porque os votantes discordam sobre qual seria o melhor. Além dos que entraram no cânone, Machado também recebeu votos por Quincas Borba e O Alienista. O reconhecimento de Machado não chega a ser uma surpresa. Basta ler ou reler uma de suas obras principais. O que dizer de Dom Casmurro? Que é a maior história de um adultério jamais escrita em qualquer época? Que ali se reúnem os personagens mais bem definidos psicologicamente de toda a literatura nacional? Memórias Póstumas também desafia a coleção de adjetivos do idioma. O que pode haver de mais desconcertante do que um morto contando sua própria vida, começando pela descrição de seu próprio enterro? Ou do que um capítulo onde uma conversa entre Brás Cubas e sua paixão, Vigília, se resume a pontinhos, exclamações e interrogações?

Como obra isolada, o campeão de indicações foi Os Sertões, de Euclides da Cunha, com quinze votos. Repórter, Euclides da Cunha seguiu para Canudos em 1897, impressionado com as seguidas derrotas das forças do governo frente aos jagunços liderados pelo místico Antonio Conselheiro. Organizado bem de acordo com a filosofia positivista, em voga na época, Os Sertões é um livro rico em informações científicas, imagens bem construídas e narrativa eficaz. Até hoje os leitores de Euclides não esquecem alguns trechos, como a constatação definitiva: "Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a História, resistiu até ao esgotamento completo".

Entre os 22 do cânone, há onze romances, três livros de poesia e oito obras de não-ficção. Cento e cinqüenta e dois livros foram lembrados, dos quais 112 tiveram apenas uma indicação. O cânone não é jovem. Desconsiderando as Poesias Completas de Carlos Drummond de Andrade, que incluem obras de 1930 até 1987. O livro mais novo da lista é Formação Econômica do Brasil, de Celso Furtado, o único entre os votantes a figurar no cânone. Foi lançado em 1960, ou seja, há 34 anos. O autor mais antigo é Gregório de Matos, que viveu no século XVII. O cânone também tem apenas quatro autores vivos. Além de Furtado, de 74 anos estão nele o jurista Raymundo Faoro, 69 anos, autor de Os Donos do Poder, Antonio Candido, que escreveu Formação da Literatura Brasileira e tem 76 anos; e Jorge Amado, de 82, que figura na lista com Gabriela. A idade média dos intelectuais consultados beira os 66 anos. O mais jovem é João Ubaldo Ribeiro, de 53 anos. Os mais velhos Josué: Montello e Roberto Campos, já completaram 77.

Com treze indicações, mais do que qualquer obra de Machado tomada de forma isolada, as 538 páginas de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, apresentam aquela que talvez seja a criação mais original que a literatura brasileira já produziu. Lançado em 1956. O livro conta, num texto caudaloso, que despreza o recurso da narração em capítulos, a fabulosa história de Riobaldo, um ex-jagunço do norte de Minas Gerais. Fazendeiro pacato, vivendo às margens do São Francisco, Riobaldo narra histórias de perseguição, violência e vingança, mas, sobretudo a desventura de seu amor por Diadorim - que ele conhecera como Reinaldo e só com sua morte fica sabendo que se tratava de uma mulher.

ALEGORIA E VERSOS – As maiores qualidades de Macunaíma (1928), de Mário de Andrade, e Triste Fim de Policarpo Quaresma (1915), de Lima Barreto, são outras. Ambos se batem na questão da nacionalidade. Macunaíma, o "herói sem nenhum caráter", retrata, nas palavras do próprio Mário, "uma alegoria dos destinos do Brasil". Já o major Quaresma, senhor das riquezas do país, é tido como louco ao propor que o tupi seja adotado como idioma oficial em lugar do português. A ironia é evidente. Estruturado a partir de contos independentes e harmônicos, que encadeados formam um dos melhores romances já escritos no idioma, Vidas Secas é uma lição de como se deve contar urna história. É econômico, contundente e, como poucos, impecável na combinação entre o que narra e a forma de narrar à secura da vida de Fabiano e os seus se acopla a linguagem depurada de Graciliano.

Fogo Morto é uma síntese da obra de Lins do Rego, o mais acabado testemunho literário sobre a agonia do Brasil dos engenhos do Nordeste. Gabriela romance de costumes ambientado em Ilhéus e narrado numa linguagem que prima pela agilidade, desenvolve-se em dois planos: o das disputas políticas e o do amor, em especial do sírio Nacib pela fogosa personagem-título. Já O Tempo e o Vento é uma ambiciosa trilogia do escritor gaúcho Érico Veríssimo, iniciada em 1949 e concluída em 1962. Através da saga da família Terra-Cambará, Veríssimo conta a História do Rio Grande do Sul. Como ciclo romanesco é insuperável no Brasil e produziu pelo menos um personagem inesquecível, o capitão Rodrigo.

Iracema (1865) de José de Alencar, é, no fundo, um poema em prosa, como já observara Machado de Assis. O livro, composto de capítulos curtos e linguagem bem trabalhada. Vocabulário rico e imagens românticas, conta de forma lírica a história da personagem-título e de seu amor pelo branco Martim. O Ateneu (1888), de Raul Pompéia, é uma espécie de "romance de formação" de um adolescente. O jovem é Sérgio, que vive num internato e tem traços autobiográficos. A poesia aparece no cânone em três volumes de obras completas: de Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e Gregório de Matos. No caso dos dois primeiros, que publicaram livros em vida, a indicação das Poesias Completas foi justificada pelos votantes com o argumento de que temiam privilegiar apenas uma fase dos autores em detrimento de outra.

Celso Furtado – Economista e ex-ministro do Planejamento: Dom Casmurro de Machado de Assis; O Guarani de José de Alencar; Vidas Secas de Graciliano Ramos; Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa; Gabriela, Cravo e Canela de Jorge Amado; Meninos de Engenho de José Lins do Rego; Macunaíma de Mário de Andrade; O Ateneu de Raul Pompéia; Quarup de Antonio Callado; O Lustre de Clarice Lispector; Casa-Grande & Senzala de Gilberto Freyre; Os Sertões de Euclides da Cunha; Minha Formação de Joaquim Nabuco; Raízes do Brasil de Sérgio Buarque de Holanda; Formação do Brasil Contemporâneo de Caio Prado Júnior; Formação da Literatura Brasileira de Antonio Candido; Aves do Brasil de Augusto Ruschi; Oscar Niemeyer de Oscar Niemeyer; Exposição aos Credores de Visconde de Mauá; Fluxo e Refluxo de Pierre Vergé.

Wilson Martins – Crítico literário: A Cultura Brasileira de Fernando de Azevedo; Quincas Borba de Machado de Assis; Formação da Literatura Brasileira de Antonio Candido; O Guarani de José de Alencar; Os Sertões de Euclides da Cunha; Casa-Grande & Senzala de Gilberto Freyre; Dom João VI no Brasil de Manuel de Oliveira Lima; Primeiros Cantos de Gonçalves Dias; Contribuição à História das Idéias no Brasil de Cruz Costa; A Literatura no Brasil de Afrânio Coutinho; Rio Branco de Álvaro Lins; História do Positivismo no Brasil de Ivan Lins; História da Inteligência Brasileira de Wilson Martins; Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro de Andrade Murici; Um Estadista do Império de Joaquim Nabuco; O Livro, o Jornal e Tipografia no Brasil de Carlos Rizzini; História da Literatura Brasileira de Sílvio Romero; A Rosa do Povo de Carlos Drummond de Andrade; Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa; Populações Meridionais do Brasil de Oliveira Vianna.

Alfredo Bosi – Professor de literatura, ensaísta e crítico literário: Poesias Completas de Gregório de Matos; O Uruguai de Basílio da Gama; Poesias Completas de Gonçalves Dias; Iracema de José de Alencar; Dom Casmurro de Machado de Assis; O Abolicionismo de Joaquim Nabuco; O Ateneu de Raul Pompéia; Os Sertões de Euclides da Cunha; Triste Fim de Policarpo Quaresma de Lima Barreto; Macunaíma de Mário de Andrade; Vidas Secas de Graciliano Ramos; Fogo Morto de José Lins do Rego; Formação do Brasil Contemporâneo de Caio Prado Júnior; Formação da Literatura Brasileira de Antonio Candido; Casa-Grande & Senzala de Gilberto Freyre; Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa; Poesias Completas de Carlos Drummond de Andrade; Poesias Completas de Manuel Bandeira; Laços de Família de Clarice Lispector; O Escravismo Colonial de Jacob Gorender.

"HOMEM CORDIAL" – Entre os ensaios, o cânone publicado por VEJA apresenta obras-chave, três delas publicadas num espaço inferior a dez anos que, verifica-se agora, concentrou um período riquíssimo da cultura brasileira: Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, de 1933; Raízes do Brasil. de Sérgio Buarque de Holanda, de 1936; e Formação do Brasil Contemporâneo, de Caio Prado Júnior, de 1942. Mais bem-sucedido arquiteto daquela visão do Brasil como um país diferente dos demais, onde as diferenças de cor e classe social sempre se harmonizaram com benefícios para ambas as partes, Gilberto Freyre fez uma obra que é, acima de tudo, muito agradável de ler.

Partindo da ideia de que "somos ainda hoje uns desterrados, em nossa terra", uma vez que as instituições brasileiras nasceram de sementes trazidas "de países distantes de nossas formas de convívio", Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil, explora o conceito de "homem cordial", a síntese do perfil do caráter do brasileiro. "A lhaneza no trato, a hospitalidade, a generosidade representa, com efeito, um traço definido do caráter brasileiro na medida ao menos em que permanece ativa e fecunda a influência ancestral dos padrões de convívio humano, informados no meio rural e patriarcal", escreve Buarque de Holanda.

DIDATISMO – Ler Formação do Brasil Contemporâneo, de Caio Prado Júnior, é entrar em contato com a obra mais importante de um dos raros intelectuais marxistas; de porte do país. No livro, Prado Júnior expõe uma visão pioneira, a época, do peso da colonização na constituição da nação e mostra, com brilho que permanece atual em vários momentos, que "os problemas brasileiros de hoje, os fundamentais, pode-se dizer que já estavam definidos e postos em equação há 150 anos".

Escrito com o propósito de ser "tão-somente um esboço do processo histórico de formação da economia brasileira", o livro Formação Econômica do Brasil, de Celso Furtado, tem uma qualidade rara em obras dessa área: a clareza. Em menos de 250 páginas, Furtado traz à tona mais de quatro séculos de história econômica do país. É de longe, a introdução mais didática e influente que se escreveu sobre o tema. Num espírito semelhante, Raymundo Faoro publicou em 1958 os dois volumes de Os Donos do Poder. Neles, repassa a formação sociopolítica do país, das origens do Estado Português até Getúlio Vargas. A prosa é difícil, tortuosa, mas o resultado final é um insuperável retrato do comportamento daqueles que, ao longo dos séculos se tomaram e reproduziram como, justamente, "os donos do poder".

Em Formação da Literatura Brasileira, de Antonio Candido, há um esforço notável em harmonizar duas visões dispares que em geral caracterizam ensaios desse tipo: a que se apóia na evolução histórica e aquela que privilegia os experimentos formais. Encerra o cânone uma biografia Um Estadista do Império, livro que Joaquim Nabuco escreveu sobre seu pai, senador José Thomaz Nabuco de Araujo. De todas as obras do cânone, é a única que saiu de catálogo e não se encontra disponível nas livrarias.

João Ubado Ribeiro – Escritor, membro da Academia Brasileira de Letras: Sermões de Antônio Vieira; Formação do Brasil Contemporâneo de Caio Prado; Espumas Flutuantes de Castro Alves; Romanceiro da Inconfidência de Cecília Meireles; O Tempo e o Vento de Érico Veríssimo; Os Sertões de Euclides da Cunha; Casa-Grande & Senzala de Gilberto Freyre; Vidas Secas de Graciliano Ramos; Poesias Completas de Gregório de Matos; Grande Sertão Veredas de Guimarães Rosa; Terceira Feira de João Cabral de Melo Neto; Ensaios de João Ribeiro; Mar Morto de Jorge Amado; Invenção de Orfeu de Jorge de Lima; Iracema de José de Alencar; Triste Fim de Policarpo Quaresma de Lima Barreto; Dom Casmurro de Machado de Assis. Macunaíma de Mário de Andrade. Obra Infantil de Monteiro Lobato. Raízes do Brasil de Sérgio Buarque de Holanda.

Roberto Campos – Economista e ex-ministro do Planejamento (1964-1967): Casa-Grande & Senzala de Gilberto Freyre; Os Sertões de Euclides da Cunha; Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis; Grande Sertão Veredas de Guimarães Rosa; Ensaios Analíticos de Mario Henrique Simonsen; Formação Econômica do Brasil de Celso Furtado; Liberalismo Antigo e Moderno de José Guilherme Merquior; Um Estadista do Império de Joaquim Nabuco; Instituições Políticas Brasileiras de Oliveira Vianna; História da Literatura Brasileira de Sílvio Romero; História da Inteligência Brasileira de Wilson Martins; Raízes do Brasil de Sérgio Buarque de Holanda; Os Donos do Poder de Raymundo Faoro; Filosofia do Direito de Miguel Reale; Princípios de Economia Monetária de Eugênio Gudin; Comentários ao Código Civil de Pontes de Miranda; Poesias Completas de Gregório de Matos; Cartas da Inglaterra de Rui Barbosa; O Índio Brasileiro e a Revolução Francesa de Afonso Arinos; Poesias Completas de Carlos Drummond de Andrade.

José Paulo Paes – Poeta e tradutor: Poesias Completas de Gregório de Matos; Marília de Dirceu de Tomás Antônio Gonzaga; Memórias de um Sargento de Milícias de Manuel Antônio de Almeida; Os Escravos de Castro Alves; O Cortiço de Áluísio Azevedo; Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis; Dom Casmurro de Machado de Assis; Os Sertões de Euclides da Cunha; Eu de Augusto dos Anjos; Triste Fim de Policarpo Quaresma de Lima Barreto; Macunaíma de Mário de Andrade; A Saga do Sítio do Pica-pau Amarelo de Monteiro Lobato; Fogo Morto de José Lins do Rego; Vidas Secas de Graciliano Ramos; Poesias Completas de Manuel Bandeira; Poesias Completas de Carlos Drummond de Andrade; Casa-Grande & Senzala de Gilberto Freyre; Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa; O Tempo e o Vento de Érico Veríssimo; Gabriela, Cravo e Canela de Jorge Amado.

RURAL X URBANO – Um primeiro exame da lista mostra que ali está representado apenas um pedaço do Brasil. Isso porque o Brasil do cânone é muito mais rural do que urbano. Lá está o grande sertão, os sertões, as vidas secas. Mas não há grandes espaços para o Brasil urbano. Uma explicação é histórica. O Brasil de hoje é um país urbano, mas foi no campo que se forjaram os veios mais ricos e permanentes de sua cultura. "O Brasil passou quatro séculos voltado para o campo. Nosso processo de urbanização e industrialização teve início há apenas cinqüenta anos. É natural que a reflexão sobre esse passado domine as preocupações dos intelectuais e tivesse gerado, por exemplo, o mundo de um Guimarães Rosa", explica Alfredo Bosi, professor da Universidade de São Paulo. A explicação faz nexo, mas também envolve uma questão de opinião. Clarice Lispector recebeu apenas três votos, insuficientes para colocá-la na lista. Será que sua obra não é superior à de José Lins do Rego?

O Brasil que a lista revela tem um aspecto semelhante ao país de todos os dias. que trouxe à teoria, mais uma vez, o debate em tomo da questão de sua identidade como nação. Dos 22 livros destacados, essa preocupação aparece em nove obras: Os Sertões, Casa Grande & Senzala. Raízes do Brasil, Formação do Brasil Contemporâneo, Formação Econômica do Brasil, Formação da Literatura Brasileira, Os Donos do Poder, Macunaíma e Triste Fim de Policarpo Quaresma. "Se uma pesquisa como essa fosse feita num país de identidade cultural solidificada, como a França, por exemplo, ninguém incluiria no cânone nenhum livro do tipo Formação da Literatura Francesa, a não ser que ele tivesse sido escrito por Charles Baudelaire - e aí entraria pela força do autor, e nunca por seu caráter canônico", raciocina o professor da PUC, de São Paulo, e editor Arthur Nestrovskí. "No fundo, se eu tivesse de definir o caráter do homem brasileiro, eu diria que se trata não do 'homem cordial', mas do 'homem inseguro' uma insegurança que nasce justamente dessa incerteza quanto ao que ele é-, diz o poeta Ferreira Gullar.


Lembrando que apenas um dos 22 livros não se encontra em livrarias, irias apenas em sebos, é lícito afirmar que o cânone está composto de obras que têm sido lida pelos brasileiros com tempo e gosto para isso. Como catorze dos 22 livros do cânone são obras de ficção ou poesia, é certo que boa parte de sua popularidade esteja relacionada, à escola ou aos exames vestibulares. É verdade que nenhuma das treze obras de literatura brasileira que integram a lista do vestibular da Fuvest, o principal do país, neste ano, aparece no cânone. Ocorre, porém, que a Fuvest estabelecem agora uma lista de 131 livros, de literatura portuguesa e brasileira, dos quais se escolherá a cada ano de oito a doze obras, que cairão no exame vestibular. De um ano para outro, de quatro a seis livros serão trocados.

A idéia da comissão que escolhe as obras é estimular a leitura de um maior número de livros. Naturalmente, da lista primária de 131 obras fazem parte os catorze livros de ficção ou poesia que aparecem no cânone. Já a lista de livros que cairão no vestibular deste ano da PUC de São Paulo contempla sete obras, de um total de onze, que se encontram no cânone. As listas de vestibular refletem, em certa medida. o que o aluno lê no 2º grau. O currículo do colegial da rede pública carioca privilegia várias das obras do cânone. Neste ano, os alunos do Colégio Estadual André Maurois, por exemplo, do Leblon, Zona Sul do Rio, leram Vidas Secas e trechos de Os Sertões, além de entrar em contato com a obra de Guimarães Rosa e Lima Barreto através de contos. Já os alunos do 2º grau do Centro Educacional Anísio Teixeira Ceat, uma escola particular do centro do Rio, leram três obras do cânone: Memórias Póstumas de Brás Cubas, Macunaíma e Triste Fim de Policarpo Quaresma.

Ferreira Gullar – Poeta: Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis; Iracema de José de Alencar; Os Sertões de Euclides da Cunha; Últimos Cantos de Gonçalves Dias; Eu de Augusto dos Anjos; Macunaíma de Mário de Andrade; Vidas Secas de Graciliano Ramos; Fogo Morto de José Lins do Rego; Gabriela, Cravo e Canela de Jorge Amado; Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa; Laços de Família de Clarice Lispector; Libertinagem de Manuel Bandeira; A Rosa do Povo de Carlos Drummond de Andrade; Poesia Liberdade de Murilo Mendes; Duas Águas de João Cabral de Melo Neto; Vestido de Noiva de Nelson Rodrigues; O Pagador de Promessas de Dias Gomes; Formação Histórica do Brasil de Nelson Werneck Sodré; Raízes do Brasil de Sérgio Buarque de Holanda; O Cobrador Rubem Fonseca.

Francisco Iglésias – Historiador: O Brasil na História de Manuel Bonfim; História Concisa da Literatura Brasileira de Alfredo Bosi; Formação da Literatura Brasileira de Antonio Candido; Os Sertões de Euclides da Cunha; Os Donos do Poder de Raymundo Faoro; A Revolução Burguesa no Brasil de Florestan Fernandes; Casa-Grande & Senzala de Gilberto Freyre; Formação Econômica do Brasil de Celso Furtado; Raízes do Brasil de Sérgio Buarque de Holanda; Coronelismo, Enxada e Voto de Vitor Nunes Leal; Macunaíma de Mário de Andrade; Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa. Um Estadista do Império de Joaquim Nabuco; Consciência e Realidade Nacional de Álvaro Vieira Pinto; Formação do Brasil Contemporâneo de Caio Prado Jr.; Aspirações Nacionais de José Honório Rodrigues; Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis; A Política Geral do Brasil de José Maria dos Santos; Introdução à Revolução Brasileira de Nelson Werneck Sodré; O Tempo e o Vento de Érico Verísssimo.

Roberto DaMatta – Antropólogo: O Alienista de Machado de Assis; Os bruzundangas de Lima Barreto; Gabriela, Cravo e Canela de Jorge Amado. Sagarana de Guimarães Rosa; Gato Preto em Campo de Neve de Érico Veríssimo; Formação Econômica do Brasil de Celso Furtado; Os Sertões de Euclides da Cunha; Casa-Grande & Senzala de Gilberto Freyre; Raízes do Brasil de Sérgio Buarque de Holanda; Bandeirantes e Pioneiros de Viana Moog; Dialética da Malandragem de Antonio Candido; O Messianismo no Brasil e no Mundo de Maria Isaura de Queiroz; O Negro no Mundo dos Brancos de Florestan Fernandes; Tanto Preto Quanto Branco de Oracy Nogueira; Da Monarquia a República de Emília Viotti da Costa; Capitalismo Autoritário e Campesinato de Otávio Velho; Quarto de Despejo de Carolina de Jesus; Brasil aos Trancos e Barrancos de Darcy Ribeiro; A Vida como Ela É de Nelson Rodrigues; Macunaíma de Mário de Andrade.

AVES – A compreensão do que seria importante para a cultura do país variou muito de um para outro intelectual. Com isso, as listas individuais estão repletas de obras desconhecidas da imensa maioria do público e de outras que chamam a atenção pelo inusitado da escolha. Na seleção de Celso Furtado, por exemplo, aparece o livro Aves do Brasil, de Augusto Ruschi - o naturalista que, ironicamente, morreu envenenado por um sapo em 1986. Na lógica de Furtado, a inclusão de Aves do Brasil faz todo o sentido. "Não é possível que alguém que queira conhecer o país através de livros não leia nada sobre fauna ou flora brasileira, que são tão importantes em nossa cultura", ele explica. O mesmo critério levou Furtado a incluir em sua lista a autobiografia de Oscar Niemeyer. Ele foi o único a votar nessa obra. Roberto Campos votou em Comentários ao Código Penal, de Pontes de Miranda, um clássico dos estudos de Direito, "que marcou diversas gerações".

Quem se dispuser a comprar os livros do cânone disponíveis em livrarias irá desembolsar 530 reais. Obedecendo a um ritmo razoável, de 25 páginas por dia, levará cerca de um ano e meio para desincumbir-se da tarefa de ler as 22 obras da lista. Há várias formas para se enfrentar a empreitada. A exemplo do que recomendam os professores de cursinho, uma das maneiras possíveis é começar pelas leituras ficcionais mais leves, como Gabriela Cravo e Canela. Nesse método, ensaios densos e caudalosos, como Casa-Grande & Senzala, seriam deixados para o final da leitura.

Outra maneira de se empreender a leitura é seguir justamente o contrário, ou seja, começar pelos ensaios para depois se dedicar à ficção. "O leitor deve começar por Formação do Brasil Contemporâneo, que fornece um primeiro panorama da cultura brasileira num estilo claro e nada personalista", recomenda Antonio Medina Rodrigues, professor de Literatura da Universidade de São Paulo. Por último, Mediria recomenda a leitura de Drummond, que considera "a síntese mais fina e profunda da cultura brasileira".

Josué Montello – Escritor, presidente da Academia Brasileira: Poesias Completas de Gregório de Matos; Marília de Dirceu de Tomás Antônio Gonzaga; Cantos de Gonçalves Dias; Espumas Flutuantes de Castro Alves; Os Sertões de Euclides da Cunha; Memórias de um Sargento de Milícias de Manuel Antônio de Almeida; Broquéis de Cruz e Sousa; Um Estadista do Império de Joaquim Nabuco; Jornal de Timon de João Francisco Lisboa; Dom Casmurro de Machado de Assis; Casa-Grande & Senzala de Gilberto Freyre; Lira dos Cinquet'Anos de Manuel Bandeira; Fogo Morto de José Lins do Rego; O Tempo e o Vento de Érico Veríssimo; Segredos da Infância de Augusto Meyer; Os Velhos Marinheiros de Jorge Amado; Macunaíma de Mário de Andrade; Morte e Vida Severina de João Cabral de Melo Neto; Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa; Os Donos do Poder de Raymundo Faoro.

Luís Costa Lima – Professor de literatura e ensaísta: Iracema de José de Alencar; Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis; Quincas Borba de Machado de Assis; Um Estadista do Império de Joaquim Nabuco; Os Sertões de Euclides da Cunha; Casa-Grande & Senzala de Gilberto Freyre; Instituições Políticas Brasileiras de Oliveira Vianna; A América Latina de Manoel Bonfim; Macunaíma de Mário de Andrade; Memórias Sentimentais de João Miramar de Oswald de Andrade; Serafim Ponte Grande de Oswald de Andrade; Libertinagem de Manuel Bandeira; Sentimento do Mundo de Carlos Drummond de Andrade; Poesia Liberdade de Murilo Mendes; A Educação pela Pedra de João Cabral de Melo Neto; Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa. Angústia de Graciliano Ramos; Menina Morta de Cornélio Pena; Visão do Paraíso de Sérgio Buarque de Holanda; Triste Fim de Policarpo Quaresma de Lima Barreto.


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Imagens: Internet, Fotosearch


sábado, 16 de janeiro de 2010

Diário de um delirante.

Texto (crônica) enviado pelo biólogo
e agora também se dedicando a escrever
Pedro Henrique Baima Paiva.
Eu recomendo.


Eu tinha apenas 12 anos a primeira vez que vi o jardim. Meus pais sempre visitavam aquele país da América do Sul. Um país exótico e ensolarado com pessoas risonhas que caminhavam puxando seus carrinhos de compras e conversavam entre sonoras gargalhadas. Para um garoto acostumado com o gelo como eu aquele matiz de cores proporcionado pelos raios do sol impressionava muito. Na ultima vez que voltamos juntos, porém, um trágico acidente marcou nossas vidas para sempre, e a minha talvez mais que a de todos. Voávamos há horas e nosso destino já se agigantava no horizonte quando uma estranha descarga elétrica acertou o avião que em pane despencou do céu em um espiral de fumaça e terror. O fogo foi visto primeiro, depois escutamos as explosões, três ao que me lembro, e na última delas senti meu corpo ser agarrado e jogado para fora do aparelho. Tudo aconteceu muito rápido e a partir de agora leitor, desconfie dos fatos extraordinários que vou contar, pois até para mim parecem invenções de uma mente perturbada pelo medo e desespero frente à morte eminente. Minhas lembranças da queda em si são muito confusas, pois em meu delirante salto para o chão um arquipélago me esperava para esborrachar, mas isso não aconteceu e eu acordei em cima de uma folhagem tão densa que tive que deixar meu casaco para me livrar dos galhos torcidos que com um efeito de molas amorteceram meu impacto fatal. Caminhei alguns minutos, mas não tinha nem sinal do local onde o avião havia caído, onde provavelmente era agora o túmulo dos meus pais. Desesperado e com sede sentei na sombra de uma flamejante árvore de troncos retorcidos e flores com pétalas vermelhas como o fogo, de sua copa caiam grandes capsulas onde amadureciam suas sementes. Em seus galhos pássaros multicoloridos saracoteavam como num jantar de comadres. Eles não estavam sozinhos, ao pé de outra grande árvore próxima a mim, agora se destacavam entre as folhas secas serpentes rajadas que brilhavam como uma pulseira de brilhantes. Lagartos, insetos, mamíferos; era uma inimaginável reunião de animais que parecia insana para mim. Entre cores e cantos entoava uma bela melodia e o vento trazia a mais deliciosa combinação de aromas que meu nariz nórdico havia alguma vez experimentado. Como em uma dança selvagem, todos os animais seguiam em fila indiana para um aglomerado de rochas próximo e com batidas ritmadas produzidas por seus pés no chão eles pareciam dançar uma coreografia animalesca. O ambiente mágico que se fez em minha volta camuflou o motivo de eu estar ali e me despertou uma sensação que não posso com palavras explicar. Ao que parece, logo estava eu naquela fila medonha de animais dançando aquele espécie de mantra produzido pela soma de todos os sons em minha volta juntos. O clímax daquela sandice produzida pela minha mente em choque parecia se aproximar quando um gambá com uma longa calda e pelos brancos em cima dos olhos se levantou em duas patas e como um cortesão recebeu todos ali com uma longa e engraçada reverência. Com a mão esquerda estendida nos encaminhou para uma fenda na rocha que eu ainda não havia reparado. Era como um grande portão sólido adornado com inscrições entalhadas na pedra. Não sei que língua era aquela, mas seus símbolos pareciam reluzir à luz do sol e combinavam como uma senha mágica que se repetia como luzes de natal. Ainda em fila, fomos todos adentrando aquelas rochas. Naquele momento eu já não sabia se estava sonhando ou estava realmente ali com todos aqueles bichos. Na minha frente, um grande macaco dava o ritmo fazendo um som grave com sua garganta no compasso daquela canção. Perto dele um sapo preenchia o som com seu coaxar e mais adiante besouros tremiam suas asas dando um efeito especial à música, todos ali participavam de alguma forma. Lá dentro, senhoras e senhores, o fantástico saltava aos olhos, pois cercado pelas pedras monumentais, nada mais havia ali, senão o mais maravilhoso jardim conhecido na Terra. Uma aquarela de cores se espalhava por uma vasta área, meu Deus como era enorme, meus olhos se encheram de imagens de árvores antigas como aquela própria ilha esquecida no oceano. Frutas nunca vistas antes pendiam dos galhos fartamente abastecidos. No meio daquele vale corria um límpido rio, de águas calmas que só se agitavam com o fuzuê dos bichos que se refrescavam em suas margens. A vida ali era tranquila, estava refletido nos olhos de todos. As flores espalhadas por todos os lados se exibiam ainda com as gotas do orvalho sobre suas corolas reluzentes. Em volta de uma majestosa cachoeira vários animais se reuniam, eram tamanduás, macacos, patos e ao que parece, até uma onça pintada, que como conchas usavam as duas mãos para derramarem aquela água sobre suas cabeças e depois como se brincassem todos juntos, molhavam-se e mergulhavam diante daquele véu de noivas formado pelas águas e a espuma daquela maravilhosa queda d’água. Revoadas de pássaros faziam uma bela apresentação no céu que parecia uma pintura de tão azul e com poucas nuvens que flutuavam aqui e acolá. Antes de caminhar em direção a cachoeira onde uma reunião se formava me ajoelhei na margem do rio e sorvi um delicioso bocado daquela água que me revigorou o espírito. Senti uma estranha sensação percorrer meu corpo como se sob efeito de algum elixir sobrenatural que dá energia e uma inexplicável paz no coração. Não resisti e em gargalhadas e muita felicidade pulei dentro do rio e me banhei feito criança que era. Depois de um tempo que não sei precisar, sai dali e percebi que os animais faziam mais uma vez uma fila, mas agora de volta ao portão em que entramos. Perto da cachoeira, a reunião de animais começava a se desfazer quando eu vi entre corpos aquele anjo penetrar uma caverna escondida por de trás das águas; não sem antes dar uma olhadela para trás e com um sorriso carinhoso se despedir de todos que ali estavam reunidos. Só a vi por alguns segundos, mas posso descrever que não existia ali nenhuma criatura que imitasse sua beleza. Com uma pele branca como o leite seu lindo corpo formava uma silhueta perfeita, longos cabelos negros e encaracolados lhe caiam sobre os ombros e seus olhos eram cheios de paz, ternura e amor. Extasiado com tamanha beleza não consegui mover um músculo do meu corpo. Depois disso não me lembro de mais nada. Quando abri meus olhos já estava na cama de um hospital, onde mais tarde fiquei sabendo que estavam também meus pais, vivos. Muitos anos depois li em um livro velho a história de uma rainha que um dia construiu um lindo jardim, e por conta da ganância e cobiça dos homens que o queria para eles, ela e seu jardim um dia sumiram diante dos olhos de todos como mágica. Antes de se dissipar no ar, a rainha jurou que o precioso jardim nunca seria descoberto pelo homem, pois o segredo para achá-lo há muito tempo havia sido perdido; o amor e respeito pela natureza.


Imagens: Fotosearch


quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Ambição, o destino de uma raridade. - Última Parte.











O vaso mais caro do mundo é um vaso de porcelana feito no século 14, no período Hongwu da dinastia Ming. Ornado com flores ele tem uma forma extraordinariamente rara para o período o que elevou seu valor a 10,9 milhões de dólares, pago por um milionário dono de um cassino.



Era quase noitinha quando Gustave recebeu um telefonema pelo celular justamente da polícia, informando-lhe de que um corpo fora encontrado nas imediações do rio Magnan com as características de quem procurava. Imediatamente em companhia de Sthéfhanie seguiu para o necrotério confirmando a suspeita, o corpo pertencia realmente a Olivier Maillard.

Permaneceram em Nice por mais dois dias em incansáveis buscas por resultados que os levassem aos criminosos, como nada se modificou, retornaram à Paris deixando a polícia local encarregada de continuar com as investigações. Quanto aos dois Radulfo e Morgana, potenciais responsáveis nenhuma novidade. Tudo indicava que não se encontravam mais por aquelas bandas.

Ao chegarem à Paris depois das acomodações, cada um em sua casa e resolver algumas necessidades pertinentes ao caso, Gustave procurou Jean-Mari para uma conversa imprescindível. Quando foi informado através do genro de Pierre François, que um funcionário do Louvre havia ouvido sem intenção uma conversa pelo telefone do Sr. Alain Dubreuil, dizendo ao seu interlocutor de maneira suspeita extremamente exaltado, de que já havia se encarregado do sumiço do piloto Olivier. Preocupado com aquela atitude insana, ligou imediatamente na tentativa de avisá-lo dos riscos de morte de que estaria sujeito, devendo tomar muito cuidado e se possível retornar com urgência à Paris. Como não foi encontrado deixou recomendações de retorno imediato na secretária eletrônica, depois de ter insistido no seu celular que se encontrava indisponível.

Gustave não teve dúvida, as palavras ditas por Jean-Mari confirmavam realmente com o ocorrido e o registrado na secretária eletrônica do telefone, que ele mesmo havia escutado na ocasião da sua vistoria no apartamento. Agitado com a possibilidade de uma eventual fuga do Sr. Alain Dubreuil, procurou a todo vapor o curador nas dependências do Louvre encontrando-o pronto pra sair. Carregava uma valise executiva, vestido de maneira como quem não pretendia retornar tão cedo. Assim que se aproximou disse-lhe sem hesitação:

- Sr. Alain é preciso que me acompanhe. – Disse Gustave tentando evitar qualquer ação inesperada do seu investigado.

- Me acompanhe como, para aonde? – Perguntou curioso Alain.

- Você terá que sair daqui imediatamente e se possível sem muitas perguntas, por enquanto. – Respondeu Gustave ameaçador, observando com curiosidade todas as movimentações no ambiente. A situação requeria atenção dobrada. Poderia estar acontecendo de o curador estar acompanhado de alguém envolvido na trama dos acontecimentos.

- O que está acontecendo? E quem é você pra me falar assim? – Respondeu ríspido Alain.

- Eu não vou te acompanhar coisa alguma, tenho muito que fazer pra ficar obedecendo a ordens. – Respondeu irônico Alain.

- Ah, vai sim! Vai agora mesmo, sua vida não está valendo um centavo de Euro. – Rebateu Gustave já com indício de impaciência.

- Como assim? O que quer dizer com isto? – Perguntou preocupado Alain, procurando entender o apelo inesperado de Gustave.

- Olivier está morto. – Disse de uma vez só os motivos.

- Você fracassou, foi descoberto e ainda ficou mal com os seus devedores, agora as coisas mudaram e virou alvo pronto para ser executado. – Completou Gustave, deixando Alain de antenas ligadas.

- Como assim, do que está falando? – Questionou Alain já espantado e nervoso.

- É o que escutou! – Disse sem meias palavras Gustave.

- Olivier está morto e o corpo foi encontrado perto do rio Magnan, todo mutilado. – Esclareceu Gustave, tentando alertar o seu agora protegido e chave dos mistérios que envolvem o sumiço da raridade roubada.

- E o que eu tenho a ver com isto? – Dissimulou Alain, tentando ganhar tempo.

- Você encomendou a morte de Oliveir por causa do vaso, agora está em maus lençóis. Estão te procurando e é o suspeito número um. Existem provas que o comprometem. – Reiterou novamente Gustave tentando persuadi-lo a o acompanhar.

- Você o condenou, tentando encobrir suas intenções. O usou como elemento suspeito com o objetivo de se safar simulando uma queima de arquivo. Só que Olivier era inocente, sem saber de nada, não foi perdoado para não comprometer os autores e o mandante. Que no caso tudo indica que se trata de você. – Esclareceu Gustave, indo fundo na questão, sem mais delongas. Atacou atingindo-o diretamente na sua ferida, lugar onde realmente sentiria dor e procurasse uma saída que o isentasse.

- Você está maluco? Isto é um absurdo! Eu não encomendei morte de ninguém. Minha profissão é lidar com obras de artes, não assassinato. Por isto sou o curador desta mostra do Sr. Pierre François e de tantas outras coordenadas e administradas por mim, tanto aqui no Louvre como em outras salas especializadas pela Europa. – Tentou uma saída honrosa Alain.

- É o que veremos! Agora me acompanha, ou quer que ligue já para a polícia? – Retrucou sem dar muita importância aos seus argumentos.

- E pra onde você pretende me levar? – Perguntou Alain com certa preocupação e admitindo que o melhor no momento seria mesmo acompanhar Gustave.

- Isto não importa. O melhor é me acompanhar e ponto final. Está me fazendo perder muito tempo, e o que resta pode não ser o suficiente para continuar respirando – Quando Gustave disse isto Alain compreendeu que o caso estava mais sério que imaginava. Concordando de imediato.

- Oquei, oquei, eu vou, eu vou contigo! – Respondeu apressado Alain.

Neste momento Philippi Boulet já os aguardava no saguão de entrada do Museu, com o carro pronto pra zarpar no sentido de esconder o curador da mostra e principal suspeito do roubo da peça mais importante da exposição de obras de artes do milionário colecionador Pierre François. Assim que foi entregue aos cuidados de amigo Philippi, Gustave apressou o passo e foi procurar o funcionário que havia escutado o telefonema que culminou na provável descoberta dos responsáveis pelo tão requintado roubo.

Depois de ouvi-lo atentamente, solicitou ajuda do Sistema Telefônico de Paris, através da intervenção do Diretor do Louvre, que acabara de ficar sabendo até onde iam os acontecimentos dentro do seu próprio domínio dos quais ignorava completamente. Por seu intermédio autorizava a Operadora de Telefonia, a fazer um minucioso rastreamento nas contas dos telefones do Museu e do celular de Alain Dubreuil, em caráter de urgência, urgentíssima.

Enquanto os acontecimentos prosseguiam, aproveitou para ligar para o Sr. Pierre François pedindo-lhe que fizesse a mesma solicitação à Telefônica, usando do seu prestígio, como forma de reforçar e acelerar o serviço de rastreamento. A resposta não demoraria, em questão de minutos os computadores fariam uma varredura com precisão. Nesse ínterim, Gustave sugeriu que o funcionário se mantivesse atento e se possível o mais oculto que pudesse pelas próximas 48h, o que foi atendido de pronto, reconhecendo que o perigo rondava impiedoso.

Quando receberam os resultados preliminares do rastreamento, descobriram indícios de que as ligações na maioria das vezes partiram de Hong-Kong, revelando a possibilidade de se tratar de uma organização com ramificações ali mesmo em Paris, tipo célula, ou coisa parecida. Um fato se tornou claro, os envolvidos eram de origem chinesa e o contato mais freqüente atendia pelo nome de Piang Chen. Assim que Gustave ficou informado dos primeiros levantamentos, empalideceu momentaneamente e exclamou: - “Santo Deus... A Tian Di Hui - Tríade, a máfia chinesa!...”

Gustave saiu da reunião meio abobalhado e atônito diante da proporção de perigo em que se meteu Alain. – “E agora? Como protegê-lo até a prisão dos mandantes?” Estas palavras zuniam como eco ensurdecedor na sua cabeça. Um princípio de paranóia o remeteu a uma situação quase semelhante ocorrida com ele na Malásia, quando foi investigar o desaparecimento de um grande amigo e parceiro de espionagem encontrado morto na periferia de Kota Bharu vitimado por esquartejamento em condições semelhantes ao de Olivier Maillard. Era a Tríade ou Tian Di Hui, máfia chinesa agindo.

Antes de chegar ao esconderijo onde Philippi Boulet havia levado Alain, estacionou o carro em uma rua movimentada não muito próxima, caminhou por ruas e ruelas procurando complicar sua pista caso alguém estivesse o seguindo. De repente, em um determinado lugar de maneira estudada, saltou rapidamente à esquerda, abrindo em seguida uma porta falsa, contendo na frente um grande anúncio de “Compra-se aves”. Entrou, era uma passagem camuflada que ficava nos fundos de um restaurante muito frequentado. No seu interior havia um porão onde há anos quando precisava o utilizava. Foi este o lugar escolhido para esconder estrategicamente o curador desavisado e ambicioso Alain Dubreuil, um inocente e simplório metido a esperto, que se envolveu com uma organização criminosa experiente, inflexível e por onde passa deixa um rastro de sangue.

Assim que chegou ao aposento onde o seu protegido se escondia sob sua tutela, o encontrou usando o celular conversando entusiasmado com outra pessoa como se tudo estivesse muito bem, o que na realidade os fatos estavam de mal pra pior. Philippi havia saído o que não deveria ter acontecido em hipótese alguma. Gustave possesso com a imagem arrancou o aparelho de sua mão e o esbofeteou com raiva, jogando-o sobre um amontoado de caixas. Momento quando o amigo Philippi escutando os ruídos apareceu assustado. Encontrava-se na sala ao lado se refrescando bebendo água. Sem recriminar o companheiro, reuniu suas forças e cheio de ódio continuou batendo sem tréguas seu protegido, até ser impedido pelo companheiro Philippi, deixando Alain estatelado no chão todo ensanguentado, porém, lúcido. Aproveitando do ensejo começou a forçar esclarecimentos até a última informação, nem que fosse preciso tirar o seu escalpe, tamanho era sua bronca pela imprudência em que se envolveu. Tudo por interesses mesquinhos, na tentativa de ganhar fortuna de maneira vil pela ambição.

Felizmente as investigações apontaram em outra direção depois de uma ferrenha e pressionada conversa o investigado não teve mais como se esquivar e manter a farsa, assumindo sua participação em todos os incidentes, esclarecendo as várias evidências do seu envolvimento, enumerando por acontecimentos até então não esclarecidos, inclusive o atentado que teria como vítima ele, Gustave, nas imediações do ateliê do designer. Descobriu-se também que a valiosa raridade roubada, ainda não havia saído de Paris e que se encontrava em um cofre particular em nome do próprio Alain Dubreuil em outro grande banco da capital francesa.

Entendendo como resolvido às questões de seu interesse que seria descobrir o paradeiro da peça roubada, transferiu o curso das investigações sob a responsabilidade da polícia, onde ficou esclarecido que o mandante se tratava de um importante milionário chinês que desejava a repatriação da peça por questão nacionalista e preservação da cultura do seu País, sendo também quem financiava a ação desconhecendo os rumos que o caso havia tomado pela inexperiência e das imprudências seguidas cometidas por Alain Dubreuil, o que não o isentou também de pagar por seus vários crimes.

Mais uma vez Gustave Berthelot desvendou em poucos dias outro caso intrigado de investigação. Lógico que agradecido pela companhia e assistência de Sthéfhanie Marret ou Yasirah Saleh.

FIM.

Imagens: Internet.