segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Ambição, o destino de uma raridade - 3ª Parte












Na primeira parte o valioso vaso de porcelana, uma raridade histórico-cultural do período de ouro da porcelana chinesa e da Dinastia Ming do século XIV é roubado durante a exposição do milionário Pierre François no Museu do Louvre; na segunda parte o experiente Gustave Berthelot contratado para descobrir o paradeiro da obra inicia suas investigações; na terceira parte Gustave começa a alinhavar suas suspeitas.

Naquele mesmo dia, no seu escritório doméstico novamente, com as fotos em mãos mais as anotações, tentava montar o seu dominó de informações, quando uma luz imaginária ascendeu do alto dos seus pensamentos, instigando-o a retornar ao Louvre. Já havia estado por lá pela manhã, mas agora o que o atraía tanto a fazer aquela nova visita? Seu instinto e faro de bom lobo caçador lhe diziam que algo novo iria o surpreender. Vestiu-se no seu costumeiro sobretudo preto que lhe cobria boa parte do terno cinza e se dirigiu ao local da exposição. Entre os visitantes eis que surgiu sua instintiva surpresa: Sthéfhanie Marret transitava elegante reparando as peças. Imediatamente passou a se interessar pela moça, acompanhando-a discretamente por onde passava. Quando a bela morena aproximou-se do suposto vaso, que não passava de uma réplica, Gustave Berthelot se achegou dela, levando nas mãos um folheto explicativo das peças expostas como qualquer curioso numa área do conhecimento de artes de rara beleza e histórica. Esperto como rato de hotel, provocou o diálogo com a charmosa dama sobre o valioso vaso.

- Aqui neste folheto diz que este vaso foi presente de um rei chinês à sua amada rainha. É considerado uma raridade expressiva do século XIV. Deve valer uma fortuna. – Conversou demonstrando curiosidade com a espiã Sthéfhanie.

- Deve sim! Estou reparando na quantidade de pedras preciosas e o cuidado com o acabamento da peça envolvendo os desenhos em ouro. – Disse a moça despretensiosamente, não se sabe por desconhecimento da originalidade da peça, ou intencionalmente com o objetivo de evitar alguma polêmica.

- Realmente, é muito bonito. – Completou Gustave.

- Não sou entendida de artes, mas para quem entende ou coleciona, deve ser prazeroso admirar uma peça tão antiga e valiosa. – Observou novamente a moça.

- Pelo seu sotaque percebe-se que não é francesa. É alguma turista interessada em cultura de artes?

- Na verdade, não sou francesa, mas moro nesta cidade de luz e encanto há pelo menos dez anos. Trabalho na Embaixada Árabe que é do meu país de origem. Inclusive tem na minha terra um importante colecionador que em conversa pelo telefone me recomendou não perder a oportunidade de visitar esta exposição e aqui estou. Certamente muito feliz com o que vejo – Explicou Sthéfhanie.

- Eu tenho vindo aqui pelo menos duas vezes ao dia para observar os visitantes e conversar com alguns. Sou jornalista e pretendo escrever um artigo divulgando os resultados da mostra. – Concluiu sua conversa com um largo sorriso o versátil Gustave.

A moça correspondeu ao sorriso e continuou sua cuidadosa visita. Gustave também fez o mesmo, só que em outro sentido, foi direto para sua casa.

Assim que chegou em casa seguiu para o seu escritório, onde iria aguardar o telefonema do seu amigo de espionagem. Acontece que durante o trajeto de volta pra casa não perdeu tempo e passou por telefone as informações recentes recebidas da moça para que dados complementares fossem levantados.
Quando o amigo respondeu confirmando de quem se tratava realmente a moça e sua origem, acrescentou que Sthéfhanie Marret ou Yasirah Saleh também trabalhava para o Sheik árabe Al-Kalihah, além de pertencer a casta de nobre família da sociedade do seu país. Estudou na frança, era doutora em Comércio e Relações Exteriores, fala fluentemente o idioma frances, inglês, alemão e japonês. Nesse momento Gustave acrescentou mais uma peça no seu intrincado quebra-cabeça.

No dia seguinte logo pela manhã vestiu-se como um importante homem de negócios e se dirigiu ao aeroporto. Acompanhado do amigo e chefe da expedição, fez um longo trajeto pelas áreas privadas dos estacionamentos de aeronaves, até chagar ao hangar do milionário Pierre François. Passando-se por um curioso em aviação procurou se informar de cada item das aeronaves que pudessem facilitar suas investigações.

Gustave já havia feito uma somatória dos possíveis autores. Como experiente que era e também perfeccionista nas suas avaliações e condutas, resolveu dar um tempo para fazer uma revisão nos dados observados. Depois de ter participado da abertura do cofre forte, visto todo o circuito integrado de vídeo e a própria sala de segurança máxima, não tinha mais dúvidas de que era ali o princípio e o meio da ação dos bandidos, mas ainda restava o fim. Tinha certeza de que não seria apenas uma pessoa envolvida na trama, mas sim de várias. Sustentado neste foco de entendimento partiu então para uma análise mais detalhada. Reiniciou todo o processo de análise das fitas de vídeos em busca de vestígios. Invocou sua longa experiência, concatenando ideias, de repente veio-lhe à mente algumas coisas inusitadas, só vistas na ficção através dos filmes de espionagens policiais. E questionou uma vaga possibilidade. Pensou: “E como não? Tudo é possível nesta altura dos acontecimentos. O autor poderia muito bem ter forjado um ambiente de tranqüilidade refletindo nas lentes das câmeras várias fotos a partir de diferentes ângulos equivalentes ao alcance do monitoramento. Como a ação seria rápida, a equipe responsável pela vigilância monitorizada nem perceberia algo estranho.” Concluiu: “Quem tem um plano deste pensa em inúmeras variáveis.” Retornou ao banco e fez novas vistorias, agora com mais critérios. Ficou um bom tempo diante dos sensores de controles de acessos dos cofres, em meditação semelhante a um monge em sua contemplação espiritual. Digamos em Alfa, seria assim? Em seguida imaginou uma pessoa usando óculos com uma minúscula câmera de filmagem monitorada por computador acoplada à idêntica armação ao dos óculos de Pierre François sendo inclusive usada por ele no momento da digitação da senha, pensou: “Este monitoramente seria feito a partir de outro lugar fora do banco, de um automóvel, por exemplo, estacionado nas proximidades. Seria um excelente recurso para passar as informações; esta pessoa se encarregaria de registrar todos os dados, depois, repassaria para alguém de confiança da instituição que tem liberdade de ir e vir dentro do cofre máster que se encarregaria de efetuar o roubo; faria a troca das embalagens e sem que ninguém percebesse colocaria em outro lugar seguro e quando estivesse confiante de que nada o impediria, a obra seria colocada para fora dos domínios do banco e imediatamente transferida para outra pessoa que se encarregaria do restante do plano.” Mais uma vez sua mente excitada em busca de respostas induziu-o a novo questionamento: “Estaria a peça ainda em território frances? É possível, não arriscariam colocar tudo a perder por precipitações ou ansiedades. Experientes, estudaram todas as variáveis para uma perfeita isenção de falhas, garantindo-lhes um plano perfeito, arquitetado de forma precisa.” Gustave foi acumulando um sem números de cogitações que o deixou em via única de colisão. Teria agora que encontrar uma saída e evitar o desastre. Nesta trama há muito dinheiro envolvido. Concluiu: “Não foi uma ação isolada. Haveria outra pessoa, ou outras de influência econômica financiando o plano, muito interessada na preciosidade. Mas vamos descobrir!”

Sem abandonar o curso das suas pesquisas investigativas, abriu uma nova vertente encima das suas cogitações. O passo seguinte seria descobrir os artesãos ourives que pudesse confeccionar um par de óculos semelhante ao de Pierre François, pois, só poderia ser este o instrumento utilizado para passar as informações. Como dispunha de pouco tempo para atender todas as necessidades que se apresentavam a cada momento, nomeou como seu assistente Philippi Boulet, que além de amigo confiável, também era espião aposentado da Inteligência Francesa e que já vinha auxiliando-o anteriormente no caso da identificação de Sthéfhanie Marret.

Não deixe de continuar acompanhando esta história que a cada momento pode ser uma surpresa emocionante.


Imagens: Internet.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Ambição, o destino de uma raridade - 2ª Parte.


Na parte anterior o valioso vaso chinês de propriedade do milionário colecionador e banqueiro Pierre François é roubado e substituído por uma imitação durante uma exposição no destacado e fascinante Museu do Louvre. A peça é uma raridade histórico-cultural remanescente do período de ouro da porcelana chinesa e da Dinastia Ming do século XIV.


Depois de acertados os detalhes iniciais, o tarimbado investigador se dirigiu para o museu com o objetivo de iniciar os seus trabalhos. Discretamente fotografou os presentes e conversou com alguns, temendo a possibilidade de vazar informações sob a integridade da exposição. Uma vez cumprido as primeiras horas nas suas avaliações, seguiu em direção ao Aeroporto Charles De Gaulle, onde pretendia se encontrar com um velho amigo e Chefe do Departamento de Expedição do Aeroporto.

Gustave Berthelot era um respeitado profissional. Já havia feito parte do Serviço de Inteligência Frances até o final de Guerra Fria. Aposentado do sistema resolveu dar prosseguimento às suas atividades como investigador particular, responsável pela elucidação de casos considerados insolúveis. Sua aparência o definia como uma pessoa portadora de detalhes diferenciados, como apresentar-se enquanto trabalhava caso necessário, disfarçado em multifaces para dificultar sua identificação.
Com sua estatura de um metro e oitenta de altura, pesando aproximadamente cem quilos, cabelos grisalhos, que não caracterizavam com exatidão sua imagem, visto que, dificilmente mantinha-os de uma mesma maneira por longo tempo: digamos, podia-se dizer que era um camaleão assumido. Só o peso e a altura se mantinham. Também era considerado por muitos um cavalheiro, pela elegância dos seus gestos e extremada competência. Sob esse visual nem tanto incomum o irreverente Gustave Berthelot sobrevivia enfrentando tarefas difíceis, só permitidas àqueles que possuíam competência e experiência igualmente diferenciadas.

O próximo passo seria levantar todas às evidências dos últimos dias, fatos inequívocos e indispensáveis inicialmente coletados durante a recente reunião na residência da vítima. Inclusive suas considerações de que necessitaria de tempo, para isto se isentava de prestações de contas diárias do seu trabalho.

A partir do momento em que aceitou a missão, não parou um instante sequer. Na segunda-feira às 7:30h já se encontrava no Banco para acompanhar todos os procedimentos habituais, e verificar todo o sistema de segurança, principalmente o eletrônico. Assim que foi recebido por Pierre François e o pessoal da segurança, interessou-se em saber de forma pormenorizada de cada detalhe, evitando assim, qualquer possibilidade de omissão nas informações. Satisfeito despediu-se e partiu em direção do Departamento do qual Jean-Mari administrava e que ficava instalado no quarto andar do mesmo prédio onde funciona o banco.

Como a tarefa era correr contra o tempo, Gustave Berthelot, assim que se apresentou diante de Jean-Mari, dispensou formalidades e foi logo tratando-se do que realmente lhe interessava: averiguar detalhes, de preferência os mínimos.

- Sr. Jean-Mari, sei que deve está preocupado com a segurança das peças em exposição, algumas delas também pertencem ao seu sogro, agora só um detalhe: notou algo incomum no transporte durante o translado? – Perguntou displicentemente o minucioso investigador para não demonstrar excessiva curiosidade.

- Não, tudo aconteceu como previsto. Mas porque esta pergunta? Alguma dúvida, ou está acontecendo algo que não estou sabendo? – Retrucou o arrogante Jean-Mari.

- Não, claro que não! Apenas curiosidade. Fui designado pelo Museu do Louvre para montar uma força tarefa que será encarregada de transportar a preciosa Mona Lisa até o Museu Britânico (British Museun) na Inglaterra, onde permanecerá exposta durante um mês. A princípio pensei que os seus serviços seriam ideais. Depois levando-se em conta a minha amizade com o senhor Pierre François, acredito que não me recusará a um pedido meu nesse sentido. - Dissimulou estrategicamente Gustave.

- Acredita que essas mesmas pessoas envolvidas nesse recente transporte estarão disponíveis para essa outra possível empreitada? – Questionou em seguida, Gustave, sem nem mesmo dar chance de resposta à observação anterior.

- Não sei, mas posso verificar. Receio que o piloto terá que ser outro, mas, se assim for, terá como é costume deste Departamento a mesma credibilidade e qualidade de Olivier Maillard. – Esclareceu Jean-Mari.

- Acontece que pelo que fui informado Olivier o piloto deste último trabalho está com viagem acertada para Nice onde permanecerá por um mês, em férias. - Afirmou de maneira espontânea o genro do milionário colecionador.

- Mas não se preocupa, como já disse, temos outros com a mesma qualidade e confiabilidade. – Voltou a dizer Jean-Mari.

- Oquei, veremos o que podemos fazer. Te informo qualquer decisão. – Respondeu Gustave Berthelot sem mais perguntas, despedindo-se sem deixar qualquer interrogação pendente.

Novamente de posse das informações, seguiu o curso do seu trabalho. Não fazia parte de o seu estilo infiltrar muito nos questionamentos, para não criar um sintoma de maior interesse em determinado tema, e assim, formular ele mesmo suas conclusões e tocar o seu barco no destino pré-estabelecido: identificar o responsável ou responsáveis pelo roubo. Na medida em que ia colhendo as informações era seu costume criar um tipo de universo paralelo nas suas investigações, destrinchando de maneira criteriosa o seu novelo de dados armazenado no arquivo de suas memórias.

Gustave Berthelot destacou como motivo de interesse, acompanhar de perto Olivier Maillard, e assim passou a segui-lo. No dia seguinte logo pela manhã o encontrou no Café Sort, em pleno horário de trabalho conversando com uma linda mulher de características árabe. Embora se vestindo como uma européia, o seu sotaque a condenava. Curioso para saber de que assuntos se tratavam, gratificou o garçom solicitando-lhe maior atenção ao casal. A conversa não demorou muito, porém, o que parecia um encontro casual amistoso, sem maiores preocupações, estava ali estabelecido uma suposta implicação que merecia esclarecimentos. Através de sua inseparável mine câmera fotográfica tirou algumas fotos interessantes. Antes de sair agradeceu ao jovem atendente entregando-lhe seu cartão com o número do seu telefone, prometendo retornar a qualquer momento para maiores informações suplementares.

Com as fotos em mãos, procurou o amigo e companheiro dos tempos do Serviço Secreto Frances Philippi Boulet, para fazer um levantamento nos arquivos da instituição a procedência daquela atraente mulher. Não foi difícil descobrir que se tratava de uma agente espiã saudita chamada Yasirah Saleh, que atuava na Europa com o nome de Sthéfhanie Marret de 38 anos. Não muito satisfeito com as primeiras informações, encarregou o amigo de obter mais detalhes e seguiu com o seu trabalho, preocupado com o acaso do piloto e uma agente conversando em plena manhã num café da região central de Paris. O que estariam discutindo? Nesse ínterim lhe veio um lampejo, com a somatória dos dados contabilizados, já tinha suporte suficiente para montar o seu glossário de informações ainda sem respostas. Se auto-exigindo: "esses acontecimentos recentes precisam o quanto antes mostrar com eficiência as primeiras pistas. E o vaso, ainda continuaria em território frances? E que fim o teria levado?" Sem hesitar telefonou para o amigo do Serviço de Expedição do Charles De Gaulle mantendo uma rápida conversa. Era seu costume utilizar-se de bordões pessoais para expressar sua ansiedade: “para uma boa resposta basta um telegrama, com poucas palavras bem empregadas é o suficiente para contar uma história. Tempo é precioso para se gastar com futilidades”.

Não deixe de continuar acompanhando esta história que a cada momento pode ser uma surpresa emocionante.

Imagens: Internet.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Ambição, o destino de uma raridade.



É do conhecimento histórico-cultural das artes, que através do comércio emergente pelas Companhias das Índias no século XVI, preciosidades foram possíveis chegarem à Europa. Poucos países naquela época tinham acesso a estes tesouros de refinados gostos, raramente encontrados em destacadas casas especializadas. Pierre François orgulhava-se de ser um destes expoentes proprietários de antiguidades a possuir no seu acervo raridades tão fascinantes, que remetia a um período consagrado por várias lutas internas entre clãs. O seu vaso de porcelana fina e rara, pintado com desenhos em ouro e decorado com pedras preciosas, entre diamantes, rubis e esmeraldas, retratando fragmentos da dinastia Ming do século XIV, traduzia este orgulho para qualquer célebre colecionador. Lógico que possuía outras raridades de períodos mais remotos, mas o seu vaso era sim o seu maior orgulho como colecionador de destaque entre os vários outros existentes no planeta.

Durante anos sua preciosa peça ficava depositada no cofre particular do seu Placement de la Financière Banque de Paris, protegido com recursos de segurança de última geração. Vários convites lhes foram feitos para expor sua raridade, sendo todos veementes negados. Não pretendia expor em público sua valiosa obra, única no mundo e feita sob encomenda pelo Rei Zong Yang Zhao, para presentear sua amada esposa Nay-Ching enaltecendo suas últimas conquistas. Os amigos, estudiosos e colecionadores insistiam para que mostrasse seu valioso patrimônio histórico pelo menos para uns poucos interessados. Como já se encontrava próximo de completar 80 anos e os filhos pouco se interessavam pelo seu hobby milionário, resolveu atender a um destes pedidos irrecusáveis. Tratava-se de não menos que o Sheik Al-Kalihah da Arábia Saudita, velho amigo e também colecionador. O lugar escolhido foi o Museu do Louvre de Paris, conceituado pela sua importância internacional e segurança inviolável. Colecionadores de todo o planeta ficaram eufóricos com a confirmação. Além de suas várias obras entre pinturas, artesanato e esculturas, estaria também exposto o seu valioso vaso chinês. Todas as peças também possuíam seguros totais, fato raro para este tipo de negócio, mas nem por isto o convencia. Raramente uma seguradora se dispunha a aceitar este tipo de transação, principalmente em se tratando de raridades tão valiosas e na sua maioria única, e motivo de cobiça não só para colecionadores, mas também por aventureiros ladrões, que arriscariam o próprio pescoço para tê-las nas mãos. O comércio das obras não seria fácil pelo seu caráter de exclusividade, mas havia sempre um fissionado por artes que não mediria esforços para adquirir tais raridades, mesmo sabendo que não seria possível exibi-las abertamente.

A exposição havia alcançado projeção em todos os setores das artes e para o evento o milionário colecionador teria se cercado de todos os cuidados imprescindíveis. Suas peças seriam colocadas com algumas horas de antecedência à visitação, transportadas do Banco até o museu por um rigoroso esquema de segurança. Primeiramente o transporte seria feito por helicóptero para evitar o trânsito ou algum imprevisto no transporte.

Até as peças saírem do seu banco, Pierre fez questão de acompanhar de perto todo o processo. As pessoas envolvidas foram escolhidas observando a criterioso processo de seleção, inclusive, o piloto da aeronave era da inteira confiança do seu genro Jean-Mari, que embora não tivessem bom relacionamento familiar com o colecionador era o esposo de sua filha mais velha e chefe do Departamento de Transportes Aéreo do seu conglomerado de empresas, inclusive do banco.

Eventos desta natureza costumam atrair as personalidades mais importantes do universo das artes e curiosos ilustres ávidos por um flash dos noticiários. E Pierre era uma destas pessoas muito procuradas naquele momento para entrevistas.

- Senhor Pierre, Senhor Pierre! Aqui, sou Monique da TV France ao vivo! – Chamava insistentemente a repórter, tentando arrancar algumas palavras do ilustre colecionador.

- Por favor, Senhor Pierre, só um minutinho. – Insistia a repórter.

- Senhor Pierre, qual é a sua expectativa para esta exposição, depois de anos sem mostrar suas valiosas peças? – Com dificuldade conseguiu fazer sua pergunta, a jovem repórter.

- Muito boa! Espero que não seja a última sob os meus cuidados. – Esclareceu Pierre François, temeroso por outra oportunidade, preocupado com sua idade.

- Senhor Pierre, é do conhecimento de todos que o mundo estará atento para a abertura da exposição. O senhor também está ansioso? Ou preocupado com a segurança dos objetos expostos? – Perguntou a repórter.

- Ansioso sim, preocupado não! Todos os cuidados possíveis, e acredito até impossíveis foram tomados. – Respondeu confiante Pierre François.
- Os colecionadores e interessados poderão oferecer propostas para aquisição de alguma das suas peças? Ou é somente uma exposição memorável de contemplação da valorosa coleção? – Perguntou a repórter, focando outras possibilidades de negócios.

- Não serão permitidas ofertas, já que nada está à venda. Trata-se apenas de uma exposição de visualização. Nem fotos serão permitidas. – Disse Pierre François.

- Como ficou estipulado apenas dois dias de apresentação ao público, assim mesmo para pessoas credenciadas ou convidados especiais, existe a possibilidade de estender esse prazo para mais dias? – Perguntou a repórter.

- Não, infelizmente não! Não haverá outra oportunidade, pelo menos por agora. Serão somente os dois dias confirmados. – Cansado das perguntas que muito o incomodava, além dos flashes de câmeras fotográficas e luzes dos refletores de filmagens, Pierre se despediu saindo escoltado por seus seguranças.

Enquanto os privilegiados visitantes autorizados se admiravam com cada raridade, Antoine Débiton um expert avaliador e reconhecido conhecedor do patrimônio de artes do amigo Pierre François, observando sem grandes pretensões o vaso, notou alguns detalhes que lhe chamaram a atenção. Parecia não acreditar, mas algo não estava certo com a peça. Mesmo sabendo que todos os cuidados para que nada de ruim acontecesse, envolvendo inclusive cuidados especiais por se tratar de uma raridade, apenas algumas poucas fotos foram divulgadas em importantes enciclopédias até aquele momento, o que a tornava ainda mais difícil de falsificação, ainda assim, tudo levava a crer que o objeto exposto não passava de uma réplica. Imediatamente procurou o amigo e participou suas dúvidas. Pierre François espantou-se, chegando quase a ter um colapso, sendo amparado de imediato. Seria improvável a princípio tal conclusão, principalmente em se tratando daquele objeto que a comunidade especializada se curvava. Antoine Débiton se orgulhava de ser um dos poucos que há muito tempo a acompanhava de perto por ser da inteira confiança do seu colecionador.

Aconselhado a manter maior discrição possível, Pierre François seguiu em direção do seu cobiçado tesouro. Não demorou muito para constatar a falta de autenticidade do objeto de desejo para muitos. Quase foi a loucura, contudo, conseguiu minimizar sua expressão de incredulidade. Em seguida contendo o grau de desespero, procurou o curador da mostra Sr. Alain Dubreuil e relatou o acontecido, sendo aconselhado a manter a exposição sem nenhum tipo de alarde e aplicar vigilância triplicada. De imediato iria iniciar uma investigação sob sigilo absoluto, uma cópia da relação dos visitantes foi solicitada. Sem perder tempo o milionário colecionador telefonou para Gustave Berthelot renomado investigador, também seu amigo.

Várias perguntas começaram a borbulhar na mente dos envolvidos, dentre elas, duas eram evidentes: como poderia? Como conseguiram? A visitação transcorria normalmente, tudo levando a crer que somente aqueles que constataram a fraude estavam cientes do acontecimento. Com dificuldade Pierre François conseguiu permanecer no local mais alguns minutos, retornando à sua residência alegando cansaço e indisposição, entretanto, somente ele sabia da tristeza e decepção que alojara no seu coração diante do ocorrido. Tudo iria fazer para resgatar sua preciosidade custe o que custasse. Não economizaria nada nesse sentido.

Assim que Pierre François chegou à sua residência sob a orientação dos acompanhantes, dentre eles Antoine Débiton, encaminhou-se direto para o seu escritório. Em menos de uma hora o aguardado investigador Gustave Berthelot já estava em sua companhia. Vários assuntos foram tratados relativos ao incidente. Gustave Berthelot não perdeu tempo:

- Senhor Pierre, quantas vezes esteve com a peça roubada nos últimos dias? – Perguntou Gustave Berthelot, procurando se informar de alguns detalhes que pudessem clarear os preliminares das investigações.

- Nos últimos quatro dias estive por várias vezes, não só para ver o vaso em questão como as demais peças que selecionei para a exposição. – Esclareceu Pierre à pergunta.

- Pode esclarecer quais os procedimentos usados normalmente para ter acesso às suas preciosidades? – Arguiu novamente o investigador.

- Claro! No meu Banco, existe o cofre principal onde são guardadas grandes somas. Este cofre tem controle automático de tempo/hora para ser aberto. Portanto somente às 8h impreterivelmente é aberto. Sob hipótese alguma se consegue ter acesso ao seu interior. Não vou descrever o grau de segurança de sua porta e do interior do cobre porque é desnecessário e por outro lado é um segredo de garantias. Sempre que entro faço antes uma cuidadosa observação de praxe. – Esclareceu o banqueiro.
- Sendo o cofre principal aberto somente a partir das 8h, significa que está deixando claro que seu tesouro em artes fica guardado nesse cofre? – Novamente questionou o investigador.

- É verdade, as peças de artes mais raras e que carecem de cuidados especiais ficam guardadas nesse cofre, só que em outro compartimento que também se trata de um cofre, dentro deste de segurança máxima. Assim, para eu ter acesso às minhas obras tenho primeiro que entrar no cofre maior e depois abrir o outro que não é tão pequeno, mas exclusivo das peças. – Esclareceu Pierre.

- Qual é a forma utilizada para abrir esse cofre das artes? – Interessou-se o investigador.

- Para abrir este cofre necessita-se de um código senha de números digitais. Não coloquei o processo de identificação por leitura ótica através do contato com as mãos por achar desnecessário, já que somente eu tenho acesso. Inclusive no cofre de numerários, ouro, jóias da família e documentos importantes do banco, como de costume somente eu e o tesoureiro podemos entrar. Ninguém mais. – Esclareceu mais uma vez o banqueiro.

- E nestes últimos dias que antecederam a exposição, quantas vezes o senhor esteve com as peças escolhidas para o evento? – Perguntou o investigador.
Enquanto os dois conversavam, Antoine Débiton em silêncio acompanhava o questionamento que iria ajudar a montar o quebra-cabeça para desvendar alguns indícios e ser possível dar prosseguimento às investigações.

- Ninguém mais o acompanhou nesse processo? – Interessou-se Gustave Berthelot.

- Não, ninguém! Estive sempre só. – Esclareceu mais uma vez o colecionador.
- Significa que foi o senhor quem embalou todas as peças, ou estou enganado? – Perguntou o investigador curioso.

- Sim, somente eu me encarreguei de todos os pormenores de preparação dos objetos. Apenas as embalagens foram enviadas pelo Museu, por fazer parte dos procedimentos habituais. É necessário conter nas caixas a marca do expositor. Isto tem origem de há muito tempo. Acho que faz muito sentido. Significa organização. – Esclareceu mais uma vez o colecionador.

- E hoje antes de serem transportadas, quantas vezes o senhor esteve em contato com o seu patrimônio selecionado para a exposição? – Interessou-se o investigador, tentando juntar as pedras do mosaico que se apresentava pela frente.
- Hoje eu estive com elas, quatro vezes. A primeira quando se abriu o cofre forte, aproximei-me das caixas e verifiquei se tudo estava bem. Isto numa atitude rápida sem preocupações adicionais. Acho que foi mais por força do hábito, nada mais. – Explicou Pierre François.

- Entendo. E as outras três vezes? – Seguiu com suas perguntas o experiente investigador.

- Outra, quando fomos verificar o volume das caixas para melhor acomodação na aeronave que faria o transporte. Desta vez me acompanhava Jean-Mari que iria orientar o piloto. – Esclareceu Pierre François.

- A penúltima, foi uma entrada técnica. Seria necessário isolar a parte exclusiva do banco, onde ficam depositados todos os depósitos e documentos pertinentes a instituição. – Declarou Pierre, esclarecendo.

- E por último, quando foram recolhidas as caixas. Nesse momento até o sistema de segurança armada do banco estava aposto, com o auxilio de vários homens bem armados. Novamente respondeu o banqueiro.

Após a longa conversa esclarecedora, Gustave Berthelot se despediu sem muita explicação, recomendando todo sigilo sobre a conversa e que não deveria em hipótese alguma revelar o descobrimento da fraude, para não alertar os envolvidos no roubo. Mais tranqüilo diante das perspectivas e votos de confiança nas investigações, o milionário colecionador se acalmou e manteve a serenidade de antes.

Não deixe de conferir a continuação desta aventura de espionagem ainda nesta semana. Novas investidas, novas descobertas, novas ações estarão envolvendo esta trama de contínuas buscas, onde a experiência e a astúcia do profissional enganjado a esse tipo de desafio faz a diferença.

Imagens: Internet