sábado, 10 de abril de 2010

Wilson Simonal, o artista que disse não a Walt Dirney

O artista que disse não a Walt Disney


Artigo publicado na revista Careta
editada no Rio de Janeiro de 1908 a 1950,
contando a trajetória profissional do cartunista José Carlos Brito
desde o inicio da sua vitoriosa carreira na revista Tagarela com 18 anos.
Informa ainda suas passagens pelos vários veículos
de comunicação daquele período
e o seu encontro com Walt Disney entre outros fatos interessantes.
Destaca ainda outra reportagem sobre
o cantor Wilson Simonal publicado
na revista O Cruzeiro em 15 de setembro de 1970,
enaltecendo suas qualidades como cidadão.
Ambos os artigos foram escritos de acordo
com as regras gramaticais da época.

Da mesma forma que é necessário recorrer às fotos de Malta e Ferrez para conhecer o Rio do início do século XX, é imprescindível buscar o trabalho de J. Carlos para entender o carioca da primeira metade daquele século.
José Carlos de Brito e Cunha nasceu no dia 18 de junho de 1884. Quando estreou na imprensa brasileira, na revista O Tagarela, tinha apenas 18 anos. Em 1908, ainda um rapaz, estava presente, desde o primeiro número, em uma revista que marcaria época: Careta. Uma de muitas. Como caricaturista, ilustrador ou editor, passou por O Malho, Século XX, Leitura Para Todos, Eu Sei Tudo, Revista da Semana, Ilustração Brasileira, O Tico-Tico, Fon-Fon, A Avenida, O Filhote da Careta, O Juquinha, D. Quixote, A Cigarra, A Vida Moderna, Revista Nacional, O Cruzeiro, Cinearte, A Noite, Lanterna, A Nação, A Hora, Beira-Mar
Em 1921, J. Carlos assumiu a direção das publicações da empresa O Malho, afastando-se a contragosto da Careta. Nessa época, Álvaro Moreyra, seu companheiro de trabalho, escreveu:
“Um dia, decerto, no começo do próximo século, o Rio de Janeiro não possuirá mais a carioca; as raparigas das margens da Guanabara não se distinguirão das raparigas do resto do Planeta: idênticas preocupações, atitude iguais, o mesmo modo de vestir, gravidade, pessimismo... Nesse dia, um curioso de coisas do passado encontrará, nas páginas de uma revista, as figuras de J. Carlos; encontrará a melindrosa, que ele inventou e que constituiu o modelo das nossas lindas contemporâneas.
O Rio de Janeiro de antigamente há de ressuscitar na expressão ingênua e irônica dos olhos que viram os primeiros aeroplanos; nas bocas talhadas à feição de beijos; no ritmo ondulante da carne envolta em sedas leves, luminosas, fugidias. E o curioso sentirá saudades do velho tempo que não conheceu... Velho tempo! Bom tempo! E compreenderá o sentido das praias, povoando-as das imagens guardadas no traço sutil do artista e verá, tal qual não vira antes, a luz das manhãs, a sombra dos crepúsculos, o luar das noites altas. Lenta, a maravilha despercebida se revelará. A cidade romântica, erma das suas transeuntes, voltará à fascinação abandonada... O ente que olhar, daqui a cem anos, as obras-primas de J. Carlos, poderá viver a vida que andamos vivendo...”
. Carlos amava o Rio, de onde saiu poucas vezes. Isso talvez tenha pesado em sua resposta negativa ao convite de Walt Disney para que trabalhasse em seus estúdios. Disney esteve no Brasil em 1941, lançando o filme Fantasia. Dentre as diversas homenagens que recebeu, havia uma exposição reunindo desenhos dos melhores caricaturistas brasileiros. Em um almoço oferecido pelo Ministério das Relações Exteriores do Brasil, Disney fez questão de sentar-se ao lado de J. Carlos e o convidou a fazer parte de sua equipe nos Estados Unidos. J. Carlos recusou. Algum tempo depois, enviou a Walt Disney o desenho de um papagaio vestido com o uniforme da Força Expedicionária Brasileira, abraçado ao Pato Donald... É preciso contar o resto?
Foram quase cinqüenta anos de trabalho. Sóbrio, sisudo, pontual, bom pai de família, era completamente diferente do típico profissional de imprensa de sua época. Isso durou até 29 de setembro de 1950. Vítima de um edema cerebral, tombou sobre sua mesa de trabalho na redação da Careta. Morreu, três dias depois, aos 66 anos de idade.

O cronista do lápis, que contou a História e imortalizou os tipos de sua cidade, foi assim lembrado por Genolino Amado: “Realmente, no espírito de J. Carlos parece ter habitado o espírito do Rio. Talvez não possa existir harmonia mais perfeita de alguém com a sua terra, com a sua gente (...) E não poderíamos imaginar tendo nascido noutra cidade. Aquele que pretendia somente graça acabou fazendo História”.

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O lado humano de Wilson Simonal


As reportagens sôbre artistas quase sempre focalizam dois aspectos: a sua vida amorosa e privada, e a sua riqueza, real ou pressuposta.
No primeiro caso, as publicações escandalosas se fartam no devassar de intimidades, dando dimensões extraordinárias a fatos que seriam corriqueiros na vida do homem, comum, que dessas vicissitudes ninguém se livra.
As publicações regulares, em suas colunas especializadas, se fazem mensageiras da cegonha que vai chegar, cupidos de amôres nem sempre verdadeiros, arautos da elegância e do bem-vestir, e também profetas agourentos de desquites e separações.
No segundo caso, a prosperidade do artista, quando levada a público através de qualquer meio de comunicação, traz sempre objetivo oculto. Raramente essa prosperidade, muitas vêzes vista através de poderosas lupas, é exposta e alardeada com a alegria dos que se sentem bem sabendo alguém vitorioso. Pelo contrário, nas entrelinhas há um travo de despeito, de inveja, de amargor.

Partindo dêsse princípio, o artista que se tornou um vitorioso, se compra um automóvel ou um apartamento, se procura garantir o futuro, a velhice, e arruma o chamado pé-de-meia, ao público logo se informa a marca do automóvel, o preço, a área do apartamento em todos os seus detalhes e respectivo custo, o número de letras de câmbio que foram compradas.
Dir-se-á que o artista famoso pertence mais ao público que a si mesmo, e que, por isso, ao público devem ser dadas certas informações. Em têrmos. Porque a insistência em tôrno dos muitos milhares ganhos, dos cachês fabulosos, dos contratos astronômicos - na maioria irreais e fermentados, também, pela máquina publicitária - deixa a impressão de que os seus veiculadores são, na realidade, refinados dedos-duros da fiscalização tributária.


O outro lado


Se o açodamento publicitário em tôrno da vida privada do artista e de sua prosperidade não tem limites, em contraposição o silêncio sôbre os seus atos de bondade e de desprendimento, também é uma constante. Certo que determinados artistas seguem o preceito de fazer o bem sem saber a quem, escondem quanto podem as suas benemerências, não desejam sôbre elas qualquer tipo de publicidade. Mas, se êsses gestos magnânimos, se essas atitudes raramente encontradas até em indivíduos que já nasceram sob as bênçãos da fortuna, são conhecidas do público, lamentàvelmente ninguém bate palmas, ninguém abre a roda, ninguém grita ôba!
Wilson Simonal
Simonal foi um menino pobre. Deu duro, foi tudo na vida, até cobrador fantasiado de vermelho pelas ruas. Hoje, Wilson Simonal é artista famoso e o seu nome lota estádios. Simonal é um artista caro. Quem o contrata sabe que vai ganhar dinheiro, muito dinheiro. Êle paga o seu conjunto musical, os Simonautas, constituído de excelentes músicos. Mas, quando se publica que o cachê de Simonal é de 30.000 cruzeiros, há o espanto!
O que não se diz, o que não causa espanto, é que Simonal, sendo um artista caro, é também uma excelente figura humana, apresentando-se sem ganhar um centavo, quando se trata de cantar para os que precisam. E queremos aqui dar o nosso testemunho, de público.
Procuramos Simonal para fazer um número - um só número - no Programa Flávio Cavalcanti. Simonal impôs condições:- Só se fôr um show de quarenta e cinco minutos, sem interrupção produzido pela minha própria agência, a Simonal Produções. Sairá um espetáculo da pesada...- Tá bem, Simona, mas quanto vai custar isso tudo?- Precinho camarada, de amigo: 30.000 cruzeiros...
A equipe de produção estremeceu. Não havia essa verba. Estava estourada. Mas aí entrou a Shell. Deu o dinheiro a Flávio Cavalcanti para pagar ao Simonal. Simonal recebeu o dinheiro e devolveu a Flávio Cavalcanti: para a Casa dos Meninos de Petrópolis.
Oitenta crianças desvalidas foram beneficiadas por Wilson Simonal. Os artistas que ganham muito, que ganham bem, que ganham o que realmente merecem, também têm dessas coisas. Mas o silêncio é profundo. Mas Deus acaba sabendo de tudo.


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Imagens: Revistas Careta e O Cruzeiro, Internet


sexta-feira, 26 de março de 2010

Chico Xavier, o detetive do além














Impressionante! Vai notar neste artigo que até o jornalista David Nasser se surpreendeu com a humildade de Chico Xavier. Não tem como imaginar qual foi sua intenção ao se propor a divulgar a vida do médium mineiro, porém, sua simpatia discreta o conquistou. Neste conteúdo veremos a opinião dos moradores da pacata Pedro Leopoldo sobre as revelações do homem que revolucionou o espiritismo brasileiro em toda sua plenitude e a sua missão como esperança reveladora. Muito bom!

Texto extraído do link da revista O Cruzeiro de 12/08/1944, no site Memória Viva. Regras ortográficas da época.





Chico Xavier, o detetive do Além
Texto de David Nasser e Foto de Jean Manzon.





Era uma vez um moço ingênuo e feliz, vivendo numa cidadezinha ingênua e feliz, perto de Belo Horizonte. O moço se chamava Francisco Cândido Xavier e não desmentia o nome. A cidadezinha, Pedro Leopoldo, arrastava suas horas de doce paz, entre as missas de domingo e a chegada do trem da capital. Não se sabe como, numa noite ou num dia, Chico se mostrou inquieto e desandou a escrever. Terminando, disse, apenas, à família assustada: - "Não fui eu. Alguém me empurrava a mão". Desce êsse dia ou essa noite, Chico Xavier perdeu o sossêgo e também o de sua cidade. Turistas chegavam, atraídos pela fama do moço-profeta. Pedro Leopoldo ia crescendo e Chico Xavier ia ficando importante. Nunca mais teve paz. Nunca mais pôde sair pela rua, sem ouvir um pedido de saúde ou uma prece de gratidão. Se ao menos fôsse só isto. Era mais, muito mais. Eram os curiosos do Rio, de São Paulo e de Belo Horizonte, pedindo consultas ou detalhes pelo telefone interurbano. Era a legião de repórteres em busca de novas mensagens. O representante da editôra insistindo por outros livros. Os centros espíritas de todo o país solicitando pormenores. Uma vida infernal, agitada, barulhenta sacudia o pobre rapaz.


As luzes dos lampiões da cidadezinha nunca mais dormiram sem a presença de um estrangeiro, rondando pelas ruas dantes tão sossegadas.


Fixaremos, precisamente, a violenta mudança de vida de Chico Xavier e da cidade de Pedro Leopoldo. Não nos interessa, embora pareça estranho, o medium Chico Xavier, mas a sua vida. Os seus trabalhos psicografados - ou não psicografados - já foram assunto de milhares de histórias, divulgadas desde 1935. Se são reais ou forjadas, decidam os cientistas. Se êle é inocente ou culpado dirão os juízes. Se êle é casto, instruído, bondoso, calmo, diremos nós. Porque não somos detetives do além.


Se os espíritos nos ouvem, êles sabem que não acreditamos em suas mensagens, nem desacreditamos de suas virtudes literárias. A verdade é que não temos a bravura indispensável para avançar sôbre o terreno pantanoso do outro mundo e analisar suas reais ou irreais comunicações utilizando aparelhos de escuta com êste pálido e sensitivo Chico Cândido Xavier. Desde que saímos daqui, levávamos a inabalável determinação de fazer uma reportagem sem complicações, apesar do assunto em sua natureza extra-terrena mostrar-se absolutamente complicado. Assim é que o senhor, amigo, chegará ao fim destas linhas sem obter a certeza que há tanto tempo procura: "É Chico Xavier um impostor ou não é?" E dirá: - "Não conseguiram desvendar o mistério!" Sim, o mistério continuará por muito tempo. Eternamente. E Chico Xavier morrerá, sem revelar o segrêdo de sua extraordinária habilidade ao escrever de olhos fechados, se é mágico, ou de seu fantástico virtuosismo, ao chamar, além das fronteiras da vida, as almas dos imortais, fazendo-os recordar os velhos tempos da Academia. Nossa intenção é mostrar o homem. Sem o espírito dentro de si, nos momentos vulgares, Chico Xavier é adorável, cândido, maneiroso, humilde, um anjo de criatura. A frase de uma vizinha define melhor: - "Sabe, moço? O Chico é um amor". Justamente dêsse tipo desconhecido, da parte anônima de sua devassada vida, é que tratamos, na hora e meia que permanecemos em Pedro Leopoldo. Para começar, diremos que Chico nunca teve uma namorada.


O tempo de viagem de Belo Horizonte a Pedro Leopoldo não vai além de hora e meia. A meio caminho, encontramos a fazenda federal onde Chico Xavier é dactilógrafo. O motorista não quer entrar. - "Aí, não. Até os zebus são atuados". O diretor, Rômulo, está na horta, sòzinho. Êle nos dará, talvez, esclarecimentos sôbre a vida de Chico e, quem sabe, facilitará o encontro com o sensitivo. Ouve o pedido. Depois, lentamente, abana a cabeça e o seu "não" é inflexível, desde o primeiro minuto. Alega um milhão de coisas. Que Chico anda cansado e precisa repousar. Um de nós lembra a possibilidade dêle, diretor, dar umas férias a Chico. - "O Chico funcionário nada tem a ver com o outro Chico". Apresentadas as despedidas, êle adverte: - "Não creio que será possível aos senhores um encontro com êle. Creio que vão esperar até sexta-feira".


Voltamos a deslizar pela estrada, neste sábado negro. A cidade aparece depois de uma curva. - "Onde fica a casa do Chico Xavier?" O menino aponta a igreja. - "Ali, na rua da matriz. Ele mora com a família". Encontraríamos, em várias oportunidades, a mesma designação do pessoal do município: êle. Todos apontavam Chico, sem recorrer ao nome. Êle só podia ser êle. - "Minha irmã foi curada por êle".


Ei-lo aqui, diante de nós. Veio a pé da fazenda e em sua companhia um senhor do Rio, que algumas vêzes vem passar semanas com o medium. - "Gosto de falar com êle. É um rapaz de cultura. Discute vários assuntos, lê um pouco de inglês e de francês. Devora os livros com fúria. Trouxe-lhe, há dias, "O homem, êsse desconhecido" e êle não gastou mais de quatro horas e meia para ler o volume gordo. É um prazer para êle. Seu único amor é o espiritismo".


Chico, perto de nós, não está ouvindo a palestra. Conversa com Jean Manzon. Devemos esclarecer que não dissemos qual a organização jornalística em que trabalhávamos. Queríamos ver se o espírito adivinhava. Não houve oportunidade.


Chico parecer ser um bom sujeito. Suas ações, mesmo fora do terreno religioso pròpriamente dito, são ações que o recomendam como alma pura e de nobres sentimentos. Vão dizer, os espíritas, que é natural: todo o espírita dever ser assim. Sei de um que não teve dúvida em abandonar a espôsa, o lar, sete filhos, um dos quais doente do pulmão.- "Na rua, entre seus irmãos de seita, - disse-me um dos filhos - êle se mostrava esplêndido, generoso, cordial. Em casa, por pouco não botava fogo nas camas, à noite. Parecia um verdadeiro demônio. Guardava até alface no cofre-forte”.


Já o Chico não é assim. Sua nobreza de caráter principia em casa. Todos os seus irmãos e irmãs louvam a sua generosa e invariável linha de conduta, protegendo-os, hora a hora, dia a dia, através dos anos, trabalhando como um mouro. Um de seus sobrinhos sofre de paralisia infantil. Atirado a um berço, chora eternamente. Sòmente o Chico vai lá, fazer companhia ao garôto, às vêzes uma noite inteira.

- Chico!- Que é, meu senhor?
- Você lê muito?
- Não. Só revistas e jornais.
- O outro disse...
- Disse o quê.
- Nada.

Êle nos olha, surprêso, quando a pergunta, como um busca-pé, sai correndo pela sala:

- Você, não pensa em se casar, Chico?
- Eu, casar? (Dá uma gargalhada)
- Claro que não.
- Não namora?
- Nunca.
- Por que?
- Não há razões. Não gosto. Tenho outras preocupações. Ora, eu namorando... Tinha graça...
- Chico...
- Que é?
- É verdade que o padre desafiou você para um duelo verbal?
- Êle disse pra eu ir à igreja discutir. Não é lugar próprio.
- Você gosta do padre, Chico?
E êle, o ingênuo e feliz Chico, respondeu:
- Ué, eu gosto do padre, mas êle não gosta de mim.
- Chico...
- Que é?
- Onde estão suas mensagens?
- Um irmão levou tudo, em vista de tantas complicações.
- Você vai ao Rio?
- Até agora, nada resolvemos. Possìvelmente, mandarei uma procuração.


Numa estante, os livros de Chico. Versos de Guerra Junqueiro, Tolstoi e uma porção de autores mortos. Na sala do lado está a mesa onde êle recebe as mensagens. Uma papelada branca, pronta para ser coberta pelas mensagens do outro mundo. Sexta-feira houve mais uma sessão, desta vez presidida pelo chefe do executivo municipal. Humberto de Campos não compareceu mas o Emanuel, guia de Chico, lá estava. Quem é Emanuel? Um romano que existiu na mesma época de Jesus e conta um mundo de coisas interessantes sôbre a terra, naqueles tampos de há dois mil anos.

- Êle dita?- Vou psicografando as mensagens. Há outros mediuns, como um norte-americano, que ouve as vozes dos espíritos tão alto que os presentes também escutam. Eu ouço. Os outros, que estão perto, não.
- Chico...
- Que é?
- Já teve oportunidade de falar com espírito de homens célebres?
- Homens célebres?
- Napoleão, para um exemplo, já falou consigo?
- Que eu saiba, não. Os assuntos bélicos não são freqüentes, nas mensagens que recebo do além. Há seis anos, entretanto, meu guia Emanuel previu os principais acontecimentos que hoje revolucionam a terra. Êle disse:
- "A vitória da fôrça é fictícia".

O cavalheiro do Rio acode:
- E o próprio Chico, meses antes, previu a queda da Itália. Êle disse, categòricamente, que a Itália seria a primeira a cair. E a Itália foi a primeira a cair.


Pedro Leopoldo é a cidadezinha de uma rua grande e uma porção de ruas pequenas, convergindo para ela como servos humildes do rio principal. A casa de Chico é uma das melhores do lugar. Três quartos, sala e cozinha. O banheiro é lá fora, no fundo do quintal, ao lado do galinheiro. Chico se levanta de madrugada e vai dar milho às galinhas. Depois, sua irmã solteira faz o café, que êle toma com pão dormido, porque o padeiro ainda não chegou. Apanha a pasta de documentos da fazenda federal, e vai andando pela estrada, ainda coberta pela neblina. Volta para almoçar às onze horas. O expediente se encerra às dezoito horas, mas Chico, nestes dias de maior trabalho, faz serão. Sua vida é frugal. - "Quero que compreendam o seguinte: não vivo das mensagens de além-túmulo. Tenho necessidade de trabalhar para sustentar minha família. Se quase me dedico inteiramente a receber as comunicações, ainda se entende. O pior, entretanto, é a onda de gente que vem do Rio, de São Paulo e de todos os Estados".

- Peregrinos?
- Mais ou menos. Não posso deixar de recebê-los, pois fico pensando que vieram de longe e necessitam de consôlo. Isto leva tempo, toma tempo. Como se não bastassem essas preocupações, o telefone interurbano não pára dia e noite.
- "Chico, Rio está chamando... Chico, Belo Horizonte está chamando... Chico, São Paulo está chamando... Chico, Cachoeira está chamando..." Evito atender, mesmo constrangido. Meu Deus! Eu não quero nada, senão a paz dos tempos antigos, o silêncio de outrora. Quero ser de novo aquêle Chico sossegado e tranqüilo que apenas se preocupava com as coisas simples...
- Impossível a viagem de volta...
- Impossível? Não, não é impossível. Eu voltarei a ser aquêle sossegado Chico. Não tenha dúvida.


O repórter imagina, a essa altura, que êle acredita na possibilidade de suas comunicações, com o além serem repentinamente suspensas. Vai perguntar ao Chico, mas uma senhora de côr negra entra na sala, carregando um benjamim de olhos assustados.
- "Trago para o senhor, Seu Chico..."

Êle segura com trinta mãos, cheio de cuidados, o bebê e o bebê faz um berreiro dos diabos, agita as pernas, sacode as pernas dentro da prisão dos braços de Chico. Êle sorri e devolve o menino à mãe.

- Meu sobrinho - explica o profeta Chico - é nervoso e fica dêste jeito. Sabe por que? Êle sofre de paralisia infantil.
- Não tratam dêle?
- Não temos recursos. Já deixei claro que não recebo um centavo pelas edições dos livros que me chegam do além. Assino um documento autorizando a livraria da Federação Espírita Brasileira a editá-los e, sòmente após ficarem impressos, recebo uns cinco ou dez exemplares, para dar aos amigos.

Vamos atravessando a sala e entramos num dos quartos. Na parede, prateleiras repletas de livros. Remédios à base de homeopatia, que Chico recomenda. Não sei porque os espíritos manifestam estranha aversão pela alopatia e suas drogas, receitando sempre combinações homeopáticas. Perto dos vidros, um armário cheio de livros. As obras de guerra conta a Santa Sé, assinadas por Guerra Junqueiro, ainda em vida. Os livros de Flammarion e de Alan Kardec, mas não os psicografados, misturados com volumes de propaganda anticlerical. Na parede, dependurado, um velho pandeiro.

- Quem toca pandeiro nesta casa?
Chico sorri o sorriso beatífico e diz que não é êle.
- Alguns espíritos?
O sorriso beatífico desaparece.
- Os espíritos não tocam pandeiro.


Saímos para a rua, hoje, sábado movimentado. O povo de Pedro Leopoldo passeia diante da Igreja que domina de forma esquisita a casa do humilde psicógrafo que Clementino de Alencar, certo dia, foi roubar de sua vida serena há dez anos. Hoje, Pedro Leopoldo é a Jerusalém do credo de Kardec. Já tem hotel e telefone. O povo de lá, por estranho que possa parecer a quem não conhece pessoalmente o nosso amigo Chico, revela invariável amizade. Será orgulho pela celebridade que êle deu ao município? Sim, porque antes de Chico, Pedro Leopoldo nem existia nos mapas de Minas Gerais. Gostam dêle, de seus modos, de sua cara asiática, onde um dos olhos empalideceu sùbitamente, como um farol apagado em pleno caminho da luz. A cidade tem uns treze mil habitantes, contadas as aldeias próximas, mas, espíritas, uns quatro ou cinco. Todos apreciam Chico, gregos e troianos. Gostam, mas preferem não rezar o seu catecismo. Êle não se importa. Não procura convencer ninguém à fôrça de seu estranho e discutido poder. Quando a carta precatória, intimando-o a depor, chegou a Pedro Leopoldo, Chico leu devagarinho e abanou a cabeça. - "Eu não posso mandar uma intimação judicial às almas!" E não deu mais importância ao caso.


Até à volta, sereno Chico. De tôdas as pavorosas complicações, você é o menos culpado. Parece uma caixa de fósforo num mar bravio. Uma velha beata de Pedro Leopoldo me disse que isto é castigo: - "Castigo, sim, nhô moço... Antão, êle telefona pro inferno e manda chamar os espíritos e depois num quer se aborrecer?"


Já o trombonista de Pedro Leopoldo deve pensar diferente: - "Por que será que o Chico só sabe receber mensagens escritas? Por que não recebe músicas de Beethoven, de Chopin, de Carlos Gomes?"

Êle, o moço amável de Pedro Leopoldo, não dá maior atenção aos comentários e vai levando como pode a sua vida. É pena, entretanto, que êle não tenha as qualidades artísticas que vão além do terreno literário. Se fôsse assim, Pedro Leopoldo teria, senhores, não apenas o psicógrafo Chico, mas também o músico Chico, o pintor Chico, o profeta Chico. Isto mesmo: o profeta Chico.




Imagens: Revista O Cruzeiros e Internet

sábado, 20 de março de 2010

Glauco Villas Boas, do humor ao trágico









Quando tudo parecia estar bem, eis que surge diante de si o deserto do caos. As flores tão mimosas que embelezavam os jardins se rebelam mostrando as farpas do espinheiro sangrento. As florestas que tão bem abrigavam lindos pássaros canoros, de repente ficam entregues às serpentes do mau. Esse universo antagônico mostrando de um lado o bem, do outro esconde o mal traiçoeiro e covarde. Nesse mar profundo da insensatez a confiança é ultrajada sob o domínio do demônio no seu inferno de desequilíbrio. E a vida na procura do sorriso amigo encontra a fatalidade como repouso. Encontra a sombra densa que escureceu o mês de março para a família do Glauco Villas Boas, 53 anos, e também cegou sua arte divertida, sagaz e crítica.

Na madrugada de sexta-feira do dia 12, Carlos Eduardo Sundfeld Nunes, o Cadu no seu cinismo doentio, eliminou de maneira brutal o cartunista e o seu filho Raoni Villas Boas de 25 anos, em situação bem adversa da estruturada na fé idealizada e construída por ele na busca pelo enriquecimento espiritual compartilhada com a doutrina do Santo Daime. É inegável que sua competência profissional e carismática, fizeram de Glauco um cara que discutia através de suas charges divertidas o dia-a-dia dos indivíduos e da sociedade, destacando suas ansiedades e conflitos sem impor os modelos estigmatizados da perfeição a serem seguidos. Suas criações transcendiam as mesmices alienadas sob o ponto de vista comportamental das pessoas e da modernidade cibernética. Diante de uma situação grotesca imprevisível deparou-se com a fúria insana e destruidora de um comportamento apocalíptico psicodélico que o enviou para mundo dos espíritos. Assim se foi um artista. Um criador inteligente de personagens que durante décadas levou a alegria para muitos brasileiros com seus trabalhos bem humorados retratando o cotidiano, suas transformações e suas neuras.

Descendente de família tradicional de indigenistas, os irmãos Villas Boas, Orlando, Cláudio e Leonardo Villas Boas, engajados na integração do índio sem contaminar sua cultura, nos princípios da isenção de preconceitos e da famigerada exclusão sob todos os níveis, Glauco encarou a estrada das oportunidades como todo novato, indo à busca dos seus ideais acreditando num futuro redentor. Iniciou sua trajetória profissional em 1976, quando publicou o seu primeiro trabalho como cartunista no Diário da Manhã de Ribeirão Preto; em 1977 ganhou o Prêmio do Salão Internacional de Humor de Piracicaba. Com o resultado da sua conquista foi convidado a fazer parte do elenco de cartunistas do jornal Folha de São Paulo, onde consagrou seus personagens e notoriedade nacional com suas criações irreverentes e bem elaboradas o traço enigmático que o personificou. Em l991 participou ao lado de Angeli e Laerte da criação da tirinha “Los 3 amigos”, satirizando os filmes de bang-bang do velho Oeste, com a presença indispensável dos mexicanos e suas indumentárias tradicionais. Também fez parte da equipe de redação dos programas TV Pirata e TV Colosso da Rede Globo.

Seus personagens

Geraldão – Criado em 1981, solteiro de 30 anos, mora com sua mãe em constantes desentendimentos pelos seus costumes pouco recomendáveis de andar pelado pela casa o tempo todo, beber e fumar muito. Quando encontra remédios toma sem nenhuma preocupação.



Casal Neuras – Criado em 1984, trata-se de um casal formado por uma mulher que aboliu a submissão e o marido com pose de liberal curte o seu ciúme na neura.


Doy Jorge – Criado também nos anos 80, destaca um roqueiro mal sucedido que se deixou levar pelas drogas pesadas e suas nóias.


Zé do Apocalipse – O profeta brasileiro



Com Péricles de Andrade Maranhão, o criador do Amigo da Onça não foi diferente, só que ele foi o responsável pela sua própria tragédia pessoal se autodestruindo pelo seu livre arbítrio. Depois de 30 anos de pleno sucesso profissional, vários prêmios e vendo a vida descambar para a boemia desregrada, solidão e depressão, provocou suicídio. Abriu o gás do seu apartamento e ficou esperando a morte chegar. Mesmo determinado a morrer não descuidou da sua maneira humorada de ver os fatos. Teve o cuidado de escrever um aviso “Não risquem fósforos” que foi afixado na porta.

Após sua morte Carlos Estevão também seu amigo, continuou desenhando as charges na tentativa de manter viva a imagem do personagem sem, contudo, alcançar o mesmo sucesso conquistado pelo seu idealizador que se tornou a sua própria identidade. Poucas pessoas o chamavam pelo nome Péricles, era conhecido mesmo como o criador do Amigo da Onça.


Péricles nasceu no bairro Espinheiro, no Recife em 14 de agosto de 1924, faleceu no Rio de Janeiro em 31 de dezembro de 1961. Sua primeira charge foi publicada no Diário de Pernambuco. Foi presença marcante em O Cruzeiro de 1943 a 1962. Chegou ao Rio conduzindo uma carta de apresentação de Leão Gondim de Oliveira o manda chuva dos Diários Associados, a mais poderosa rede de comunicação do país na época. Em 1942 estreou no Diário da Noite com o personagem “Oliveira, o trapalhão”. Em 1943 já em O Cruzeiro criou o que considerava o verdadeiro estereótipo do malandro carioca: baixinho, cabelos penteados para trás à base de gumex, Summer jacket, bigodinho safado e olhar de peixe morto. Sua missão espontânea consistia em sacanear as instituições estabelecidas fundamentadas no casamento, exército e na hipocrisia social comum entre as classes sociais predominantes, principalmente entre as elites.

A ideia que deu origem ao Amigo da Onça surgiu a partir de uma piada muito apreciada e comentada entre a população carioca do momento. Cabendo a Leão Gondim o batismo do personagem.

Dois caçadores conversam em seu acampamento:
- O que você faria se estivesse agora na selva e uma onça aparecesse na sua frente?
- Ora, dava um tiro nela.
- Mas se você não tivesse nenhuma arma de fogo?
- Bom, então eu matava ela com meu facão.
- E se você estivesse sem facão?
- Apanhava um pedaço de pau.
- E se não tivesse nenhum pedaço de pau?
- Subiria na árvore mais próxima!
- E se não tivesse nenhuma árvore?
- Sairia correndo.
- E se você estivesse paralisado pelo medo?
Então, o outro, já irritado, retruca:
- Mas, afinal, você é meu amigo ou amigo da onça?


De forma lamentável a história do riso escreveu em suas páginas o final trágico de dois ícones do humor brasileiro.

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Imagens: Site Memória Viva e Internet