quinta-feira, 4 de março de 2010

Austragésilo de Athayde, a saga do liberal



A saga do liberal

Biografia conta como Austragésilo de Athayde
deixou sua marca na democracia brasileira.


O objetivo desta publicação não é o de promover o passado e o
presente do escritor - até sua morte em 1993 aos 98 anos -,
mas evidenciar suas posições sobre assuntos
de interesse social e político do País, como intelectual
que esteve à frente da ABL-Academia Brasileira de Letras
por mais de 30 anos.
Artigo extraído da Veja de 23 de setembro de 1998,
pág. 150, autor Diogo Mainardi.


No início dos anos 20, o pernambucano Austregésilo de Athayde, então um jovem que tentava a sorte no jornalismo carioca, ouviu várias vezes um mesmo conselho do já famoso escritor Lima Barreto. Dizia-lhe que abandonasse a ideia de trabalhar apenas em jornais, profissão que não dava dinheiro, e tratasse de conseguir um cargo público para viver mansamente à custa do Estado. “Faça como Machado, Bilac e Coelho Neto – compareça à repartição só no fim do mês para pegar o dinheiro”, recomendou o autor de Policarpo Quaresma. Athayde jamais lhe deu ouvidos, e quem ganhou com isso foi o Brasil. Nas décadas seguintes, Athayde se tornou uma das vozes mais influentes da democracia nacional e um atilado analista dos acontecimentos mundiais. Com seus artigos diários em jornais e revistas, publicados até pouco antes de sua morte, em 1993, aos 98 anos, esteve sempre pronto a brandir seu ideário liberal contra as opressões, as ditaduras e toda forma de cerceamento das liberdades individuais e de imprensa. Como eterno presidente da Academia Brasileira de Letras, que comandou por mais de trinta anos, tornou-se também personagem lendário e, não raro, folclórico no mundo literário.


Agora, pela primeira vez, a trajetória de Belarmino Maria Austregésilo de Athayde é contada em livro. Sua filha, Laura Constância A. A. Sandroni, e o marido, o jornalista Cícero Sandroni, acabam de lançar Athayde – O Século de um Liberal (Agir; 810 páginas; 45 reais). A obra é uma biografia feita a partir do portentoso arquivo montado durante décadas por Maria José, a “Jujuca”, mulher de Athayde e mãe de Laura. Jujuca colecionava meticulosamente todos os artigos escritos pelo marido, sua correspondência e as notícias que a imprensa publicava sobre ele ou sobre o casal. Muitos desses artigos são reproduzidos no livro, devidamente acompanhados do contexto em que foram escritos. O resultado é uma História do Brasil e do mundo no século XX contada pela ótica de um observador arguto. A obra também procura desmistifica algumas lendas a respeito de Athayde, como a de que ele teria apoiado incondicionalmente o golpe militar de 1964. Os artigos de época mostram que ele realmente apoiou o levante militar como forma de evitar a baderna na vida nacional, mas apenas três dias depois já reclamava a devolução do poder aos civis.

A biografia também resgata histórias curiosas e divertidas protagonizadas por Austregésilo de Athayde, como sua campanha contra a construção da estátua do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro. “Por que obrigar o Cristo a ser o guarda-noturno dessa Sodoma incorrigível?”, perguntava ele em 1921. Abordando episódios mais recentes, o livro conta como ele ficou furioso quando suas economias da vida inteira foram confiscadas pelo então ex-presidente Collor. Por coincidência, o primeiro pagamento que Athayde recebeu por um artigo, escrito para o jornal carioca A Tribuna, foi-lhe entregue pelo avô do ex-presidente, o também jornalista Lindolfo Collor, diretor da publicação. Dias depois do confisco, Athayde aliviou a bílis com a ministra de Collor, Zélia Cardoso de Mello. Ambos se encontraram no show de Paul McCartney, no Rio de Janeiro. Puxando conversa, Zélia chamou a atenção de Athayde para ao fato de que todos no Maracanãzinho estavam dançando ao som do ex-beatle. “Ministra”, devolveu o jornalista, “quem fez o Brasil dançar foi a senhora, não ele.” Humor admirável para um nonagenário.



À sombra do islã


A literatura nos países muçulmanos continua viva,
apesar da opressão político-religiosa.


Tem curiosidade de conhecer como é conduzida a
liberdade de expressão literária nos países islâmicos?
Então leia este artigo extraído da Veja de 2 de fevereiro de 2000,
págs. 152/153, autor Carlos Graieb.


No começo do século XVIII, um livro incendiou a imaginação dos ocidentais. Ele chamava As Mil de Uma Noites. Quem primeiro o traduziu do árabe foi o estudioso francês Antoine Galland, que retornou de uma viagem a Istambul trazendo na mala um exemplar do texto. Publicados entre 1707 e 1717, os doze volumes dessa tradução conquistaram desde cedo legiões de admiradores. O mundo árabe e adjacências se transformaram na terra das maravilhas. Hoje, passados três séculos, pouco resta dessa imagem. Gênios e odaliscas foram substituídos, no pensamento ocidental, por xeques do petróleo, mulheres de véu negro e fanáticos religiosos que aparecem na televisão. Curiosamente, no entanto, as histórias narradas por Sherazade continuaram sendo as únicas, de toda a literatura árabe ou muçulmana, conhecidas na Europa e nas Américas. Tudo se passa como se não houvesse escritores por lá. Mas eles existem. E vêm produzindo obras de grande valor, mesmo quando precisam desafiar a opressão política, a censura religiosa ou a pobreza.


Recentemente, alguns ficcionistas chegaram ao mercado brasileiro com o selo da editora Record. Do libanês Amin Maalouf temos Jardins de Luz, que fala sobre o fundador da religião maniqueísta. Já o marroquino Tahar Bem Jelloun em, Os Frutos da Dor, descreve a situação dos imigrantes islâmicos na França, escolhendo como narradora uma jovem que precisa enfrentar tanto o racismo dos europeus quanto as superstições de seu próprio povo. Por fim, o paquistanês Tariq Ali reconstitui de maneira empolgante em, O Livro de Saladino, a época das cruzadas sob o ponto de vista muçulmano. São três ótimos romances, diferentes entre si, que “desafiam os preconceitos do leitor ocidental” – para usar as palavras de Ali. Nenhum desses autores, porém, vive em seu país de origem. Os dois primeiros moram na França e publicam em francês, enquanto o último mora na Inglaterra e publica em inglês, por causa disso, não representam à perfeição a atual cultura da região. É preciso ir às fontes.

Uma primeira surpresa, para quem começa a investigar o assunto, é descobrir que a literatura dessa parte do mundo vive num feliz estado de efervescência. Inaugurada na semana passa, (anterior a 2 de fevereiro de 2000) a Feira do Livro do Cairo, no Egito, dá uma idéia da agitação. Um total de 79 países participa do evento de 25 mil títulos estão em exibição. “Nossa literatura não tem do que se envergonhar, seja em quantidade, seja em qualidade, afirma o contista egípcio Bahaa Taher (que traduziu O Alquimista, de Paulo Coelho, para o árabe). “Mesmo no romance, uma forma literária que só chegou por aqui há 100 anos, quase todos os países contam com grandes nomes. Azar do Ocidente, que ainda não os descobriu.” A julgar pelos dois autores árabes de maior renome internacional. Taher tem mesmo razão. O egípcio Naguib Mahfouz, ganhador do Prêmio Nobel de 1988, é um genial retratista do Cairo. Já o saudita Abdelrahman Munif é responsável pela monumental trilogia Cidades de Sal, que fala sobre os dilemas de um país que se moderniza depois de descobrir petróleo.

“Sexo e álcool” – A falta de divulgação, entretanto, está longe de ser o maior problema desses escritores. Um levantamento realizado em 1999 pela PEN International, entidade que congrega literatos do mundo todo, mostra que setenta intelectuais foram mortos, encarcerados ou desapareceram nos últimos anos em países de maioria islâmica. Por certo, existem diferenças entre essas nações no que diz respeito à liberdade de expressão. No Marrocos, onde um regime democrático lançou raízes nos últimos dez anos, a censura veio ao chão. Em outro extremo acha-se o Irã, dominado pelo fundamentalismo, “Romances iranianos não podem ter cenas de sexo ou mencionar bebidas alcoólicas”, diz a iraniana Azar Nafisi, professora de estudos culturais da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos. “A repressão é tão intensa que os escritores se autocensuram, temendo represálias das autoridades.” Azar conta que todos os meses recebe uns dez livros clandestinos de jovens compatriotas que não conseguem ser ouvidos em seu próprio país. “O assombroso é que eles são muçulmanos sinceros, que não desejam ofender sua religião.” Por fim, há os casos intermediários. O próprio Egito, um grande centro de difusão cultural, não vive em regime de liberdade plena. Um governo autoritário controla a imprensa e as editoras. Como se não bastasse, grupos fundamentalistas perseguem os escritores. Até Naguib Mahfouz foi vítima de um atentado. Em 1994, um fanático o esfaqueou no pescoço, por achar que seus livros ofendem o islã.

Por que, então, muitos outros autores não seguem os passos daqueles que se mudaram para o Ocidente? Por que Mahfouz, apesar da ameaças e da fama que desfruta, continua vivendo no mesmo bairro onde sempre morou? “Ao contrário do que se pensa o fundamentalismo e o autoritarismo não são traços imanentes de nossa cultura”, acredita o filósofo Mohammed Abed AL-Jabri. “Ambos são produto de uma distorção.” Considerado o mais importante pensador marroquino da atualidade, Al-Jabri é autor de um Best-seller no Oriente, Introdução à Crítica da Razão Árabe, lançado no Brasil pela editora UNESP. Seu principal objetivo é reviver o que chama de vertentes racionalistas da cultura árabe. “O pensamento árabe contemporâneo pode recuperar e reutilizar os ensinamentos racionais e liberais de sua própria tradição - a luta contra o feudalismo e o misticismo, a vontade de instaurar uma Cidade da razão e da justiça”, escreve ele. Esse projeto está inscrito nas obras que acabam de sair no Brasil. Vale a pena conferir.

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Imagens: Internet

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Fernando Pessoa - Virgílio no espelho




Fernando Pessoa - Virgílio no espelho
Por Reinaldo Azevedo




Fernando Pessoa - Virgílio no espelho: Texto originalmente publicado na revista Bravo!, pelo jornalista Reinaldo Azevedo, Edição nº 13, de outubro/1998, parte integrante do livro Contra o Consenso, publicado pela Editora Barracuda. Posteriormente foi transcrito em Veja de 23/12/1998 e depois no Blog do autor hospedado no site da revista Veja em 22/01/2007. Esta é uma das razões pela qual o Bússola Literária se orgulha de publicar também em suas páginas, este trabalho editorial fantástico de Reinaldo ao transmitir através da sua extraordinária sensibilidade intelectual e, de forma cuidadosa esta reflexão analítica/informativa literária sobre a obra do poeta Fernando Pessoa. Aproveite bem. Esta publicação está autorizada pelo Autor.


A apreciação crítica da obra de Fernando Pessoa esbarra, de cara, numa dificuldade. De tal sorte já se tentou apreender a sua especificidade que, ao fim, o trabalho resulta ou em redundância ou em impotência crítica, como se jamais avançássemos além da periferia da obra, passando por caminhos excessivamente conhecidos ou então nos fixando em arrabaldes de irrelevância. É o correspondente crítico da sensação de encantamento basbaque que experimentamos depois de ler cada poema: “Como alguém conseguiu ser tão grande, intenso, inteiro, personalista e, ao mesmo tempo, dialogar com toda uma era, traduzir sentimentos e sensações que dizem respeito a todos e a cada um de nós?”.

Com a possível exceção do irlandês Yeats (1865- 1939), um caso eventualmente mais complexo, não há na poesia de nenhuma outra língua moderna quem tenha sido tão ambicioso nos horizontes e tão radicalmente solitário. Na impossibilidade de flagrar em todos os seus contornos o bicho interno que corrói a alma do poeta, resta a tentativa de localizar Fernando Pessoa no seu tempo, afinal e sempre um poeta português.

Pessoa foi o autor completo de um país decadente. Um dos maiores poetas de uma língua moderna só se pôde fazer num país então — e por muitas décadas — obscurecido pela sombra de um passado glorioso. De Pessoa, pode-se dizer praticamente o inverso do que dizia Eliot de Virgílio (71-19 a.C.). No ensaio O que é um Clássico?, o poeta inglês via no latino o sumo e a síntese, o ápice e o vórtice de uma civilização — o poeta completo de um império triunfante, diria eu. As preocupações e formulações de Virgílio estavam destinadas a estender a sua perenidade e eram uma espécie de conclusão de uma civilização que o antecedera. Talvez seja útil avançar ainda um pouco nesse espelho ao avesso, e — quem sabe? — se comece a delinear um pouco mais do vulto pessoano.

Quando Virgílio mira o tempo, seja nas Bucólicas, nas Geórgicas ou na Eneida, era o conforto de um presente de glória e poder que se afigurava eterno o que se via refletir em seus versos. A glória mítica de Enéias, que foge à destruição de uma civilização para fundar outra, é pura aposta no porvir. A Eneida virgiliana, se traz o rumor ancestral das batalhas e o suor do périplo do herói, heranças, respectivamente, da Ilíada e da Odisséia homéricas, que a inspiram, mostra-se, ao mesmo tempo, como a afirmação da diferença. Ao escrevê-la sob os auspícios de Otávio Augusto, Virgílio assistia ao pleno funcionamento de uma sociedade que se queria — e era — o retrato fiel da mecânica celeste imaginada.

Quando Virgílio ensaia alguma utopia, ela tem até mesmo um caráter regressivo — bem típico de impérios cujos valores são hegemônicos —, numa espécie de volta saudosa à sociedade primitiva de agricultores (Geórgicas) e pastores (Bucólicas), embora estes já fossem cultos, refinados e quase amaneirados. Em sua trilogia, o poeta cumpriu as três palavras imaginadas para seu epitáfio (“pascua, rura, duces”): cantou os campos, o trabalho na terra e os heróis nacionais. Pessoa foi, diz-se aqui, segundo a linha eliotiana, esse Virgílio pelo avesso. Vejamos. Sua estréia crítica nas letras portuguesas se dá em abril de 1912 com um artigo para a revista A Águia, órgão de um movimento literário chamado Renascença Portuguesa. Ainda que boa parte da crítica queira ver nesse texto — A Nova Poesia Portuguesa Sociologicamente Considerada — não mais que a manifestação petulante e irresponsável de um jovem autor de 24 anos, nessa estréia estão resumidas algumas das preocupações que marcaram para sempre a sua obra.

Não era ainda o poeta maduro que Eliot exigia. Para Pessoa, naquele texto, a vitalidade de uma nação não está em sua riqueza comercial, mas na “exuberância de alma”, em sua capacidade de criar “novos moldes, novas idéias gerais, para o movimento civilizacional a que pertence”. Depois de algumas digressões sobre as literaturas inglesa e francesa, ele diz (como o Eliot de há pouco) que “o valor dos criadores literários corresponde ao valor criador das épocas”. E conclui: “O valor da literatura, perante a história literária, corresponde ao valor da época perante a história da civilização”.

Na seqüência, Pessoa permite-se um salto sofístico. Olha em torno e enxerga a mediocridade da sociedade e da política portuguesas, a condição deprimente de um país irrelevante na Europa, o que deveria levá-lo, pela lógica elementar, a concluir pela impossibilidade do surgimento de um grande vulto literário. Nada disso. Ao vislumbrar o que considera uma literatura de teor nacionalista, com destaques individuais que contrastam com a pequenez do país, ele supõe a antecipação de um período de glória: “Tornemos essa crença, afinal, lógica, num futuro mais glorioso do que a imaginação o ousa conceber, a nossa alma e o nosso corpo, o cotidiano e o eterno de nós” para “criar o supra-Portugal de amanhã”. E vem a suprema heresia: “E isto leva a crer que deve estar para muito breve o inevitável aparecimento do poeta ou poetas supremos, desta corrente, e da nossa terra, porque fatalmente o Grande Poeta, que este movimento gerará, deslocará para segundo plano a figura, até agora primacial, de Camões”.

É claro que o autor estava atento à contradição e concede: “Pode-se objetar (…) que o atual momento político não parece de ordem a gerar gênios poéticos supremos”. Então, vem a conclusão, que, se afrontava a lógica, iria premiar a posteridade: “Mas é precisamente por isso que mais concluível se nos afigura o próximo aparecer de um supra-Camões (…). Porque a corrente literária (…) precede sempre a corrente social nas épocas sublimes de uma nação (…). Prepara-se em Portugal uma renascença extraordinária, um ressurgimento assombroso”.

Passado como desterro

O artigo gerou barulho. Pessoa afrontava — irresponsavelmente, é fato — a santidade; não por acaso, o Virgílio português, o autor de Os Lusíadas, a Eneida lusitana, o sumo literário do período em que o país salgou os mares com as lágrimas das mães e das noivas portuguesas, o cantor da civilização onde o sol nunca se punha. O bardo e o demiurgo de um povo e seus valores triunfantes deveriam ser superados, já agora numa era decadente, por um poeta que, parafraseando o próprio Pessoa num texto sobre política, na impossibilidade de ser o resultado da vontade de todos os poetas, resumisse as qualidades de todos eles. Estava anunciado o fenômeno da heteronimia: diante da impossibilidade de um só poeta conseguir ser todos, todos em um só resultariam no supra-Camões. Se Pessoa não logrou seu intento, é certo que está sentado à direita de Deus-pai.

Se Pessoa não conseguiu navegar águas tão extensas quanto Camões — faltou-lhe o poema épico? —, o pertencer a uma era decadente certamente o fez avançar por verbos até então ignotos. É de se perguntar: a civilização moderna seria capaz de sustentar a aventura épica? Provavelmente, não. Nos fragmentos lírico-históricos de Mensagem, o poeta reconta, magnifica e lamenta o passado português segundo o ponto de vista do narrador de uma epopéia, é fato, mas cada herói é, por assim dizer, privatizado pela dor de quem olha. Camões concluiu o seu poema épico no desterro. Pessoa deu à luz seu Mensagem desterrado do tempo. A sua pátria era lugar nenhum, e a sua terra estrangeira era o passado. Muito já se falou no que há de distinto e radicalmente disforme nas várias vozes poéticas de Pessoa. Mas a questão relevante, parece, é saber como essas várias vozes se harmonizam num coro que ecoa um tempo.

Esse Virgílio da queda enfeixou nos seus heterônimos um só e mesmo sentimento de desconformidade com o mundo, que se traduz no sensacionismo modernista de Álvaro de Campos, na poesia culta de inspiração clássica de Ricardo Reis, na negação dos maneirismos poéticos de Alberto Caeiro, na recuperação do Portugal tragicamente heróico de Pessoa-ele-próprio ou na metafísica cinza, entristecida e reflexiva dos Poemas Ingleses. A dor de Pessoa é uma aventura do espírito. Mesmo o Camões mais tristemente reflexivo, que lamenta a crueza de seu destino, aquele poetizado por Bocage, que destaca num soneto não apenas seus “dons do pensamento”, mas também “os transes da ventura”, que lembra que ele teve de “arrostar o sacrílego gigante” e viver “junto ao Ganges sussurrante” — referências à atribulada e quase heróica vida do poeta em seu exílio —, mesmo esse Camões não eleva o desconforto às alturas pessoanas.

Camões fundia magnificamente suas desventuras pessoais à herança petrarquiana, ao que se poderia chamar “uma maneira de sentir”. O Pessoa de Mensagem inventou um passado — e uma forma de expressá-lo — ao qual se sente intelectualmente vinculado, mas muito mais inóspito do que qualquer terra estrangeira, porque irremediavelmente perdido. Ao recuperar, na dor, esse Eldorado onde o sol só se põe, que não é lugar, mas tempo, vaza a herança clássica (“Os Deuses vendem quando dão”), o catolicismo medieval (“Deu-me Deus o seu gládio, porque eu faça/ A sua santa guerra”), o limite entre o humano e o divino do Renascimento (“Deus quere, o homem sonha, a obra nasce”), a saga épica de um povo traduzida em minimalismo lírico (“Ó mar salgado, quanto do teu sal/ São lágrimas de Portugal!”).

Todos os poemas de Mensagem, a mais espetacular obra pessoana — a única publicada em vida e talvez, de fato, concluída —, podem ser resumidos no poema “A Última Nau”, em homenagem a dom Sebastião:
“Levando a bordo El-Rei D. Sebastião,
E erguendo, como um nome, alto o pendão
Do Império,
Foi-se a última nau, ao sol aziago
Erma, e entre choros de ancia e de presago
Mystério.
(…)
Ah, quanto mais ao povo a alma falta,
Mais a minha alma atlântica se exalta

E entorna
E em mim, num mar que não tem tempo ou spaço,
Vejo entre a cerração teu vulto baço
Que torna. (…)”.

Os múltiplos interesses de Fernando Pessoa, que passeavam pela astrologia e pelo ocultismo, e suas preferências políticas francamente reacionárias ajudaram a consolidar a imagem do poeta sebastianista. É de se desconfiar. Desde seu primeiro texto público, o que se vê é antes um poeta com ânsia de futuro (aquele que esperava pelo “supra-Portugal”) do que saudoso do passado. A poetização de uma história tão estreitamente portuguesa e, ao mesmo tempo, tão largamente universal parece antes a rejeição de um dia-a-dia “cotidiano e tributável”, concessão, diga-se, em que se perdem muitos poetas contemporâneos. Até mesmo um Carlos Drummond de Andrade — simbolicamente, o nosso Pessoa — se deu às bobajadas jornalísticas de Versiprosa (se bem que nem ele as considerasse poesia), quando já nos tinha dado Brejo das Almas, Sentimento do Mundo e Rosa do Povo, entre outras lições de coisas e brancuras impuras.

De certo modo, nas mesmas águas ousadas navegou o futurista Álvaro de Campos, talvez o mais popular dos heterônimos pessoanos, porque supostamente mais fácil, mais inteligível. Além da adesão ao verso livre — por oposição à miscigenação formal entre clássica e medieval de Pessoa-ele-mesmo — e ao ritmo quase prosaico dos poemas, Álvaro de Campos, parece alçar às alturas uma sensibilidade destrambelhada, sem freios, que pode ser confundida com certa poesia marginal, que faz a apologia do destampatório sentimental. Mas há uma insuspeitada e exata correspondência entre o Pessoa de Mensagem e Álvaro de Campos, da qual o poema “Ode Marítima” é o exemplo perfeito.

O mar de Mensagem — de onde surge inteira e redonda a Terra — é metonímia, e o da “Ode Marítima”, metáfora; aquele afigura todas as dificuldades da civilização que foi “muito além da Taprobana”, este outro transporta uma alma sem cura; aquele existe para que, por intermédio dele, se vislumbre uma nesga de glória e se experimente o desterro no presente, este para que continue, metáfora ativa, a despertar em nós desejos de viagem, de fuga para dentro de nós mesmos, entre nossas misérias íntimas e nossos limites. No mar da metonímia, navega o vulto de dom Sebastião; no mar da metáfora, vê-se

“A ânsia do ilegal unido ao feroz,
A ânsia das coisas absolutamente cruéis e abomináveis,
Que rói como um cio abstrato os nossos corpos franzinos,
Os nossos nervos femininos e delicados,
E põe grandes febres loucas nos nossos olhares vazios!”.

Na “Saudação a Walt Whitman”, três versos dão conta da natureza futurista de que era feito Álvaro de Campos. Assim ele classifica o poeta americano:
“Jean-Jacques Rousseau do mundo que havia de produzir máquina,
Shakespeare da sensação que começa a andar a vapor,
Milton-Shelley do horizonte da Eletricidade futura”.


Cada um dos autores citados, de algum modo luminares do mundo das idéias, se resume num Whitman que prenuncia a democracia e suas conquistas técnicas. O futurismo de Álvaro de Campos não é do tipo que empresta às banalidades da vida moderna o estatuto de poesia ou que tenta consolidar novos cânones em detrimento de outros fundadores do pensamento que lhe é contemporâneo — alô, moderneiros de 1922 e de 1998! Álvaro de Campos extrai do moderno o perene, atualiza a idéia e o conceito na matéria viva, revela o eterno no aparentemente transitório. A saudação a Whitman, destaque-se ainda, não é acidental. O poeta americano e seu pansexualismo — “sexualizado pelas pedras, pelas árvores, pelas pessoas, pelas profissões” — se afiguram uma revelação feliz e bem resolvida de uma certa palpitação erótica — insatisfeita, sofrida, impotente — que se percebe em todos os poemas de Álvaro de Campos. Em seu caso, no entanto, o desejo, sem definição de gênero, como o de Whitman, parece jamais ter encontrado um lugar, um objeto em que se fixar, um corpo em que se exercer.

É na poesia de feição pastoril de Ricardo Reis, o pagão culto, e de Alberto Caeiro, o pastor rústico, que Fernando Pessoa, aparentemente ao menos, se reconcilia com o mundo. Aparentemente. Os poemas do primeiro seguem de muito perto as odes e os epodos do latino Horácio (65-8 a.C.). Escreve o latino:

“Não queiras saber, Leocone, é um sacrilégio
Que destino os deuses a mim e a ti nos concederam”
Ao que responde Ricardo Reis:
“Aos deuses peço só que me concedam
O nada lhes pedir. A dita é um jugo
E o ser feliz oprime
Porque é um certo estado. (…)”.
Horácio conclui o seu poema com um ambíguo “carpe diem, quam minima credula postero” (“aproveita o tempo e desconfia do futuro”), sem deixar claro se devemos nos entregar irresponsavelmente aos prazeres ou não perder um minuto que seja no pleno domínio de nossa própria vida. A julgar pela obra que deixou, à qual se refere no verso-divisa “Exigi monumentum aere perennius” (“Ergui um monumento mais duradouro do que o bronze”), a segunda interpretação parece fazer mais sentido. Mas Horáci
o era o outro poeta de uma era triunfante.

A retomada da Antiguidade em Reis é uma busca sem esperança (jamais ele demonstra a autoconfiança horaciana) do locus amoenus (o lugar aprazível) e da aurea mediocritas (o equilíbrio de ouro, o ideal de tranqüilidade) para dar curso ao seu desalento, posto que seus temas são claramente portugueses, a saudade que sente é da mesma glória que constitui a matéria de Mensagem, a desconformidade com o mundo tem o mesmo matiz dos poemas de Álvaro de Campos, que poderia assinar, por exemplo, o fatalismo dos versos que seguem, mas não seu comedimento:
“Nada podendo contra
O ser que me fizeram,
Desejo ao menos que me haja o Fado
Dado a paz por destino”.

Caeiro é o fecho de ouro de nosso Virgílio às avessas: não se dedica à recuperação de um passado improvável, não se entrega às dores incuráveis de uma alma passível de todas as sensações, não se redime na busca estóica do equilíbrio e da medida; Caeiro simplesmente nega, ao fazê-la, a poesia. Seus versos têm um norte estético que é também uma espécie de norte moral: inutilia truncat — a busca da simplicidade. O poeta é sucinto no expressar-se, mas ainda mais no sentir. A verborragia de Campos lhe cheira a desequilíbrio; o equilíbrio de Reis, a afetação, e a afetação culta de Pessoa, a fuga da realidade natural, a única matéria da poesia para Caeiro. Não é sem certa ironia que ele se volta para ninguém menos que o próprio Virgílio:
“Os pastores de Virgílio tocavam avenas e outras cousas
E cantavam de amor literariamente.
(Depois — eu nunca li Virgílio.
Para que o havia eu de ler?)
Mas os pastores de Virgílio, coitados, são Virgílio,
E a Natureza é bela e antiga”.

Desprezava tudo o que lembrasse poesia. Não partiu Caeiro para a desconstrução do verso (jamais flertou com tolices afins…), mas fez uma poesia na contramão do fluxo influente das figuras de linguagem disponíveis, em oposição aos desejos reformadores e lamentos lacrimosos de que nenhum autor escapa (especialmente Álvaro de Campos), em contraste com qualquer utopia restauradora, de que Pessoa foi mestre. Seu refúgio é o alheamento:
“Ontem à tarde um homem das cidades
(…)
Falava da justiça e da luta para haver justiça
E dos operários que sofrem,
(…)
e dos que têm fome,
E dos ricos, que só têm costas para isso.
E, olhando para mim, viu-me lágrimas nos olhos.
E sorriu com agrado, julgando que eu sentia
O ódio que ele sentia e a compaixão
Que ele dizia que sentia.
(…)
(Que me importam a mim os homens
E o que sofrem ou supõem que sofrem?
Sejam como eu,
não sofrerão.
Todo o mal do mundo vem de nos importarmos uns com os outros
(…)”.

Um único monossílabo, nesse poema, resume a poesia de Caeiro:
“Eu no que estava pensando
Quando o amigo de gente falava
(E isso me comoveu até as lágrimas),
Era em como o murmúrio longínquo dos chocalhos
A esse entardecer
NÃO parecia os sinos duma capela pequenina
A que fossem à missa a
s flores e os regatos
E as almas simples como a minha.”
Eis aí: para ele, a verdadeira poesia liberta a realidade da metáfora. Caeiro também era um fingidor. Mentiu ao dizer que não lera Virgílio. A IV Bucólica virgiliana, a do menino que viria para anunciar a Idade do Ouro (e que o imperador Constantino e Santo Agostinho achavam prenunciar a vinda do Messias…) — “Sem trato algum, menino, a terra te oferecerá/ Como primícia as heras que se alastram, mais o bácar (…)/ Por si, cheias de leite, as cabras voltarão ao aprisco,/ E os rebanhos não mais terão pavor dos grandes leões (…)”—, mereceu uma versão de Caeiro. Em seu poema, ele dá curso à leitura impossível de que Virgílio previu o Cristo, torna o garoto, de fato, o Menino Jesus, mas lhe dá uma feição pagã:
“(…) Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte,
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
(…)
A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas.
(…)
Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
(…)
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
(…)”.

Há ainda muitos outros Pessoas, o dos poemas ingleses, o dos poemas dramáticos, o das poesias coligidas, e inéditos devem sair ainda do famoso baú de madeira onde ele abrigou toda a sua obra, que, a cada novidade, obriga a que se releia o que já se conhece. Portugal esperou quase quatrocentos anos, e das águas não emergiram dom Sebastião ou o supra-Camões que anunciariam a era de ouro. O país — o “rosto da Europa” a “fitar o Occidente, futuro do passado” — deu-nos, no entanto, Fernando Pessoa. Agora reintegrado à Europa, partilhando, com justiça, do quinhão de civilização que espalhou pelos quatro cantos da Terra, Portugal pode esperar outros quatrocentos anos até que um supra-Pessoa surja do azul profundo.

A eternidade não tem pressa.


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Imagens: Internet, Fotosearch

domingo, 31 de janeiro de 2010

Insólito Ipê-amarelo





Brasil é um recanto de belezas naturais fascinantes. Capazes de provocar a cobiça e interesses de outros povos e até mesmo do próprio brasileiro pelo seu patrimônio de recursos naturais de inestimáveis valores. Nossas riquezas nativas vêm ganhando espaço nos principais fóruns de discussões sobre as mudanças climáticas realizados nos últimos anos, desde o ambicioso Protocolo de Quioto no Japão em 1997. Reflexo da ECO-92 realizada no Rio de Janeiro.

Este mesmo tema foi destaque na irrelevante reunião de Davos na Suíça, envolvendo a participação dos principais países economicamente superiores, onde abriu-se espaço nos debates sobre as questões climáticas com destaque para os temas ambientais e, recentemente em Copenhague na Dinamarca outra tentativa ilusionista foi analisada sem grandes resultados efetivos.

O certo é que o planeta pede socorro. Pede clemência, em particular a nação brasileira, preocupada com a defesa de suas preciosas reservas contra atitudes imbecis, praticadas em grande parte por interesses de posse. Sendo que, na maioria das vezes, de maneira escusa. O lamentável desta história, é que, esses visíveis interesses praticados de forma gritante e covarde, já comprovados são instaurados pela negligência irracional de uma parte da sociedade gananciosa e hipócrita em detrimento de fatores meramente financeiros.

Sem o menor pudor, envolvem pessoas das mais variadas atividades sócio-econômicas, tendo o agronegócio com suas queimadas despropositadas e criminosas, um fator que exige punições graves. Eliminam de forma impiedosa e acelerada a fauna e a flora de forma incompreensiva. Animais de todas as espécies agonizam e morrem sem nenhum sentimento da parte dos autores; a indústria madeireira derruba de maneira absurda árvores centenárias, causando um efeito de devastação capaz de pasmar até o mais otimista pesquisador em assuntos ambientais.

Em determinadas regiões chegam ao descabido de em apenas um ano promoverem a destruição de áreas superiores a de alguns países europeus e asiáticos. E a exploração do solo e dos recursos hídricos segue na mesma toada. São os herdeiros da destruição e do efeito ambição pelas nossas riquezas minerais, utilizando suas dragas e outros instrumentos nocivos contribuindo de forma decisiva, com a destruição irreversível de rios, riachos e córregos.

Este caos já há tempo instalado e ironicamente praticado principalmente pelas elites, os maiores responsáveis pela degradação ambiental e o efeito estufa. Contudo, este olhar de desejo tem sido fonte de estímulos nas campanhas feitas pelos vaidosos governantes da nossa Pátria Amada no sentido de atrair a atenção de investidores internacionais, com os slogans de “O País do futuro”, “O País das oportunidades”.

No entanto, pouco se tem feito para impedir o câncer da calcificação e mudança gradativa do nosso solo fértil, para o caos desértico que se aproxima de forma vertiginosa. Em contrapartida, também pouco se tem feito de maneira visível e realista, ações inovadoras que contribuíssem de fato, para a preservação do nosso bem mais precioso e invejado por todos os povos que já viram suas reservas destruídas, restando apenas uma ou duas fotos no álbum de recordações.

Na velocidade em que o problema se avança, nossos netos ou bisnetos, provavelmente não verão este patrimônio vivo de florestas nativas, e o cerrado com sua biodiversidade exuberante, além é claro, de outros recantos e manancial igualmente importante, simplesmente porque deixarão de existir. De quem é a culpa? Lógico que o culpado não quer e não vai aparecer. É inegável que uma minoria abastada e insaciável, de forma declara não assume a responsabilidade. Vários satélites ao redor da terra têm fotografado e registrado as áreas mais afetadas, nem assim se preocupam.

Também é esse contingente de dissimulados imperialistas do agronegócio os principais contribuintes com os deploráveis exemplos já constatados, como sendo os vilões que já dilapidaram suas riquezas naturais, e, hoje uivam como leões, tentando convencer que estão preocupados com o futuro da humanidade.

Como se fosse o último suspiro, esses supostos defensores das reservas naturais, utilizam a tribuna e a mídia, para se passarem por verdadeiros paladinos e, de forma arrogante e hipócrita, apontam em direção da floresta amazônica, como sendo o único elo entre a sobrevivência saudável e a perpetuação das espécies.

Várias tentativas políticas de preservação do ecossistema realizadas nos últimos cinquenta anos não obtiveram o êxito esperando, despencaram-se todas as tentativa, ainda na sua implantação, pela ausência do respeito e da moral. Até mesmo, por não conter no cerne da proposta, critérios de envolvimento sistemático da própria população, que de braços cruzados assistem o circo pegar fogo, ou seria, a vegetação nativa condenada ao fogo inferno?

Resultado: As frustradas tentativas vieram a falecer ainda na infância simplesmente porque não viriam privilegiar interesses pessoais de alguns políticos travestidos de bons cidadãos e empresários ambiciosos em busca de resultados imediatos.

A natureza tem provado que tanto é bondosa, quanto é perversa. Detesta ser desafiada e vem mostrando sua fúria de advertências. Mesmo assim, parece que o que ela tem ocasionado com os exemplos de terremotos, tsunamis, enchentes, falta de abastecimento de água e alimentos, não passa de um simples fenômeno da natureza. A verdade é inquestionável, aqueles que realmente poderiam agir criando leis práticas, eficientes e gerir ações de preservação, ofuscam suas atitudes em benefício corporativistas.
Não faz muito tempo, um exemplo de persistência e amor à vida, foi divulgado inicialmente através de uma publicação gaúcha, depois ganhou o mundo por intermédio da internet. Trata-se do ipê-amarelo que desafiou a impiedosa motosserra, ou quem sabe o próprio machado, sabe-se la, para ser transformado num poste de sustentação da rede elétrica na cidade de Porto Velho-RO.

Como foi incrível sua manifestação e exemplo de soberania e humildade! Mesmo sendo vilipendiado, arrastado, escalpelado, desnudado de sua casca e de sua nobreza, ainda assim, além de colaborar com o benefício da iluminação pública conseguiu fazer acontecer o que parecia impossível. Criou raízes no chão bruto no qual fora plantado para atender as necessidades da comunidade, reviveu e floriu magnificamente diante do espanto e admiração de todos.

Eis a pergunta: Como poderia um pedaço de pau, ressuscitar da serraria e ainda responder aos seus verdugos e algozes com o sorriso de vitória demonstrado por meio de suas flores amarelas como o ouro? Como pode suportar a atrocidade recebida com tamanha nobreza, deixando pasmos aqueles que o sacrificou? A verdade é que isto aconteceu e foi registrado pelas imagens do fotógrafo Leandro Barcelos, cidadão gaúcho, atualmente morador da região. Este é só um exemplo dentre tantos mostrados diariamente nos rincões a fora, mas que nem todos veem.

A questão sobre o desmatamento criminoso e o tráfego de espécies nativas acontece deste o descobrimento pelos portugueses. E o pau-brasil na época, não foi o único a passar por este interesse e exemplo amplamente divulgado. Várias outras plantas sentiram esse dramático casuísmo, utilizadas para fins medicinais ou mesmo ornamentais foram roubadas e disponibilizadas em negócios rentáveis pelos descobridores. 
O ipê não fossem suas próprias características de habitat, preferindo áreas descampadas e mais expostas ao sol. Teria sido alvo fácil pela sua beleza notável e resistência da sua madeira, muito apreciada e empregada nas estruturas dos telhados das igrejas e mansões coloniais nos séculos XVII e XVIII.

Sua beleza também justifica o fascínio que causa entre as demais árvores. É inegável que se trata de uma planta privilegiada e abençoada pelo Criador. Fatos curiosos envolvem sua existência. Quando se aproxima o final do inverno, enquanto suas folhas começam a cair já se inicia sua florada, atraindo abelhas e beija-flores, importantes responsáveis pela polinização. E, quando está concluindo o seu ciclo floral, outra esplêndida maravilha se estampa na sua copada para a alegria dos seus admiradores.

Assim que começa o nascimento de suas folhas, pelo seu matiz esbranquiçado bem próximo do prateado, causa outro verdadeiro deslumbre de encanto de beleza, provando mais uma vez ser a planta dos sonhos e das inspirações. Não é à toa que o seu encanto e importância à flora brasileira também ganhou reconhecimento dos legisladores através da Lei Federal nº 6.607 de 07/12/1978, considerando-o como Flor Nacional Símbolo do Brasil e o pau-brasil declarado Árvore Nacional.

Na década de 60, uma das espécies do ipê-roxo foi seriamente ameaçada pelo comentário infeliz e irresponsável de um cientista ao afirmar que a ingestão do chá extraído da sua casca, ser um excelente remédio contra o câncer. Parece pura ironia, mas os ipês continuam desafiando seus inimigos oferecendo em troca sua sombra e a beleza de suas flores, mesmo sendo apenas entre os meses de agosto e setembro, sem mágoas presenteiam a humanidade com suas fantásticas cores nos tons de amarelo, rosa, lilás/roxo e branco.

Diz uma lenda sobre os ipês que o vento depois de viajar dias e noites avistou uma simpática árvore que se chamava ipê. Suas belas flores exibiam um amarelo intenso que mais pareciam flocos de ouro brilhando no horizonte. Com o seu exuberante fascínio reinava solene numa área de inesgotável beleza, onde outras espécies de cores diferentes também esnobavam beleza.

Encantado com tamanha maravilha resolveu parar e contemplar aquele presente da natureza. De repente a chuva que também passava por ali achou que seria interessante dar sua contribuição e suavemente banhou suas flores tornando-as mais alegres. O sol por sua vez, presenciando aquele ato espontâneo, achou que também deveria fazer à sua parte e com os seus raios reflexos da vida, completou aquele cenário deslumbrante. A combinação das pequenas gotículas de água que permaneciam sobre as pétalas das flores com os efeitos dos seus raios e o balanço suave dos galhos embalados pelo vento, criou-se uma cintilante visão que resplandecia na copa da bela árvore.

Então os três amigos: vento, chuva e sol sentaram-se nas proximidades daquele resplendor e não deixaram de exaltar aquele acontecimento único e maravilhoso. Conversando concluíram que havia regiões onde o ambiente era de pura solidão e abandono e que, deveriam fazer algo para alegrar esses lugares carentes de felicidade.

Entenderam que mesmo com todo o poder que possuíam precisariam de ajuda para levar as sementinhas dos ipês em cores diferentes até onde deveriam embelezar. Uma abelha ouvindo a conversa dos amigos, percebendo o quanto seria difícil para eles realizarem os seus desejos, se prontificou em ajudá-los, para isto, convidou outras companheiras da espécie e juntas transportariam os pequenos grãos do pólen que iriam dar vida aqueles lugares esquecidos na tristeza a que submetiam.

Enquanto as bondosas e atenciosas abelhinhas operárias faziam o trajeto o vento soprava de mansinho ajudando-as a não se cansarem. A chuva prestativa as acompanhava para regar a nova esperança de vida que viria nascer e o sol cuidadoso iluminava o caminho para que não se perdessem.

Depois de alguns anos, os amigos novamente juntos, mais as abelhinhas se reuniram para verificar o resultado das suas iniciativas. Ao chegarem às regiões escolhidas encontraram orgulhosos todos os ipês floridos cada um com sua beleza própria nas cores, amarelo, branco, roxo/lilás e rosa. Como se não bastasse, para completar aquela maravilhosa imagem, uma grande quantidade de pássaros canoros de diferentes espécies entoava belíssimas canções compondo aquela cena de esplêndida alegria e bem-estar. E assim a natureza num ato de amor e união levou a beleza do ipê a outros recantos onde precisavam de cor e brilho.

A preservação ambiental e o bem-estar da humanidade dependem de ações conscientes de cada habitante global.


A artista plástica e poetisa Neli Vieira, presta sua homenagem à vida, através do exemplo Ipê-amarelo da cidade de Porto Velho-RO. 




Milagre da vida
  

O ipê amarelo
Agoniza na serra elétrica
Depois... Enterram-no
Feito poste de uma rua
Vestem-no de fios
E transformadores
  
Não há anjos
Nem pássaros que o salve
  
Porém a terra
Mãe sábia
Alimenta seu filho mutilado
Com a seiva de seu santo seio
E no milagre da vida
A Fênix renasce no coração da árvore
Agora...
Não é só um poste da rua
É uma obra de arte
Que resplandece em flores lindas
Volta a ser a inspiração
Dos poetas que creem na vida
E passeiam desnudos sobre
As flores do chão
Poetas que renascem entre
Mentiras e verdades cruas
Quando o olhar alcança o céu
E a alma tenta beijar a lua.


Nota: Esta crônica Insólito Ipê-amarelo já esteve disponível aqui mesmo no Bússola Literária, desde 31 de janeiro de 2010. Agora resolvemos dar uma repaginada e, revivê-la com várias modificações no seu texto original. Quem sabe também, seja o momento ideal para servir como objeto de discussão num fórum de debates, abrangendo não só o seu conteúdo sob forma de pesquisa, mas literário e ortográfico. 

A propósito, você já acessou a fan page do meu livro infantil Juju Descobrindo Outro Mundo? Não imagina o que está perdendo. Acesse: www.fecebook.com/jujudescobrindooutromundo.


E o site da Juju Descobrindo Outro Mundo, já o acessou? Se eu fosse você iria conferir imediatamente. Acesse: www.admiraveljuju.com.br 




Imagens: Internet.
Foto do poste ipê: Leandro Barcelos