sexta-feira, 2 de outubro de 2009

O planeta Paulo Coelho

Este artigo que estou publicando, texto de Marcelo Camacho com a colaboração de Roberta Paixão, Carlos Graieb e Virgínie Leite, matéria de capa da Revista Veja de 15 de abril de 1998, não tem a pretensão de destacar somente a importância de Paulo Coelho como escritor, mas também, de sua afinada e eficiente estratégia de marketing que envolve suas publicações e da forma como é conduzida por toda sua equipe direta e indiretamente nos bastidores, além é claro, do carisma envolvente do autor.
Desde 2002, Paulo Coelho ocupa a cadeira nº 21 da ABL - Academia Brasileira de Letras, em substituição ao economista, senador e ministro do Planejamento no Governo Castello Branco, Roberto Campo que morreu em outubro de 2001. Também é inegável e indiscutível seu prestígio no contexto literário internacional.
Em resposta esteve presente em Copenhague, capital da Dinamarca, unindo forças ao lado do Presidente Lula, Ministro dos Esportes Orlando Silva, Governador Sérgio Cabral e do Prefeito Eduardo Paes do RJ, Presidente do COB Carlos Arthur Nuzman, rei Pelé e vários atletas medalhistas olímpicos brasileiros, na campanha para convencer o Comitê Olímpico Internacional, aprovar o Rio de Janeiro como sede das Olimpíadas de 2016.

As fotos não correspondem à publicação original, foram capturadas de forma aleatória na Internet.

Confirmado, o Rio de Janeiro será Sede dos Jogos Olímpicos de 2016

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O planeta Paulo Coelho

Como o mago açoitado pela crítica se transformou no escritor brasileiro mais vendido ao redor do mundo.


Paulo Coelho, cujo qual é conhecido no Brasil, por seus admiradores como "mago" e por seus detratores como "picareta", acaba de bater um recorde histórico: é o segundo brasileiro a atingir a marca de 20 milhões de livros vendidos ao redor do mundo. A façanha o transforma num fenômeno sem paralelo na cultura brasileira. Sobre o outro autor nacional que já vendeu a mesma quantidade de livros, Jorge Amado, Paulo Coelho leva três vantagens. A primeira é que chegou a esse número impressionante em muito menos tempo - dez anos, contra mais de sessenta anos de carreira do autor de Dona Flor e Seus Dois Maridos. A segunda é que, enquanto o venerável baiano publicou 37 livros, ele atingiu a mesma vendagem com apenas oito volumes editados. A terceira é que conseguiu chegar a esse patamar graças, unicamente, a seus próprios méritos - apesar de seu indubitável talento literário, Jorge Amado, militante comunista, contou com a ajuda dos partidões espalhados pelo mundo para propagar sua obra. Sem a ajuda do ouro de Moscou, e provavelmente sem nenhuma mandinga poderosa, Paulo Coelho conquista mercado atrás de mercado, principalmente na Europa, onde ele não é conhecido nem como "mago" nem como "picareta", mas por uma palavra que os críticos brasileiros em geral não têm coragem de pronunciar quando se referem a ele: "escritor".

Os integrantes do Ministério da Cultura, por exemplo, não acham que Paulo Coelho mereça essa qualificação, tanto que não o convidaram para a delegação que representou o país oficialmente no Salão do Livro de Paris, no mês passado (referindo-se a março/98), que teve o Brasil como tema principal. Mesmo assim, Paulo Coelho apareceu por lá por contra própria, convidado por sua editora e roubou a cena lançando em solo europeu O Monte Cinco, seu último romance, que saiu no Brasil há dois anos. Enquanto a maioria dos escritores brasileiros passou praticamente despercebida da multidão, ele recebeu do público francês a atenção dispensada a uma estrela pop. Em visita à feira, o presidente Jacques Cirac cobriu-o de gentilezas - afinal de contas, o brasileiro havia sido condecorado, em 1996, com a Comenda das Artes e das Letras pelo governo da França. Sua tarde de autógrafos menos concorrida o fez assinar livros durante quatro horas ininterruptamente. No melhor dos dias, ficou sete horas autografando. "Os organizadores do Salão do Livro disseram que nunca viram nada igual em mais de dez anos", diz Anne Carrière, a editora de Paulo Coelho na França. "Em três semanas, já vendemos 200 000 exemplares de O Monte Cinco."

O ponto alto de sua passagem por Paris, que incluiu incontáveis entrevista para TVs e jornais, foi um jantar para 700 pessoas no Carroussel, área de eventos localizada no subsolo do Museu de Louvre que costuma abrigar os grandes desfiles da capital da moda. Mônica Antunes, a agente de Paulo na Europa, comanda de Barcelona a operação que o transformou em sucesso em todo o globo terrestre. "O Alquimista foi traduzido para 38 idiomas, e não é todo autor que consegue isso. O Mundo de Sofia, do norueguês Jostein Gaarder, que foi um livro badalado, não chegou a tanto. E o Paulo escreve numa língua que não é inglês, francês nem alemão. É difícil fazer sucesso escrevendo em português. Mas hoje o idioma do Paulo já não importa, ele é universal", diz ela. Com 20 milhões de livros vendidos, Paulo Coelho é um fenômeno para um escritor brasileiro, mas não chega perto ainda dos grandes best-sellers internacionais, como John Grisham, o escritor mais bem-sucedido da atualidade, com 87 milhões de livros vendidos no mesmo período de Paulo Coelho, ou Danielle Steel, que vendeu 360 milhões de cópia em vinte anos. Essas cifras só são possíveis no mercado em que esses dois escritores atuam, o americano, maior do mundo. A façanha de Paulo Coelho, hoje publicado em 73 países, além do Brasil, é conseguir penetrar em vários mercados distintos e, em todos eles, conseguir uma legião de seguidores.

Essa "universalidade" de que fala sua agente parece ser uma das causas do sucesso internacional de Paulo Coelho. O Brasil praticamente não aparece em seus livros, que despertam igual interesse em umbandistas baianos e espíritas suecos. Suas fábulas contendo ensinamentos constumam ser ambientadas em lugares como a Espanha ou o norte da África, mas poderiam passar-se em qualquer tempo e lugar. Ecumênicos, seus livros podem ser lidos sem susto por gregos e troianos, religiosos e materialistas. Em fevereiro (antes a 15/04/98) passado, ele foi convidado a participar do Fórum Mundial de Economia em Davos, na Suíça. No evento, discorreu para empresários e banqueiros sobre insuspeitas ligações entre misticismo e economia. Ao final de uma palestra em que , entre outras coisas, falou sobre a importância de cada um despertar "a mulher que todos trazem dentro de si", foi procurado por um estranho. "Ele me perguntou se eu me importaria em encontrar o Shimon Peres, que queria me conhecer", lembra Paulo Coelho, que não titubeou em aceitar a proposta. "Li todos os seus livrso", foi logo dizendo o ex-primeiro-ministro de Israel ao avistar o escritor, que, desde novembro passado, é conselheiro especial da Unesco para o programa Convergências Espirituais e Diálogo Intercultural, cujo principal objetivo é estabelecer o diálogo inter-religioso.

Neste ano, Paulo Coelho fez uma solicitação a sua editora italiana, a Bompiani: queria conhecer o papa. Para conseguir sinal verde de sua santidade, a editora teve de submeter seus livros a especialistas do Vaticano, que os analisaram durante dois meses. As mesmas obras que servem de ponto de partida para palestras empresariais não foram consideradas danosas à fé católica, e Paulo Coelho conseguiu o encontro com João Paulo II. Católico fervoroso, desses que fazem três orações por dia - ao acordar, às 6 da tarde e antes de dormir -, ficou emocionadíssimo. "Como católico, admiro o papa por ter devolvido o sentido do sagrado à Igreja. O mundo está passando por uma conscientização da sua espiritualidade", teoriza.

Quando se tenta entender o fenômeno Paulo Coelho, a primeira explicação que vem à mente é o crescente interesse que assuntos místicos e religiosos, abordados por seus livros, despertam no mundo atual. Às voltas com um cotidiano repleto de solicitações materialistas, das quais nem sempre podem dar conta, as pessoas precisariam de um escape espiritual, de um sentido transcendental para as suas vidas. A explicação é válida, mas há uma outra razão para o sucesso de Paulo Coelho, bem mais terrena. Ele sabe vender sua imagem, é um especialista em marketing, esquecidas as conotações negativas atribuídas ao anglicismo "marketing" e ao adjetivo "marqueteiro". Antes de se tornar escritor Paulo Coelho foi executivo da indústria do disco. Entre suas criações nessa área está a figura de Sidney Magal, o falso cigano que rebolava em churrascarias da noite carioca e, mediante uma armação de gravadora, foi transformado num supersucesso fonográfico em meados dos anos 70. Paulo Coelho domina as leis do sucesso na indústria fonográfica, e essas leis são as mesmas que regem o tipo de literatura popular que pratica. 

A operação de lançamento de um livro seu é geralmente parecida com a de uma nova banda de rock. Sua editora na Itália, por exemplo, fechou, durante uma semana, cinco pequenas ruas em cinco cidades italianas - Roma, Milão, Bolonha, Orvieto e Nápoles - e batizou cada uma delas de Via Paulo Coelho. Viraram o que se poderia chamar de ruas temáticas. Em Orvieto, O Monte Cinco estava em todas as vitrines - e a rua coberta de cartazes e balões de gás. Numa casa de carnes de caça, um javali morto, de óculos de grau, "lia" o livro de Paulo arrumado entre suas patinhas. Numa loja de roupas, um manequim de vitrine trazia O Monte Cinco no bolso do casaco. Paulo se mantém a par dessas estratégias e, para usar um jargão da indústria fonográfica, "trabalha" seus livros da mesma maneira que um cantor "trabalha" uma música participando de programas de auditório e entrevistas no rádio.

"O sucesso é muito bom, não tenho nenhum conflito com ele", diz Paulo Coelho. "Mas para obtê-lo é preciso um esforço hercúleo, um rigor muito grande". Na semana passada, ele voltou ao Brasil para uma curta temporada de um mês. Em maio voa para a Grã-Bretanha, onde passa oito dias divulgando O Monte Cinco em entrevistas e tardes de autógrafo. Cada dia dormirá numa cidade diferente. Só terá um dia de folga. De lá segue para o Japão, onde fica mais quinze dias. Nem quando está no Brasil ele descansa muito. Na última terça em seu apartamento de frente para o mar de Copacabana, no Rio de Janeiro, deu uma entrevista para o programa Bons Baisers d'Amerique, da TV5 canadense. Na quarta, por telefone, falou com repórteres de dois prestigiados jornais ingleses, o Sunday Times e o The Gardian. "Fico cansado só de ler a agenda do Paulo, que tem uma dedicação absoluta ao que faz. Ele poderia preocupar-se menos com entrevistas e noites de autógrafos, mas faz tudo com uma humildade de estreante", diz seu editor no Brasil, Roberto Feith.

Apesar de honrar tantos compromissos profissionais, Paulo Coelho é na verdade, um grande preguiçoso. Quando não está viajando, sua rotina consiste em acordar depois do meio-dia, checar seus e-mails no computador e dar uma caminhada na praia com a mulher, a artista plástica Cristina Oiticica, de 46 anos, com quem está casado há dezoito. Depois disso, não sai mais de casa. Das 4 às 6 da tarde, resolve por telefone e fax problemas burocráticos referentes à administração de sua obra. A única refeição que faz ao dia é o jantar. Passa suas madrugadas lendo, vendo televisão ou navegando na Internet. "Somos o oposto um do outro. Ele é a noite e eu, o sol", diz o compositor e produtor Roberto Menescal, o melhor amigo do escritor. Paulo não vai ao cinema nem ao teatro. 

Outro dia cogitou assistir a um show do cantor paraibano Chico César, que ele considera genial. Mas bateu aquela preguiça. "Ir a um show é um sacrifício inumano. Só saio de casa forçado." Paulo não bota o pé na rua nem para cortar os cabelos. Seu barbeiro, Paulinho, o visita de tempo a tempo. Para encarar a rotina dentro de casa, ele conta com um bom argumento: seu apartamento de 380 metros quadrados de frente para o mar de Copacabana. Não bastasse a metragem privilegiada quase todas as paredes do imóvel foram derrubadas. O quarto-escritório-banheiro do casal é surpreendentemente despojado. As paredes são pintadas de branco - a mesma cor do chão -, há pouquíssimos quadros nas paredes e, de móveis, só o essencial: cama, mesa, cadeiras, sofás. Ele não gosta de guardar quinquilharias em casa porque acha que dá azar. A única exceção fica por conta da coleção de isqueiros da marca Camel.

Em seu novo livro, Veronica Decide Morrer, já concluído e com lançamento previsto para o próximo mês de agosto/98 no Brasil, o escritor Paulo Coelho acerta as contas com um episódio de sua juventude. Em 1965, quando tinha 18 anos de idade, ele foi levado pelo pai a uma clínica psiquiátrica. O engenheiro Pedro Coelho de Souza, de formação rígida, suspeitava que o filho estivesse com algum problema mental porque o jovem havia repetido de ano duas vezes seguidas, não conseguia concentrar-se nos estudos e, para completar, cismara que queria fazer teatro e se tornar escritor. Depois do exame médico saiu o diagnóstico: loucura. O passo seguinte foi interná-lo num hospital psiquiátrico carioca, onde permaneceu um mês, até que conseguiu fugir. 

O pesadelo, no entanto, teria continuação: no ano seguinte, o pai resolveu interná-lo de novo. Dessa vez, foram dois longos meses de reclusão, durante os quais recebia a visita da namorada, uma aspirante de atriz chamada Renata Sorrah. Desesperado, ele fugiu novamente - só que em vez de voltar imediatamente para casa, passou vários meses viajando pelo Nordeste. Em Veronica Decide Morrer, Paulo Coelho contará a história de uma mulher que, a certa altura da vida, é dada como louca. "Fui tido como louco porque queria escrever. Hoje sou um escritor de sucesso. Acho fundamental passar essa mensagem para as pessoas", diz Paulo Coelho.

Passado o trauma das internações, ele mergulhou de cabeça num mundo novo: o movimento hippie. Deixou crescer os cabelos, andava sem documentos e experimentou quase todas as drogas. "Só nunca usei heroína. Custava caro e me dava medo." No final da década de 60 ele foi preso pela primeira vez. Tudo por causa de uma partida de futebol a que foi assistir no Paraguai, país cujo nome não suporta, até hoje, ler, ouvir ou pronunciar. É sua maior supertição. O ano era 1969. Paulo Coelho, sua namorada na época e mais dois amigos resolveram ir de carro ver um jogo de eliminatória da Copa do Mundo. Na volta para casa, os quatro estavam numa pizzaria comemorando a vitória do Brasil quando militares armados os levaram presos. Foram tomados como assaltantes de banco. "Eu era hippie, minha namorada, iugoslava e nossos amigos, comunistas. Deu tudo errado", lembra. Ficaram presos durante uma semana e depois liberados.

A implicância com o Paraguai também tem a ver com sua segunda prisão, em 1974. Ele e Raul Seixas já eram parceiros musicais, amigos, adeptos da magia negra e viviam muito doidões. Durante um show de Raul Seixas em Brasília, Paulo Coelho caiu na besteira de subir ao palco e falar a favor da anarquia. Corria o regime militar e, na volta ao Rio, Raul foi chamado para depor na polícia. Paulo Coelho resolveu ir junto. Antes de sair de casa, vestiu uma camisa que sua mãe lhe havia dado, fabricada no torrão natal do general Alfredo Stroessner. Trajando sua camisa paraguaia, o futuro escritor foi preso e torturado. Ficou em cana durante um mês. Dessa experiência, a pior recordação foi o dia em que se viu jogado, completamente nu, numa cela escura, com ar-condicionado ligado no máximo e na qual reverberava o som agudo de uma sirene. "O lugar era chamado de geladeira. Entrei em pânico e prometi para mim mesmo que, se saísse vivo dali, meus anos loucos terminariam."

Longe vai esse tempo sombrio. Hoje, aos 50 anos (até 15 de abril de 1998), Paulo Coelho tem uma fortuna estimada em 11 milhões de dólares. O dinheiro de Paulo permite que ele e Cristina vivam com conforto, mas sem ostentação. Seu apartamento em Copacabana custou 300 000 dólares. A mesma quantia foi empatada na reforma do imóvel. A maior parte do dinheiro está aplicada em investimentos bancários de pouquíssimo risco. Paulo tem apenas um carro, um Renault 19, preto, sempre conduzido pelo motorista José Carlos. "A primeira providência que tomei quando ganhei dinheiro foi contratar um motorista. Acho estacionar no Rio de Janeiro desumano", diz o preguiçoso incorrigível. Através do Instituto Paulo Coelho, ele destina 400 mil reais por ano a instituições infantis e asilos para idosos. À frente do instituto está Cristina, encarregada de fiscalizar o bom uso do dinheiro.


Fenômeno nas livrarias, agora só talta Paulo Coelho chegar às telas. Quatro livros de Paulo estão com seus direitos negociados para adaptações cinematográficas. O Alquimista pertence aos estúdios Warner Bros., que pagaram 270 000 dólares pelos direitos de filmagem do livro, uma quantia irrisória para os padrões hollywoodianos, e até agora não fizeram um roteiro que agradasse ao escritor. "Já quis o livro de volta, pelo dobro do preço, mas não conseguiu", lamenta Coelho. Com a produtora Virgin aconteceu coisa parecida. "Odiei os três roteiros que eles fizeram de O Diário de um Mago." O livro As Valkirias está nas mãos do produtor Santiago Pozo, que é membro da Academia de Hollywood, quer fazer um filme internacional, claro, mas para os papéis de Paulo e Cristina - que são personagens do livro - o produtor quer atores brasileiros. "Para o meu papel ele disse que está pensando na Cláudia Abreu. Para fazer o Paulo, ele pensou em Pedro Cardoso", diz Cristina. Paulo Coelho ri da ideia. "Devem ser os únicos atores brasileiros que ele conhece. O Santiago deve ter visto O que É Isso, Companheiro? na disputa pelo Oscar e tirou daí esses nomes", diverte-se. A opção de compra dos direitos de Na Margem do Rio Piedra Eu Sentei e Chorei pertencia, há dois anos, à belíssima atriz francesa Isabelle Adjani. Por um descuido, os advogados dela deixaram de renovar o contrato. Agora, a agente americana do escritor quer vender o livro para a atriz Julia Roberts que está interessadíssima na história. Paulo Coelho já fez a sua escolha. "Prefiro a francesa", diz ele. Descartar Julia Roberts, optar por Isabelle Adjani? sucesso é isso. O resto, convenhamos, não passa de literatura.

sábado, 26 de setembro de 2009

Mel da Tâmara


Caminhando pelo Sahara de sua subsistência, um beduíno errante resolve entregar-se ao descanso dos deuses. Merecidamente, afinal naquele dia já havia viajado por horas sob o sol causticante, e na sua seara de amor, lutas e conquistas o repouso se fez necessário, portanto, seria ali o lugar ideal para repor energias. Assim no oásis de seus encantos, sob a sombra fresca de uma tamareira e na solidão do pastoreio, cogitou instalar-se, expectante que o céu azul celeste do momento mostrasse no horizonte de seus olhos reluzentes, um pôr-do-sol cheio de presságios bondosos, uma visão poética do sol se pondo atrás das dunas, que ele se negava a não contemplar.

Cobrindo sua cabeleira, um turbante nácar expõe sua genialidade e sua elegância. Com pensamentos em êxtase, vagou por épocas belíssimas remetendo-se à sua infância junto à família, e das primeiras lições recebidas. Acessou fragmentos de sua jovialidade e num estalar de dedos, surgiu na sua mente um acontecimento que marcou muito sua vida, suas ações, seu respeito à natureza e a quem dela dependessem. O sabor adocicado da tâmara, feito uma assência de mel suave. Sua boca salivou abundatemente. Olhou para o céu todo iluminado por uma constelação de luzes poéticas, agradeceu ao Divino as bênçãos concedidas.


Ah, maravilha primorosa! Sonorizou num estufar do peito. Deliciou-se com o momento, pois, só ele e uns poucos conheciam a felicidade de sentir aquele sabor inarrável de dormir sentindo o aconchego de uma tamareira bem no abstrato mundo das ilusões, dos sonhos e da esperança. Abriu preguiçosamente os braços, bocejou calmamente, cerrou os olhos, pôs a alma vigilante e descansou o corpo dolorido pelas viagens de sua vida.

Durante o sono, com a visão encantadora de seu sonho muito desejado, atraído pela excitação da mente, encontrou-se com Malba Tahan. Através da manifestação dos sentidos, tornou-se impossível não se divisar frente a frente com o homem que calculava. Beremiz Samir exercitava com tanta determinação sua capacidade de fazer cálculos que aproveitando dessa sua faculdade tão extraordinária, resolveu ajudar o seu patrão nos negócios com as tâmaras. Passou então a contar todos os frutos dos cachos das tamareiras pelos oásis sob o seu domínio. Sua habilidade com a matemática era tão fascinante que já havia lhe permitido contar os pássaros em bando no céu; folhas das árvores durante o trajeto de sua viagem à Bagdá do Século XIII; e todas as abelhas de um enxame.


Como nômade conhecia muitas histórias e lendas sobre as tamareiras e o seu fruto, contadas por diferentes etnias, pesquisadores e andantes do árido deserto. Orgulhava-se de narrar aos viajantes menos esclarecidos às vantagens, curiosidades e crenças espirituais que elas representavam aos povos da imensidão desértica.

Não era estudioso de botânica, tampouco havia sentado num banco escolar tradicional. Sua sabedoria vinha de uma mente super privilegiada, adicionada as experiências da vida, que adquiriu nas andanças pelo árido deserto e de ter aproveitado as oportunidades como ouvinte e curioso do desconhecido. Absorvendo com entusiasmo às histórias contadas por outros como ele, também viajantes daquela ondulada, inóspita e arenosa região. Mas na sua maneira simples de expressar dava show de conhecimentos. Começava suas explanações desde o "b a bá" até os mais notáveis fatos ocorridos na vida dos povos do maior deserto do mundo.

Ao acordar deparou-se com uma pequena comitiva de mestres e alunos que faziam os seus trabalhos "in locuo" em busca de experiências além livros. Aproximaram-se dele e aproveitando da oportunidade de encontrar um indivíduo símbolo daquele território, se apresentaram - como se fosse uma entrevista em busca de curiosidades - e lhe perguntaram se estava disposto a contar algo que achasse relevante dos seus conhecimentos, a respeito daquele ambiente quente e de areias que esvoaçavam ao simples sopro do vento morno e quase sem trégua, capaz de mudar aquela paisagem ocre e seca de um dia para o outro.

Com muita disposição se prontificou a colaborar. Para ele era um prazer fazer aquele obséquio. Ao começar os seus relatos, coincidência ou não, com o seu recente sonho, escolheu a tamareira como foco de sua conversa e de sua importância na vida dos povos daquele mundo exclusivo dos bravos, já que estava usufruindo o bem-estar de suas sombras.

Lembrou-se providencialmente da página de uma revista americana que carregava com muito cuidado nos seus alforjes, que um sábio viajante havia traduzido para ele. Pegou o papel já amarelado, mostou-lhes com o objetivo de registrar a veracidade dos fatos e contou o seu teor, que dizia em determinado momento: - "Segundo a FAO - Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação - Os países asiáticos e africanos, principalmente Egito, República Islâmica do Irã, Arábia Saudita, Paquistão, Iraque e os países visinhos, juntos produzem aproximadamente 98% das tâmaras do mundo. Estados Unidos, Espanha e México produzem o restante. E que as tâmaras são um cultivo de subsistência de extrema importância em quase todas as regiões desérticas".


Continuou: - "Para milhões de pessoas constituem um importante alimento nutricional que contribui na segurança alimentar e é também parte vital da cultura e agro-biodiversidade da população".


A partir daí como se fosse uma preliminar de sua conversa estimulante, deixou fluir naturalmente o seu vasto conhecimento, dizendo que a tamareira é uma espécie de palmeira que nasce nas alturas, símbolo de retidão e vitória. As palmeiras crescem para cima e para baixo, suas raízes descem as mais profundas camadas até encontrarem solo rochoso onde se abraçam nas rochas tendo força para suportar os fortes ventos e tempestades do deserto, por isso sempre permanecem de pé.

Buscando nos seus conhecimentos científicos, aprendidos através dos encontros com intelectuais do deserto e pela sua ânsia de sabedoria, continuou dizendo que a tamareira ou datileira - Phoenix dactylifera - e uma planta de quinze a vinte metros de altura, surgindo às vezes em touças, com vários troncos partilhando o mesmo sistema radicular, em geral crescendo isolada. As folhas são frondes pinadas, com até três metros de comprimento, com pecíolo espinhoso e cerca de 150 folíolos. Cada folíolo tem cerca de trinta centímetros de comprimento e dois centímetros de largura.


Aproveitou o momento para indicar por intermédio dos gestos de suas mãos todas as tamareira daquele lugar onde se encontravam. Todos ali o ouviam extasiados com tamanha facilidade de lidar com as palavras e sabedoria. Com muita naturalidade anunciou que alguém havia lhe contado certa vez que o pesquisador brasileiro, Manoel Abílio de Queiroz, do Centro de Pesquisas Agropecuárias do Trópico Semi-Árido e o Centro Nacional de recursos Genéticos, ambos da Embrapa do estado de Pernambuco, região de relevante importância para a República Federativa do Brasil, doutor em melhoramento de vegetais, havia dito que: - "Uma boa surpresa foi à adaptação da planta no sertão. Começou a dar frutos com quatro anos depois de plantada. No Oriente Médio, isso acontece aos oito anos". Acrescentou ainda, que além do fator econômico, a tamareira também oferece vantagens ambientais. Elas fertilizam o solo, suavizam a temperatura e interrompem a progressão das zonas em processo de desertificação.


Destacou o nobre beduíno contador de histórias, com sua serenidade habitual e a voz carregada de informações elevadas, que a tamareira é uma planta extensivamente cultivada há milênios pelos seus frutos comestíveis. Sua área natural de distribuição é desconhecida, mas supõe-se originária dos oásis da região onde estavam. Norte da África. Embora outros viajantes com quem já houvesse conversado e que estiveram em lugares distantes à sua modesta imaginação, admitirem sua origem no sudeste da Ásia. E que elas têm fornecido alimento e abrigo aos egípcios, babilônios e assírios. E para os mais eloquentes com os assuntos bíblicos, afirmarem que serviu Moisés na sua saga de encontrar a Terra Prometida. E aos seguidores do Islamismo e da fé a Allah, crêem que o profeta Maomé na sua cruzada pelo deserto teve nas tâmaras o seu principal alimento.


Naquela altura de suas explanações e no êxtase e suas lembranças, esbanjou e esnobou de seus conhecimentos, enveredando para o científico mais uma vez, ao dizer que a planta se trata de uma espécie dióica que apresenta flores masculinas e femininas com o nascimento de palmeiras diferentes. Assim, só as fêmeas produzem frutos, polemizados pelo pólem fornecido pelos machos.

Continuou seu relato já em estado de exaltação pelo prazer de poder contar suas experiências para uma turma tão especial, dizendo: - "Segundo algumas informações que me chegaram pelos comerciantes brasileiros e de um livro que mantenho entre os meus guardados, traduzido para o idioma árabe, pela Universidade de Ciências Naturais do Cairo, conta a história da palmeira no Brasil. Diz que a tamareira foi introduzida no País há muitos anos, porém poucos foram os estudos sistemáticos realizados com a cultura. O primeiro registro de sua introdução data de 1928 quando algumas fontes reprodutivas chegaram a São Paulo e que alguns estudos foram realizados na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz onde foram originadas algumas variedades". Rapidamente tomou nas mãos o texto e comprovou o seu relato.


Depois de uma breve pausa, com o objetivo de dar uma boa respirada e verificar se os seus fieis ouvintes tinham alguma dúvida ou se estavam entendendo cada detalhe, de repente começou a sorrir, causando a curiosidade de todos. Misturando palavras desconexas com o seu riso, passou a contar a história de um laociano de nome Sansunnang Vaiollang, vindo da região de Luang Prabang no Laos, justamente o local considerado pela UNESCO como Patrimônio Cultural da Humanidade.

De posse de uma foto mostrando várias tamareiras de sua terra. Ele olhou para as nossas plantas aqui e ria sem explicação. Depois de muito tempo foi que percebi que o motivo e tanta graça, era que as tamareiras da sua região eram anãs. Ele brincou com a situação dizendo-me que as deles eram muito jovens e que um dia seriam tão grandes quanto as nossas. Então começou a me contar, como se fosse realmente um grande entendido no assunto, dizendo agora com aparência demonstrando seriedade e exatidão, que a tamareira anã - Phoenix Rebelenni O'Brien - é uma pequena palmeira originária da sua região na Ásia, largamente cultivada, como planta ornamental nos trópicos e nas regiões subtropicais e temperadas. Possui estipe de dois a quatro metros de altura e com cerca de dez centímetros de diâmetro. As plantas femininas ocorrem geralmente agrupadas em grandes touceiras. Seus frutos alongados, com aproximadamente um centímetro e meio de comprimento, são numerosos, de coloração variando de vinho a preto quando maduros. Terminou sua exposição demonstrando uma pessoa além do senso de humor à flor da pele, um grande caráter.

Além das lendas e histórias de conteúdos mágicos o atencioso beduíno, contou aos curiosos que a tamareira é considerada árvore sagrada e mágica há milhares de anos. No Egito era uma espécie sagrada e a folha símbolo do deus Heh, que representa a eternidade. Mais tarde, passou a ser símbolo de fecundidade, fertilidade e vitória. As tâmaras também são usadas como doces ou quitutes afrodisíacos. Os egípcios as comem antes de fazer amor. E ainda tem como lenda a relacionada ao desterro da Virgem Santíssima no Egito, onde Maria procurou abrigo e descanso sob a sombra de uma tamareira, à qual se inclinou para que as tâmaras ficassem ao alcance de suas mãos.


Aquele smples e atencioso homem do deserto parecia em estado de graça na manifestação de seus conhecimentos, quando disse que Paleontólogos também deram a sua contribuição na rica história das tâmaras. Segundo esses pesquisadores incansáveis uma semente com cerca de dois mil anos foi encontrada nas escavações em 1963, no deserto da Judéia sendo plantada por cientistas israelenses e germinou segundo artigo publicado na revista especializada Science. A região é a mesma da antiga fortaleza do rei Herodes, em Masada, perto do Mar Morto. Na ocasião, os cientistas encontraram um grupo de sementes, que mantiveram em uma sala em temperatura ambiente com a intenção de estudá-las mais a fundo. O lugar era famoso por suas tâmaras com propriedades medicinais, também era o principal produto de exportação da região hoje ocupada por Israel.


Deu uma parada na sua fala, verificou atentamente a todos, depois olhou para o alto e notou quão tinha passado o tempo. O sol já estava no auge de seu posicionamento no céu, foi quando teve a noção de que a conversa que seria para poucos minutos, já se passara pelo menos um quarto do dia. Embora os mestres e estudantes estivessem satisfeitos e impressionados com os requintes dos esclarecimentos, fez questão de encerrar sua conversa com algo lúdico, ao contar que Ali Babá e os Quarenta Ladrões também se beneficiaram tanto da doçura do fruto quanto do repouso de sua sombra, nas imediações da caverna encantada de Sésamo.


Agora sob os encantos de Mil e Uma Noites de imagens e conteúdo, e de ter falado para uma turma de elevados padrões culturais, aquele seria o momento ideal de colocar-se a caminho de sua jornada. Não sabia quanto tempo duraria, mas tudo bem, já havia descansado por sete sois e sete luas no pastoreio de suas cabras. Assim o dever o aconselhava cumprir sua missão e seguir adiante.

Este relato bem que poderia ter sido apresentado por um dos alunos presentes naquele dia impar de memorável aprendizado, e servido de subsídios para seu trabalho escolar na Universidade sobre vegetais do árido e semi-árido. Entretanto, se algum dia encontrar um beduíno com estas características procure-se aproximar dele, se não for, não maldiga falta de sorte, todos eles têm uma história linda pra contar e verá que existe doçura no olhar e nas atitudes dos pacíficos de alma; bondade cultural da sua raça e no mel da tâmara.

Ilustrações: Artista Plástica, Neli Vieira

Fonte da pesquisa: Internet.

sábado, 19 de setembro de 2009

O Jardim que cantava - Última parte.

Na primeira parte conta-se a história do jardineiro Manoel, que após terminar de ler o livro sobre lendas, o motivou a criar sua própria lenda. O livro também narra a tragetória insatisfeita de um barqueiro em busca do seu futuro e do encontro casual com um enigmático velho cego, que lhe adverte para as surpresas que a vida pode reservar.



Sentindo-se preparado e disponível para seus intuitos, procurou as bordadeiras, expôs seu desejo de transformar aquela área ora abandonada em um belo jardim. Após as considerações, encontrou logo de imediato o apoio entusiasmado das humildes mulheres. Sua atitude iria melhorar sobremaneira o visual da sua casa, além é claro, de trazer um novo clima de bem-estar, um novo alento não só para elas próprias, mas de toda a comuniade, que carecia ver aquele desprezível ambiente transformado, quem sabe até habitado por um belo conto de fadas, ou o nascimento de uma nova lenda como era o sonho pessoal de Manoel.

Estava evidente que o livro que acabara de ler causou-lhe estímulo suficiente para a inciativa. Por outro lado, Manoel possuía um espírito tão evoluído que era notória sua atitude de criar o jardim dos seus sonhos. Vidas distintas também iriam manifestar suas tendências através da sua ação. Os pássaros encontrariam outro lugar para cantar e encantar, e as borboletas o seu paraíso de cores e perfumes.

Antes de iniciar os seus preparativos, idealizou a necessidade de constar no projeto algumas plantas aromáticas indispensáveis, que se encarregariam da defesa natural, evitando o ataque de formigas e/ou outros insetos nocivos. Para esta estratégia não pretendia abrir mão do alecrim, camomila, capuchinho, erva-doce, hortelã, manjericão, sálvia, calêndula e gergelim; plantas ornamentais, como: amor-perfeito, petúnias, antúrios, verbenas, bromélias, palmeiras anãs, gerânios, cravos, rosas, jasmins, grama esmeralda, entre outras.

Desde o primeiro momento em que Manoel iniciou suas pretensões de revitalizar a área e criar o jardim, começou a estabelecer um vínculo de entendimento com as sementes e mudinhas escolhidas com esmero, transmitindo a elas status de estrelas, de importância, de serem únicas em beleza; dizia de suas singularidades, de suas personalidades nobres e prestígios. Também iriam representar com rara beleza e simpatia o que existia de melhor em espécie, além de estarem ajudando a construir um paraíso de amor, envolvente e iluminado pela luz do Criador. Seu tratamento chegava a ser de uma amizade paternal. Quando plantava uma sementinha, dizia àquela pequena vidinha ainda por transmutação a importância da vida.

- Querida sementinha, você agora não passa de um embriãozinho de esperança, logo estará crescida, transformada e bonita, porém não perca sua simplicidade, sabendo que sozinha não passaria de um grãozinho quase sem importância, igual a muitos raminhos esquecidos em algum lugar distante do olhar admirado das pessoas, dos animais. Seria bom jamais esquecer deste detalhe, orgulhando-se de ser escolhida para dar alegria e não para se envaidecer caprichosamente achando-se melhor que as demais.

Para as mudinhas dizia: - Oi mudinha, hoje você não passa de um pedacinho de vida, mas logo será grande e exemplo de beleza e admiração. Seu jeitinho nobre encantará a todos. Seja responsável na sua missão de embelezar e perfumar o ar que todos nós tanto precisamos. Seja querida não apenas pelas suas cores e o formato de suas flores, mas por transmitir nos seus dias de existência, felicidade e agradecimento pelas suas características exclusivas.

Com os pássaros não era diferente. Sempre que apareciam Manoel fazia questão de conversar com cada um, mesmo sem um aparente retorno, agradecia a visita, pedindo-lhes que não se afastassem, dando alegria com os seus cantos sublimes, e se possível convidar outros como eles a estarem presentes, dando às pessoas motivações de altivas mensagens, através do seu trinar, com melodias saborosas.

Quando a primeira borboleta apareceu, exibindo suas cores vibrantes, deu-lhe o nome de princesinha. Sentiu de imediato que aquela frágil criatura, ficara contente com o nome. Acompanhava-o a todos os lugares do jardim. Na medida do possível, pousava no seu ombro amigo, ou num outro lugar bem próximo dele. Fazia questão de movimentar suas asas, abrindo e fechando para que ele pudesse contemplar sua beleza única. Definindo bem no centro de suas pétalas de membranas aladas, o desenho que se assemelhava a um olho, representando o olhar atendo do Pai do céu, acompanhando bem de perto aquele momento indescritível. A tansformação do lugar que seria em pouco tempo o paraíso dos sonhos.

Outro fato notável foi o aparecimento da Fada Encantada da Jardinagem, acompanhada de suas seguidoras assistentes. Fulgurantes luzes semelhantes a flashes estrelados, movimentavam-se de um lugar a outro, feito raios riscando o espaço, como se estivessem inspecionando sua criação. Tal acontecimento supria-lhe de toda energia necessária, bondade e sabedoria suficientes para entender a importância e a empatia de cada espécie sem exceção.

Com as formiguinhas ele pedia apoio no sentido de conservar suas plantinhas sem nenhum prejuízo para suas belezas, conservando-as perfeitinhas, não as destuindo. Elas iriam dar muita alegria a todos que as vissem floridas e belas. Transferindo às pequeninas cortadoras de pinças afiadas, a responsabilidade de ajudar a manter o encanto do lugar que seria mágico e de inspiração triunfante. Com esses diálogos cordiais, Manoel conseguiu estabelecer uma irmandade de cumplicidade com todos os habitantes do jardim encantado; com sua lenda em construção, lenda que logo também seria exemplo de fé para um futuro melhor.

Em pouco tempo já havia concluído o seu espaço florido, sua obra-prima, uma realidade indiscutível que não demorou a se confirmar. Todos os dias impreterivelmente reservavam as manhãs e as tardinhas para os cuidados necessários da sua criação, seja para aguagem, como para as limpezas e podas imprescindíveis. Havia adquirido o dom de conversar com as plantas, aves e insetos, em diálogos longos, proveitosos e permanentes, capazes de esclarecer as particularidades de cada espécie. Quando chegava era recebido com elevada manifestação de carinho. Os pássaros irradiavam com suas virtuosas presenças, melodias alegres cantadas em verdadeira sinfonia poética; plantas e flores no mesmo ritmo formavam um coral de boas-vindas. Até as pessoas que não podiam ver, ou perceber o encanto, sentiam intimamente aquela harmoniosa presença do sobrenatural, comum da alegria incontida.

Tornou-se aos poucos, hábito indispensável das pessoas passarem pelo magnífico jardim criado por Manoel e presenteado com gestos de alta nobreza àquelas mulheres solitárias, criativas e talentosas na sua arte de bordar. Quem dali se aproximava, livrava dos mais enraizados problemas; os adoentados, enfermos e desenganados vislumbravam esperança. Havia até quem dizia se sentir curado dado ao alto grau sensitivo de envolvimento. A notícia dos feitos e situações consideradas impossíveis e que encontravam soluções e respostas positivas, foi se espalhando com tamanha velocidade, que não tardou a se tornar visita obrigatória, e até romaria para quem buscava a cura de suas doenças consideradas incuráveis, ou mesmo do conforto espiritual em busca da felicidade almejada, de certa forma privada para os mais incrédulos. Contudo, ao passar pelo jardim percebiam o sorriso contagiente da vida plena. Da manifestação divina, vindo da fé e da indiscutível presença de bem-estar causada pelo encanto energético das flores coloridas, da beleza e do canto estraordinário das aves. Era o jardim que cantava. O jardim que floria na alma das pessoas.

Manoel maravilhado com sua criação, concluiu espontaneamente que não basta ter apenas um jardim com plantas diferenciadas. É preciso que esse jardim esteja dentro de si, dentro de cada um. Sentir além do perfume das flores, o seu sorriso de felicidade. Compreender que os pássaros não vão a determinado lugar por um mero acaso, ou pelo descanso após longos voos, mas pelo prazer, pela receptividade; as borboletas e as abelhas também não procuram os jardins pelo seu colorido, mas pela sua doce simpatia envolvente, produzida até mesmo pela mais simples plantinha imperceptível, desde que esteja irradiando harmonia, felicidade e que sua beleza não se traduza em uma negativa futilidade, mas, na essência superior do Criador, no seu momento de resplendor criativo. Onde até mesmo as formigas e outros insetos nocivos pedem licença para contemplar sua magnífica magia. Todo jardim feito e cuidado com carinho tem as bênçãos da Fada Encantada da Jardinagem, que tudo faz para imperar na vida dos seres, o amor ao próximo de maneira espontânea e atitude de caráter superlativo.

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