sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Vasculhando a estante Nº 03


Um chá com sabor de pimenta

Viúva de Jorge Amado deve suceder a ele como imortal. Mas nem todo mundo gosta a ideia
Texto: Flávia Varella
Extraído da revista Veja de 29 de agosto de 2001, págs. 143/144
Fotos: Internet


Desde a introdução do suflê de goiabada diet no cardápio de seu chá das quintas-feiras, os imortais da Academia Brasileira de Letras não se empolgavam tanto na discussão de um assunto. A questão é: quem vai suceder a Jorge Amado, morto no começo do mês? (agosto/2001) A cadeira vaga, a de número 23, é uma das mais nobres da instituição. Não houvesse ela sido ocupada até agora pelo popularíssimo e renomado Jorge, ainda seria preciso levar em conta outros antecedentes: seu patrono é José de Alencar e o primeiro ocupante foi ninguém menos que Machado de Assis, o maior escritor brasileiro. No fundo de cada coração imortal, calava o desejo de assentar ali uma figura de peso da literatura contemporânea. Fernando Sabino, Rubem Fonseca, Dalton Trevisan e Moacyr Scliar eram alguns dos autores sonhados. Os candidatos que se apresentaram, no entanto, são de estirpe bem diferente. Primeiro veio Paulo Coelho, o ex-mago que resolveu aspirar à respeitabilidade literária. Em seguida, o apresentador Jô Soares anunciou suas pretensões na televisão, durante um diálogo constrangedor com a imortal Nélida Piñon. Tendo os dois desistido da ideia, quem se apresentou em seguida foi Zélia Gattai. Uma candidatura inatacável, à primeira vista. Ela foi a companheira inseparável de Jorge Amado e, caso seja eleita, será a primeira viúva a suceder ao marido. Durante alguns dias, tudo pareceu estar resolvido. Até que o jornalista Joel Silveira, de 82 anos, lançou-se às armas. "Zélia não quer ser eleita, quer ser aclamada", fuzila Silveira. "Sua arrogância, como se tivesse herdado a cadeira por direito divino, iritou-me tanto que me tornei candidato." Além da goiabada diet, o chá das quintas ganhou uma boa pimenta.


Ex-correspondente de guerra e autor de 38 livros, entre os quais o volume de memórias Na Fogueira (1998). Silveira não está sozinho em sua candidatura. "Isto aqui não é capitania hereditária nem condomínio de viúvas", esbreveja Lêdo Ivo um dos poucos acadêmicos que revelam abertamente sua opinião. O que incomoda os simpatizantes de Silveira é o ar de chantagem emocional da candidatura Zélia. Votar nela teria se tornado mais do que uma escolha, uma maneira de homenagear Jorge Amado. Não votar nela seria uma espécie de ofensa. "Acho até que ela vai ganhar, mas será nesse clima de tributo ao marido", diz Carlos Heitor Cony, que se declara eleitor da escritora. Outra eleitora de Zélia que preferiria vê-la concorrer em ocasião menos delicada é a ex-presidente da Academia Nélida Piñon. "Se ela vencer, vai ficar parecendo que não é por mérito, mas por sucessão", lamenta Nélida.



A própria Zélia já identificou o problema. Na primeira entrevista que deu como candidata, tratou logo de afirmar que só se sentiria confortável se fosse escolhida como base em sua trajetória de escritora. Essa trajetória diga-se de passagem, não é nem muito melhor nem muito pior do que a de boa parte dos imortais - entre eles lembremos, há personagens como Ivo Pitanguy, que como escritor é um ótimo cirurgião plástico, ou o ilustre desconhecido Tarcísio Padilha. Zélia é autora de doze livros publicados e mais um escrito, pronto para edição. Sua obra mais conhecida é Anarquistas Graças a Deus, transformado em minissérie pela Rede Globo no começo dos anos 80. Recentemente, ela voltou a frequentar as listas de mais vendidos com outro volume de memórias. Città di Roma. Sem ir tão longe quanto Joel Silveira, que qualificou a autora de "subliteratura de terceira categoria", pode-se dizer com tranquilidade que a literatura de Zélia é simpática - e nada mais.



No final da semana passada (que antecede a 29 de agosto de 2001), uma enquete entre os imortais dava a Joel Silveira cerca de 10 votos, num total de 39. Ao mesmo tempo, corria a notícia de que o ex-ministro da Educação Eduardo Portella, patrono da candidatura de Zélia, controlava o voto da metade de seus confrades. "Cada um é dono de sua cédula", desconversava ele. "Isto aqui é uma casa de vedetes." Mas, seja qual for o resultado do pleito, quem se importa de verdade, além dos imortais e daqueles que cobiçam uma cadeira na vetusta instituição? Há muito tempo a Academia Brasileira de Letras não produz nada de relevância cultural. Gera no máximo algumas fofocas curiosas, como a atual. E mesmo assim só de vez em quando.


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A dama ressurge

Sucesso da minissérie A Muralha traz à tona a autora Dinah Silveira de Queiroz

Extraído da revista Veja de 9 de fevereiro de 2000, pág. 130
Fotos: Internet

Livros que são adaptados para a televisão vão parar, quase infalivelmente, nas listas dos mais vendidos. É esse o caso de A Muralha, de Dinah Silveira de Queiroz. O acontecimento merece ser saudado nem tanto por causa da obra, um tanto datada em seu estilo rebuscado, mas por trazer à tona a autora, uma figura curiosa da cultura brasileira no século XX. Nos anos 40 e 50, a escritora paulista chegou a ser uma das mais vendidas do Brasil, ao lado dos hoje consagrados Jorge Amado e Érico Veríssimo. Seu livro de estréia, Floradas na Serra, publicado em 1939, quando a escritora tinha apenas 29 anos, foi um best-seller instantâneo, que teve diversas edições esgotadas posteriormente e virou filme. A Muralha publicada originalmente em capítulos pela revista O Cruzeiro, em 1954, e depois em livro, repetiu o sucesso editorial de suas obras anteriores. Antes de virar minissérie da Globo, ganhou várias versões para o rádio e, no final dos anos 60, virou novela de TV, numa adaptação assinada por Ivani Ribeiro e estrelada por Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg. É fácil entender por que os livros de Dinah vão parar com tanta facilidade nas telas, no rádio e na televisão. Seus enredos são repletos de movimento, e há várias sugestões sexuais, embora a escritora mantenha o decoro na liguagem.

Dinah não era uma mocinha ingênua e indecisa como suas heroínas. Segundo o acadêmico Antonio Olinto, amigo da escritora, ela era uma mulher refinada, "com ares de dama paulista", e fazia grande sucesso em sociedade. Um ponto de destaque da biografia de Dinah é que ela foi a primeira mulher a pleitear uma vaga na Academia Brasileira de Letras. Sua inscrição, em 1970, foi rechaçada pelo presidente da entidade na época. Austregésilo de Athayde, com base no regimento da ABL. Tal fato provocou uma polêmica nacional que levou a uma mudança no regulamento da casa. A primeira a se beneficiar da mudança foi Rachel de Queiroz, parente distante de Dinah, eleita para a academia em 1977. Só em 1980 a autora de A Muralha ganharia uma cadeira, mas teve pouco tempo para saborear a glória. Morreu em 1982, de câncer.

domingo, 6 de setembro de 2009

Na trilha do lirismo


Continuando com as publicações dos poemas da poeta e desenhista Neli Vieira

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Conta-nos a história da vida, que entre o bem e o mal, o coração deixa fluir o de mais belo na essência da paixão e na alegria sem limites. Onde a felicidade pode ser encontrada no sabor do mel que a natureza humana mesmo produz quando experimenta o sorriso estampado no espelho da alma. Quando isto acontece, o melhor que se faz é bailar ao som dos violinos da esperança; acompanhados pelas flautas do amor; compondo com a harpa da conquista; a batida na percussão do coração em correntes pelas veias o sangue da existência, e o piano da conquista, dedilhado pelas mãos sábias do maestro dos sonhos, tocando a eloquente canção da vitória. Embalados pela harmonia de passos firmes, embora flutuando no compasso da liberdade. Esta é a dança que a vida reserva no salão da ternura, decorado pelo glacê da simplicidade.



A voz que dança


Quero um corpo

para dançar

celebrar a vida

rodopiar

sentir a música

ver Deus

dentro de Deus

fazendo amor


Quero um rito

um transe

um êxtase

para fluir, libertar

a mulher, a Lilith

este arquipélago

de essências

e ópio

dar um salto

além do agora

com fúria, belezas e risos

assim

nascer e morrer

tal qual

uma flecha de luz



Quero um corpo

para dançar, dançar

rodopiar

enroscar-me

ser serpente

derramar-me

feito - chuva

nas bocas

nos corpos

ao som dos tambores.



Quero um sonho

um beijo louco

na boca de Deus

que chega com fúria

rodopia e dança comigo

nas nuvens

um príncipe do céu

viajante alado

com asas

de gigante albatroz.



Quero uma dança eterna

muitas vozes

e vida envolta

numa reblina azul

onde raios de sol

brinquem

o tempo todo.



(Poema publicado conforme original)

Poema publicado no Jornal A Voz de Mauá, no dia 22 de agosto de 2008.


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Nota-se com naturalidade, cada momento do ser humano de não se satisfazer com a mesmice de que esteja se submetendo. Ainda que a paciência tente enganar, a realidade faz rebelar a ânsia recessária de mudança, onde basta um pingo de dúvida para fazer transbordar o limite do represamento da angústia. Chuta-se o balde da intolerância e da falta de perspectiva, e eleva o fulgurante desejo do crescimento interior; dando um basta na amargura, quebrando o elo da tristeza, livrando-se da corrente que aprisiona a alegria contagiante, fazendo correr pelas veredas da estepe verdejante, florida e ensolarada o sorriso do triunfo.






Revolta


As palavras

gritam em minha mente.

O suor

corre pelo rosto

com pressa

de tocar o chão.



Por Deus!

Calem as palavras

apaguem a lua

fechem a noite

quero dormir.



Noto o descontentamento

da primavera.

Hoje, chover

é um mau hábito.

O sol a terra o tempo

estão doentes.



Calem as letras!



Impeçam o nascer do dia

as novas guerras

vêm de velhas discórdias.

Não posso sorrir

enquanto meninos inocentes

dormem em camas de lama

e vestem sangue.

Enquanto homens falam

sem nada dizer.

Tentando me fazer crer

que são pontos do destino

viver - matar - morrer.



Cretinos! Dementes!

Por favor!

Calem as palavras



Quero voltar

Para antes do ventre.



Poema publicado no Jornal A Voz de Mauá, no dia 22 de setembro de 2008

Diretor: Fausto Piedade

Impressão: Rua Muniz de Souza, 219/223 - São Paulo-SP

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Na trilha do lirismo


Nesta semana Bússola Literária, estará publicando o talentoso trabalho literário da poeta e artista plástica Neli Vieira. São poesias que expressam a alma apaixonante e sensível cristalizadas no universo do pensamento, delineando o puro sentimento e uma pessoa que acredita no lirismo intrínseco no coração do ser humano, como forma de gerar a placidez da vida em seu momento existencial, vagando pelo caminho do descobrimento e suas emoções.


Todos nós às vezes nos deparamos com momentos sombrios, momentos que embora estejamos procurando a felicidade, parece que ela não está se manifestando naquele instante, dando lugar à dúvida e as incertezas. O poema "Estou" parece um exemplo desta situação. Onde somente a luz do querer pode fazer vibrar a luminosidade sonhada.




Estou


Estou sombra

não sou ela.


Estou saudade
lágrima transformada
planta enraizada na água
pássaro na janela

Estou

Estou névoa
não sou ela.

Estou silêncio
total ausência
estrela apagada
noite sem lua
reza sem vela

Estou

Estou garoa
não sou ela.

Estou tristeza
na invenção de um sonho
caminho lento
passos sem dono
chão de cores belas

Estou

Flores
caindo das árvores
a chuva varrendo
os rios engolindo
o mar desfazendo

Estou flor
não sou ela.



(Poema publicado conforme original)

Obra retirada do livro - A profundidade do degrau - publicado no Jornal A Voz de Mauá.
Diretor: Fausto Piedade
Impressão: Rua Muniz de Souza, 219/223 - São Paulo-SP.

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No poema "No Canto" a autora demonstra através da sua arte, estar pronta para dar o seu grito de liberdade e continuar sua trilha em busca do encanto da vida. O que fica claro na sua última estrofe de libertação. É a perfeita ideia que mesmo nos momentos onde tudo parece conspirar com o ideal, ainda existe uma luz, mesmo tênue, mas uma luz que reflete a expectativa do dever conquistado com lutas e sacrifícios, contudo, uma luz que brilha no final do túnel. A luz da esperança!


No canto



Aqui estou
à espera das horas
dos sinais do novo
do tudo assentado
sobre o nada
da presunção de quem ri
da divina dança do por vir

Aqui estou.
Sentada no canto da sala
esperando ver
a leveza dos
ritos selvagens
os pregadores de penitências
e deuses que se envergonham
de serem o que não são.

Aqui
onde encontro meus velhos amigos
anjo-diabo que me carrega consigo
e a bem-aventurada liberdade
que não deixa haver
existência sem tempo futuro
sem sonhos que ainda não vi
sem voo sem flechas sem sol.

Equi estou.
Sentada sobre velhas lembranças
com a presunção de um meio riso na cara
a faixa de poeta no peito
e o eterno desejo de fugir e recompor-me.
Com vontade de bem e mal na bagagem
arrastando passos na alma - passos de uma dança
que não sai - talvez nem exista
e fica - fica sempre para depois.

Aqui estou.
Sentada no canto da sala
sem ser grande nem pequena
nem louca ou talvez seja
(posso debater a respeito)
porém não sei falta algo
talvez tempo. Não sei!
aqui parada calada
em paz apenas sem pressa de voar
brincando montando desmontando
este eterno jogo
de sair e voltar.


(Poema publicado conforme original.)
Poema publicado no Jornal A Voz de Mauá no dia 11 de julho de 2008